Um ano de treino de força

 Hoje completo 1 ano de treino ininterrupto.

São 4 dias de musculação e 2 de cardio por semana.

Não experimentei essa constância aos 20 anos. Conseguir aos 40 e sem atalhos é motivo de comemoração.

Obrigado, meu amor, por me acompanhar nessa aventura.

Dois centavos sobre Barros

 Apesar de não concordar com a crítica de Douglas Barros a Nego Bispo, reconheço que ela deve ser lida em sua complexidade.

Assim se evita entrar numa lógica de Fla x Flu, que é típica das redes sociais.

Eu mesmo discordo da maneira que Bispo argumenta sobre a categoria trabalho, mas isso é outra questão.

Algo que se destacou da crítica de Barros, e que infelizmente é recorrente, é a dificuldade que alguns colegas marxistas têm de conviver com a ideia de que o marxismo não monopoliza a crítica da vida social.

De que é possível, legítimo e necessário fazer essa crítica de outro sistema filosófico e categorias que não aquelas legadas por Marx e discípulos.

E que qualquer esforço de crítica social, inclusive o esforço marxista, tem seus limites e possibilidades, é produto de contexto histórico particular.

No final das contas, o que importa para os povos e a classe trabalhadora é o quanto tais filosofias nos permitem ou não solucionar os problemas colocados na luta por emancipação.


Monstro do Pântano

 Talvez a história em quadrinhos mais tenra e bela que alguém poderia ler em março de 1985 seria Monstro do Pântano n° 34. Nela, o verdoso e Abby levam a amizade para outro nível. A maneira que o roteiro de Moore e as imagens criadas por Bissette e Totleben expressam essa nova relação entre os personagens, me lembra de porque os quadrinhos é uma forma de arte.

Quem matou meu pai

Parecia que eu estava violando secretamente as cartas de um filho para o seu pai.

Foi essa a sensação inicial ao ler Quem matou meu pai, de Édouard Louis.

Um livro sobre identidade e paternidade, e também sobre as diversas expressões que a violência, o carinho e a política podem assumir no seio de uma família da classe trabalhadora no interior da França.

Meu primeiro livro de literatura lido em 2026. Sugestão de minha esposa.

Melhor aquisição de livro em 2025


A melhor aquisição desse ano foi uma edição espanhola de A capacidade política da classe trabalhadora, o testamento político de Proudhon, datada de 1869 e com tradução de Pi Y Margall.

O exemplar foi possivelmente restaurado, pois está em ótimas condições, e possui uma dedicatória realizada em 1959.

Existe uma tradução parcial em português da obra pela editora Intermezzo.

As raízes dos projetos societários do anarquismo e do sindicalismo revolucionário estão aí esboçadas.

Particularmente na proposta de que a classe trabalhadora possui as condições para autogerir a economia e, assim, reinventar a política através do federalismo, por fora e contra qualquer tutela capitalista ou burocrática.

Proudhon nomeou isso, antes de trotskistas e maoístas utilizarem estes termos, de "democracia operária" ou "nova democracia", assentada na força coletiva dos produtores, organizada por um direito econômico e político comutativos e sinalagmáticos.

Um olhar sociológico atento também encontra aí as raízes da discussão sobre a autoprodução do social e da reciprocidade, temas estes que tanto fizeram as cabeças de Émile Durkheim e Marcel Mauss em suas críticas ao utilitarismo nas ciências sociais.

Lembrando que os durkheimianos foram leitores e comentadores de Proudhon.

Enfim, obra com desdobramentos frutíferos e longevos no socialismo e na sociologia, contudo, permanece quase desconhecida na esquerda e na academia de nosso país.

II Colóquio Pesquisa e Anarquismo



A convite da colega Luciana Brito, da Comissão Organizadora, fui chamado a compor o Comitê Científico do II Colóquio Pesquisa e Anarquismo, que ocorrerá em abril de 2026 em Florianópolis.

O evento tem como objetivo possibilitar a aproximação de pesquisadoras/es do campo anarquista ou que partam de teorias, abordagens e práticas anarquistas para embasar suas produções acadêmicas e militantes. As inscrições são gratuitas e já estão abertas.

Nos vemos em Floripa! Para mais informações, clique aqui.

Colóquio de Economia Internacional


 

Fui convidado pelo Grupo de Estudo e Pesquisa em Economia Internacional para participar da mesa Transição energética e justiça socioambiental, durante o Colóquio de Economia Internacional.

Será uma oportunidade para comentar sobre o que venho chamando de "transição energética vista de baixo".

Isto é, como os movimentos sociais do campo vêm enquadrando a transição desde uma perspectiva que tem tensionado e entrado em conflito com os pontos de vista da tecnocracia do Estado e dos empresários do setor de energias renováveis.

Agradeço ao @gepei.ufc pelo convite para voltar à Universidade Federal do Ceará, em Fortaleza, e compartilhar meus achados de pesquisa sobre este tema tão urgente e do qual a sociologia crítica e a etnografia reflexiva têm suas contribuições a dar.


Proudhon como observador e teórico da ação proletária

Proudhon observou o que os movimentos populares de sua época faziam e tentou sistematizar isso numa teoria da autodeterminação proletária, reivindicando como categoria teórica uma categoria já utilizada pelos próprios trabalhadores no seu cotidiano organizativo: mutualismo.


Raphael Cruz

Teoria da organização como teoria do poder em Bakunin

A teoria da organização de classe de Bakunin é também uma teoria do poder social.

Ao refletir de por que a burguesia é inferior em quantidade ao proletariado, contudo mais poderosa, ele sugere que a força dela reside em sua organização enquanto classe.

A capacidade da burguesia em partilhar interesses e articular estratégias em comum, apesar de inevitáveis diferenças entre suas frações, é um fator qualitativo que compensa sua desvantagem numérica frente ao proletariado.

Nesse sentido, para Bakunin o segredo da vitória dos trabalhadores na luta de classes, reside em sua organização enquanto classe para si (consciência e luta por seus interesses) e por si (autonomia na ação frente a burguesia e o Estado).

É ciente disso que Bakunin apoiará e participará da Associação Internacional dos Trabalhadores.


Raphael Cruz

A problemática e a solucionática proudhoniana

Os problemas da propriedade e do poder são centrais na obra de Proudhon.

E a maneira de enquadrar a solução deles, desde o ponto de vista da classe trabalhadora, foi sua contribuição metodológica fundamental.


Raphael Cruz

O peso de um livro vivo

 Encantado com a escrita da Aline Bei. Interessei-me por seu trabalho ao ler entrevista cedida pela autora ao jornal literário Rascunho, do qual sou assinante. "O peso do pássaro morto" é uma experiência e tanto de leitura, um ponto fora da curva, inesquecível!

Raphael Cruz

Limbo geracional

 Na musculação, um cara me chamou de paizão, mas outro sujeito me chamou de garotão! Estou num limbo geracional?

Projeto de Extensão - Interpretações do Brasil


 

Ontem, tive o prazer de inaugurar os trabalhos do projeto de extensão @interpretacoesdobrasil.ufpi no @cchlufpi, em Teresina.

O projeto é integrado por alunos de graduação e pós-graduação da UFPI e da UESPI, de diferentes cursos, e coordenado pela @prof.rossanamarinho e por mim.

Iniciamos tratando de Clóvis Moura e de como ele propõe compreender a formação social brasileira a partir da experiência do Quilombo de Palmares.

Palmares foi um projeto societário alternativo que concorreu com o sistema escravista por mais de 100 anos, abrangendo 30 mil pessoas numa área de 27 mil km quadrados, assentado no trabalho comunitário, na propriedade comum, numa economia agrária não-monetária.

Feliz de ver a participação dos membros do projeto e dos inscritos na organização e desenvolvimento da atividade. Agradeço a aluna @_rubiaas pela edição do vídeo.

Sintam-se convidados para os próximos encontros. As atividades valem certificados e temos café e peta para saborear. Te vejo no próximo!

Estandarte da AIT de Basiléia

Debate atual sobre a crise das licenciaturas e o contínuo esvaziamento dos cursos

 


Nesta quarta-feira, terei a satisfação de mediar a mesa-redonda Debate atual sobre a crise das licenciaturas e o contínuo esvaziamento dos cursos. 

Ela é parte da programação da VII Semana de Pedagogia do @pedagogiacafsufpi. 

Participam comigo os colegas Luiz Eduardo (UFPI) e Robison Raimundo (UESPI), com quem discutiremos os desafios e perspectivas da formação docente no Brasil.

Da sociologia ao Marquês de Sade: uma memória de leitor na puberdade

O que é sociologia?, de Carlos Benedito Martins, foi o primeiro livro de sociologia que li na vida. Eu tinha uns 11 anos.

Ele estava num armário lá em casa, com outros de sexologia e gravidez da minha mãe, enciclopédias e livros de geografia, pedagogia, agronomia e ciências naturais dos meus tios.

Talvez a capa do livro tenha me chamado a atenção, pois achava esquisito uma pessoa sentar-se nas costas de outra. Abri o livro e comecei a ler. Lembro de não entender nada.

Oito anos depois, o reencontrei numa disciplina de introdução à sociologia no primeiro semestre da faculdade de ciências sociais.

Quando descobri o mundo das enciclopédias, sempre voltava aquele armário. E quando eu e @danielsdh passamos a ler histórias em quadrinhos, passamos a guardá-las ali também.

Com 12 ou 13 anos, eu descobri ali um livro diferente. Não se parecia com nada que lia na escola ou nas histórias dos X-Men. Era simplesmente a Filosofia na Alcova, do Marquês de Sade. Achei bem melhor do que sociologia, pelos motivos que qualquer menino na puberdade acharia rsrsrs. Li escondido até o dia em que meu tio descobriu e escondeu o livro de mim. O que era algo que qualquer adulto razoável deveria fazer.

Por mais que o contato precoce com a sociologia tenha sido entediante, aprendi a ver sentido nela e, anos depois, ela se tornou a minha profissão.

Essas situações envolvendo livros chatos e outros excitantes me fazem pensar em Pierre Bourdieu e o que ele falava sobre como a herança cultural é repassada entre as gerações de uma família.

O livro nunca me foi um objeto estranho porque sempre tinha algum em casa, ainda que nem todos eu pudesse ler na puberdade. Só li Sade novamente aos 20 e poucos anos, um livro escandaloso intitulado Justine. 

Me mimei

 Me mimei! Adquiri a caixa que reúne as primeiras 50 edições do maior quadrinho alternativo de todos os tempos, num total de 2.200 páginas. 

Conheci Love & Rockets no início dos anos 2000 e foi amor à primeira vista pela obra de Jaime e Gilbert Hernandez.

Considerada pelo mestre Allan Moore como a mais empolgante HQ dos anos 80, e pelo L.A Weekly como contendo os maiores personagens da literatura norte-americana contemporânea. 

Tudo é hiperbólico quando se trata de L&R, e quando se é fã.

Raphael Cruz


Dez anos das ocupações de escola

Ocupação de escola em 2016. Fonte.

 Esse ano, completam-se 10 anos do mais recente ciclo nacional de ocupações de escola que ocorreu no Brasil, iniciado em outubro de 2015 e adentrando o ano de 2016.

Transição energética e reforma agrária

 Transição energética sem reforma agrária é roubo!

Do mutualismo à ameaça a segurança nacional

Manifestação das Ligas Camponesas em Sapé, Paraíba, anos 1960. Fonte.


O maior movimento camponês do Brasil pré-ditadura militar, Ligas Camponesas, se originou de uma prática mutualista.

Camponeses que se cotizaram para garantir que seus camaradas fossem enterrados dignamente em caixão de madeira e não num pedaço qualquer de pano.

Esse fato sempre me lembra o historiador Howard Zinn afirmando que grandes transformações sociais nascem de pequenas ações.

No caso das Ligas Camponesas é interessante observar como algo que surgiu como prática de apoio mútuo, num sentido endógeno, de camponês para camponês, se desenvolveu até ganhar um sentido exógeno, como conflito com o Estado e a burguesia agrária, tornando as Lugas uma ameaça a segurança nacional, segundo a perspectiva das classes dominantes.

Contudo agrego que não foi qualquer prática de apoio mútuo, mas uma que atendeu com êxito uma demanda concreta de um grupo social específico, produzindo autoestima, senso de coletividade e expectativa de autonomia em seus agentes.


Raphael Cruz

A representação do eu

 A representação do eu na vida cotidiana é um livro clássico, no qual Erving Goffman inaugura sua "sociologia dramatúrgica", comumente confundida com o interacionismo simbólico. 

Nesta obra, publicada em 1956, ele utiliza a metáfora do teatro para analisar as interações sociais, sugerindo que as pessoas, ao se relacionarem, estão encenando papéis diante dos outros, como se estivessem num palco. 

Li pela primeira vez em 2012, para a seleção do mestrado em sociologia da UFC, na qual fui aprovado.

Da interação à estrutura

As interações cotidianas que se repetem no tempo e no espaço são a base para a formação de relações sociais, que são a transformação das interações em algo mais constante. Por sua vez, dada a estabilidade das relações sociais, estas conseguem por em movimento processos sociais, sejam de produção, reprodução ou transformação de uma determinada ordem social. Contudo, tanto as interações, as relações como os processos se constituem a partir de determinadas estruturas sociais, que lhes dão as condições de possibilidade, as influenciando em seu funcionamento e sendo influenciadas por elas, seja no sentido da reprodução, da transformação ou produção de novas estruturas sociais. Ainda que o nível 1 desse esquema da ordem social, a interação, prescinda de estruturas sociais, o nível 4, a condição de possibilidade das estruturas estão nas interações, o nível "inicial" onde a ordem social é posta em movimento de produção, reprodução ou transformação. Entretanto, a interação prescinde tanto da estrutura quanto da cultura, esta propicia a comunicação ou a não comunicação da qual se vale a interação para operar socialmente.

O goffmaniano Zorro

O Zorro criado por McCulley e transformado em quadrinhos por Alex Toth é um tema sociológico goffmaniano. A existência de Diego de La Vega  e seu escudeiro Bernardo é organizada em torno de um ostensivo trabalho de manutenção da fachada para controlar a impressão que os outros têm deles. Há um jogo constante e arriscado para os personagens ao ter que alternar as performances entre o frontstage e o backstage no palco da vida social da vila de Los Angeles.

Autodeterminação de classe

Lendo a literatura anarquista, percebo que das reflexões de Proudhon em Da Capacidade Política das Classes Operárias às memórias de Archinov sobre a experiência da Makhnovitchina, o anarquismo se forja historicamente como prática e teoria da autodeterminação da classe trabalhadora.

Educação e revolução social


Participarei de uma conversa com a professora e pesquisadora do anarquismo, Luciana Brito, sobre a perspectiva de Mikhail Bakunin acerca da relação entre educação e revolução social. O encontro acontecerá no canal Anarquismo e Geografia, do @max_stirner_king, no dia 29 de março, às 19h.


Duas HQs

Dois títulos de HQs estão em toda parte no Brasil: de lanchonetes duvidosas na beira da BR a bancas de cidades minúsculas do sertão. Se tem gibi, tem Turma da Mônica e Tex. O Brasil não é para amadores.

Raphael Cruz

Congresso Internacional de Estudos Bakuninianos

 


Ao completar um século do falecimento de Mikhail Bakunin, foi realizado um congresso internacional de estudos na Itália sobre sua vida e obra.

Percebe-se que foi um grande evento pela quantidade de palestrantes renomados e demais participantes. Pena que não tenha se tornado uma tradição nem iniciado um campo relativamente estável de estudos sobre a obra bakuniniana ainda nos anos 1970.

Se passarariam três décadas para que parte considerável da produção intelectual de Bakunin fosse organizada pelo Instituto de História Social de Amesterdã e, com isso, uma série de investigações reavivassem esse impulso inicial e coletivo de pesquisa.

Se passarariam ainda quarenta anos até que ocorresse um evento internacional de tamanha projeção sobre o legado de Bakunin, como foi a Conferência do Bicentenário (1814-2014) de seu nascimento, em sua terra natal Pryamuchino, na Rússia.

Abaixo segue texto retirado e traduzido de Estel Negre, que recorda o evento internacional de 1976.

Raphael Cruz

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Entre os dias 24 e 26 de setembro de 1976, no centenário da morte de Mikhail Bakunin, foi realizado no Palazzo Seriman de Veneza (Vêneto, Itália) o Convegno Internazionale di Studi Bakuniniani (Congresso Internacional de Estudos Bakuninianos), organizado pelos Grupos Anarquistas Federados (GAF) e sob o patrocínio da Associação Cultural Libertária "A. e B. Carocari". O congresso, coordenado por Nico Berti, contou com a presença de dezenas de especialistas em Bakunin e centenas de pessoas interessadas em sua vida e obra. Nas sessões mais populares, reuniram-se mais de quinhentas pessoas na sala e no pátio adjacente, onde a organização havia instalado alto-falantes. Neste congresso, a figura de Bakunin foi estudada a partir de um ponto de vista acadêmico interdisciplinar, com diversas abordagens (sociológica, pedagógica, filosófica, ideológica, poética, etc.). Participaram com palestras destacados intelectuais, como Alexander Alexiev, Maurizio Antonioli, Henri Arvon, Giovanni Biagioni, Giampietro N. Berti, Amedeo Bertolo, Lamberto Borghi, Romano Broggini, Eduardo Colombo, Sam Dolgoff, Marianne Enckell, Paola Feri, Violette Gaffiot, Daniel Guerin, Gianni Landi, Arthur Lehning, Jean Maitron, Pier Carlo Masini, Luciano Pellicani, Giorgio Penzo, Silvia Rota Ghibaudi, Domenico Settembrini, Misato Toda, Tina Tomasi, Claudio Venza, Marc Vuilleumier, entre outros – Franco Della Peruta e Juan Gómez Casas estavam no programa, mas acabaram não participando. Em 1977, as Edizioni Antiestato de Milão (Lombardia, Itália) publicaram as atas sob o título Bakunin cent'anni dopo: Atti del Convegno Internazionale di Studi Bakuniniani.





Fonte


Fonte

Estudos sobre o periódico anarquista A Plebe: uma bibliografia comentada em ordem cronológica (1998-2024)

A Plebe, 9 de setembro de 1933, n 39. 

Apresentação

A pesquisa acadêmica sobre o jornal anarquista A Plebe passou por uma diversificação temática desde os anos 1990, ampliando o seu escopo e aprofundando sua análises conforme novos interesses foram incorporadas. Essa trajetória pode ser dividida em quatro momentos principais, correspondentes às décadas em que os estudos foram publicados. 

Nos anos 1990, a pesquisa sobre A Plebe era incipiente e concentrava-se exclusivamente na análise da imagem. O estudo realizado nesse período sugere interesse inicial pelos aspectos visuais do jornal.

Nos anos 2000, o escopo temático se expandiu, incorporando novos objetos de estudo. A educação tornou-se tema relevante, com três trabalhos tratando do tema, o que sugere um interesse pela relação entre o anarquismo e a pedagogia. Além disso, emergiram análises sobre arte, representação da revolução social, discurso e sexualidade. A década também marcou o início das investigações sobre o embate entre anarquistas e comunistas. 

Nos anos 2010, houve uma diversificação dos estudos, consolidando A Plebe como um objeto de pesquisa mais abrangente. A análise da imagem e da arte ganhou fôlego, com temas como ilustrações, caricaturas políticas e experiência visual, o que indica tanto um retorno de uma temática de estudo inaugurada nos anos 1990, como um aprofundamento na investigação da dimensão estética do periódico.

Paralelamente, cresceu o interesse pela representação e pelo imaginário, especialmente no que diz respeito à iconografia, à representação do feminino e ao imaginário dos militantes anarquistas. Além disso, a pesquisa sobre discurso e propaganda continuou avançando, sendo acompanhada por estudos sobre literatura e poesia no jornal.

A década também testemunhou um crescimento dos trabalhos sobre gênero e sexualidade, evidenciado por pesquisas sobre a emancipação feminina e a representação da mulher no periódico.

O tema dos conflitos políticos e ideológicos também foi reforçado, com novas análises sobre o fascismo, o antifascismo, o catolicismo e a interpretação anarquista da Revolução Russa. Por fim, houve um aumento nos estudos sobre o movimento operário e sindicalismo, incluindo pesquisas sobre o Primeiro de Maio, greves, ação direta, sindicalismo revolucionário e internacionalismo operário. 

Nos anos 2020, os estudos passaram a conectar A Plebe com a questão social, organização política anarquista e condições de vida da classe trabalhadora. Pela primeira vez, surgiu investigação sobre moradia e transporte. Além disso, a análise do sindicalismo revolucionário e da consciência de classe indicou um esforço para relacionar o discurso do jornal com as dinâmicas de organização e mobilização política dos trabalhadores. 

A trajetória dos estudos sobre A Plebe revela, portanto, uma evolução que vai da análise de aspectos mais formais e discursivos para um olhar mais amplo sobre a atuação do jornal no movimento operário e suas implicações para a compreensão da questão social. Se nos anos 1990 o interesse acadêmico se limitava à imagem, nas décadas seguintes a pesquisa expandiu-se para temas como educação, discurso, gênero, conflito político e sindicalismo, chegando, nos anos 2020, com a questão social.

Bibliografia em ordem cronológica

Anos 1990

CAMARGO, Dayse de. O teatro do medo: a encenação de um pesadelo nas imagens do periódico anarquista A Plebe (1917-1951). 1998. Dissertação (Mestrado em História) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 1998. 

Anos 2000

GONÇALVES, Ody Furtado. Trajetória e ação educativa do jornal A Plebe (1917-1927). Quaestio – Revista de Estudos em Educação, v. 6, n. 2, 2004. 

FIGUEIRA, Cristina Aparecida Reis. O jornal, o cinema, o teatro e a música como dispositivos da propaganda social anarquista: um estudo sobre as colunas “Espetacullos” e “Palcos, Telas e Arenas” nos jornais A Lanterna e A Plebe (1901-1921). In: Congresso Luso-Brasileiro de História da Educação, 2006. p. 32-48. 

GONÇALVES, A. M. ; NASCIMENTO, M. I. M. . Anarquismo, trabalho e educação nas folhas do jornal " A Plebe". In: VII Seminário Nacional de Estudos e Pesquisas, 2006, Campinas. VII Seminário Nacional de Estudos e Pesquisas. Campinas: faculdade de Educação da Unicamp. v. 01. p. 50-51.

MARTINS, Angela Maria Roberti. Palavras e imagens que fazem sonhar: imprensa libertária e representações da revolução social (A Plebe – 1919). Maracanan, v. 3, n. 3, p. 57-72, 2007. 

GONÇALVES, Aracely Mehl (2007). Francisco Ferrer y Guardia: Educação e a imprensa anarcosindicalista – “A Plebe” (1917- 1919). Dissertação (Mestrado em Educação) -Universidade Estadual de Ponta Grossa, Ponta Grossa.

RIBAS, Ana Claudia. As sexualidades d'A Plebe: um breve olhar sobre os discursos e os debates sobre sexualidade no jornal anarquista A Plebe. Revista Ártemis, v. 8, 2008. 

GONÇALVES, Aracely Mehl; NASCIMENTO, Maria Isabel Moura. A educação nas folhas do jornal “a plebe”: 1917-1919. Publicatio UEPG: Ciências Sociais Aplicadas, v. 16, n. 2, 2008.

VENANCIO, Rafael Duarte Oliveira. Ethos e Revolução: legitimação retórica dos jornais alternativos. Revista Alterjor, v. 1, p. 1-18, 2009.

PEIXOTO, Maitê. O quarto poder vermelho: embates teóricos e político-ideológicos entre anarquistas e comunistas nos jornais A Plebe e Voz Cosmopolita (1917-1927). In: Simpósio Nacional de História, 25., 2009, Fortaleza. Anais... Fortaleza: ANPUH, 2009. 

Anos 2010

MACIEL, Camila Queiroz. Mulher libertária é a mulher libertada: um projeto de emancipação feminina anarquista no jornal A Plebe (1917-1927). 2010. 159f. TCC (Graduação em Comunicação Social) - Universidade Federal do Ceará, Curso de Comunicação Social, Habilitação em Jornalismo, Fortaleza (CE), 2010.

PEIXOTO, Maitê. O quarto poder vermelho: embates teóricos e político-ideológicos entre anarquistas e comunistas (1917-1927). Oficina do Historiador, v. 1, n. 1, p. 41-50, 2010.

GARZIA, R. F. . Pela Desordem: Imagens e Imaginário da Revolução Social entre o Círculo Militante do Jornal A Plebe (1917-1922). In: V Congresso Internacional de História, 2011, Maringá-PR. Anais do V Congresso Internacional de História, 2011. p. 53-63.

GARZIA, R. F. . Imagens e imaginário anarquista a partir do jornal A Plebe (1917-1920). In: Colóquio de História e Arte: "História e Arte: encontros", 2011, Recife-PE. Anais do Colóquio de História e Arte, 2011. p. 302-307.

GARZIA, R. F. Imaginário Gravado: o imaginário anarquista a partir das gravuras do A Plebe (1917-1920). In: SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA, 26., 2011, São Paulo. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História, 2011.

RIBAS, Ana Claudia. CORPO, LIBERDADE E ANARQUISMO: Perspectivas libertárias nas páginas do jornal A Plebe durante a primeira metade do século XX. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História–ANPUH, São Paulo, 2011.

CAMARGO, Daisy. Bestiário da autoridade: representação iconográfica do periódico anarquista A Plebe. Domínios da Imagem, v. 7, n. 12, p. 71-81, 2013. 

CASADEI, Eliza Bachega. A função revolucionária da mulher: representações do feminino nos jornais operários e anarquistas do início do século XX. Revista Alterjor, v. 7, n. 1, p. 1-13, 2013.

DA FONSECA, João Gabriel. A insurgência da ação direta na imprensa operária da Primeira República em A Plebe. Revista Três Pontos, 2013. 

GARZIA, Ricardo Ferrini. Traçando a anarquia: o imaginário dos militantes do Jornal A Plebe e as suas ilustrações (1917-1924). 2013. 200 f. Dissertação (Mestrado em História Social) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2013.

PEIXOTO, Maitê. A partilha da experiência visual vivenciada nas páginas do jornal A Plebe. Revista Latino-Americana de História, v. 2, n. 7, p. 309-326, 2013. 

SANTOS, Kauan Willian dos. O jornal A Plebe: militância e estratégias de propaganda anarquista no movimento operário em São Paulo (1917 a 1920). Trabalho de conclusão de curso (Bacharelado e Licenciatura em História) – Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), Guarulhos, 2013.

SILVA, Zélia Lopes. A caricatura política na concepção libertária do periódico A Plebe (1947-1949). Antíteses, p. 261-287, 2013. 

DA FONSECA MATEUS, João Gabriel. Arte e anarquismo no periódico A Plebe (1917). REVHIST – Revista de História da UEG, v. 3, n. 1, p. 163-182, 2014. 

DE CAMARGO, Daisy. O teatro do medo: a encenação de um pesadelo nas imagens do periódico anarquista A Plebe (1917-1951). Paco Editorial, 2014. 

RIBAS, Ana Claudia. A questão feminina nas páginas libertárias: propaganda e emancipação feminina nas páginas do jornal anarquista A Plebe (1917-1935). Anais do XV Encontro Estadual de História, v. 11, 2014. 

FERREIRA, Denise Cristina. O jornal A Plebe: uma análise do pensamento educacional dos anarquistas no Brasil (1917-1935). In: CONGRESSO NACIONAL DE EDUCAÇÃO (CONEDU), 2., 2015, Campina Grande. Anais [...]. Campina Grande: Realize Editora, 2015.

RIBAS, Ana Claudia et al. As sexualidades d'A Plebe: sexualidade, amor e moral nos discursos anarquistas do jornal A Plebe (1917-1951). 2015. 

RIBAS, Ana Claudia. As sexualidades d’A Plebe: um breve olhar sobre os discursos e os debates sobre sexualidade no jornal anarquista A Plebe (1917-1951). 2015. 290 f. Tese (Doutorado em Interdisciplinar em Ciências Humanas) – Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2015.

RODRIGUES, André. O Primeiro de Maio nos jornais anarquistas A Plebe e A Lanterna (1932-1935). Vozes, Pretérito & Devir: Revista de História da UESPI, v. 4, n. 1, p. 95-109, 2015.

RODRIGUES, André. A identidade entre movimentos fascistas e Igreja Católica nos jornais anarquistas A Plebe e A Lanterna (1932 - 1935). Boletim Historiar, v. 11, p. 37-50, 2015.

RODRIGUES, André. As relações entre os movimentos fascistas e a Igreja Católica nas páginas dos jornais anarquistas A Plebe e A Lanterna (1932-1935). In: CONGRESSO DE HISTÓRIA, 5., 2015, Ivaiporã. Anais [...]. Ivaiporã: UEM, 2015.

RODRIGUES, André. O jornal A Plebe e a luta anarquista contra o Ministério do Trabalho (1932-1935). In: CONGRESSO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA, 7., 2015, Maringá. Anais [...]. Maringá: [s.n.], 2015. p. 98.

SANTOS, Kauan Willian dos. Derrubando fronteiras: a construção do jornal A Plebe e o internacionalismo operário em São Paulo (1917-1920). História e Cultura, Franca, v. 4, n. 1, p. 122-139, 2015.

SANTOS, Kauan Willian dos. Paz entre nós, guerra aos senhores: o internacionalismo anarquista e as articularições políticas e sindicais nos grupos e periódicos anarquistas guerra social e a plebe na segunda década do século XX em São Paulo. 2016. 179 f. Dissertação (Mestrado) - Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), Guarulhos, 2016.

DE SOUZA DIANNA, Eduardo Matheus. O movimento operário na Primeira República, debates, considerações e contribuições. Revista Eletrônica História em Reflexão, v. 10, n. 20, p. 16-37, 2016.

DE SÁ BENEVIDES, Bruno Corrêa. O antifascismo na imprensa anarquista durante a Primeira República – A Plebe e Alba Rossa (c. 1919-c. 1922). Revista Aedos, v. 8, n. 19, p. 277-296, 2016.  

DE SÁ BENEVIDES, Bruno Corrêa. O antifascismo na imprensa anarquista durante a Primeira República – A Plebe e Alba Rossa (c. 1919-c. 1922). Revista Aedos, v. 8, n. 19, p. 277-296, 2016. 

MACHADO, Liliane Maria Macedo; STRONGREN, Fernando Figueiredo. O agendamento da greve nas páginas de A Plebe. Revista Comunicação Midiática, v. 11, n. 1, p. 77-92, 2016. 

DE BRITO, Rose Dayanne Santos. “O pobre não é vadio”: uma crítica ao discurso elitista acerca do trabalho na Primeira República. História e Cultura, v. 6, n. 2, p. 144-160, 2017.

RODRIGUES, André. Sob o estandarte rubro-negro : anarquismo e antifascismo nos jornais A Plebe e A Lanterna (1932-1935). 2017. 116 f. Dissertação (mestrado em História) - Universidade Estadual de Maringá, Maringá, 2017.

RODRIGUES, André. Bandeiras negras contra camisas verdes: anarquismo e antifascismo nos jornais A Plebe e A Lanterna (1932-1935). Tempos Históricos, v. 21, n. 2, p. 74-106, 2017. 

JÚNIOR, Demetrio Quiros Bello. “Dentro da nossa esplêndida chimera, encerramos o mundo d’amanhã”: literatos e poesia libertária nas páginas de A Plebe. Revista Hydra: Revista Discente de História da UNIFESP, v. 2, n. 3, p. 33-57, 2017. 

STRONGREN, Fernando Figueiredo. Imprimindo a anarquia: o jornalismo anarquista no Brasil nas primeiras décadas do século XX. 2017. 192 f., il. Dissertação (Mestrado em Comunicação)—Universidade de Brasília, Brasília, 2017.

GONÇALVES FELIPE, Cláudia Tolentino. A áurea revolucionária no discurso anarquista brasileiro (1917-1922). Cadernos de Pesquisa do CDHIS, v. 31, n. 2, 2018. 

KIST, André Urban. Discurso revolucionário na greve geral de São Paulo em 1917. 2018. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) – Universidade do Vale do Rio dos Sinos, Escola de Humanidades, 2018.

SANTOS, Kauan Willian dos ; FERNANDES, André Santoro. A bandeira vermelha e negra: posições políticas e estratégias anarquistas frente à Revolução Russa no Brasil. Revista Latino-Americana de História-UNISINOS, v. 7, n. 19, p. 63-85, 2018.

STRONGREN, Fernando Figueiredo; MACHADO, Liliane Maria Macedo. Informar para mobilizar: o caso do jornal anarquista A Plebe. Revista Extraprensa, v. 12, n. 1, p. 27-49, 2018. 

PIOVEZANI, Carlos. A oratória popular na imprensa anarquista brasileira: um estudo de caso do jornal A Plebe. Cadernos de Estudos Linguísticos, v. 61, p. 1-19, 2019.

GRIGOLIN, Fernanda. Expressão, registro e propaganda: o anarquismo impresso em A Plebe. Anais do 30º Simpósio Nacional de História, 2019. 

Anos 2020

Barbosa, Joyce Martins. Os escritos femininos no jornal A Plebe em 1917. 2020. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em História) - Faculdade de Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2020.

FERREIRA, Denise Cristina; LIVÉRIO, Andressa Oliveira. Educação anarquista: o Brasil em inícios do século XX pelo jornal A Plebe. In: CONGRESSO NACIONAL DE EDUCAÇÃO (CONEDU), 7., 2021, Campina Grande. Anais [...]. Campina Grande: Realize Editora, 2021.

RIBEIRO, Vitória. “O que urge fazer?": Sobre moradia e transporte nas páginas d'O Combate e d'A Plebe durante a greve de 1917. Trabalho de conclusão de curso (Bacharelado em História). – Guarulhos: Universidade Federal de São Paulo, 2021.

FERREIRA, Matheus Barrientos. O jornal A Plebe e a luta pela construção de uma consciência anarquista de classe (1917-1924). 2023. Dissertação (Mestrado) – Universidade Estadual de Londrina, Londrina, 2023. 

SANTOS, Kauan Willian dos. "Reunindo numerosos camaradas”: organizações políticas anarquistas e libertárias no período da Primeira República no Brasil. Revista Estudos Libertários, v. 5, n. 13, 2023. 

ALVARENGA, Maria Eduarda de; GOMES, Marco Antonio de Oliveira; MAIO, Eliane Rose. Gênero e imprensa: a emancipação das mulheres no início do século XX e o jornal A Plebe (1919-1934). Cadernos de História da Educação, v. 23, p. 1-17, 2024. 

FERRARI, João Paulo Rocha. A influência do sindicalismo revolucionário na institucionalização da questão social: rebatimentos na gênese do serviço social no Brasil. 2024. 143 f. Dissertação (Mestrado em Serviço Social e Políticas Sociais) – Instituto de Saúde e Sociedade, Universidade Federal de São Paulo, Santos, 2024.

Raphael Cruz

Fontes:

https://bdtd.ibict.br

https://www.escavador.com

https://scholar.google.com.br

https://repositorio.unb.br

https://oasisbr.ibict.br

https://www.periodicos.capes.gov.br

https://repositorio.unifesp.br

https://repositorio.ufc.br

https://tede2.pucsp.br

Capitalismo como sistema de contradições socioecológicas: as perspectivas da ecologia social e do marxismo ecológico

Murray Bookchin(1921-2006) e James O' Connor (1930-2017)


Pierre-Joseph Proudhon foi possivelmente o primeiro socialista a compreender o capitalismo como um "sistema de contradições", como expressou em seu livro Filosofia da miséria, ou sistema das contradições econômicas (1846). 

Esta foi uma contribuição duradoura do autor francês para a ampla tradição socialista de crítica da economia política, incluindo aí o marxismo, ao sugerir que identificar as contradições seria uma condição de possibilidade de conhecimento científico do capitalismo, e que essas contradições poderiam originar um "quadro conceitual operatório" (Gurvitch, 1971) de explicação do sistema. Contudo, águas rolaram desde os tempos do capitalismo oitocentista que Proudhon experimentou e analisou.

A expansão das relações de produção capitalista sobre suas condições sociais e ambientais de reprodução, expressa na degradação ambiental e das condições de vida dos povos, promoveu lutas ecológicas que indicaram novas contradições do capitalismo que, ao que parece, nem Proudhon nem Marx dimensionaram devidamente, mas que, contudo, não escapou da atenção de uma nova geração de "clínicos do social", para usar a expressão de Pierre Ansart (2022). Esses, cada vez mais, assumindo-se como clínicos das relações socioecológicas.

Murray Bookchin (1980,2006), por exemplo, identificou ao menos duas contradições fundamentais do capitalismo contemporâneo: uma que pode-se classificar até de "contradição ontológica" entre a sociedade capitalista e a evolução biológica. E outra que nomearei propriamente de "contradição socioecológica", referente ao crescimento econômico e os limites ecológicos do planeta.

A primeira contradição diz respeito a expansão do capitalismo e a consequente desestruturação de processos naturais que sustentam a vida. Para Bookchin (2006), o capitalismo estaria reduzindo a diversidade biológica e simplificando os ecossistemas em prol da exploração de recursos, colocando em risco tanto a equilíbrio ambiental quanto o a própria condição de possibilidade de existência biológica da humanidade. Essa contradição ontológica evidencia que a crise ambiental não é apenas um problema técnico ou econômico, mas um choque fundamental entre o capitalismo e os processos ecológicos que permitiram a própria existência humana.

A segunda contradição, a propriamente sócioecologica, opera entre o crescimento infinito da economia capitalista e os limites ecológicos do planeta. Bookchin (1980) argumenta que essa contradição é mais relevante do que a tendência ao declínio da taxa de lucro destacada pelos marxistas clássicos. Para ele, a crise ecológica não pode ser ignorada ou reduzida a um problema secundário dentro da atual lógica e funcionamento do capitalismo. 

Diante desse deslocamento histórico, a leitura do capitalismo como um sistema de contradições permanece válida, mas exige atualização teórica. Se, em Filosofia da Miséria, a ênfase recaía sobre as tensões internas da economia política, hoje torna-se incontornável reconhecer que tais contradições extrapolam o plano estritamente econômico e se inscrevem nas próprias condições de reprodução da vida. As formulações de Murray Bookchin evidenciam que o capitalismo não apenas organiza antagonismos sociais, mas produz um descompasso estrutural entre sociedade e natureza, colocando em questão sua própria viabilidade histórica. Nesse sentido, a ampliação do conceito de contradição — incorporando as dimensões ontológica e socioecológica — não apenas prolonga a intuição proudhoniana, mas a radicaliza. Trata-se, portanto, de compreender que o capitalismo contemporâneo já não pode ser analisado apenas como um sistema economicamente contraditório, mas como um sistema ecologicamente insustentável, cujas tensões internas apontam não apenas para crises cíclicas, mas para limites civilizatórios.

James O’Connor (1988), por sua vez, apresentou uma teoria marxista ecológica que ampliou a análise tradicional da contradição entre "forças produtivas" e "relações de produção". Ele argumentou que, além da superprodução de capital e crise econômica, existe uma contradição entre as forças produtivas e as relações de produção com as condições de produção – isto é, os fatores ecológicos e sociais que sustentam a economia capitalista. O esgotamento ambiental, portanto, não apenas limita o crescimento econômico, mas também gera crises que podem levar a reestruturações. 

O' Connor (1988) sugere que há dois caminhos para a superação do capitalismo: um baseado na "crise econômica" tradicional e outro na "crise ecológica".

O caminho tradicional da crise econômica é aquele baseado na teoria marxista clássica, parte da contradição entre as forças produtivas e as relações de produção. No capitalismo, a necessidade constante de acumulação de capital leva à superprodução, à queda da taxa de lucro e a crises econômicas. Essas crises podem criar condições para transformações revolucionárias, na medida em que o sistema se torna incapaz de garantir sua própria reprodução e os trabalhadores se organizam para superá-lo.

O caminho da crise ecológica e das condições de produção é uma inovação da teoria de O’Connor. Ele argumenta que, além da crise econômica tradicional, o capitalismo também gera crises ao destruir as próprias condições de produção – isto é, os recursos naturais, a força de trabalho e as infraestruturas sociais que sustentam o sistema. A degradação ambiental, o esgotamento de solos, a escassez de água e as mudanças climáticas são exemplos de como essa contradição se manifesta empiricamente. Essas crises podem impulsionar mudanças sociais, a partir do que ele nomeou de "rebeliões da natureza", pois tornam evidente a necessidade de novas formas de organização econômica que sejam ecologicamente viáveis e socialmente justas.

Enquanto o primeiro caminho está ligado à lógica interna da acumulação de capital e à luta de classes, o segundo destaca que o capitalismo também mina suas próprias bases materiais e ecológicas. Assim, a transição para um sistema pós-capitalista pode ocorrer não apenas pela falência econômica, mas também pela necessidade de reconstrução das condições de vida, o que pode levar a formas mais coletivas e ecológicas de organização social.

Tanto a ecologia social de Boikchin quanto o marxismo ecológico de O' Connor onvergiram ao reconhecer que a crise ecológica é central para a crítica ao capitalismo contemporâneo. A diferença é que Bookchin vê essa contradição como a mais importante e não como uma questão a ser integrada ao marxismo tradicional, enquanto O’Connor busca articular o problema ecológico dentro da estrutura conceitual marxista e inová-la para dar conta de desafios societários atuais.

Contudo, enquanto O'Connor manteve-se esperançoso com o possível desenvolvimento de lutas sociais a partir da identificação daquela segunda contradição do capitalismo, Bookchin se empenhou em tirar conclusões estratégicas de sua ecologia social e desenhou um projeto societário condizente com ela, que nomeou de sociedade ecológica em contraposição a sociedade hierárquica, da qual o capitalismo é a expressão atual.

Raphael Cruz


Referências

ANSART, Pierre. Proudhon, clínico do social. História: Questões & Debates, Curitiba, v. 70, n. 2, p. 292–306, 2022.

BOOKCHIN, Murray. The communalist project. In: BOOKCHIN, Murray. The social ecology and communalism. Oslo: New Compass, 2006.

BOOKCHIN, Murray. Toward an ecological society. Montreal: Black Rose Books, 1980. p. 36.

GURVITCH, Georges. Dialética e Sociologia. São Paulo: Vértice; Editora Revista dos Tribunais, 1987.

O'CONNOR, James. Capitalism, nature, socialism: a theoretical introduction. Capitalism Nature Socialism, New York, v. 1, n. 1, p. 11-38, 1988.

PROUDHON, Pierre-Joseph. Sistema das contradições econômicas, ou, filosofia da miséria. Tomo I. São Paulo: Ícone, 2003.



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