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Quem matou meu pai

Parecia que eu estava violando secretamente as cartas de um filho para o seu pai.

Foi essa a sensação inicial ao ler Quem matou meu pai, de Édouard Louis.

Um livro sobre identidade e paternidade, e também sobre as diversas expressões que a violência, o carinho e a política podem assumir no seio de uma família da classe trabalhadora no interior da França.

Meu primeiro livro de literatura lido em 2026. Sugestão de minha esposa.

O peso de um livro vivo

 Encantado com a escrita da Aline Bei. Interessei-me por seu trabalho ao ler entrevista cedida pela autora ao jornal literário Rascunho, do qual sou assinante. "O peso do pássaro morto" é uma experiência e tanto de leitura, um ponto fora da curva, inesquecível!

Raphael Cruz

Da sociologia ao Marquês de Sade: uma memória de leitor na puberdade

O que é sociologia?, de Carlos Benedito Martins, foi o primeiro livro de sociologia que li na vida. Eu tinha uns 11 anos.

Ele estava num armário lá em casa, com outros de sexologia e gravidez da minha mãe, enciclopédias e livros de geografia, pedagogia, agronomia e ciências naturais dos meus tios.

Talvez a capa do livro tenha me chamado a atenção, pois achava esquisito uma pessoa sentar-se nas costas de outra. Abri o livro e comecei a ler. Lembro de não entender nada.

Oito anos depois, o reencontrei numa disciplina de introdução à sociologia no primeiro semestre da faculdade de ciências sociais.

Quando descobri o mundo das enciclopédias, sempre voltava aquele armário. E quando eu e @danielsdh passamos a ler histórias em quadrinhos, passamos a guardá-las ali também.

Com 12 ou 13 anos, eu descobri ali um livro diferente. Não se parecia com nada que lia na escola ou nas histórias dos X-Men. Era simplesmente a Filosofia na Alcova, do Marquês de Sade. Achei bem melhor do que sociologia, pelos motivos que qualquer menino na puberdade acharia rsrsrs. Li escondido até o dia em que meu tio descobriu e escondeu o livro de mim. O que era algo que qualquer adulto razoável deveria fazer.

Por mais que o contato precoce com a sociologia tenha sido entediante, aprendi a ver sentido nela e, anos depois, ela se tornou a minha profissão.

Essas situações envolvendo livros chatos e outros excitantes me fazem pensar em Pierre Bourdieu e o que ele falava sobre como a herança cultural é repassada entre as gerações de uma família.

O livro nunca me foi um objeto estranho porque sempre tinha algum em casa, ainda que nem todos eu pudesse ler na puberdade. Só li Sade novamente aos 20 e poucos anos, um livro escandaloso intitulado Justine. 

O bom diabo na literatura de cordel

 

Cordel clássico de Leandro de Barros

Em O bom diabo na literarura de cordel (2019), Renata Siuda-Ambroziak chama atenção para a representação do diabo pelos poetas populares do Nordeste brasileiro.

Em suas 18 páginas, a autora se apoia em fragmentos de 9 cordéis para identificar o que nomeou de o "bom diabo". 

É curioso notar como nesta região marcada pelo catolicismo oficial e popular, o diabo aparece nos cordéis como amigo dos homens e companheiro em tempos de desgraça.

Como exemplo, a autora cita o folheto A peleja de Manoel Riachão com o diabo, de Leandro Gomes de Barros. O diabo é descrito num primeiro momento como grotesco para logo depois ser caracterizado como bom.

No folheto, O homem que falou com o diabo em Juazeiro, de João de Cristo Rei, o diabo se autorrepresenta como poderoso e maldoso, mas o poeta o descreve como misericordioso e humanitário.

Entretanto, o artigo de Siuda-Ambroziak carece de uma periodização histórica dessa imagem do "bom diabo". 

O leitor é levado a acreditar que essa é uma característica estrutural do simbolismo cordelista. 

Contudo, fiquei na dúvida se ela não teria variado no tempo e entre os estados de origem dos escritores.

A autora conclui que a figura do diabo na literatura de cordel não obedece à caracterização unilateral de personificação do mal como na tradição judaico-cristã.

Ela argumenta, que isso se deve a outras influências culturais que formaram o catolicismo popular nordestino.

Contudo, a mais importante conclusão é o valor educativo das narrativas populares sobre o diabo.

Segundo a autora, existe uma "pedagogia do temor" nesses cordéis.

O objetivo das histórias sobre o diabo não é tanto o benefício de um pacto satânico, mas convencer o descrente a aceitar a fé cristã e o motivar a voltar à Igreja. 

Assim, mesmo com essa imagem do "bom diabo", a literatura de cordel contribui para a socialização de valores e crenças cristãs. 

O companheirismo satânico não é apologia de Lúcifer, mas convite ao rebanho do Senhor. 

Raphael Cruz


Referência

SIUDA-AMBROZIAK, Renata. O bom diabo na literarura de cordel. Fênix-Revista de História e Estudos Culturais, v. 16, n. 1, p. 1-18, 2019.

Lovecraft: sociólogo acidental numa cidade surreal

H.P Lovecraft (1890-1937)


É comum que escritores de ficção abordem temas sociológicos tais como poder, riqueza, classe, raça, gênero e geração. 

Também não é raro que arrisquem interpretações "sociológicas", ainda que não possuam treinamento profissional. 

Chamo isso de sociologia espontânea ou sociologia na literatura. 

A acadêmica sociologia da literatura refere-se ao estudo sociológico de uma obra. Busca explicar as condições sociais da produção literária ou compreender seu significado cultural. O sociólogo é o seu operador. É um exercício de análise científica.

Já a sociologia na literatura é uma análise "sociológica" por meio de uma peça literária. São obras ficcionais que inventam teorias espontâneas para explicar as relações sociais em seus mundos inventados. O escritor é o seu operador. É um exercício de imaginação literária.


Ilustração de Frank Utpatel para a 1° edição de Sombra sobre Innsmouth


Sombra sobre Innsmouth é um conto de H.P Lovecraft publicado em 1936.

Trata-se do relato de um jovem que, durante viagem pela Nova Inglaterra, pernoita em Innsmouth, povoado portuário, decadente e misterioso, que nem sequer consta no mapa. 

A narrativa em primeira pessoa sobre o lugar e seus habitantes assemelha-se a retórica da etnografia urbana.

A descrição da geografia, arquitetura, história e demografia de Innsmouth aparenta os antigos estudos de comunidade da primeira metade do século XX, tão comuns na sociologia. 

Abaixo, alguns trechos que exemplificam a sociologia na literatura de Lovecraft:

"Não valeria à pena, disse-me o meu informante, perguntar aos nativos alguma coisa sobre o lugar. O único que falaria era um homem muito idoso, mas de aparência normal, que vivia no asilo na periferia norte da cidade e matava o tempo andando de um lado para outro e fazendo hora no Corpo de Bombeiros" (Lovecraft, [1936] 2020, p. 29). 

"A cidade, como eu podia perceber, era um exemplo significativo e exagerado de decadência comunal, mas, não sendo nenhum sociólogo, eu limitaria minhas observações sérias ao campo da arquitetura" (Idem, p. 32). 

"No último momento, decidi que o melhor a fazer era desacelerar o passo e fazer o cruzamento como antes, com o modo de andar cambaleante de um nativo médio de Innsmouth" (Idem, p. 79-80).

Na primeira citação, o personagem lida com um problema corriqueiro de antropólogos e sociólogos, encontrar seus interlocutores de pesquisa, pessoas que possam lhe informar sobre a vida no lugar.

Na citação seguinte, o personagem de Lovecraft inventa o conceito "sociológico" de decadência comunal. O próprio autor deve ter percebido como sua prosa estava sociológica ao ponto de tentar restringir a observação à arquitetura. 

Na último citação selecionada, o personagem tenta passar desapercebido pelas pessoas ao imitar o que acredita ser o andar do nativo médio de Innsmouth. Não ser notado é uma tática de "camuflagem" que alguns cientistas sociais almejam, ainda que de difícil alcance e nem sempre o melhor a se fazer.

A narrativa revela um jovem impressionado com um lugar fantástico e seus habitantes fantasmagóricos, que se tornou por acidente um sociólogo espontâneo, pois estendeu para além da arquitetura as suas observações sobre aquela sociedade.

Além da perspectiva preconceituosa de Lovecraft sobre migração e raça, conhecida por seus leitores críticos, o conto é um exercício de etnografia surrealista e sociologia espontânea.

Se o literato torna-se sociólogo por acidente, alguns sociólogos almejam a arte. 

No livro Cruz das Almas (1966), um estudo de comunidade, Donald Pierson convencera-se  de que os sociólogos poderiam combinar os papéis do artista e do cientista. Caberia ao leitor, continua Pierson,  julgar se o cientista alcançou ou não o objetivo. 

Em A sociologia como forma de arte (1976), Robert Nisbet comparou os trabalhos de Simmel, Durkheim e Weber aos de Balzac e Dickens. Disse que as primeiras, devido à sensibilidade artística e intuição daqueles sociólogos, pertencem à história da arte tanto quanto a literatura dos escritores pertence à história das ciências sociais. 

Bourdiei em As regras da arte (2002), afirmou que a literatura pode por vezes dizer mais, mesmo sobre o mundo social, que muitos escritos com pretensão científica. 

Em Bourdieu e a litetatura (2017), John Speller observa que a sociologia e a literatura, apesar de diferentes e até opostas, têm muito a aprender uma com a outra. 

A ideia de uma sociologia na literatura não é tão absurda. Se levada à sério, pode encorajar a descoberta de um interessante material sobre a burocracia em O processo (1925), de Fraz Kafka ou um exercício de sociologia política do Estado em 1984 (1949), de George Orwell. 

Para Nisbet (1976), a sociologia é uma ciência, mas também uma arte nutrida pelo mesmo tipo de imaginação encontrada na literatura ou pintura. 

Ao estudar as expressões da sociologia na literatura pode-se enriquecer o ponto de vista sociológico a partir de novos ângulos sobre temas tradicionais das ciências sociais.


Raphael Cruz

Philip K. Dick e o realismo crítico

Philip K. Dick (1928-1982)


"A realidade é aquilo que, quando você para de acreditar, não desaparece."

Essa famosa frase de K. Dick rende boas problematizações em torno da relação entre epistemologia e ontologia.

Para o autor, a realidade, de alguma maneira, independe do que eu penso dela, a realidade "está lá fora".

Dick, assim como os teóricos do realismo crítico, critica a "falácia epistêmica", que atribui uma correspondência exata entre a subjetividade do ponto de vista do agente e a objetividade do mundo natural e social. 


Raphael Cruz

B. Traven: self em fluxo clandestino

 

B. Traven (~1882-1969)


É intelectualmente estimulador construir os textos para a disciplina de Estágio III ministrada pela professora Glória.

Acredito que vivi poucos ou nenhum momento durante a pós-graduação no qual pude comentar sobre um autor de minha preferência e ainda por cima não sendo um autor das ciências sociais.

Escolher uma “obra de arte” e falar sobre ela é, em certa medida, também falar sobre nós mesmos.

Os gostos podem indicar algumas orientações filosóficas, estéticas e ideológicas, no sentido forte dessa última palavra.

Quando o colega Ítalo falou que este seria o mote da primeira aula do mês de maio, pensei no que poderia contribuir para aquele momento.

Algumas alternativas surgiram: eu falaria sobre o Livro Um da Saga do Monstro do Pântano escrita pelo Alan Moore nos anos 80 para a DC Comics, ainda que as histórias em quadrinho não sejam consideradas um tipo de expressão qualificada como arte por algumas pessoas e instituições.

Eu poderia também falar sobre Warriors, um livro de ficção sobre gangues escrito por um assistente social americano que tornou-se escritor de ficção científica, ou do filme baseado em seu livro, Warriors: Os selvagens da noite, ainda que filmes de ação também tenham alguma dificuldade de serem classificados como arte.

No entanto, escolhi falar sobre B. Traven porque venho lendo seus livros nos últimos anos e tentando entender suas histórias e sua biografia.

Disseram que B. Traven era na verdade Erich Mühsam, um judeu-alemão anarquista, poeta e ator, um dos agitadores da Revolução Alemã que fundou a República Soviética da Baviera entre 1918 e 1919.

Contudo, Muhsam foi assassinado pelos nazistas em decorrência de sua origem étnica e orientação política num campo de concentração em 1934, quando tinha 56 anos de idade.

Disseram que B. Traven era Esperanza, escritora comunista e lésbica, a irmão já falecida do presidente mexicano Adolfo Lopez Mateos, ou até mesmo o próprio presidente.

Contudo Adolfo desconfirmou o boato numa conferência de imprensa em 1960, durante uma visita oficial à Buenos Aires, afirmando que quando Traven publicou sua primeira  novela sua irmã tinha cinco anos de idade e ele era um ano mais novo do que ela.

Disseram que ele seria um pseudônimo do escritor norte-americano Jack London.

B. Traven seria também Arthur Cravan um suíço, sobrinho de Oscar Wilde e conhecido como boxeador, poeta e ator, percebido como um ancestral pelos artistas dadaístas e surrealistas. Cravan foi visto pela última vez na Costa do México em novembro de 1918.

Disseram que Traven seria o crítico satírico e jornalista Ambrose Bierce, nascido em Ohio, no meio-oeste dos EUA, que desapareceu sem deixar rastros durante uma viagem ao México, sendo a teoria mais popular a que diz que foi fuzilado pelos revolucionários do exército de Pancho Villa em dezembro de 1913.

O certo é que B Traven foi um escritor. Seus 17 livros, entre novelas e contos, publicados entre 1927 e 1975, venderam bem e de tão populares tornaram-se filmes em Hollywood ou séries de TV na América e na Europa entre os anos 1940 e 1980.

Entre eles, O tesouro de Sierra Madre, estrelado por Humphrey Bogart e ambientado no México, ganhou o Oscar de 1949, nas categorias melhor diretor, melhor roteiro adaptado e melhor ator coadjuvante.

Outro fato é que ele não gostava dos holofotes, a maneira de Salinger, o autor de O Apanhador no Campo de Centeio, e tinha interesse em embaralhar qualquer uma das pistas que pudessem levar ao conhecimento de sua vida.

As suas narrativas são ambientadas no México, e os personagens principais são indígenas, trabalhadores do algodão, camponeses, mineiros, sindicalistas, revolucionários e quase todas as pessoas que podem ser classificadas como sendo os oprimidos politicamente, os explorados economicamente, as classes trabalhadoras ou, para usar um termo nem tão novo, os subalternos.

Apesar de não deixar conhecer sua vida, o seu texto é entendido pelos críticos literários como derivando de sua experiência pessoal entre os “de baixo”.

Tomei conhecimento dessa figura enigmática que é B. Traven quando tinha vinte e poucos anos, e lia jornais e boletins anarquistas.

Tive a oportunidade de adquirir alguns de seus livros em sebos, pois estão esgotados desde os anos 1980, com a exceção de Visitante Noturno, que ganhou uma edição em 2008 e foi escolhido por Jorge Luis Borges para sua compilação com a melhor literatura fantástica de todos os tempos.

Suas narrativas são permeadas por temas tratados pelo cientista social, a alteridade, as ruralidades, a migração, o mundo do trabalho, a desigualdade econômica, os choques culturais, os conflitos sociais.

Tendo derivado sua narrativa de sua experiência pessoal, Traven pode ser enquadrado naquela categoria de autores na qual estão o Joseph Conrad  de Coração das Trevas e o Guimarães Rosa de Grande Sertão: Veredas, literatos, que à sua maneira, fazem o cientista social aprender sociologia e antropologia por outros meios.

Voltando ao enigmático B. Traven. A versão mais aceita pelos biógrafos e críticos é que Traven foi na verdade Ret Marut, um ator de teatro e anarquista alemão, que deixou a Europa em direção ao México por volta de 1924, que editou um jornal cultural e político anarquista.

Foi um agitador da Revolução Alemã de 1918, da qual nasceu a República Soviética de Munique, logo após a I Guerra Mundial.

Em abril de 1919, é proclamada a República Soviética da Baviera, e Marut é eleito diretor do departamento de imprensa do Comitê Central, integrando o Comitê de Governo.

Em primeiro de maio do mesmo ano, ele é preso depois da invasão e vitória da Guarda Branca.

Os reacionários, o declaram culpado de “alta traição” em 23 de junho, e depois de fugir com sucesso, seu nome vai para a lista dos “mais procurados” da polícia política bávara.

Marut segue para Berlin.

De 1919 ao verão de 1923, ele reside clandestinamente em diferentes lugares da Alemanha e da Áustria.

Em dezembro de 1921, aparece o último dos treze números do jornal que editava.

Em agosto de 1923, Marut chega à Londres, mas em novembro é preso por não cumprir o registro obrigatório de estrangeiros.

Em março de 1924, é liberado e embarca para o México, aportando na costa entre os meses e junho e julho daquele ano.

Em seu diário de 26 de julho, escreve: “o bávaro de Munique está morto”. Em 1925, surge pela primeira vez o nome B. Traven.

É publicada em fascículos, no jornal alemão Avante, sua novela Os colhedores de algodão.

Em 1926, como fotógrafo e com o nome de Torsvan, Traven faz parte da experdição à Chiapas, no Sul do México, organizada pelo arqueólogo Enrique Juan Palacios.

Seu primeiro livro, O Barco da Morte é publicado na Alemanha. Daí em diante inicia-se uma bem sucedida carreira de escritor.

O anarquista B. Traven era o escritor preferido do estadista inglês Winston Churchill e do físico Albert Einstein, que, ao ser perguntado sobre qual livro levaria para uma ilha deserta, respondeu: “qualquer um que tenha sido escrito por B. Traven”.

Traven faleceu em 26 de julho de 1969, na Cidade do México. Rosa Elena Lujan, sua viúva, revelou que ele havia sido Ret Marut, o anarquista bávaro.

A universidade da Califórnia detém o acervo de Traven. A curadora de uma das exposições do acervo, Heidi Hutchinson, disse em entrevista ao site da Vice que o testamento de Traven declara que ele “nasceu em Chicago, Illinois, em 3 de maio de 1890, filho de Burton Torsvan e Dorothy Croves Torsvan, ambos falecidos”.

E arremata que “não ouvi falar de ninguém que acredite que essas informações sejam verdadeiras”.

Essa versão do testamento é próxima à que ele deu as autoridades da Baviera quando foi preso após a derrota da Revolução Alemã.

Nessa versão ele dizia a polícia que nada podia ser provado através de documentos porque um terremoto seguido de incêndio destruiu tudo em 1906.

“Para mim, é mais provável que Traven tenha nascido lá”, disse Lujan, afirmando a versão do testamento.

“Ele conversou comigo sobre coisas da infância em Chicago”. Ele também falou, com desaprovação, sobre sua mãe, “uma bela atriz de sangue irlandês ou inglês”, chamada Helene Ottorent.

Mas as poucas gravações de Traven, entre as quais uma descoberta recentemente em um programa de televisão patrocinado pelo governo mexicano sobre sua vida e obra, mostram que ele falava inglês com um pronunciado sotaque alemão ou escandinavo.

“Eu não descarto um nascimento americano”, disse Guthke, um dos seus biógrafos. “Ele pode ter sido filho de uma atriz alemã que se apresentou nos Estados Unidos e voltou para a Alemanha quando ele era criança”.

Um persistente jornalista escreveu a Traven e perguntou sem rodeios “Quem diabos é você?”, O escritor respondeu: "Se eu soubesse, acho que não seria capaz de continuar escrevendo, ou não teria escrito os livros que escrevi'”.

A sra. Lujan lembrou: “Ele costumava dizer para mim: ‘Eu sou mais livre do que qualquer outra pessoa. Sou livre para escolher os pais que quero, o país que quero, a idade que quero’. Mas a realidade é que ele não sabia exatamente como ou onde nasceu”, disse Lujana.

“Ele nunca teve uma certidão de nascimento”.

Parece que o plano de fuga de Ret Marut funcionou, pois, mesmo estando na lista dos mais procurados nas vésperas da II Guerra Mundial, numa Alemanha que tornava-se nazista odiando judeus, gays, artistas e anarquistas, ele jamais foi pego pelas autoridades.

A clandestinidade foi vivida não só através da migração geográfica e do anonimato jurídico, mas também através de um self clandestino de si mesmo, que após a fuga bem-sucedida da Europa em direção ao México continuou fugindo porque criando identidades através de um fluxo de “selfs”: Marut, Traven, Trosvan.

Talvez o plano de fuga tenha funcionado tão bem que chamou atenção das pessoas para o maior de seus personagens, B. Traven. Marut era autor de livros, mas também havia sido ator de teatro e soube desempenhar papéis até o final da vida “fora dos palcos” ou dentro do maior palco de todos, sua biografia.

Sociologia na ficção científica

A ficção científica é uma das poucas literaturas de ideias que ainda ousa pensar possibilidades de futuro frente ao “fim da história” do neoliberalismo ou dos apocalipses anunciados por Hollywood.

Em especial um ramo da FC é rico em possibilidades teóricas sociológicas, é a social science fiction.

Nesse “subgênero” figuram nomes como Aldous Huxley, Isaac Asimov, Ray Bradbury e Georg Orwell.

Resumidamente, se configura como uma FC que se concentra mais em questões de sociabilidade e estrutura social do que de tecnologia.

Dessa forma, o determinismo tecnológico que tão marcadamente impregna a maior parte da produção de FC é substituída por um “determinismo social”.

De um ponto de vista pedagógico, essa literatura ainda pode auxiliar nas disciplinas de introdução a sociologia nas escolas e universidades como uma alternativa preliminar aos textos mais densamente teóricos, se utilizando das metáforas literárias como algo que pode despertar a imaginação sociológica e o interesse dos recém-chegados ao mundo da sociologia.

Sobre a FC como recurso pedagógico em aulas de sociologia ver LAZ, Cheryl. Science Fiction and Introductory Sociology: The “Handmaid” in the Classroom. Teaching Sociology, Vol. 24, No. 1 (Jan., 1996, pp. 54-63).

Capítulos do livro MILSTRED, John W.; GREENBERG, Martin Harry (Org.). Sociology Through Science Fiction. New York: St. Martin Press, 1974. Os capítulos desse livro discutem tópicos como indivíduo e sociedade, entre outros, a partir de obras de FC.

Segue a relação dos capítulos:

The Study of Society

(Lost Newton, Misinformation)

Social Organization and Culture

(Positive Feedback, Deeper Than The Darkness, Of Course, Slow Tuesday Night, Gadget vs. Trend, Nobody Lives on Burton Street, The Shaker Revival, Guilty As Charged)

The Study of Society

(Lost Newton, Misinformation)

Social Organization and Culture

(Positive Feedback, Deeper Than The Darkness, Of Course, Slow Tuesday Night, Gadget vs. Trend, Nobody Lives on Burton Street, The Shaker Revival, Guilty As Charged)

Self and Society

(Integration Module)

Social Differentiation

(A Day In the Suburbs, Pigeon City, Generation Gaps)

Social Institutions

(Two’s Company, Primary Education of the Camiroi, Birthright, The Pedestrian, A Canticle for Leibowitz)

Population and Urban Life

(Total Environment, Single Combat).

Sarah Wernenchak fez a seguinte lista de filmes e temas que podem ser abordados a partir deles em aulas de sociologia:

Metropolis (1927) – gender, social class

Blade Runner (1982) – definitions of humanity, gender, slavery, stratification

Brazil (1985) – gender, rationalization, social class

Aliens (1986) – capitalism, gender

Gattaca (1997) – bodies, disability, identity

Princess Mononoke (1999) – gender

The Lord of the Rings trilogy (2001-2003) – gender, race

Children of Men (2006) – gender, immigration, race, reproductive politics

District 9 (2009) – postcolonialism, race

Avatar (2009) – postcolonialism,race

Santa Tristessa

Jack Kerouac (1922-1969)


Tristessa (L&PM, 2006) é uma narrativa urbana e poética em primeira pessoa acerca da paixão do escritor Jack, alterego de Kerouc, pela prostituta Tristessa.

A ficção é estruturada no ritmo das idas e vindas dos dois em busca de drogas e amor.

Pode não ser uma história de amor, mas é com certeza uma história sobre amor.

A trama se passa na Cidade do México dos anos 1950, mais precisamente em sua periferia e bocas de fumo, nos bairros populares precários, sem saneamento e habitados pela classe trabalhadora, prostitutas, vagabundos.

Tristessa, assim como outros livros de Kerouac, é baseado na vida do autor, mesclando elementos biográficos e ficcionais.

A novela possui cinco personagens: as prostitutas Cruz e Tristessa, os viciados El índio e Old Bull, e o narrador, o próprio Jack.

Se livros como On The Road ou Dharma Bums são ambientadas em estradas, ferrovias e montanhas, a novela poética Tristessa se passa, na maior parte do tempo, em sujos ambientes de quatro paredes habitados por viciados em busca de uma dose.

Toda a novela é impregnada por um clima junk de chapação, drogas, alcoolismo, embriaguez, desorientação mental, enjoo e vomito

A narrativa é frenética, marcada por espanholismos e uma construção literária entre a prosa e a poesia.

Em certos trechos, lembra o poema Uivo, de Allen Gisnberg.

Na novela estão presentes os elementos costumeiros da escrita de Kerouac como o cristianismo e sua aproximação com o budismo; a aproximação entre profano e sagrado, representada por Tristessa, uma prostituta viciada católica praticante; diálogos semifilosóficos e semirreligiosos, que desembocam na criação de alguma máxima zen budista do tipo “nascidos para morrer”; a presença de amigos do autor como personagens semi-biográficos, neste caso William Burroughs como Old Bull.

Tudo isso embalado por citações de músicas de Frank Sinatra.

Como disse no início, essa pode não ser uma história de amor clássica, mas é uma história sobre amor, um amor de nossos tempos, um amor forte por uma figura frágil como Tristessa, que você deve ter cuidado para não cortar os dedos ao tentar agarrá-la e quebrá-la como um copo sujo de uísque barato.

Vagabundos e iluminados

 

Jack Kerouac (1922-1969)

Vagabundos iluminados (L&PM, 2004) é outro “livro de estrada”, mais uma road novel de Kerouac, assim como On the road e Viajante solitário.

O livro possui um enredo relativamente simples com poucos personagens.

Alguns dizem que ele é um On the road zen budista, espirituoso e iluminado.

Ele é mais religioso, com tentativas de conciliação entre oriente e ocidente, numa aproximação ética entre budismo e cristianismo.

A novela foi lançada um ano depois do sucesso de On the road.

Ela explora as andanças dos jovens universitários Ray Smith e Japh Rider vestidos com roupas baratas vendidas pelo Exército da Salvação, alimentados por boas refeições de vinte centavos em restaurantes de beira de estrada numa busca espiritual por trilhas em montanhas, rodovias e ferrovias estadunidenses, com um monte de andarilhos e demais vagabundos pelo caminho.

Tudo isso embalado por conversas sobre zen budismo, o vazio, alpinismo, a verdade e a poesia.

O livro possui descrições de paisagens, e da natureza, o que às vezes o torna cansativo, a não ser que você tenha um interesse especial por naturalismo ou geologia.

Apresenta também uma quantidade variada de cardápios para andarilhos, de feijão com carne de porco às frutas desidratadas.

Além de todas as dicas de logística para mochileiros, poeminhas improvisados durante caminhadas e todo o papo furado zen budista sobre o sentido da vida, Vagabundos iluminados é uma jornada espiritual e física à América profunda, a América popular, povoada por todos os tipos da classe trabalhadora do mar à terra, de caminhoneiros à estivadores.

É uma trilha com passagens iluminadas e outras escuras de um jovem em busca de si.

Morreu o homem que inventou a adolescência

Morreu nesta quarta-feira (27) o escritor J. D. Salinger, autor do clássico O Apanhador no Campo de Centeio.

Este é um livro que você carrega para a vida inteira, principalmente se o ler na adolescência.

Quando o li já estava com 23 anos e me arrependi de não tê-lo lido com 17.

Mesmo assim me identifiquei com o protagonista, o jovem e inquieto Holden Caulfield.

Salinger levou uma vida reclusa, longe da imprensa e das investidas de diretores e editores de criar uma continuação de seu livro clássico.

O diferencial  de seu livro para a época em que foi escrito (1951) foi ter colocado como protagonista um adolescente, o que era raro num mundo literário dominado pela figura do adulto.

Alguns chegaram a afirmar que Salinger inventou a adolescência na segunda metade do século XX.

Se você conhece algum jovem inquieto no auge de sua juventude, não deixe de recomendar a leitura de O Apanhador no Campo de Centeio, talvez ele te agradeça no futuro.

Mas mesmo que você não seja mais um garoto, não deixe de ler, poderá descobrir ou redescobrir coisas esquecidas.

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