A
AÇÃO SOCIAL
Ação social e organização social
Do ponto de vista da interação simbólica, a organização social é uma estrutura dentro da qual unidades atuantes desenvolvem suas ações. Aspectos estruturais tais como "cultura", "sistemas sociais", "estratificação social", ou "papéis sociais" estabelecem condições para a ação, mas não determinam essa ação. (BLUMER, Herbert. 1962. "Society as symbolic interaction". In: A. M. Rose (org.), Human behavior and social processes Boston: Houghton Mifflin).
AGRICULTURA DE SUBSISTÊNCIA
Esta forma de agricultura é praticada por camponeses que cultivam plantações para alimentar a si mesmos e suas famílias. Tradicionalmente, este modo de agricultura é orientado em torno da reprodução social da unidade familiar e produz pouco ou nenhum excedente para fins comerciais. Hoje, a agricultura de subsistência é cada vez mais combinada com várias formas de trabalho agrícola assalariado e emprego fora da fazenda para atender às necessidades de consumo doméstico. (SAJADIAN, China. Critical Agrarian Studies. In: International Encyclopedia of Human Geography. 2. ed. Volume 3. Amsterdam: Elsevier, 2020. p. 17).
AMBIENTE CONSTRUÍDO
Os edifícios, estradas e outras estruturas feitas por pessoas e nas quais elas vivem, trabalham ou viajam (COLLIN, Peter. Dictionary of environment and ecology. Londres: Bloomsbury, 2004. p. 28).
AMBIENTE NATURAL
A parte da Terra que não foi construída ou formada por seres humanos. Igual ao habitat natural, uma área de terra ou água onde a maioria das espécies são nativas e tem havido muito pouca atividade humana (COLLIN, Peter. Dictionary of environment and ecology. Londres: Bloomsbury, 2004. p. 148).
ANARQUIA
Anarquia em Mikhail Bakunin
(...) A anarquia, quer dizer, a organização livre e autônoma de todas as unidades ou partes separadas que compõem as comunas e sua livre federação, fundada de baixo para cima, não pela injunção de qualquer autoridade que seja, mesmo eleita, nem tão pouco pelas formulações de uma sábia teoria, qualquer que seja ela, mas em consequência do desenvolvimento natural das necessidades de todos os tipos, que a própria vida fizer aparecer. (BAKUNIN, Mikhail. Estatismo e anarquia. São Paulo: Imaginário/Nu-Sol/Ícone, 2003, p. 237).
(...) A anarquia, isto é, a livre organização das massas operárias, de baixo para cima (...). (BAKUNIN, Mikhail. Estatismo e anarquia. São Paulo: Imaginário/Nu-Sol/Ícone, 2003, p. 214.).
Anarquia em Proudhon
Anarquia, ausência de mestre, de soberano, tal é a forma de governo de que todos os dias nos aproximamos. (Pierre-Joseph Proudhon. O que é a propriedade? Lisboa: Editorial Estampa, 1975.p. 239).
ANARQUISMO
O anarquismo é, ao mesmo tempo, uma ciência social e um projeto revolucionário. Por um lado, é um sistema de hipóteses interpretativas sobre a sociedade e a história (ou sobre as mudanças sociais); um sistema de análises que, partindo do reconhecimento dos males sociais, enfatiza a natureza da exploração e da opressão, da injustiça e da desigualdade, seja de acordo com a evolução histórica, seja identificando suas causas. Por outro lado, é também (e sobretudo) um projeto revolucionário, isto é, um desejo organizado de transformar a realidade social, substituindo a lógica hierárquica dos poderosos (patrões, reis, generais, bispos, presidentes, outros burocratas…) pela tendência igualitária e libertária das classes dominadas (proletários, escravos, servos e camponeses, súditos, cidadãos…); um desejo organizado baseado em escolhas estratégicas e táticas operativas, derivadas de hipóteses científicas assumidas como fundamentais. BERTOLO, Amadeo. Anarchists and Proudly So. [S.l.]: The Anarchist Library, [20--]. Disponível em: https://theanarchistlibrary.org/library/amadeo-bertolo-anarchists-and-proudly-so. Acesso em: 7 de março de 2025.
ANARCOSSINDICALISMO
Origem do termo anarcossidicalista
Foi a partir desta época, por volta de 1922-1923, que o termo “anarcossindicalista” começou a se espalhar nas fileiras da minoria sindicalista revolucionária da CGTU. O termo foi inventado antes da guerra pelos Guesdistas para desacreditar o sindicalismo revolucionário. Depois da guerra, os comunistas, por sua vez, usaram-no para fins polémicos contra os seus adversários. A minoria da CGTU, quase reduzida à sua componente libertária, acaba por se apropriar deste rótulo supostamente infame. O termo, por outro lado, não foi usado oficialmente até 1937, quando Pierre Besnard elevou-o ao status de doutrina por direito próprio.
Neste mesmo congresso [AIT, Espanha, 1937], Besnard apresentou um relatório que, pela primeira vez, elevou oficialmente o anarco-sindicalismo à categoria de doutrina. Neste texto, intitulado “Anarco-sindicalismo e anarquismo. Táticas e intervenção sindical”, explicou que o anarco-sindicalismo tirou “a sua doutrina do anarquismo e a sua forma de organização do sindicalismo revolucionário”. (Maitron, Jean; Devranche Guillaume. Bernard, Eugene Pierre. Le Maitron. Disponível em: https://maitron.fr/spip.php?article157323. Acesso em: 10 fev. 2024.).
AUTOCRACIA BURGUESA
O que entrava em questão era, portanto, o problema da autocracia (embora dissimulado sob a aparência ambígua da “democracia forte”). Só assim ela podia deter os processos incipientes ou adiantados de desagregação da ordem, passando de uma ordem burguesa “frouxa” para uma ordem burguesa “firme”. Aí, o elemento político desenhava-se como fundamento do econômico e do social, pois a solução do dilema implicava, inevitavelmente, transformações políticas que transcendiam (e se opunham) aos padrões estabelecidos institucionalmente de organização da economia, da sociedade e do Estado. As “aparências da ordem” teriam de ruir, para que se iniciasse outro processo, pelo qual a dominação burguesa e o poder burguês assumiriam sua verdadeira identidade, consagrando-se em nome do controle absoluto das relações de produção, das superestruturas correspondentes e do aparato ideológico. (FERNANDES, Florestan. A revolução burguesa no Brasil: ensaio de interpretação sociológica. Rio de Janeiro: Zahar, 1975, p. 333. Grifos do autor.)
Autocracia e revolução burguesa no Brasil
(...) a Revolução Burguesa combina – nem poderia deixar de fazê-lo - transformação capitalista e dominação burguesa. Todavia, essa combinação se processa em condições econômicas e histórico-sociais específicas, que excluem qualquer probabilidade de “repetição da história” ou de “desencadeamento automático” dos pré-requisitos do referido modelo democrático-burguês. Ao revés, o que se concretiza, embora com intensidade variável, é uma forte dissociação pragmática entre desenvolvimento capitalista e democracia; ou, usando-se uma notação sociológica positiva: uma associação racional entre desenvolvimento capitalista e autocracia (FERNANDES, Florestan. A revolução burguesa no Brasil. Rio de Janeiro: Zahar Editores, Segunda Edição, 1976. p. 292).
AUTONOMIA DA SOCIEDADE
O que Proudhon quer dizer com "autonomia da sociedade" é o poder latente e a possibilidade real que a sociedade possui de se organizar e governar de acordo com suas próprias leis sociológicas - e isso sem qualquer aparato produtivo ou político, externo a ela, que a domine por meio da arbitrariedade de um Estado, da preponderância de um capital ou da onipotência de um Estado. (Jean Bancal. Proudhon : une sociologie de l’autogestion. In: Autogestion : études, débats, documents, N°5-6, 1968. pp. 149-180. Disponível em: www.persee.fr/doc/autog_0005-0970_1968_num_5_1_926. Acesso em 10 out. 2024).
***
B
BURGUESIA
Burguesia no Brasil
A burguesia brasileira não surge, pois, das entranhas de uma sociedade feudal que não existiu no Brasil. Ela não nas- ce, também, como a burguesia européia, das camadas mé- dias que se aglomeram nas cidades medievais em função do comércio em expansão, camadas que se viram obrigadas a lutar contra a nobreza feudal para livrar-se das travas que impediam seu desenvolvimento. E, muito menos, como a burguesia americana, de pequeno-burgueses independentes.
Ao contrário. A burguesia brasileira nasce do entesou- ramento praticado pelos latifundiários e grandes comer- ciantes e sob a proteção do Estado. Nasce, pois, no berço esplêndido das velhas classes dominantes. (Wladimir Pomar. Um mundo a ganhar. São Paulo: Viramundo, 2002. p. 21.)
C
CAPACIDADE POLÍTICA
O problema da capacidade política na classe operária, assim como na classe burguesa e outrora na nobreza, equivale, então, a perguntar-se: a) se a classe operária, do ponto de vista de suas relações com a sociedade e com o Estado, adquiriu consciência de si mesma; se, como ser coletivo, moral e livre, distingue-se da classe burguesa; se ela separa desta seus interesses, se quer absolutamente não se confundir mais com ela; b) se possui uma ideia, isto é, se ela criou-se uma noção de sua própria constituição; se conhece as leis, condições e fórmulas de sua existência; se prevê dela o destino, o fim; se ela compreende-se em suas relações com o Estado, a nação e a ordem universal; c) se dessa ideia, enfim, a classe operária está em condição de deduzir, para a organização da sociedade, conclusões práticas que lhe sejam próprias, e, no caso em que o poder, pela decadência ou pelo recuo da burguesia, teria a atribuição de criar e desenvolver uma nova ordem política. (Pierre-Joseph Proudhon, Da capacidade política das classes trabalhadoras, Tomo I. Tradução Plínio Coeho. São Paulo: Intermezzo, 2019, p. 59).
CATEGORIA
O mundo não tem nenhuma obrigação de corresponder às categorias por meio das quais é pensado – ainda que, como disse Durkheim, só possa existir para as pessoas da maneira como é pensado. (SAHLINS, Marshall. Experiência individual e ordem cultural. In: Cultura na prática. Tradução Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2004, p. 316).
CAPITALISMO
Capitalismo como realidade sociocultural
O capitalismo não é apenas uma realidade econômica. Ele é também, e acima de tudo, uma complexa realidade sociocultural, em cuja formação e evolução histórica concorreram vários fatores extra-econômicos (do direito e do Estado nacional à filosofia, à religião, à ciência e à tecnologia). (FERNANDES, Florestan. Sociedade de classes e subdesenvolvimento. Rio de Janeiro: Zahar, 1968).
Capitalismo como oposição à socialização
O capital assume, realmente, o poder da sociedade a partir do século XVI - não como uma excrescência da sociedade feudal, mas como uma força que se opõe à alternativa libertadora socializante das massas populares. (Kostas Vergopoulos. Capitalismo disforme. In: Samir Amin; Kostas Vergopoulos. A questão agrária e o capitalismo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977. p. 45-46).
Capitalismo como versão da escravidão
Podemos argumentar que o capitalismo moderno é na verdade uma versão renovada da escravidão. Não precisamos mais de um grupo de pessoas que vendem ou alugam outros seres humanos, nós mesmos nos vendemos. (David Graeber. Fragmentos de antropologia anarquista, 2004).
Capitalismo de monopólios generalizados
O capitalismo contemporâneo é um capitalismo de monopólios generalizados. Com isso, quero dizer que, desde então, os monopólios não são mais ilhas em um oceano de empresas ainda relativamente autônomas, e sim um sistema integrado. E que, por esse motivo, doravante controlam rigorosamente todos os sistemas produtivos. As pequenas e médias empresas, e até mesmo as grandes que não pertencem à esfera da propriedade formal dos conjuntos oligopolísticos, são encerradas em redes de controle estabelecidas pelos monopólios. Por conseguinte, sua margem de auto- nomia se encolhe, e essas unidades de produção tornam-se terceirizadas dos monopólios. O sistema de monopólios generalizados é produto de uma nova etapa da centralização do capital nos países da tríade - Estados Unidos, Europa Ocidental e Central e Japão - que se desenvolveu durante as décadas de 1980 e 1990. (Samir Amin. A implosão do capitalismo contemporâneo: outono do capitalismo, primavera dos povos?. Rio de Janeiro: UFRJ Editora, 2018.).
Capitalismo e democracia
É absolutamente ridículo atribuir ao atual capitalismo em seu apogeu, uma afinidade eletiva com a "democracia" ou mesmo com a "liberdade", ao passo que a única questão que se coloca é como, sob sua dominação, todas essas coisas serão "possíveis" com o passar do tempo. (Max Weber, À propos de la situation de la democratie bourgeosie en Russie, 1996).
Capitalismo e fabricação da classe trabalhadora
É contra os camponeses revoltados, os vagabundos, mendigos, preguiçosos, loucos, garotos, prostitutas, delinquentes e salteadores; em resumo, contra um "exército de decaidos" da sociedade feudal, que o poder do capital afirma-se inicialmente. Trata-se de montar com todas as peças e fabricar, a todo custo, uma classe trabalhadora a partir dos elementos deste exército de decaídos. (Kostas Vergopoulos. Capitalismo disforme. In: Samir Amin; Kostas Vergopoulos. A questão agrária e o capitalismo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977. p. 46.).
Capitalismo e fatores extra-econômicos
O modo de produção só se apresenta como tal porque pressupõe, embora dissimuladamente, toda uma série de atividades extra-econômicas (ideologia, Estado, tribunais, exército, polícia, instituições, sindicatos, etc.). (Kostas Vergopoulos. Capitalismo disforme. In: Samir Amin; Kostas Vergopoulos. A questão agrária e o capitalismo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977. p. 46.).
Capitalismo e guerra contra a imaginação
Desde o colapso financeiro de 2008, fomos deixados na situação bizarra em que é evidente para todos que o capitalismo não funciona, mas é quase impossível para qualquer um imaginar outra coisa. A guerra contra a imaginação é a única que os capitalistas realmente conseguiram vencer. (David Graeber, Contra o capitalismo kamikaze, 2011).
Capitalismo e questão agrária
É pela terra que começou a exploração do homem; é na terra que ela lançou seus sólidos alicerces. A terra ainda é a fortaleza do capitalismo moderno, como foi a cidadela do feudalismo e do antigo patrício. É a terra, enfim, que devolve à autoridade, ao princípio governamental, uma força sempre nova (...). (Pierre-Joseph Proudhon. Idée générale de la Révolution au dix-neuvième siècle. Disponível: fr.theanarchistlibrary.org).
A questão agrária sempre esteve no centro da função social que cumpre América Latina e Caribe na dinâmica geral de produção e reprodução do capital. (Traspadini, Roberta. 2018. Questão agrária e América Latina: breves aportes para um debate urgente. Rev. Direito e Práxis).
Capitalismo e natureza
(...) O capitalismo produziu uma nova contradição, talvez a mais importante: o choque entre uma economia baseada no crescimento sem fim e o esgotamento do ambiente natural. Essa questão e suas vastas ramificações não podem mais ser minimizadas, muito menos descartadas (...). (...) Considero essa contradição mais fundamental do que a tendência (...) de declínio da taxa de lucro e, portanto, de tornar inoperante a troca capitalista - uma contradição à qual os marxistas atribuíram um papel decisivo no século XIX e no início do século XX. (Murray Bookchin. The communalist project. In: Murray Bookchin, The social ecology and communalism. New Compass, 2006).
CERCAMENTO
De acordo com a tradição marxista, os cercamentos foram o ponto de partida da sociedade capitalista. Eram o dispositivo básico da "acumulação primitiva", que criou uma população de trabalhadores "livres" de qualquer meio de reprodução e, portanto, obrigados (em dado tempo) a trabalhar em troca de salário. Os cercamentos, entretanto, não são um processo antigo extinto no alvorecer do capitalismo; são uma recorrência regular no caminho da acumulação capitalista e um componente estrutural da luta de classes. (Silvia Federici. Reencantando o mundo: feminismo e a política dos comuns. São Paulo: Elefante, 2022. p. 62).
CIÊNCIA
Ciência em Proudhon
À força de se instruir e adquirir ideias o homem acaba per descobrir a ideia da ciência, quer dizer, a ideia de um sistema de conhecimento conforme à realidade das coisas e deduzida da observação. (Pierre-Joseph Proudhon. O que é a propriedade? Lisboa: Editorial Estampa, 1975. p. 238).
Ciência em Roy Bhaskar
De acordo com a distinção operada por Bhaskar, a realidade deve ser concebida como estratificada, e a ciência deve ser encarada como "uma atividade humana que visa descobrir, através de uma mistura de experimentação e razão teórica, as entidades, estruturas e mecanismos (visíveis ou invisíveis) que existem e operam no mundo. (Roy Bhaskar citado por HAMLIN, Cynthia Lins. Realismo crítico: um programa de pesquisa para as Ciências Sociais. Dados, Rio de Janeiro, v. 43, n. 2, 2000. s/p).
Ciência social
É o que Proudhon entende por ciência social, ciência que seria ao mesmo tempo teórica e prática, conhecimento racional das leis sócio-econômicas e meio de instaurar o socialismo científico. (Ansart, Pierre. Ideologias, conflitos e poder. Rio de Janeiro: Zahar, 1978).
Ciência social e proletariado
O problema do proletariado é a constituição da ciência social. (PROUDHON, Pierre-Joseph. Sistema das contradições econômicas, Tomo II. São Paulo: Ícone, 2019. p. 435).
Ciência e vida
Portanto é necessário reconhecer também os limites da ciência e lembrar que ela não é o todo, que não é mais que uma parte e que o todo é a vida. (...) Tudo isto é infinitamente mais amplo, mais extenso, mais profundo e mais rico que a ciência, e não será nunca esgotado por ela. (Mikhail Bakunin, Considerações Filosóficas, 1870).
Finalidade da ciência
A ciência tem por fim afastar, cada vez mais, a fronteira do desconhecido. Em outras palavras, a ciência trata de transformar a nossa familiaridade com coisas em conhecimento a respeito dessas coisas. (Donald Pierson, Teoria e pesquisa em sociologia. São Paulo: Melhoramentos, 1981).
CLASSE SOCIAL
Classe social em E.P. Thompson
“(..) classe entende-se como um fenômeno histórico unificando um número de eventos aparentemente desconexos, tanto na matéria bruta da experiência como na consciência. Enfatize-se que este é um fenômeno histórico. Não vejo a classe como uma “estrutura”, nem mesmo como uma “categoria”, mas como algo que acontece na realidade (e que pode ser mostrado como aconteceu de facto) das relações humanas”. (THOMPSON, Edward Palmer. The formation of the English working class. Londres: Penguin, 1991. p. 8).
Classe social e experiência em E.P. Thompson
(...) nem é perdoável em um marxista [a recusa epistemológica da experiência], posto que a experiência é um termo intermediário necessário entre o ser social e a consciência social: é a experiência (muitas vezes a experiência de classe) que dá uma coloração à cultura, aos valores, e ao pensamento; é por meio da experiência que o modo de produção exerce uma pressão determinante sobre outras atividades. (...) As classes surgem porque homens e mulheres, em determinadas relações de produção, identificam seus interesses antagônicos e vêm a lutar, pensar e valorar de maneira classista; assim, o processo de formação de classe é um processo de autoconstrução, embora sob condições que são dadas. (THOMPSON, 1978, p. 98; 106-107, citado por SCOTT, James. Exploração normal, resistência normal. Rev. Bras. Ciênc. Polít., 2011 (5). Available from: https://doi.org/10.1590/S0103-33522011000100009. pp.234-235).
Classe social e experiência em James Scott
De que outra forma pode um modo de produção afetar a natureza das relações de classe, a não ser mediado pela experiência e interpretação humanas? Somente captando essa experiência em algo que se aproxime de sua plenitude seremos capazes de dizer qualquer coisa significativa sobre como um dado sistema econômico influencia os que o constituem, mantém ou superam. E, naturalmente, se isso é verdadeiro para o campesinato ou o proletariado, é certamente verdadeiro para a burguesia, a pequena burguesia e mesmo o lumpemproletariado. Excluir a experiência dos agentes humanos da análise das relações de classe é fazer a teoria engolir seu próprio rabo. (SCOTT, James. Exploração normal, resistência normal. Rev. Bras. Ciênc. Polít., 2011 (5). Available from: https://doi.org/10.1590/S0103-33522011000100009. pp.234-235).
Classe social e campesinato em Theodor Shanin
Saber cuando este modo de vida [que son los campesinos] puede dar origen a una clase - escribe Teodor Shanin -, es una cuestión que depende de las condiciones históricas. Podemos responder a eso si analizamos las circunstancias y verificamos que ellos luchan o no luchan por sus intereses, entonces sabremos si son una clase o no. Pero en todos los casos, cuando lucha y cuando no lucha, el campesinado es un modo de vida, y eso es esencial para comprender su naturaleza. (BARTRA, Armando Bartra. (2008). Campesindios: aproximaciones a los campesinos de un continente colonizado. Boletín de Antropología Americana, (44), 5–24. doi:10.2307/41426470.
O problema para as classes trabalhadoras
O problema pois consiste, para as classes trabalhadoras, não em conquistar, mas sim em vencer ao mesmo tempo o poder e o monopólio, o que significa fazer surgir das entranhas do povo, das profundezas do trabalho uma autoridade maior, um fato mais poderoso, que envolva o capital e o Estado e que os subjugue. (Proudhon, Sistema das contradições econômicas, ou, Filosofia da miséria, Tomo 1. São Paulo, Ícone, 2003. p. 434).
COLETIVIZAÇÃO E SOCIALIZAÇÃO
Durante o processo de coletivização desenvolvido na Catalunha, diferentes denominações foram adotadas para as empresas autogeridas pelos trabalhadores e trabalhadoras. Nas empresas em que nem todos os trabalhadores eram afiliados à CNT, a empresa passou a ser chamada de Empresa Coletivizada – EC. Nas empresas onde todos os trabalhadores eram afiliados à CNT, a empresa foi denominada Coletividade Operária CNT-AIT ou Sociedade Operária CNT-AIT, sendo conhecidas como empresas sindicalizadas.
Os sindicatos da CNT também criaram novas empresas chamadas Oficinas Confederais e Lojas Confederais, principalmente nos setores de madeira, têxtil e metalurgia.
A socialização correspondia à integração de todas as empresas coletivizadas e sindicalizadas de um determinado setor industrial, como os setores de laticínios, madeira, cinema e teatro, ferroviário e saúde. (CONFEDERACIÓ GENERAL DEL TREBALL DE CATALUNYA. Memòria Històrica – Fonts documentals. Disponível em: <https://cgtcatalunya.cat/memoriahistorica/fonts/?page_id=17>. Acesso em: 19 jan. 2025).
COMUM
(...) O comum é imediatamente contrário ao privado, entendido como aquilo de que se apropria algum em detrimento do que é possuído por vários. Aqui vale a pena destacar o fato de nós entendermos o comum não como aquilo que é “de nenhum e de todos”, o que indica, antes, traços associados à compreensão contemporânea de “público”. O comum, ao contrário, é o que é possuído – ou compartilhado – coletivamente por vários. E esses “vários” que compõem o grupo específico possuidor podem ser multiformes e extremamente heterogêneos, mas em qualquer caso eles têm em comum, enquanto co-participantes de uma qualidade ou circunstância, o fato de se encontrarem espacialmente e temporalmente situados. Ou seja, os homens e as mulheres que compartilham o comum compõem coletividades particulares e específicas que estabelecem, também, normas específicas para usufruírem dele e para transmitirem tais direitos às gerações subsequentes.
É esse o nó da abertura conceitual na qual eu estou engajada: desligar a compreensão do comum do lastro da propriedade – especificamente, os significados de propriedade sob sua compreensão moderna, isto é, como propriedade privada, que são regulamentados nas leis civis, nos diversos e muito semelhantes códigos civis nacionais – possibilita estar aberto a pensar o comum não apenas como algo dado e que é compartilhado, mas, acima de tudo, como algo que está sendo produzido, reproduzido e reatualizado de maneira contínua e constante.
O comum, sob essa perspectiva, deixa de ser um objeto ou coisa sob o domínio de alguns para ser entendido como ação coletiva de produção, apropriação e reapropriação do que há e do que é feito, do que existe e do que é criado, do que é oferecido e gerado pela própria Pachamama e, também, do que a partir disso foi produzido, construído e alcançado pela articulação e esforço comum de homens e mulheres situados historicamente e geograficamente. Daí a pertinência da pesquisa sobre a produção do comum, suas lógicas associativas e suas dinâmicas internas, como questão fundamental e cujos horizontes políticos não estão focados no que é estatal – portanto, público e universal. (AGUILAR, Raquel Gutiérrez. Politica no feminino: transformações e subversões não centradas no Estado. Revista Ideação, v. 1, n. 39, p. 223-242, 2019. p. 232-233).
COMUNA
A Comuna é a unidade política, um pequeno mundo independente e baseada na liberdade individual e coletiva de todos os seus membros, e composta tanto de associações livres quanto de indivíduos isolados. Fundada pela liberdade e para a liberdade, é guardiã da liberdade de todo mundo, e tem direito de exigir, seja da parte das associações, seja da parte dos indivíduos, a observância de apenas um dever: o respeito de cada um pela plena liberdade, portanto também pelo bem, pela honra e pela vida, do próximo. Ela reconhece apenas um crime: o atentado contra esta liberdade. (Mikhail Bakunin. Programa de uma sociedade internacional secreta da emancipação da humanidade [1864] p. 105. In: Ferreira, A. C.; Toniatti, T. B. De baixo para cima e da periferia para o centro: textos oíticos, filosóficos e de teoria sociológica de Mikhail Bakunin. Niterói : Alternativa, 2014.).
CONFLITOS SOCIOAMBIENTAIS
Entendo por conflitos socioambeientais aqueles ligados ao acesso e ao controle dos bens naturais e do território, que confrontam interesses e valores divergentes por parte dos agentes envolvidos, em um contexto de grande assimetria de poder. Tais conflitos expressam diferentes concepções de território, da natureza e do ambiente. (SVAMPA, Maristella. As fronteiras do neoextrativismo na América Latina: conflitos socioambientais, giro ecoterritorial e novas dependências. Tradução de Lígia Azevedo. São Paulo: Elefante, 2019, p. 46).
CONTRAPODER
En un discurso típicamente revolucionario, un "contrapoder" es una colección de instituciones sociales opuestas al Estado y al capital: desde comunidades autónomas a sindicatos radicales o milicias populares. A veces también se conoce como "antipoder". Cuando estas instituciones se erigen cara a cara contra el Estado, se suele hablar de una situación de "poder dual". Según esta definición, en realidad la mayor parte de la historia de la humanidad se caracterizaría por situaciones de poder dual, ya que muy pocos Estados han tenido los medios para eliminar dichas instituciones, por mucho que lo deseasen. Pero las teorías de Mauss y Clastres proponen algo mucho más radical: que el contrapoder, al menos en su sentido más elemental, existe incluso en las sociedades donde no hay ni Estado ni mercado y que, en dichos casos, no se halla encarnado en instituciones populares que se posicionan contra el poder de los nobles, los reyes o los plutócratas, sino en instituciones cuyo fin es garantizar que jamás puedan existir esos tipos de personas. El "contra" se erige pues frente a un aspecto latente, potencial o, si se prefiere, una posibilidad dialéctica inherente a la propia sociedade (Graeber, David. Fragmentos de antropología anarquista y otros textos. 2ª ed. México D. F.: Ediciones la social, 2015. p. 56). Ver Poder popular.
COSMOGRAFIA
No intuito de entender a relação particular que um grupo social mantém com seu respectivo território, utilizo o conceito de cosmografia (Little 2001), definido como os saberes ambientais, ideologias e identidades − coletivamente criados e historicamente situados − que um grupo social utiliza para estabelecer e manter seu território. A cosmografia de um grupo inclui seu regime de propriedade, os vínculos afetivos que mantém com seu território específico, a história da sua ocupação guardada na memória coletiva, o uso social que dá ao território e as formas de defesa dele. (LITTLE, Paul. Territórios sociais e povos tradicionais no Brasil: por uma antropologia da territorialidade. Anuário Antropológico/2002-2003. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2004, pp. 251-290.)
CRISE ECOLÓGICA
A essência da crise ecológica do nosso tempo é que esta sociedade - mais do que qualquer outra no passado - está a desfazer literalmente o trabalho da evolução orgânica. É um axioma dizer que a humanidade faz parte do tecido da vida. É talvez mais importante, nesta fase tardia, sublinhar que a humanidade depende perigosamente da complexidade e variedade da vida, e que o bem-estar e a sobrevivência humanas assentam sobre uma longa evolução de organismos em formas crescentemente complexas e interdependentes. O desenvolvimento da vida num tecido complexo, a criação dos animais e plantas primordiais em formas altamente variadas, tem sido a condiçãso prévia para a evolução e sobrevivência da própria humanidade e para uma relação harmônica entre a humanidade e a natureza. (BOOKCHIN, Murray. Toward an ecological society. Montreal: Black Rose Books, 1980. p. 36)
E
ECOLOGIA CULTURAL
Ele [Julian Steward em Theory of culture change] procede do conceito de "ecologia cultural", que se refere aos "processos adaptativos pelos quais a (...) sociedade e um número imprevisível de características da cultura são afetados pelo ajuste básico por meio do qual o homem utiliza um determinado ambiente". Em qualquer cultura, portanto, é "a constelação de características que estão mais intimamente relacionadas às atividades de subsistência e aos arranjos econômicos" que merece atenção primária como o "núcleo cultural". Faz parte do problema da "ecologia cultural" avaliar (...) os padrões culturais (...) permitidos pelos arranjos produtivos. (HELM, June. The ecological approach in anthropology. American Journal of Sociology, vol. 67, no. 6, 1962, pp. 630–39).
ECOLOGIA HUMANA
A ecologia humana, uma das mais recentes novidades no cenário das ciências sociais, tomou emprestada sua estrutura conceitual e seus métodos da ecologia vegetal e animal. O malthusianismo, o darwinismo, o movimento de pesquisa social e a geografia humana estão entre os precursores da ecologia humana, que recebeu sua primeira formulação sistemática por Park e outros por volta de 1915. Ela busca a descrição e a análise objetivas das bases espaciais, temporais, físicas e tecnológicas da vida social. A capacidade de comunicação simbólica, a racionalidade, a mobilidade relativamente grande, a organização e o controle formais e a posse de uma tecnologia e cultura distinguem os seres humanos das plantas e dos animais; o reconhecimento dessas diferenças faz da ecologia humana uma disciplina única das ciências sociais. Ela se preocupa com estruturas e fenômenos sociais localizados ou territorialmente delimitados, sendo a comunidade o conceito central. A definição de áreas naturais, diferenciadas das administrativas, e de regiões tem sido uma de suas principais contribuições teóricas e práticas. A descoberta dos padrões nos quais os fenômenos sociais se agrupam e da coincidência dos padrões teve implicações importantes para o controle e o planejamento social. Os fatos ecológicos, por não serem autoexplicativos, devem ser compreendidos à luz dos fenômenos socioculturais e psíquicos. (WIRTH, Louis. Human ecology. American Journal of Sociology, v. 50, n. 6, 1945).
ECOLOGIA POLÍTICA
Blaikie e Brookfeld (1987) definiram o campo desse modo: “A expressão ‘ecologia política’ combina as preocupações da ecologia com uma economia política definida de forma ampla. Ao mesmo tempo, isto abarca a constante alteração dialética entre sociedade e recursos e também entre classes e grupos no interior da própria sociedade” (WALKER, Peter A. Ecologia política: onde está a ecologia? Desenvolvimento e Meio Ambiente, n. 23, p. 83-93, jan./jun. 2011. Editora UFPR. p. 85).
Os trabalhos orientados pela Ecologia Política têm tratado de quatro temas principais: (1) a ideia de que a utilização dos recursos naturais é organizada por relações sociais que pressionam o meio ambiente; (2) o reconhecimento da pluralidade de posições, interesses e racionalidades sobre o ambiente, de modo que o lucro de uma pessoa pode representar a pobreza de outra; (3) a ideia de uma conexão global por meio da qual os processos políticos e econômicos externos estruturem e sejam influenciados pelas questões locais; e (4) a defesa de que a degradação da terra é um resultado e uma causa da exclusão social (GEZON e PAULSON, 2004) (MIRANDA, Roberto de Sousa. Ecologia política e processos de territorialização. Revista Sociedade e Estado - Volume 28 Número 1 - Janeiro/Abril 2013. p. 143).
ECOLOGIA SOCIAL
O que literalmente define a ecologia social como "social" é seu reconhecimento do fato, muitas vezes ignorado, de que quase todos os nossos problemas ecológicos atuais surgem de problemas sociais profundamente enraizados. Por outro lado, os problemas ecológicos atuais não podem ser claramente compreendidos, muito menos resolvidos, sem lidar resolutamente com os problemas da sociedade. (BOOKCHIN, Murray. What is social ecology? In: BOOKCHIN, Murray. Social ecology and communalism. Oakland: AK Press, 2006. p. 19).
Núcleo do ecologia social
A praga que afligiu o continente americano era mais devastadora que uma praga de gafanhotos. Era uma ordem social que se deve chamar sem cerimónias pelo nome que tinha e tem: capitalismo, na sua versão privada no Ocidente e na sua forma burocrática no Oriente. Eufemismos como “sociedade tecnológica” ou “sociedade industrial”, termos muito difundidos na literatura ecológica contemporânea, tendem a mascarar com expressões metafóricas a brutal realidade de uma economia baseada na competição e não nas necessidades dos seres humanos e da vida não-humana. Assim, a tecnologia e a indústria são representadas como os protagonistas perversos deste drama, em vez do mercado e da ilimitada acumulação de capital, sistema de “crescimento” que por fim devorará toda a biosfera se para tanto se lhe consentir sobrevivência suficiente.
Aos enormes problemas criados por esta ordem social de- vem juntar-se os criados por uma mentalidade que começou a desenvolver-se muito antes do nascimento do capitalismo e que este absorveu completamente. Refiro-me à mentalidade estruturada em torno de hierarquia e da dominação, em que a dominação do homem pelo homem originou o conceito da dominação sobre a natureza como destino e necessidade da humanidade. É reconfortante que se haja insinuado no pensamento ecológico a ideia de que esta concepção do destino humano é perniciosa. Contudo, não se compreendeu claramente como surgiu, persiste e como pode ser eliminada esta concepção. E se se quer achar remédio para o cataclismo ecológico, deve-se procurar a origem da hierarquia e da dominação. O fato da hierarquia sob todas as formas – dominação do jovem pelo velho, da mulher pelo homem, do homem pelo homem na forma de subordinação de classe, de casta, de etnia ou de qualquer outra estratificação da sociedade – não haver sido identificada como tendo âmbito mais amplo que a mera dominação de classe, tem sido uma das carências cruciais do pensamento radical. Nenhuma libertação será completa, nenhuma tentativa de criar harmonia entre os seres humanos e entre a humanidade e a natureza poderá ter êxito se não forem erradicadas todas as hierarquias e não ape- nas a de classe, todas as formas de dominação e não apenas a exploração econômica.
Estas ideias constituem o núcleo essencial da minha concepção de ecologia social e do meu livro A Ecologia da Liberdade [4]. Sublinho cuidadosamente o uso que faço do termo “social”, quando me ocupo de questões ecológicas, para introduzir outro conceito fundamental: nenhum dos principais problemas ecológicos que hoje defrontamos se pode resolver sem profunda mutação social.
Deve-se aceitar a substituição da sociedade capitalista atual pelo que denomino “sociedade eco- lógica”, isto é, por uma sociedade que implique as mutações sociais indispensáveis para eliminar os abusos ecológicos. (Murray Bookchin. Por que ecologia social?. In: A Batalha, Lisboa, ano 15, n° 126, outubro-dezembro de 1989. Disponível em: https://ithanarquista.wordpress.com/classicos-anarquistas/murray-bookchin/murray-bookchin-por-que-ecologia-social/. Acesso em 18 out. 2024.).
EPISTEMOLOGIA
Epistemologia bakuniniana
O mundo único é também o único meio de conhecer a destinação de suas leis ou de suas regras, obter a Verdade que é a Ciência; não são a metafísica nem as construções intelectuais abstratas, mas a ciência que funda seus raciocínios sobre a experiência, que utiliza tanto o método dedutivo como o método indutivo, e que verifica incessantemente suas hipóteses por meio de uma observação e de uma análise dos fatos os mais rigorosos. (BAKUNIN, Mikhail. A ciência e o povo. In: BAKUNIN, Mikhail. Educação, ciência e revolução. São Paulo: Intermezzo, 2015. p. 92).
EPISTEMOLOGIA, PARADIGMA E METODOLOGIA
Distinguir entre epistemologias, paradigmas e metodologias pode ser útil na compreensão do significado de epistemologias concorrentes. Diferentemente das epistemologias, os paradigmas abrangem referenciais înterpretativos - por exemplo, a interseccionalidade que são usados para explicar os fenômenos sociais. A metodologia se refere aos princípios gerais que indicam como conduzir pesquisas e como aplicar paradigmas interpretativos. A esfera da epistemologia é importante porque determina quais perguntas merecem investigação, quais referenciais interpretativos serão usados para analisar as descobertas e para que fim serão destinados os conhecimentos decorrentes desse processo. (Patricia Hill Collins. Pensamento feminista negro. São Paulo: Boitempo, 2019. p. 403. Destaques meus).
ESTADO
Estado e sistema estatista em Mikhail Bakunin
[Estado e sistema estatista como] (...) todo sistema, que consiste em governar a sociedade de cima para baixo em nome de um pretenso direito teológico ou metafísico, divino ou científico. (BAKUNIN, Mikhail. Estatismo e anarquia. São Paulo: Imaginário/Nu-Sol/Ícone, 2003).
ESTRATÉGIA
A noção de estratégia é o instrumento de uma ruptura com o ponto de vista objetivista e com a ação sem agente que o estruturalismo supõe (recorrendo, por exemplo, à noção de inconsciente). Mas pode-se recusar a ver a estratégia como o produto de um programa inconsciente, sem fazer dela o produto de um cálculo consciente e racional. Ela é produto do senso prático como sentido do jogo, de um jogo social particular, historicamente definido, que se adquire desde a infância, participando das atividades sociais, em particular no caso de Cabília, e outros lugares com certeza, dos jogos infantis. O bom jogador, que é de algum modo o jogo feito homem, faz a todo instante o que deve ser feito, o que o jogo demanda e exige. Isso supõe uma invenção permanente, indispensável para se adaptar às situações indefinidamente variadas, nunca perfeitamente idênticas. O que não garante a obediência mecânica à regra explícita, codificada (quando ela existe). Descrevi, por exemplo, as estratégias de jogo duplo que consistem em “legalizar a situação”, em colocar-se ao lado do direito, em agir de acordo com interesses, mas mantendo as aparências de obediência às regras. O sentido do jogo não é infalível; ele se distribui de maneira desigual, tanto numa sociedade quanto numa equipe. Às vezes, ele falha, especialmente nas situaçôes trágicas, quando então se apela aos sábios, que em Cabília em geral também são poetas, e sabem tomar liberdade com a regra oficial, que permite salvar o essencial daquilo que a regra visava a garantir. Mas essa liberdade de invenção, de improvisação, que permite produzir a inftnidade de lances possibilitados pelo jogo (como no xadrez), tem os mesmos limites do jogo. As estratégias adaptadas quando se trata de jogar o jogo do casamento cabila, no qual a terra e a ameaça de partilha não intervem (devido à indivisão na partilha igual entre os agnatos), não conviriam no caso de se jogar o jogo do casamento beamês, no qual é preciso salvar antes de tudo a casa e a terra. (BOURDIEU, Pierre. Fieldwork in philosophy. In: BOURDIEU, Pierre. Coisas ditas. São Paulo: Brasiliense, 2004).
ESTRUTURALISMO GENÉTICO
Nesse sentido, se eu gostasse do jogo dos rótulos, que é muito praticado no campo intelectual desde que certos filósofos introduziram nele as modas e os modelos do campo artístico, eu diria que tento elaborar um estruturalismo genético: a análise das estruturas objetivas – as estruturas dos diferentes campos – é inseparável da análise da gênese, nos indivíduos biológicos, das estruturas mentais (que são em parte produto da incorporação das estruturas sociais) e da análise da gênese das próprias estruturas sociais: o espaço social, bem como os grupos que nele se distribuem, são produto de lutas históricas (nas quais os agentes se comprometem em função de sua posição no espaço social e das estruturas mentais através das quais eles apreendem esse espaço). (BOURDIEU, Pierre. Fieldwork in philosophy. In: BOURDIEU, Pierre. Coisas ditas. São Paulo: Brasiliense, 2004).
ETNOGRAFIA
Definição de etnografia
A etnografia consiste na observação e na análise de grupos humanos considerados em sua particularidade e visa à restituição, tão fiel quanto possível, da vida de cada um deles. (LÉVI-STRAUSS, Claude [Antropologia estrutural] apud RUSS, Jacqueline. Dicionário de filosofia. São Paulo: Scipione, 1994. p. 98).
Realizar uma etnografia
Quando você realiza uma etnografia, você observa o que as pessoas fazem, tentando extrair a lógica simbólica, moral ou pragmática que está subjacente às suas ações, você tenta encontrar o significado dos hábitos e ações de um grupo, um sentido do qual o grupo em si muitas vezes não está completamente consciente. (GRAEBER, David. Fragmentos de antropología anarquista y otros textos. 2ª ed. México D. F.: Ediciones la social, 2015. p. 24).
É exatamente isso que a etnografia deve fazer: desvendar a lógica implícita de um modo de vida, juntamente com seus mitos e rituais, a fim de compreender o significado de um conjunto de práticas. (David Graeber. Direct action: an ethnography. Oakland: AK Press, 2009).
(...) Como qualquer etnógrafo, desejo extrair os princípios tácitos subjacentes à ação. Quais são? (David Graeber. Direct action: an ethnography. Oakland: AK Press, 2009).
(...) A melhor tradição da etnografia: uma tentativa de descrever e capturar algo da textura, da riqueza e do significado subjacente de um modo de ser e de fazer que não poderia ser capturado por escrito. (David Graeber. Direct action: an ethnography. Oakland: AK Press, 2009).
Propósito da etnografia
De certa forma, escrever conclusões para uma etnografia é sempre um empreendimento questionável. O objetivo da etnografia é essencialmente descritivo. Uma boa descrição certamente requer um apelo à teoria, mas, na etnografia, a teoria é adequadamente empregada a serviço da descrição, e não o contrário. Se o objetivo da descrição etnográfica é tentar dar ao leitor os meios para transitar de forma imaginativa em um universo moral e social, então parece explorador, quase um insulto, sugerir que outras pessoas vivam suas vidas (...) para permitir que algum acadêmico marque um ponto em algum debate teórico misterioso. E, de qualquer forma, isso é objetivamente falso. (David Graeber. Direct action: an ethnography. Oakland: AK Press, 2009).
Dilema da escrita etnográfica
O dilema habitual da escrita etnográfica: pontos que parecem simples e óbvios para quem passou anos em um determinado universo cultural exigem muita tinta para serem transmitidos a alguém que não o fez. (David Graeber. Direct action: an ethnography. Oakland: AK Press, 2009).
Escrita etnográfica
Por "escrita etnográfica" entendo a escrita que procura descrever os contornos de um universo social e conceitual de uma forma que seja teoricamente informada, mas que não seja, em si mesma, simplesmente projetada para defender um único argumento ou teoria. Houve um tempo em que a descrição detalhada de um sistema político, cerimonial ou de troca na África ou na Amazônia era considerada uma contribuição valiosa para o conhecimento humano em si. (David Graeber. Direct action: an ethnography. Oakland: AK Press, 2009).
Teoria etnográfica
Assim, esboçar uma teoria etnográfica, não é limitar-se a este ou aquele contexto particular, deixando de lado níveis supostamente mais gerais. Uma teoria etnográfica procede um pouco à moda do pensamento selvagem: emprega os elementos muito concretos coletados no trabalho de campo – e por outros meios – a fim de articulá-los em proposições um pouco mais abstratas, capazes de conferir inteligibilidade aos acontecimentos e ao mundo (Marcio Goldman. Alteridade e experiência: antropologia e teoria etnográfica. In: Etnográfica, vol. 10, n. 1, 2006, pp. 159-173).
A palavra na etnografia
A Antropologia desde sempre privilegiou a palavra do outro como fonte de conhecimento. O trabalho de campo empreendido pelo antropólogo é, na maioria das vezes, o método de aceder a estas palavras através de outras palavras, as do antropólogo. Assim, a Antropologia se constrói pelo diálogo, conversa, tradução, citação, interpretação, crítica num incessante cruzamento de universos conceituais. Se as palavras dos outros têm um poder de transformar as nossas palavras e vice versa, é justamente pelo fato de que são engendradas e fabricadas a partir de uma relação entre sujeitos, essência mesma do fazer etnografia. Esta relação entre os conceitos que a Antropologia formula e a etnografia que originalmente os produziu é de tal ordem que muitas das chamadas categorias nativas ganharam estatuto de conceitos e/ou problemáticas da Antropologia. (GONÇALVES, Marco Antônio. Traduzir o outro: etnografia e semelhança. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2009, p. 08).
Etnografia e teoria
Toda etnografia tem sua “teoria”, por mais difusa, insípida ou prosaica que ela seja, assim como toda teoria tem sua etnografia (WAGNER, Roy. Habu: the innovation of meaning in Daribi religion. Chicago: The University of Chicago Press, 1972, p. 13).
Etnografia, descrição e teoria
O que faz deste um trabalho etnográfico no sentido clássico do termo é que, como Franz Boas disse certa vez, o geral está a serviço do particular, com exceção, talvez, das reflexões finais. A teoria é amplamente invocada para auxiliar na tarefa final de descrição. Os anarquistas e as campanhas de ação direta não existem para permitir que algum acadêmico apresente um argumento teórico ou prove que a teoria de algum rival está errada (assim como não servem a esse mesmo propósito, os rituais de transe balineses ou as tecnologias de irrigação andinas), e acho odioso sugerir o contrário. (David Graeber. Direct action: an ethnography. Oakland: AK Press, 2009).
Uma descrição etnográfica, mesmo que muito boa, capta no máximo dois por cento do que realmente acontece em uma disputa nuer ou em uma briga de galos em Bali. Uma reflexão teórica geralmente se concentra em apenas uma pequena parte disso, arrancando um ou dois fios de uma rede infinitamente complexa de circunstâncias humanas e usando-os como base para fazer generalizações sobre, por exemplo, a natureza da guerra ou a natureza do ritual. (David Graeber. Direct action: an ethnography. Oakland: AK Press, 2009).
Interpretação etnográfica
A melhor maneira que encontrei para definir a interpretação etnográfica é a analogia clássica de três homens cegos tentando descrever um elefante pelo tato – um segurando a tromba, o outro a cauda e o outro a presa. Diferentes etnógrafos veem as coisas de maneiras diferentes, e os pontos de vista subjetivos contrastantes de cada pesquisador de campo determinam a natureza do retrato etnográfico resultante. Nós, tanto quanto as pessoas que são o nosso objeto de estudo, criamos a realidade dos fenômenos sociais e culturais, pois também nós estamos agindo “culturalmente” ao fazer antropologia. (Weiner, James F. The Heart of the Pearl Shell: The Mythological Dimension of Foi Sociality. Berkeley: University of California Press, 1988).
Pacto etnográfico
De fato, como conciliar um conhecimento não exotizante do mundo yanomami, uma sociologia do "desenvolvimento" amazônico que o cerca e uma reflexão acerca das implicações de minha presença de ator-observador nessa situação de colonização interna? A partir do caos perturbador dessa nova experiência e através de meus esforços para lhe dar sentido, três imperativos indissociáveis do trabalho etnográfico começaram a se tornar claros. Em primeiro lugar, evidentemente, fazer justiça de modo escrupuloso à imaginação conceitual de meus anfitriões; em seguida, levar em conta com todo o rigor o contexto sociopolítico, local e global, com o qual sua sociedade está confrontada; e manter um olhar crítico sobre o quadro da pesquisa etnográfica em si. (ALBERT, Bruce. Postscriptum. Quando eu é um outro [e vice-versa]. In: KOPENAWA, Davi; ALBERT, Bruce. A queda do céu: palavras de um xamã Yanomami. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. p. 520.)
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F
FEDERAÇÃO
A nossa federação é aquela das comunas socialistas, organizadas federativamente em cada lugar pelas associações operárias, industriais, agrícolas, comerciais e científicas. Os nossos cantões ou as nossas províncias serão menos províncias territoriais, e mais as autonomias dos mesmos setores de ocupação produtiva, formadas pela federação livre das associações autônomas de cada ocupação, ofício ou profissão. (Mikhail Bakunin. A Alemanha e o comunismo de Estado [1872]. p. 450. In: Ferreira, A. C.; Toniatti, T. B. De baixo para cima e da periferia para o centro: textos oíticos, filosóficos e de teoria sociológica de Mikhail Bakunin. Niterói : Alternativa, 2014.).
FILOSOFIA MARXISTA
Se há uma coisa que a filosofia marxista deveria impor, é a atenção com a história (e com a historicidade) dos conceitos utilizados para pensar a história. Ora, o aristocratismo filosófico faz com que se esqueça de submeter à crítica histórica conceitos visivelmente marcados pelas circunstâncias históricas de sua produção e de sua utilização (os althusserianos foram mestres no gênero). O marxismo na realidade de seu uso social acaba sendo um pensamento completamente protegido contra a crítica histórica, o que é um paradoxo, dadas as potencialidades e mesmo as exigências que o pensamento de Marx encerrava. Marx forneceu os elementos de uma pragmática sociolingüística, particularmente na Ideologia alemã (fiz referência a isso em minha análise sociológica do estilo e da retórica de Althusser). Essas indicações permaneceram letra morta, porque a tradição marxista sempre deixou muito pouco espaço para a crítica reflexiva. A favor dos marxistas, eu diria que, embora se possam tirar de sua obra os princípios de uma sociologia crítica da sociologia e dos instrumentos teóricos que a sociologia, sobretudo a marxista, utiliza para pensar o mundo social, o próprio Marx nunca utilizou muito a crítica histórica contra o próprio marxismo. (BOURDIEU, Pierre. Fieldwork in philosophy. In: BOURDIEU, Pierre. Coisas ditas. São Paulo: Brasiliense, 2004).
FILOSOFIA RACIONAL
A filosofia racional ou ciência universal não procede aristocraticamente, nem autoritariamente como a falecida metafísica. Esta se organiza sempre de cima para baixo, por via de dedução e de síntese, pretendendo também reconhecer a autonomia e a liberdade das ciências particulares, mas na realidade incomodava-as horrivelmente, até o ponto de lhes impor leis e até mesmo fatos que, frequentemente, era impossível encontrar na natureza, e de impedi-las de se entregar a experiências cujos resultados teriam podido reduzir todas as suas especulações ao nada. A metafísica, como se vê, opera segundo o método dos Estados centralizados.
A filosofia racional, ao contrário, é uma ciência democrática. Organiza-se de baixo para cima livremente, e tem por fundamento único a experiência. Nada do que não toi realmente analisado e confirmado pela experiência ou pela mais severa crítica pode ser por ela aceito. Consequentemente, Deus, o Infinito, o Absoluto, todos estes objetos tão amados pela metafísica, estão absolutamente eliminados de seu seio. Ela se desvia com indiferença, observando-as como miragens ou fantasmas. Mas como as miragens e os fantasmas são uma parte essencial do desenvolvimento do espírito humano, visto que o homem só chega habitualmente ao conhecimento da verdade simples depois de ter imaginado, esgotado todas as ilusões possíveis, e como o desenvolvimento do espírito humano é um objeto real da ciência, a filosofia natural lhes assinala seu verdadeiro lugar, ocupando-se dela somente do ponto de vista da história e se esforça em nos mostrar, ao mesmo tempo, as causas tanto fisiológicas quanto históricas que explicam o nascimento, o desenvolvimento e a decadência das ideias religiosas e metafísicas, assim como sua necessidade relativa e transitória nas evoluções do espírito humano. Desta maneira, ela lhes faz justiça, a qual elas têm direito, e, em seguida, desvia-se delas para sempre. (BAKUNIN, Mikhail. Federalismo, socialismo e antiteologismo. Série Biblioteca Anarquista Vol. 2. UNIPA, 2012. p. 33-34).
FILÓSOFO
Filosofar para Proudhon
Que o filósofo, abaixando o seu orgulho, aprenda por seu lado que a razão é a sociedade e que filosofar é trabalhar com suas próprias mãos. (PROUDHON, Pierre-Joseph. Sistema das contradições econômicas, Tomo II. São Paulo: Ícone, 2019. p. 454).
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G
GLOBAL
Global e local em Anthony Giddens
O advento da modernidade arranca crescentemente o espaço do tempo fomentando relações entre outros ‘ausentes’, localmente distantes de qualquer situação dada ou interação face a face. Em condições de modernidade, o lugar se torna cada vez mais fantasmagórico: isto é, os locais são completamente penetrados e moldados em termos de influências sociais bem distantes deles. O que estrutura o local não é simplesmente o que está presente na cena; a ‘forma visível’ do local oculta as relações distanciadas que determinam sua natureza. (Anthony Giddens, As consequências da modernidade, 1991. p. 22).
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H
HISTORIADOR FILÓSOFO
O que importa ao historiador filósofo, é observar como o povo vincula-se a certas ideias em vez de outras, generaliza-as, desenvolve-as à sua maneira, em matéria de instituições e costumes que ele segue tradicionalmente, até que elas caiam nas mãos dos legisladores e justiceiros, que fazem delas, por sua vez, artigos de lei e regras para os tribunais (PROUDHON, Pierre-Joseph. Da capacidade política das classes operárias. Tomo I. São Paulo: Intermezzo, 2019. p. 83.).
HORIZONTE COMUNITÁRIO-POPULAR
Entendo por "horizonte comunitário-popular" um amplo – porém às vezes difícil de ser expressado – conjunto de esperanças e práticas de transformação e subversão das relações de dominação e exploração, como o que tem se tornado visível e audível nos Andes e na Mesoamérica, de maneiras diferentes, desde o amanhecer de 1994 e durante as lutas mais intensas da primeira década do século XXI. Essas lutas têm sido protagonizadas, principalmente, pelos diversos povos e movimentos indígenas de nossos países, percorrendo diversos caminhos e alcançando um maior ou menor sucesso em suas aspirações. (AGUILAR, Raquel Gutiérrez. Politica no feminino: transformações e subversões não centradas no Estado. Revista Ideação, v. 1, n. 39, p. 223-242, 2019.)
HUMANIDADE
Humanidade: concepções zoológica e sociológica
A nossa espécie é uma espécie dividida – dividida anta- gonisticamente por idade, caráter, classe, rendimento, etnia etc. – e não uma espécie unida. Falar de “humanidade” em termos zoológicos, como fazem atualmente tantos ecologistas – inclusive tratar as pessoas como espécie e não como seres sociais que vivem em complexas criações institucionais – é ingenuamente absurdo. Uma humanidade iluminada, reunida para se dar conta das suas plenas potencialidades em uma sociedade ecologicamente har- moniosa, é apenas uma esperança e não apenas uma realidade, um “dever ser” e não um “ser”. Enquanto não tivermos criado uma sociedade ecológica, a capacidade de nos matarmos uns aos outros e de devastar o planeta fará de nós – como efetivamente faz – uma espécie menos evoluída do que as outras. Não conseguir ver que atingir a humanidade plena é problema social que depende de mutações institucionais e culturais fundamentais é reduzir a ecologia radical à zoologia e tornar quimérica qualquer tentativa de realizar uma sociedade ecológica. (Murray Bookchin. Por que ecologia social?. In: A Batalha, Lisboa, ano 15, n° 126, outubro-dezembro de 1989. Disponível em: https://ithanarquista.wordpress.com/classicos-anarquistas/murray-bookchin/murray-bookchin-por-que-ecologia-social/. Acesso em 18 out. 2024.).
I
IMAGINAÇÃO SOCIOLÓGICA
É uma qualidade que parece prometer mais dramaticamente um entendimento das realidades íntimas de nós mesmos, em ligação com as realidades sociais mais amplas. (MILLS, W. A imaginação sociológica. Rio de Janeiro: Zahar, 1982. p. 22).
J
JUSTIÇA AMBIENTAL
A noção de "justiça ambiental" exprime um movimento de ressignificação da questão ambiental. Ela resulta de uma apropriação singular da temática do meio ambiente por dinâmicas sociopolíticas tradicionalmente envolvidas com a construção da justiça social. Esse processo de ressignificação está associado a uma reconstituição das arenas onde se dão os embates sociais pela construção dos futuros possíveis. E nessas arenas, a questão ambiental se mostra cada vez mais central e vista crescentemente como entrelaçada às tradicionais questões sociais do emprego e da renda. (ACSELRAD, Henri. Ambientalização das lutas sociais: o caso do movimento por justiça ambiental. Estud. av., São Paulo , v. 24, n. 68, p. 103-119, 2010. p. 108)
Justiça ambiental é, portanto, uma noção emergente que integra o processo histórico de construção subjetiva da cultura dos direitos. Na experiência recente, essa noção de justiça surgiu da criatividade estratégica dos movimentos sociais que alteraram a configuração de forças sociais envolvidas nas lutas ambientais e, em determinadas circunstâncias, produziram mudanças no aparelho estatal e regulatório responsável pela proteção ambiental. (ACSELRAD, Henri. Ambientalização das lutas sociais: o caso do movimento por justiça ambiental. Estud. av., São Paulo , v. 24, n. 68, p. 103-119, 2010. p. 111).
LAND GRABBING
Este termo se refere ao rápido aumento nas compras e arrendamentos de terras transfronteiriços por empresas nacionais e internacionais, fundos soberanos e indivíduos. As estimativas atuais apontam para um aumento substancial nas apropriações de terras desde meados dos anos 2000 em particular, mas os dados nos quais essas estimativas se baseiam são infelizmente esparsos e frequentemente não confiáveis. Em contraste com o foco principal em episódios espetaculares de desapropriação, a bolsa de estudos agrária crítica busca identificar os diversos legados históricos da apropriação de terras, mostrando como a desapropriação é geralmente um processo prolongado e contraditório de reformulação de relações sociais e padrões de posse preexistentes. (SAJADIAN, China. Critical Agrarian Studies. In: International Encyclopedia of Human Geography. 2. ed. Volume 3. Amsterdam: Elsevier, 2020. p. 17).
LÓGICA CONTEMPORÂNEA DE PRODUÇÃO DO COMUM
Entendo como "lógica contemporânea de produção do comum" uma dinâmica associativa particular e específica, isto é, temporal, geográfica e historicamente situada, e que geralmente visa alcançar objetivos específicos quase sempre ligados a assegurar ou proteger as condições para a reprodução coletiva em meio a ameaças drásticas de expropriação ou agravo. Nesse sentido, as lógicas de produção do comum não aludem nem necessariamente nem unicamente apenas às antigas práticas comunitárias dos povos indígenas; elas são, em vez disso, práticas comunitárias cuja geração e conservação, embora enraizadas em tempos distantes e em enérgicas lutas de resistência e de criação da vida, também podem ser entendidas como uma reatualização prática contemporânea, fundada, no entanto, em antigos conjuntos de saberes coletivos internalizados – e reproduzidos – por aqueles que se associam em prol dos propósitos atuais. (AGUILAR, Raquel Gutiérrez. Politica no feminino: transformações e subversões não centradas no Estado. Revista Ideação, v. 1, n. 39, p. 223-242, 2019. p. 231).
M
MARXISMO ECOLÓGICO
O ponto de partida do marxismo ecológico
O ponto de partida do "marxismo ecológico" é a contradição entre as relações de produção capitalistas e as forças produtivas e condições de produção. (O'CONNOR, James. Capitalism, nature, socialism: a theoretical introduction. Capitalism Nature Socialism, v. 1, n. 1, p. 11-38, 1988).
Contradições ecológicas do capitalismo
Como entender as contradições ecológicas do capitalismo tornou-se, portanto, um assunto de debate acalorado entre os socialistas. Duas questões cruciais neste debate são: (1) a crise ecológica deve levar à crise econômica sob o capitalismo?, e (2) até que ponto há uma contradição ecológica no cerne da sociedade capitalista? (FOSTER, John Bellamy. II. Capitalism and ecology: The nature of the contradiction. Monthly review, v. 54, n. 4, p. 6-16, 2002).
Capitalização da natureza e politização das condições de produção
Embora a capitalização da natureza implique a penetração aumentada do capital nas condições de produção (por exemplo, árvores produzidas em plantações, espécies geneticamente alteradas, serviços postais privados, educação por vouchers, etc.), o estado se coloca entre o capital e a natureza, ou media o capital e a natureza, com o resultado imediato de que as condições de produção capitalista são politizadas. Isso significa que se as matérias-primas, a força de trabalho e as configurações espaciais e infraestruturais úteis estão ou não disponíveis para o capital nas quantidades e qualidades necessárias e no momento e lugar certos depende do poder político do capital, do poder dos movimentos sociais que desafiam formas capitalistas particulares de condições de produção (por exemplo, lutas pela terra como meio de produção versus meio de consumo), estruturas estatais que mediam ou filtram lutas sobre a definição e uso das condições de produção (por exemplo, conselhos de zoneamento) e assim por diante. (O'CONNOR, James. Capitalism, nature, socialism: a theoretical introduction. Capitalism Nature Socialism, v. 1, n. 1, p. 11-38, 1988).
MATERIALISMO SOCIOLÓGICO
Resumidamente, o materialismo sociológico possui as seguintes características: 1) opõe-se a todas as formas de idealismo/teologismo; 2) tem por base o naturalismo como refutação do criacionismo; 3) entende a ação, a prática concreta, como determinante do ser; 4) pressupõe a multicausalidade dos fenômenos; 5) compreende a diversidade da vida como resultado de um processo dialético e ininterrupto de ação e reação. Feitas tais considerações, resta caracteriza o materialismo sociológico de Bakunin enquanto um método de análise científica. (União Popular Anarquista. A filosofia bakuninista: dialética da ação e o materialismo sociológico. Via Combativa, Brasil, n. 1, p. 7-11, maio 2009. Disponível em: <https://uniaoanarquista.wordpress.com/2015/08/21/via-combativa-a-filosofia-bakuninista-dialetica-da-acao-e-o-materialismo-sociologico. Acesso em: 1 dez. 2025).
MATRIZ DE DOMINAÇÃO
Matriz de dominação: organização geral das relações hierárquicas de poder em dada sociedade. Qualquer matriz específica de dominação tem: (1) um arranjo particular de sistemas interseccionais de opressão, por exemplo, raça, classe social, gênero, sexualidade, situação migratória, etnia e idade; e (2) uma organização particular de seus domínios de poder, por exemplo, estrutural, disciplinar, hegemônico e interpessoal. (Patricia Hill Collins. Pensamento feminista negro. São Paulo: Boitempo, 2019, p. 460).
Cada domínio cumpre um propósito específico. O domínio estrutural organiza a opressão, enquanto o disciplinar a administra. O domínio hegemônico justifica a opressão, e o interpessoal influencia a experiência cotidiana e a consciência individual dela decorrente. (Patricia Hill Collins. Pensamento feminista negro. São Paulo: Boitempo, 2019, p. 437).
MEIO AMBIENTE
O meio ambiente de qualquer organismo, inclui o mundo físico e outros organismos. (...) O ambiente é qualquer coisa fora de um organismo no qual o organismo vive. Pode ser uma região geográfica, uma condição climática, um poluente ou os ruídos que circundam um organismo. O ambiente humano inclui o país, a região, a cidade, a casa ou o quarto em que a pessoa vive. O ambiente de um parasita inclui o corpo do hospedeiro. O ambiente de uma planta inclui o tipo de solo em uma altitude específica. (COLLIN, Peter. Dictionary of environment and ecology. Londres: Bloomsbury, 2004).
MÉTODO
Método em Bakunin
Ora, quem parte da ideia abstrata nunca chegará à vida, pois da metafísica à vida não existe caminho. Um abismo as separa. E saltar por cima deste abismo é executar o salto mortale, ou o que o próprio Hegel chamava, salto qualitativo (qualitativer Sprung) do mundo lógico ao mundo natural; ninguém até agora conseguiu realizá-lo, e nunca conseguirá. Quem se apoia na abstração, nela encontrará a morte.
A maneira viva, concretamente racional de avançar, no domínio da ciência, é ir do fato real à ideia que o abarca, o exprime e, por isto mesmo, o explica; e, no domínio prático, ir da vida social à maneira mais racional de organizá-la, de acordo com as indicações, condições, necessidades e exigências mais ou menos aproximadas da própria vida. (BAKUNIN, Mikhail. Estatismo e anarquia. São Paulo: Imaginário/Nu-Sol, Ícone, 2003, p. 165).
A ciência mais racional e mais profunda não pode adivinhar as formas que a vida social assumirá no futuro. Ela pode apenas definir os fatores negativos, que decorrem, de modo lógico, de uma rigorosa crítica da sociedade atual. Assim, a ciência socioeconômica, procedendo a esta crítica, chegou à negação da propriedade individual hereditária, por conseguinte, ao conceito abstrato e, por assim dizer, negativo, da propriedade coletiva como condição necessária do futuro sistema social. (BAKUNIN, Mikhail. Estatismo e anarquia. São Paulo: Imaginário/Nu-Sol, Ícone, 2003, p. 237).
O positivo, para Hegel e para Bakunin, era aquilo que já existia. A negação era a critica daquilo que existia. [...] Para Hegel, "pensar é, na verdade, essencialmente a negação daquilo que está imediatamente diante de nós". Dessa crítica, vêm um novo pensamento, novas ideias, e a determinação daquilo que é real e racional. Consequentemente, a negação era o primeiro passo para resolver as contradições. [...] Bakunin [...] enfatizava a negação e a contradição em outros termos, a luta como a maneira por meio da qual a humanidade avançava para descobrir a verdade e a realidade de seu progresso rumo à liberdade. (Leier, 2006, pp. 87-88, apud Correia, F. Unidade real de pensamento e ação : teoria política e trajetória de Mikhail Bakunin. 2019).
MODERNIZAÇÃO ECOLÓGICA
O termo "modernização ecológica" ficou conhecido por designar uma série de estratégias de cunho neoliberal para o enfrentamento do impasse ecológico sem considerar sua articulação com a questão da desigualdade social. A estratégia da modernização ecológica é aquela que propõe conciliar o crescimento com a resolução dos problemas ambientais, dando ênfase à adaptação tecnológica, à celebração da economia de mercado, à crença na colaboração e no consenso. Além de legitimar o livre-mercado como melhor instrumento para equacionar os problemas ambientais, esta concepção procurou fazer do meio ambiente uma razão a mais para se implementar o programa de reformas liberais (ACSELRAD, Henri; MELLO, Cecília Campello do A.; BEZERRA, Gustavo das Neves. O que é justiça ambiental. Rio de Janeiro: Garamond, 2009. p. 14).
MORAL
Sociologia da moral
Os seres humanos necessariamente compreendem o seu mundo social em termos morais, orientando as suas vidas, relacionamentos e atividades em torno de noções de certo e errado produzidas socialmente. A moralidade é sociologicamente entendida como mais do que simplesmente ajudar ou prejudicar os outros; abrange qualquer maneira pela qual os indivíduos compreendem quais comportamentos são melhores do que outros, quais objetivos são mais louváveis e o que as pessoas "adequadas" acreditam, sentem e fazem. A moralidade envolve conjuntos explícitos e implícitos de regras e entendimentos compartilhados que mantêm intactos os grupos sociais humanos. A moralidade inclui tanto o “deveria” como o “não deveria” da atividade humana, seus elementos proativos e inibidores. (HITLIN, Steven; VAISEY, Stephen (Ed.). Handbook of the Sociology of Morality. Springer Science & Business Media, 2010).
Moralidade, ideologia e preferência
Perguntas de 'O que devo fazer?' são fundamentais para a vida cotidiana. Não pense em grandes questões de vida ou morte, apenas em escolhas mundanas que têm um elemento normativo: devo visitar minha mãe (e realmente deveria, já se passaram três semanas) ou relaxar com meus amigos? Devo comprar ovos postos por galinhas que podem correr livremente ou por aquelas criadas em uma fazenda em bateria que nem me atrevo a imaginar? Penso que a sociologia não pode deixar de estudar um fenômeno tão omnipresente na vida das pessoas e em todas as formas de interacção social. A questão complicada é como fazê-lo de uma forma que não reduza a ética nem à ideologia, nem às preferências individuais, mas que seja sensível às condições sociais, institucionais e até tecnológicas que permitem ou excluem determinada ética. (Pellandini-Simányi, L. (2018, Dezembro 3). Getting Beyond Bourdieu in the Sociology of Morality [Online]. The Sociological Review Magazine).
MOVIMENTO SOCIAL
Movimento social como teórico político coletivo
Trata-se, então, de pensar em que medida movimentos sociais produzem, em seu devido plano (i.e., o da luta e da ação prática), “teoria política”, tal como definida pelo primeiro Wolin (1969). As propriedades e continuidades entre os planos específicos dos movimentos sociais e da teoria política ilustram a adequação desse exercício de abstração. Por exemplo: ideologias políticas constituem o leque de ideários no qual ambos, teorias e movimentos, se inspiram. Porém, assim como as ideologias pautam os movimentos sociais sem determinar sua ação, analogamente esse leque de inspiração tampouco faz que o debate teórico-político seja reduzível à ideologia (Freeden, 2006, p. 8). Interessantemente, ideologias podem ser objetos de análise no caso da teoria política e de luta no caso dos movimentos sociais. Podem ser também objeto de crítica em ambos. De outra perspectiva, a temporalidade própria a cada um desses planos impõe demandas e problemas que exigem respostas imediatas, no caso dos movimentos sociais, e reflexivas, no caso da teoria política. Enquanto a urgência imposta por determinadas situações dramáticas vividas pelos atores dos movimentos sociais obedece à lógica contextual da ação e da fortuna, o contexto da reflexão teórica é quase sempre acadêmico e vagaroso. O contraste com o segundo Wolin (2000) mostra exatamente isso: não pressionado por algo já em disputa, ou cujo desenrolar não é urgente e pode ser postergado, o teórico nostálgico pode, em seu devido tempo, invocar perdas e sobrevivências sem estar pressionado pela dramaticidade da luta. Tomando a teoria política nesses termos, evidentemente movimentos sociais não podem ser definidos como teórico-políticos. No entanto, como conjuntos de atrizes e atores que produzem ideias no momento em que agem publicamente, os movimentos sociais partilham com a teoria política a vocação da crítica ao viés sistemático encontrado no contexto em que atuam. São, nesse sentido, “autores em ação” e, por conseguinte, teóricos políticos coletivos. (PERISSINOTTO, Renato.; SZWAKO, José. Movimentos sociais como teóricos políticos: Wolin, ideias e políticas públicas. Lua Nova: Revista de Cultura e Política, n. 102, p. 231–263, 2017.).
MUNICIPALISMO LIBERTÁRIO
El municipalismo libertario constituye la política de la ecologia social, un esfuerzo revolucionario en el que la libertad recibe una determinada forma institucional, las asambleas públicas, convertidas en los órganos de toma de decisiones. Todo esto de- de que las elecciones de la izquierda libertaria presto de Candidatos a las elecciones municipales, de que hagan llamamientos a que los municipios se dividan por barrios y distritos, en los que se puedan crear las asambleas populares que permitan que la gente llegue a tener una participación completa y directa en la vida política. Al haberse democratizado ellos mis- mos, los municipios se confederarían en un poder dual que se enfrentaría al Estado nación y que, en última instancia, se desharía del mismo y de las fuerzas económicas que sostienen el estatismo. (Murray Bookchin. La próxima revolución: las asambleas populares y la promesa de la democracia directa. Barcelona: Virus Editorial, 2019. p. 159.).
MUTIRÃO
Mutirão é uma instituição universal, cultivada geralmente nos grupos primários, onde o organizador, necessitando de uma rápida, larga e eficiente cooperação para um serviço, a solicita dos seus vizinhos, comprometendo-se tacitamente a retribuí-la nas mesmas circunstâncias, tão logo lhe seja pedida essa retribuição (BRANDÃO, Carlos Rodrigues. Festas de trabalho. Citando: GALVÃO, Hélio, O mutirão no nordeste. Rio de Janeiro: Serviço de Informação Agrícola / Ministério da Agricultura, 1959, p. 16.).
MUTUALIDADE
Mutualidade e comunidade em Proudhon
Quem diz mutualidade supõe partilha da terra, divisão de pro- priedades, independência do trabalho, separação das indústrias, especialidade de funções, responsabilidade individual e coletiva, sendo o trabalho individualizado ou em grupo; redução ao mínimo dos gastos gerais, supressão do parasitismo e da miséria. Quem diz comunidade, em contrapartida, diz hierarquia, indivisão, centralização, supõe multiplicidade dos meios, complicação de máquinas, subordinação das vontades, desperdício de forças, desenvolvimento de funções improdutivas, crescimento indefinido de despesas gerais, por consequência, criação do parasitismo e progresso na miséria. (Pierre-Joseph Proudhon. Da capacidade política das classes operárias. Tomo I. São Paulo: Intermezzo, 2019. p. 90).
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O
ONTOLOGIA
Ontologia bakuniniana
A sua ação e o seu ser são um. (p. 429).
Todas as coisas são apenas aquilo que fazem: seu fazer, sua manifestação exterior, sua ação incessante e múltipla sobre todas as coisas que estão fora dela, é a exposição completa de sua natureza, de sua substância. (p. 429).
As coisas tal como são hoje não serão amanhã; amanhã não se terão perdido, e sim inteiramente transformado. (p. 339).
BAKUNIN, Mikhail. Considerações filosóficas sobre o fantasma divino, o mundo real e o homem. Apêndice ao Império knuto-germânico e a revolução social [1871]. In: Ferreira, A. C.; Toniatti, T. B. De baixo para cima e da periferia para o centro: textos poíticos, filosóficos e de teoria sociológica de Mikhail Bakunin. Niterói: Alternativa, 2014.
Ontologia agonística de Bakunin
(...) A realidade, isto é, a ordem política, cívica e social atualmente e em todos os países, é a soma, ou melhor, o resultado da luta, dos conflitos, do aniquilamento mútuo, da dominação e, em geral, da conjunção e da ação recíproca das diversas forças que, dentro e fora, agem no ou sobre o dito país. O que decorre disso? Primeiramente, que a transformação desses regimes sociais não pode se dar, e nunca se realiza senão por uma profunda modificação do equilíbrio entre as forças que se manifestam na dada sociedade. (Mikhail Bakunin. A ciência e a questão vital da revolução. São Paulo: Imaginário; Faísca, 2009. p. 34).
Ontologia weberiana
Os teóricos do assim chamado neo-weberianismo convergem na tese de que o esquema sociológico weberiano envolve três níveis básicos, a saber: ação social, relação social e ordem social (SCHLUCHTER, 2005, 2014; LEPSIUS, 2005). Enquanto o conceito de ação social deve ser localizado no plano micro, os conceitos de relação social e ordem social representam a dimensão macro de sua sociologia. Entre estes conceitos existe uma lógica de progressão, pois da composição e transformação das ações sociais emergem relações sociais que, caso orientadas por máximas vistas como modelos obrigatórios de conduta, adquirem um caráter permanente, configurando diversas ordens sociais: como o mercado, Estado, ciência, entre outros. Com base nesta distinção vem se firmando a leitura de que Weber, ao invés de postular o individualismo metodológico, já pode ser considerado o primeiro grande autor de uma síntese sociológica que busca ir além da oposição indivíduo e sociedade, agência e estrutura ou micro e macro. (A ontologia social de Max Weber. Carlos Eduardo Sell, Bruna dos Santos Bolda. 20º Congresso Brasileiro de Sociologia. 12 a 17 de julho de 2020. UFPA – Belém, PA. p. 3).
Ontologias da sociedade
Em geral, porém, a teoria sociológica adotou três posições alternativas típicas ideais em relação ao status ontológico da sociedade. Os estruturalistas insistem na realidade da sociedade. Algumas teorias fenomenológicas-hermenêuticas, por outro lado, enfatizam a realidade dos indivíduos e negam qualquer status ontológico para a sociedade. Para os interacionistas simbólicos, entretanto, o reino da interação fornece a unidade real da análise sociológica, enquanto tanto a sociedade quanto a subjetividade individual são assumidas como produtos de interações simbólicas (Saiedi, N. (1987). Simmel’s epistemic road to multidimensionality. The Social Science Journal, 24 (2), 181–193).
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P
PALAVRA
Toda palavra é um pequeno palco em que as ênfases sociais multidirecionadas se confrontam e entram em embate. Uma palavra nos lábios de um único individuo é um produto da interação viva das forças sociais. (Valentin Volóchinov. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem [1929]).
PODER POPULAR
O anarquismo latino-americano compreendeu rapidamente a ideia de Poder Popular. Basicamente foi a mesma coisa que tinha sido experimentada na Rússia em 1917, na Alemanha em 1919 ou na Espanha em 1936: a construção de organizações de poder dos trabalhadores, como os sovietes russos, os conselhos de trabalhadores alemães (e noutros lugares), os comités revolucionários espanhóis. Quando as pessoas estão organizadas, geralmente criam estruturas de autogestão em larga escala que assumem uma forma bastante semelhante.
As diferenças entre anarquistas latino-americanos e marxistas repousavam no problema do poder e da ruptura revolucionária. Assim, a Federação Anarquista Uruguaia, no início da década de 70, viu nas sementes do poder popular espaços de socialização do poder político, onde a autonomia, a democracia direta e a autogestão começaram a ser exercidas. Eles entendiam o Poder Popular de uma forma contrária e antagônica à natureza centralizadora e disciplinadora do Estado que aliena o poder político. Os marxistas, tal como o MIR e outros partidos semelhantes, entendiam o Poder Popular como os primeiros passos de um Estado Operário e viam a tomada do poder e a criação de um governo revolucionário como um estado de transição necessário.
Portanto, os anarquistas pensavam que o Poder Popular teria que ser rapidamente estabelecido em grande escala como uma alternativa ao Estado. Para isso, era vital que organizações anarquistas específicas pudessem ter militantes suficientes para contrariar a influência de outras forças políticas ligadas a processos revolucionários. Compreendiam que as organizações, frentes ou grupos armados que apoiavam o poder popular eram aliados necessários na luta contra o aparelho repressivo dos Estados, embora a longo prazo eclodissem conflitos entre aqueles que queriam construir o Estado Operário e aqueles que acreditava que o Poder Popular bastaria para si mesmo ou entre o ponto de ruptura, que é o Poder Popular, e o reformismo gradualista. (G, Miguel. La estrategia del poder popular. Regeneración Libertária. https://www.regeneracionlibertaria.org/author/blackspartak). Ver Contra poder.
POLÍTICA NÃO ESTADOCÊNTRICA
Isto é, o confronto com o Estado não é proposto como sua questão central, nem se focaliza na construção de estratégias para sua “ocupação” ou “tomada”; ela, basicamente, fortalece-se na defesa do comum, desloca a capacidade de comando e de imposição do capital e do Estado e pluraliza e amplifica múltiplas capacidades sociais de intervenção e decisão em assuntos públicos: dispersa o poder ao permitir a reapropriação da palavra e da decisão coletiva sobre os assuntos que são competência de todos, porque a todos afetam. (AGUILAR, Raquel Gutiérrez. Politica no feminino: transformações e subversões não centradas no Estado. Revista Ideação, v. 1, n. 39, p. 223-242, 2019. p. 230).
PRINCÍPIO DE AUTORIDADE
O princípio de autoridade, princípio familiar, patriarcal, magistral, monárquico, teocrático, tendente a hierarquia, a centralização, a absorção, e dado pela natureza, por conseguinte, essencialmente fatal ou divino, como quisermos. A sua ação, combatida, dificultada pelo principio contrário, pode indefinidamente ampliar-se ou restringir-se, mas sem nunca poder desaparecer. (Pierre-Joseph Proudhon. Do Princípio federativo. São Paulo: Nu-Sol; Imaginário, 2001. p. 46).
PRINCÍPIO DE LIBERDADE
O princípio de liberdade, pessoal, individualista crítico; agente de divisão, eleição, transação, e dado pelo espírito. Princípio essencialmente arbitral por consequência, superior a Natureza da qual se serve, ao destino que domina; ilimitado nas suas aspirações; suscetível, como o seu oposto, de extensão e de restrição, mas também do mesmo modo que ele incapaz de se esgotar pelo desenvolvimento, como de desaparecer pela derrota.(Pierre-Joseph Proudhon. Do Princípio federativo. São Paulo: Nu-Sol; Imaginário, 2001. pp. 46-47).
PROJETOS TERRITORIAIS
Os projetos territoriais são fundamentalmente políticos, pois envolvem atores sociais e instituições que podem defender interesses divergentes e que são orientados por uma atividade econômica dominante, a qual articula outras atividades, atores sociais e ambientes. Sua análise parte de três dimensões: (1) uma relativa às intencionalidades dos atores sociais, que é apresentada na fala dos envolvidos; (2) uma que se refere ao grau de institucionalização dos projetos, percebido no grau de formalização de modelos e estratégias de apropriação dos recursos naturais; e (3) uma dimensão relativa aos diferenciais de legitimação apresentados entre os projetos, referente aos esforços discursivos que dão sentido às intencionalidades. (MIRANDA, Roberto de Sousa. Ecologia política e processos de territorialização. Revista Sociedade e Estado, vol. 28, Número 1, janeiro/abril 2013).
PROPRIEDADE PRIVADA
A descoberta e a teorização de que a propriedade privada e a produção de valor é um ato de expropriação é talvez a maior formulação da teoria anarquista, anterior a formulação e pré-condição para a formulação da teoria da mais-valia em "O Capital". O filosofema "a propriedade é um roubo" implica a negação da tese da origem da propriedade pelo trabalho e pela ocupação primordial, eliminando os fundamentos da legalidade e legitimidade da propriedade do capital e da terra. (FERREIRA, Andrey Cordeiro. Teoria do poder, da reciprocidade e a abordagem coletivista: Proudhon e os fundamentos da ciência social no anarquismo. Rio de Janeiro: UFRRJ, 2014).
Q
QUESTÃO AGRÁRIA
Política agrária do fascismo
As políticas agrárias do fascismo nunca foram estudadas de uma perspectiva comparativa. Este volume oferece uma visão geral atualizada, bem como novos insights extraídos de oito estudos de caso sobre Itália, Portugal, Hungria, Alemanha, Áustria, Espanha, Japão e França de Vichy. O consenso que emerge deles é que as políticas agrícolas e rurais dos regimes fascistas tendiam à modernização e que muitas delas se assemelhavam a iniciativas buscadas nas décadas do pós-guerra e na Revolução Verde. Quando vista nessa perspectiva, a era fascista parece menos uma aberração e mais uma parte integrante do processo global de “modernização” agrária, um processo cujos méritos agora estão sendo questionado. (FERNÁNDEZ PRIETO, Lourenzo; PAN-MONTOJO, Juan; CABO, Miguel (Ed.). Agriculture in the Age of Fascism: Authoritarian Technocracy and Rural Modernization, 1922-1945. Turnhout: Brepols Publishers, 2014).
Posse e propriedade da terra
A terra, com todas as suas riquezas naturais é a propriedade de todos, mas ela só será possuída por aqueles que a cultivarem. (BAKUNIN, Mikhail. Catecismo revolucionário. In: BAKUNIN, Mikhail. Obras seletas, v.2. São Paulo: Intermezzo, 2017).
A exploração do trabalho começou pela terra
É pela terra que começou a exploração do homem; é na terra que ela lançou seus sólidos alicerces. A terra ainda é a fortaleza do capitalismo moderno, como foi a cidadela do feudalismo e do antigo patrício. É a terra, enfim, que devolve à autoridade, ao princípio governamental, uma força sempre nova (...). (Pierre-Joseph Proudhon. Idée générale de la Révolution au dix-neuvième siècle. Disponível: fr.theanarchistlibrary.org).
Verdade ecológica e social da terra
(...) Devemos começar com a terra, pois os materiais básicos da vida são adquiridos da terra. Está não é apenas uma verdade ecológica, mas também uma verdade social. (Murray Bookchin. Agricultura radical, 1976, p. 7. Disponível em: www.bibliotecaanarquista.org. Acesso em: 4 nov. 2024.).
Prática agrícola
O tipo de prática agrícola que adotamos reflete e reforça a abordagem que vamos utilizar em todas as esferas da vida industrial e social. O capitalismo começou historicamente minando e superando a resistência do mundo agrário tradicional por uma economia de mercado; ele nunca será totalmente transcendido a menos que uma nova sociedade seja criada na terra que liberte a humanidade no sentido mais pleno e restabeleça o equilíbrio entre a sociedade e a natureza. (Murray Bookchin. Agricultura radical, 1976, p. 7. Disponível em:www.bibliotecaanarquista.org. Acesso em: 4 nov. 2024.EFO.
Questão agrária no Brasil do pós-Guerra ao golpe militar de 1964
No pós-guerra estrutura-se um debate teórico e político em torno da questão agrária brasileira, tendo por justificativa imediata a necessidade de uma Reforma Agrária ampla. Esta questão é levantada, sob diferentes perspectivas, por atores políticos e sociais com certa tradição nos conflitos agrários ou agrário-religiosos que pontilharam no Brasil desde a Guerra de Canudos (1897). De um lado temos o Partido Comunista Brasileiro, que pela reflexão de várias tendências dos seus intelectuais orgânicos ou mesmo de fora de seus quadros, como é o caso do Prof. Celso Furtado; formularam à época aquilo que se interpretava como cerne da questão agrária: uma dificuldade grave para o desenvolvimento industrial capitalista face ao atraso das forças produtivas e relações sociais agrárias. Por seu turno, a Igreja Católica pela palavra e presença ativa de sua hierarquia posicionava-se na linha de sua Doutrina Social, bafejada pelos tempos inovadores do Concílio Ecumênico Vaticano II. Ainda que disputando espaço com os comunistas, o papel da Igreja foi fundamental para abrir espaços às lutas de organização do sindicalismo rural no Brasil e também manter a luta pela Reforma Agrária na agenda política do Governo Goulart.
À direita do movimento em prol da Reforma Agrária, posicionava-se o grupo técnico-político que defendia a modernização técnica da agropecuária brasileira, sem reforma agrária. Este grupo tinha na figura do Prof. Delfim Neto, da USP, seu principal formulador e depois executor, como Ministro de Fazenda no governo militar, de 1967 a 1973.
Com o Golpe Militar de 1964 derrota-se o movimento pela Reforma Agrária e a Questão Agrária é remetida à solução pela modernização técnica. Este projeto é assumido integralmente pelo grupo paulista liderado pelo Prof. Delfim Neto.
O retorno da Questão Agrária à agenda política somente se dará com o fim do Regime Militar e o subsequente processo da democratização. Nesse novo contexto histórico os protagonistas da Reforma Agrária e seus oponentes estão em processo de metamorfose. A Igreja e a esquerda organizada em Partidos continuam a apoiar a Reforma Agrária, mas perderam protagonismo. A novidade maior é que a força motriz em favor da reforma agrária hoje está nos movimentos sócias. Este; operam com maior autonomia em relação à Igreja e aos partidos políticos. (DELGADO, Guilherme C. A questão agrária no Brasil, 1950-2003. Questão social e políticas sociais no Brasil contemporâneo. Brasília: IPEA, p. 51-90, 2005.).
Revolução e reforma agrária
Para obter informações de primeira mão sobre as mudanças revolucionárias, especialmente as reformas agrárias, viajei por todo o país em todas as direções e, após meu retorno a Havana, publiquei minhas impressões sob o título Estudios sobre las colectividades agrarias en México, Israel, España y Cuba. Comparando, constatei que os kibutzim israelenses e as coletividades espanholas avançaram muito na conquista da justiça social. No entanto, a reforma agrária mexicana se limita à distribuição de terras e à concessão de empréstimos a juros baixos para os camponeses pobres, enquanto as cooperativas cubanas são organizadas seguindo o modelo dos kolkhozes russos. (SOUCHY, Augustin. Cuba antes y después de la revolución castrista. In: __Libertamen__. Disponível em: <https://libertamen.wordpress.com/2023/01/30/cuba-antes-y-despues-de-la-revolucion-castrista-cuidado-anarquista-una-vida-para-la-libertad-1982-augustin-souchy/>. Acesso em: 19 jan. 2025).
Revolução agrária e reforma agrária, diferença
É preciso fazer a diferença entre reforma agrária e revolução agrária. A reforma agrária altera a estrutura [agrária] sem alterar o modo de produção. A revolução agrária altera a estrutura e o modo de produção. (MARCO, Valéria de. Luta por permanência camponesa na terra. Disponível em: <https://youtu.be/GiyKzX3k53U?si=XxhqMnEReqEcEOi2>. Acesso em: 17 jan. 2025.).
R
REGIME ALIMENTAR
Cunhado por Harriet Friedmann e Philip McMichael, este termo se refere à configuração estrutural historicamente mutável da produção e consumo de alimentos dentro da economia capitalista globalizada. Estudiosos da análise de regimes alimentares geralmente concordam que há três regimes alimentares principais: o primeiro das décadas de 1870-1930, definido pelo fluxo massivo de matérias-primas das colônias para os impérios coloniais em industrialização; o segundo das décadas de 1940-1970, marcado pelas crescentes exportações de grãos excedentes do Norte Global e o advento da Revolução Verde na agricultura; e o terceiro do final da década de 1970 em diante, definido pela intensificação do complexo econômico global em grãos e pecuária e expansão de plantações voltadas para a exportação ao lado de contramovimentos populares emergentes orientados em torno da sustentabilidade e agroecologia. (SAJADIAN, China. Critical Agrarian Studies. In: International Encyclopedia of Human Geography. 2. ed. Volume 3. Amsterdam: Elsevier, 2020. p. 17).
REVOLUÇÃO
As revoluções eclodem quando situações econômicas, políticas, sociais ou nacionais insuportáveis desencadeiam uma revolta. Terminam com a extinção das energias coletivas. Esse foi o caso da última revolução em Portugal. A profundidade, a duração, o conteúdo e o significado das revoluções não podem ser previstos. No início, acreditava no poder da revolução, mas mais tarde tomei consciência de suas limitações. Os acontecimentos revolucionários se desenvolvem em duas fases: primeiro, a derrubada dos antigos governantes e, depois, a instauração de um novo poder revolucionário. O processo é violento e raramente ocorre sem derramamento de sangue. As revoluções do século XX tinham — com poucas exceções — duas faces: uma mostrava a revolta libertadora e a outra a ditadura opressora. Assim foi, da Rússia a Cuba. Se em 1921 os marinheiros de Kronstadt tivessem triunfado, juntamente com os social-revolucionários de esquerda, os maximalistas, os sindicalistas e os anarquistas, a Rússia soviética seria hoje uma verdadeira república socialista com coletivos autônomos e liberdades políticas, sem a vergonha das prisões, dos campos de trabalho e de concentração e das instituições psiquiátricas para opositores políticos. (Augustin Souchy. Resumen – ¡Cuidado, anarquista! Una vida para la libertad (1982) – Augustin Souchy. Disponível em: https://libertamen.wordpress.com/2023/02/09/resumen-cuidado-anarquista-una-vida-para-la-libertad-1982-augustin-souchy/. Acesso em 19 jan. 2025).
REVOLUÇÃO VERDE
Esta foi uma campanha liderada pelos Estados Unidos da década de 1960 à década de 1990 que visava espalhar a agricultura capitalista moderna para os países do Sul Global. A Revolução Verde propôs que a pobreza rural poderia ser erradicada por meio de avanços tecnológicos na agricultura, incluindo o uso crescente de variedades de sementes de alto rendimento, pesticidas químicos, fertilizantes sintéticos, métodos modernos de irrigação e mecanização agrícola. Um produto da era da Guerra Fria, foi concebido como um baluarte contra as "revoluções vermelhas" lideradas por trabalhadores e camponeses em todo o Sul Global. Embora seja frequentemente creditado por promover o desenvolvimento agrícola e reduzir a fome mundial, os estudiosos dos estudos agrários críticos enfatizaram os enormes custos ambientais, sociais e econômicos da Revolução Verde, que contribuíram para a perda da biodiversidade agrícola, degradação da terra e erosão do solo, e aumento das taxas de deslocamento e endividamento entre pequenos agricultores em todo o mundo. (SAJADIAN, China. Critical Agrarian Studies. In: International Encyclopedia of Human Geography. 2. ed. Volume 3. Amsterdam: Elsevier, 2020. p. 17).
REGIME DE VERDADE
Cada sociedade tem seu regime de verdade, sua “política geral” de verdade: isto é, os tipos de discurso que ela acolhe e faz funcionar como verdadeiros; os mecanismos e as instâncias que permitem distinguir os enunciados verdadeiros dos falsos, a maneira como se sanciona uns e outros; as técnicas e os procedimentos que são valorizados para a obtenção da verdade; o estatuto daqueles que têm o encargo de dizer o que funciona como verdadeiro. (Foucault, Michel. Microfísica do poder. 2004, p. 10. Virtual book. In: www.sabotagem.net).
RITUAIS DE REBELIÃO
Constitui, portanto, meu primeiro exemplo de um ritual de rebelião, protesto institucionalizado exigido por uma tradição sagrada, aparentemente contra a ordem estabelecida, mas que pretende abençoar tal ordem, com o fito de conseguir prosperidade (Gluckman, Max. Rituais de rebelião no Sudeste da África. Brasília: Universidade de Brasília, Departamento de Antropologia, 2011, p. 9).
REVOLUÇÃO SIMBÓLICA
Se as revoluções simbólicas são especialmente difíceis de entender, mais ainda quando são exitosas, é porque o mais difícil é entender o que parece óbvio, na medida em que a revolução simbólica produz as estruturas pelas quais a percebemos. Em outras palavras, assim como as grandes revoluções religiosas, uma revolução simbólica desarranja estruturas cognitivas e às vezes, em certa medida, estruturas sociais. Quando bem-sucedida, ela impõe novas estruturas cognitivas que pelo fato de se generalizarem, de se difundirem, de habitarem o conjunto num universo social dos sujeitos que percebem tornam-se imperceptíveis. Nossas categorias de percepção e apreciação, as que normalmente empregamos para entender as representações do mundo e o próprio mundo, nasceram dessa revolução simbólica bem-sucedida.
Na verdade, o cerne do que eu queria lhes mostrar rapidamente hoje é que a revolução simbólica prejudica as categorias de percepção dos sujeitos que percebem, desafia suas categorias de percepção. Ao agredi-los, ao questioná-los, a revolução simbólica os obriga, de certa forma, a se revelarem. (BOURDIEU, Pierre. Manet: uma revolução simbólica. Novos estudos CEBRAP, p. 121-135, 2014).
Revolução simbólica e ordem simbólica
Para entender essa revolução simbólica sobre a qual tentei dizer - talvez de modo um pouco abstrato já que ela é intrinsecamente difícil de entender - será preciso tentar captar primeiro a ordem simbólica que Manet derrubou, e em que consistia essa ordem: uma ordem simbólica realizada é uma ordem que se impõe como evidente, uma ordem tal que seu questionamento não vem ao espírito de ninguém. Em outras palavras, uma ordem simbólica realizada cumpre 5 [consegue] perceber que essa ordem própria simbólica seja óbvia, seja taken for granted. Para reconstituir essa ordem simbólica em toda a sua força é preciso levar em conta o fato de que a experiência do "isso é óbvio" é absolutamente extraordinária, mas que, paradoxalmente, parece ordinária: é extraordinária porque supõe um acordo quase perfeito entre as estruturas objetivas do mundo, daquilo que é percebido, e as estruturas cognitivas pelas quais o percebemos. E é desse acordo imediato, sem discordância, sem dissonância, sem desacordo, que nasce a experiência do "é assim", do "isso é óbvio", do "não pode ser diferente". (BOURDIEU, Pierre. Manet: uma revolução simbólica. Novos estudos CEBRAP, p. 121-135, 2014).
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S
SINDICALISMO REVOLUCIONÁRIO
Deste encontro de ativistas operários, da sua luta comum surgiu o sindicalismo revolucionário que significa: movimento autônomo da classe operária exercendo nos seus sindicatos através da sua ação direta a luta contra todas as forças de exploração e opressão que pesam sobre ela. (Pouget, Emile et al. Aos camaradas. L'Action Directe, 15 de janeiro de 1908. Disponível em: https://la-presse-anarchiste.net/index.php/1908/01/15/aux-camarades-2/. Acesso em 22 fev. 2024).
SOBERANIA ALIMENTAR
Liderado pelo movimento social latino-americano La Vía Campesina na década de 1990, este é um movimento transnacional amplo e diverso que promove a democratização dos sistemas agroalimentares em todo o mundo. Ele contrasta com o conceito de “segurança alimentar” apoiado pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação e outras agências de desenvolvimento. Enquanto o paradigma da segurança alimentar busca abordar a fome e a desnutrição por meio de políticas técnicas e orientadas pelo mercado, o movimento pela soberania alimentar coloca em primeiro plano questões de produção e distribuição de alimentos. A soberania alimentar é baseada em um conceito de acesso democrático à terra, aborda a comida como um direito em vez de uma mercadoria e promove a produção localizada ecologicamente sustentável. (SAJADIAN, China. Critical Agrarian Studies. In: International Encyclopedia of Human Geography. 2. ed. Volume 3. Amsterdam: Elsevier, 2020. p. 17).
SOCIEDADE
A sociedade é o modo natural de existência da comunidade humana, independente de qualquer contrato. É governada por costumes ou hábitos tradicionais, mas nunca por leis. Avança lentamente pelo impulso de iniciativas individuais e não pelo pensamento ou vontade do legislador. Há muitas leis que a regem à sua maneira, mas são leis naturais, inerentes ao corpo social, uma vez que as leis físicas são inerentes aos corpos materiais. A maior parte destas leis são até agora desconhecidas, e no entanto têm governado a sociedade humana desde o seu nascimento, independentemente do pensamento e da vontade dos homens que a compuseram; daí decorre que não devem ser confundidas com as leis políticas e jurídicas que, nos sistemas que estamos a examinar, proclamadas por qualquer poder legislativo, fingem ser as deduções lógicas do primeiro contrato conscientemente formado por homens. (BAKUNIN, Miguel. Federalismo, socialismo y anti-teologismo. In: BAKUNIN, Miguel. Obras completas de Miguel Bakunin, Vol. 3. Tradução Diego A. de Santillán. Madri: La Piqueta, 1979. p. 125).
Sociedade ecológica
É imprescindível refletir e debater profundamente sobre a natureza de tal “sociedade ecológica”. Algumas conclusões são quase óbvias. Uma sociedade ecológica deve ser não-hierárquica e sem classes, deve eliminar mesmo o conceito de dominação da natureza. A este propósito têm de se retomar os fundamen- tos do eco-anarquismo de Kropotkin e dos grandes ideais iluministas da razão, liberdade e força mancipadora da educação, defendidos por Malatesta e Berneri. Melhor, os ideais humanistas que guiaram os pensadores anarquistas do passado devem ser recuperados na sua totalidade e transformados em um humanismo ecológico que encarne nova racionalidade, nova ciência e nova tecnologia. (Murray Bookchin. Por que ecologia social?. In: A Batalha, Lisboa, ano 15, n° 126, outubro-dezembro de 1989. Disponível em: https://ithanarquista.wordpress.com/classicos-anarquistas/murray-bookchin/murray-bookchin-por-que-ecologia-social/. Acesso em 18 out. 2024.).
Sociedade sem Estado
Há uma tendência para as pessoas criadas em sociedades com Estados assumirem que o verdadeiro ou correto ponto final da evolução cultural humana é a criação de uma sociedade com um Estado. Aqueles que vivem em sociedades sem Estado são, portanto, vistos como pessoas inferiores que não conseguiram perceber a melhor forma de organizar a sociedade. Em resposta a esta forma de pensar, o antropólogo Pierre Clastres sugeriu que as sociedades sem Estado não deveriam ser vistas como sociedades sem Estado, mas sim como sociedades contra o Estado. Isto é, as pessoas não vivem em sociedades sem Estado por acaso. Em vez disso, desenvolveram filosofias políticas sobre o tipo de sociedade em que querem viver e criaram conscientemente estruturas sociais para garantir a reprodução de uma sociedade sem governantes. Os membros de sociedades sem Estado não deixaram de perceber a possibilidade de uma sociedade em que uma minoria dominante impõe a sua vontade a todos os outros através da violência. Em vez disso, escolheram deliberadamente criar um tipo diferente de sociedade. (BAKER, Zoe. Anarchism as a Way of Life. 2021. The Anarchist Library).
A sociedade somos nós
Este mundo que nos envolve, nos penetra, nos agita, sem que possamos vê-lo de outro modo que não seja através dos olhos do espírito e tocá-lo a não ser por sinais, este mundo estranho, é a sociedade, somos nós! (Pierre-Joseph, Sistema das contradições econômicas, 1846).
Homem e sociedade
Quereis conhecer o homem, estudai a sociedade; quereis conhecer a sociedade, estudai o homem. O homem e a sociedade servem-se reciprocamente de sujeito e objeto; o paralelismo de ambas as ciências é completo.(Pierre-Joseph, Sistema das contradições econômicas, 1846).
Progresso da sociedade
As forças coletivas revelaram que a sociedade é um equilíbrio de elementos opostos, antinômicos; que a mudança social ocorre quando o equilíbrio entre esses elementos é perturbado; e que um novo equilíbrio é estabelecido quando as mudanças nos elementos em conflito são incorporadas em novas ou modificadas instituições. Esse processo de equilíbrio/desequilíbrio é responsável pelo progresso da sociedade e, como novas coletividades vão surgindo constantemente no decorrer do tempo, novos equilíbrios são estabelecidos, e esse processo continuará sem fim. (NOLAND, Aaron. Pierre-Joseph Proudhon: socialist as social scientist. The American Journal of Economics and Sociology, v. 26, n. 3, p. 313-328, 1967).
Produção e reprodução da sociedade
A produção e a reprodução da sociedade tem de ser tratadas como uma execução hábil por parte dos seus membros, e não meramente como uma série mecânica de processos. (Giddens, Novas regras do método sociológico, 1976).
SOCIOLOGIA
A sociologia de Proudhon
A sociologia de Proudhon é fruto exclusivamente de sua guerra social e política, e só ao evocar suas lutas e críticas, é possível descobrir o espírito da ciência social por ele elaborada e o método dialético que propõe. (Ansart, Pierre. Sociología de Proudhon. Buenos Aires: Editorial Proyección. 1971).
A sociologia para Kropotkin
Quanto mais vivo, mais me convenço de que nenhuma ciência social verdadeira e útil, nenhuma ação social verdadeira e útil é possível, exceto a ciência que baseia suas conclusões, e a ação que baseie seus atos, no pensamento e na inspiração das massas. Toda ciência sociológica e toda ação social que não levar isso em conta deve permanecer estéril. (Kropotkin, Piotr. Carta a Emma Goldman. In: Emma Goldman. Viviendo mi vida (1931). Disponível em: https://es.theanarchistlibrary.org/library/emma-goldman-viviendo-mi-vida. Acesso em 15 março de 2024.)
A sociologia não é
A sociologia não é nem um ramo da literatura, nem um ramo da física. Ela recusa tanto a redução pós-estruturalista de todo o conhecimento a conhecimento reflexivo, como a redução feita pela ciência pura de todo o conhecimento a conhecimento instrumental. (Michael Burawoy. A sociologia da terceira onda e o fim da ciência pura, 2008).
O mal da sociologia
O mal da sociologia é que ela descobre o arbitrário, ali onde as pessoas gostam de ver a natureza; e que descobre a coação social, ali onde se gostaria de ver a escolha, o livre-arbítrio. (BOURDIEU, Pierre. Coisas ditas).
Grupo e indivíduo na sociologia
A sociologia, embora se defina como a ciência das sociedades, na realidade não pode tratar dos grupos humanos, que são o objeto imediato de sua pesquisa, sem chegar finalmente ao indivíduo, elemento último do qual esses grupos são compostos. (Emile Durkheim, O dualismo da natureza humana e suas condições sociais, 1914).
SUPEREXPLORAÇÃO DA FORÇA DE TRABALHO
Marini aponta que a superexploração é resultado de três distintos processos: a redução do consumo do operário além do seu limite normal; o aumento da intensidade do trabalho; e o prolongamento da jornada de trabalho. (FRANKLIN, Rodrigo Straessli Pinto. O que é superexploração?. Economia e Sociedade, v. 28, n. 3, p. 689-715, 2019. p. 704).
T
TEORIA
Papel da boa teoria
El gran mérito del análisis estructural es que proporciona una técnica casi infalible para hacer lo que cualquier buena teoría debe hacer: simplificar y esquematizar un material complejo de tal forma que sea capaz de decir algo inesperado (GRAEBER, David. Fragmentos de antropología anarquista y otros textos. Mexico, DF: La Social, 2015, p. 194).
Teoria social
A teoria social tem a tarefa de fornecer concepções da natureza da atividade social humana e do agente humano que possam ser colocadas a serviço do trabalho empírico. A principal preocupação da teoria social é idéntica às das ciências sociais em geral: a elucidação de processos concretos da vida social. (Anthony Giddens, A constituição da sociedade ([1984] 2003).
Teoria e experiência
A experiência deve renovar constantemente a teoria (Amédeé Dunois. O conflito. L'Action Directe, 15 de janeiro de 1908. Disponível em: https://la-presse-anarchiste.net/index.php/1908/01/15/le-conflit/. Acesso em 22 jan. 2024).
TEORIA DO ATOR REDE
Uma abordagem sociológica associada a Bruno Latour, John Law, Michel Callon e outros que influenciaram várias ciências sociais. Ela enfatiza a natureza performativa das redes, e, de forma controversa, pode-se dizer que atribui agência, a capacidade de agir, a elementos não humanos de uma rede - as pessoas e as coisas que elas usam interagem para perpetuar a rede. Os críticos argumentam que a TAR subestima as verdadeiras relações políticas e de poder envolvidas em sua área de estudo. A TAR é um ramo dos estudos de ciência e tecnologia. (MORRIS, Mike. Concise dictionary of social and cultural anthropology. John Wiley & Sons, 2012. p. 2).
V
VALOR
Valor como categoria econômica dominante
A categoria dominante da economia política é o valor. (Pierre-Joseph Proudhon. Sistema das contradições econômicas ou Filosofia da miséria. Tomo I. São Paulo: Ícone, 2003. p. 177.).
Geração de valor e acumulação de capital
Se a geração do valor é o núcleo mesmo da estruturação da sociedade burguesa, é a realização desse valor que a organiza. Isto porque a geração do valor não é uma razão em si, sendo esta razão a acumulação do capital. E sem realização do valor não há acumulação.
Por isto, embora seja a fábrica (esfera da produção) a raiz da sociedade, e por isto a raiz do Estado, o Estado cumpre sua função de hegemoni- zação do capital sobre a sociedade como um todo a partir do deslocamento do papel nuclear do espaço-fábrica para o espaço-mercado. É através desse deslocamento que o Estado efetua a hegemonização do capital, uma vez que o espaço do mercado é governado por relações contratuais, e, por isto, de nítida moldagem jurídico-política. (Ruy Moreira. O movimento operário e a questão cidade-campo no Brasil: estudo sobre sociedade e espaço. Petrópolis: Vozes, 1985. p. 28.).
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