Mostrando postagens com marcador campesinato. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador campesinato. Mostrar todas as postagens

Modo de produção comunal na Espanha rural insurgente (1936-1939) [Tradução]

Fonte

Apresentação

Esta é a tradução para o português da conclusão do artigo de Myrna Margulies Breitbart intitulado "Anarchist decentralism in rural Spain, 1936-1939: The integration of community and environment" (Fonte), publicado originalmente em 1978 na revista de geografia radical Antipode. Recomenda-se a leitura integral do texto para melhor contextualizar os argumentos apresentados na Conclusão. O título da postagem é uma criação do autor do blog, ainda que faça jus aos argumentos da autora do artigo.

Raphael Cruz

***

Conclusão do texto "Anarchist decentralism in rural Spain, 1936-1939: The integration of community and environment"

por Myrna Margulies Breitbart

A insurreição fascista de julho de 1936 ofereceu aos camponeses espanhóis a primeira oportunidade real de tomar a terra e implementar, em larga escala, princípios comunais anarquistas. Iniciou-se uma sequência de transformações que teve origem nas relações sociais, prosseguiu na organização econômica e técnica e terminou por promover grandes alterações no uso do tempo e do espaço. Uma revolução social que começou transformando as pessoas acabou criando um ambiente totalmente novo.

Antes de 1936, os camponeses espanhóis viviam uma contradição. Suas rotinas diárias eram divididas, temporal, espacial e experiencialmente, entre o trabalho — sobre o qual tinham pouco controle — e a vida social — sobre a qual possuíam controle limitado e alguma recompensa pessoal. Interesses capitalistas e feudais dominavam diretamente os ritmos de tempo e espaço do trabalho. Indiretamente, também afetavam as rotinas sociais da vida nas aldeias, tornando difícil que camponeses e trabalhadores satisfizessem suas necessidades comuns de saúde, educação e cultura.

A propriedade comunal da terra e a eliminação das classes nas áreas anarquistas após julho de 1936 substituíram a propriedade privada da terra e as hierarquias de poder capitalistas ou feudais. Um aparato administrativo que exigia a participação de todos os membros trabalhadores de cada coletivo sustentou essas mudanças e alterou profundamente as relações produtivas. Os trabalhadores passaram a compartilhar a responsabilidade pelas decisões e pela coordenação das tarefas. As transformações fundamentais nas relações sociais de produção também estimularam a cooperação entre diferentes ramos da agricultura e da indústria, bem como entre cidade e campo.

O controle sobre os meios de produção agrícola levou à ampliação do uso de recursos e à modificação das técnicas de cultivo. As mudanças combinadas nas relações sociais e técnicas foram então acompanhadas por grandes alterações no uso do espaço em níveis locais e regionais. Os camponeses diversificaram o plantio e construíram sistemas de irrigação que colocaram em cultivo terras que permaneciam incultas havia gerações. Pela primeira vez em séculos, o problema da fome foi eliminado.

A preocupação com a autonomia local não fechou horizontes na Espanha anarquista — ao contrário, abriu-os. Embora os coletivos individuais buscassem a autossuficiência nas necessidades básicas para reduzir a dependência externa, também estabeleceram fortes vínculos intercomunais. O objetivo dessas trocas coletivas era proporcionar às aldeias acesso a uma maior variedade de bens e serviços, permitindo assim certa especialização em nível regional. As federações regionais também ajudaram a integrar a produção agrícola e industrial, fornecer às coletividades rurais uma ligação crucial com mercados e suprimentos internacionais e oferecer assistência técnica.

Em um sentido muito concreto, essas redes permitiram que aldeias que, de outro modo, permaneceriam isoladas mantivessem sua autonomia e viabilidade econômica diante de severos obstáculos de guerra.

O modo de produção comunal também alterou o conteúdo e o significado da vida social, permitindo que os camponeses incorporassem diretamente princípios libertários às rotinas cotidianas. As tensões criadas pela guerra e por uma jornada de trabalho extremamente exigente poderiam sugerir que os camponeses não encontrariam satisfação pessoal nessa existência comunal. No entanto, o fato de perceberem suas vidas como menos tediosas indica que o tédio era tanto produto de estresse mental e contradição pessoal quanto de esforço físico.

Antes da coletivização, o estresse entre os camponeses vinha de ter de viver duas vidas contraditórias: uma vida social comunal, porém secreta, e uma existência econômica competitiva marcada pela incapacidade de controlar os meios de produção. A coletivização permitiu que os trabalhadores escapassem da autoridade opressiva e exercessem prerrogativas pessoais sobre suas vidas econômicas e sociais. Essa humanização dos valores econômicos e sociais gerou novos ritmos de vida e produziu a energia necessária para reduzir o impacto dos enormes problemas que ainda permaneciam.

A tomada do controle da própria vida pelos camponeses anarquistas em 1936 enterrou grande parte do esgotamento associado ao antigo modo de vida. Por um curto período, ao menos uma parte da Espanha conseguiu desenvolver um modo de produção que sustentava — em vez de contradizer — os comportamentos que as pessoas valorizavam em sua vida social.

O anarquismo e todos os vestígios de liberdade foram removidos da Espanha em 1939, depois que Franco, auxiliado por Hitler e Mussolini, alcançou a vitória militar. Milhares de militantes foram executados diariamente diante de pelotões de fuzilamento, no que foi descrito como “uma contínua orgia de assassinatos, uma Noite de São Bartolomeu que durou seis anos” (Peirats, 1977: 342).

Se adotarmos a visão de Malatesta e deixarmos de medir o sucesso das revoluções apenas por sua vitória política final, torna-se claro que os anarquistas espanhóis têm vários êxitos construtivos a apresentar. Melhorias imensas e duradouras foram realizadas na paisagem econômica rural como resultado da coletivização. Embora não discutido neste trabalho, a escala e a importância da coletivização urbana e do controle operário da indústria também foram grandes, impressionando “até observadores altamente hostis” (Chomsky, 1969: 78).

Os anarquistas demonstraram a importância de considerar tanto o local de trabalho quanto a comunidade como terrenos de luta e como espaços nos quais relações cooperativas poderiam ser reavivadas. Como a mudança social radical não foi iniciada por organizações elitistas e hierárquicas, as questões emergiram das lutas da vida cotidiana e as pessoas puderam transformar-se em agentes ativos de mudança.

Os sindicatos industriais e os coletivos agrícolas também redefiniram o conceito de eficiência, alcançando formas de organização mais produtivas do que empresas tanto do setor privado quanto do setor estatal.

O descentralismo anarquista foi, porém, mais do que um processo social ou uma forma espacial: baseava-se em uma filosofia de vida inteiramente nova. Suas características — autogestão, integração das atividades econômicas e sociais, pequena escala e federalismo — tinham como objetivo desenvolver qualidades humanas positivas.

O fato de os anarquistas espanhóis terem conseguido fazê-lo é indicado pelos traços pessoais de seus militantes: pessoas dispostas a cooperar com outras em todos os níveis, capazes de compreender as necessidades alheias e responder a elas, que mantinham interesse e entusiasmo em seu trabalho apesar das longas horas, que viviam próximas da natureza e a respeitavam, e que conseguiam conduzir suas vidas complexas de forma responsável sem recorrer a formas arraigadas de autoridade.

Embora os anarquistas tenham sofrido derrota política e militar na Espanha em 1939, isso não ocorreu sem deixar algo concreto para os revolucionários do presente: as realizações práticas de controle comunitário e operário e um povo impregnado de uma profunda compreensão das raízes da liberdade pessoal na ação social.

A IWW nos campos (1905–1925) [Tradução]

Cartas da campanha de sindicalização
da IWW, do início dos anos 1910. Fonte.


por Oscar Rosales Castañeda (Fonte)

Muito antes dos United Farm Workers, os Industrial Workers of the World (IWW) organizaram-se local e nacionalmente por meio de seu braço de trabalho agrícola: a Agricultural Workers Organization (AWO).¹ A AWO da IWW envolveu-se em uma das primeiras tentativas sérias no Estado de Washington de contestar a hegemonia dos patrões sobre a força de trabalho agrícola. Membros da IWW agitaram em defesa dos direitos dos trabalhadores rurais, buscando melhores salários e condições de trabalho para aqueles que labutavam nos campos. Suas ações tiveram implicações profundas para futuras tentativas de organizar trabalhadores rurais e influenciariam a eventual formação dos United Farm Workers (UFW) na década de 1960.

Fundada em 27 de junho de 1905, em Chicago, Illinois, a IWW buscava organizar os trabalhadores segundo o modelo de sindicatos por ramos, em vez dos sindicatos especializados por ofício ou categoria da American Federation of Labor (AFL). A IWW adotava o socialismo revolucionário e estendia a filiação a todos os trabalhadores, independentemente de raça, cor ou sexo, rompendo com e oferecendo alternativa à AFL, dominada por homens brancos.² A ambiciosa tentativa do grupo de criar uma organização abrangente de massas para trabalhadores era acompanhada por uma filosofia que enfatizava, acima de tudo, a solidariedade operária e uma consciência de classe revolucionária.³ Isso pode ser visto em lemas como “uma injúria contra um é uma injúria contra todos” e no preâmbulo da constituição da IWW, que afirmava que “[a] classe trabalhadora e a classe empregadora nada têm em comum.”

Logo após estabelecer a IWW, os organizadores buscaram incorporar uma abordagem de dois métodos na sindicalização de trabalhadores rurais. Um método consistia em educar os trabalhadores sobre os benefícios de uma comunidade cooperativa de trabalhadores, do sindicalismo por ramo e da revolução; o outro era ir diretamente aos locais de trabalho para recrutar membros. Ambos os métodos inicialmente tiveram pouco sucesso. Isso mudaria à medida que a IWW e a AWO aperfeiçoaram suas táticas.

No Estado de Washington, a IWW participaria de batalhas pela liberdade de expressão em Spokane e outras cidades. Impulsionada pela vitória na luta pela liberdade de expressão em Spokane, a IWW enviaria organizadores ao Vale de Yakima e a outras grandes regiões produtoras de frutas para persuadir trabalhadores a lutar por melhores condições de trabalho. Greg Hall examina essas campanhas em seu livro Harvest Wobblies: The Industrial Workers of the World and Agricultural Laborers in the American West, 1905-1930.⁴

Já no verão de 1910, a filiação à IWW — ou “Wobbly” — estendia-se ao leste do Estado de Washington, de Spokane, Walla Walla e da região de Palouse até Yakima (chamada North Yakima até ser renomeada em 1918), entre trabalhadores rurais predominantemente migrantes brancos.⁵ Ativistas da IWW chegavam cedo para a temporada de colheita, distribuindo literatura e adesivos como forma de difundir sua mensagem.⁶ Logo surgiram conflitos com as autoridades locais, pois muitas cidades proibiam a IWW de realizar reuniões públicas nas esquinas, negando efetivamente o direito de associação pacífica em público. A polícia também prendia organizadores como forma de aplicar os estatutos restritivos da cidade. Isso levou os redatores e editores da publicação da IWW, Industrial Worker, a incentivar os Wobblies a organizarem-se nos campos, em vez de nas esquinas.

No entanto, esse conselho nem sempre foi seguido. Em julho de 1910, os membros da IWW John W. Foss e Joseph Gordon realizaram uma reunião pública na Front Street, no centro de Yakima. Apesar de possuírem autorização para falar, ambos foram presos por violarem os termos da permissão.⁷ Yakima era conhecida por incluir trabalho em correntes (chain gangs) como parte da pena de prisão, o que Foss e Gordon se recusaram a fazer. O capitão de polícia recorreu a alimentá-los apenas com pão e água e a forçá-los a carregar bola e corrente. Esse tratamento severo, embora apoiado pela imprensa local, foi uma reação motivada pelo medo dos proprietários rurais de que a IWW conquistasse os trabalhadores migrantes, especialmente em períodos de escassez de mão de obra. A brutalidade surtiu efeito e as tentativas iniciais de organização da IWW em Yakima fracassaram.

A organização recomeçou após a criação da Agricultural Workers Organization (AWO) em 1915. A IWW realizou uma conferência inicial de trabalhadores da colheita em Kansas City, Missouri, em 15 de abril de 1914, e logo lançou a AWO como um dos vários sindicatos industriais dentro da IWW. A AWO mudou de estratégia e provocou uma nova onda de ativismo nos campos. O objetivo era afastar-se do discurso inflamado e das declarações revolucionárias às quais a IWW estava inclinada. Em vez disso, concentraram-se em construir uma organização estável e melhorar as condições reais de trabalho dos trabalhadores da colheita.⁸

No verão de 1916, os esforços de organização dos trabalhadores rurais foram retomados em Washington, em uma campanha para estabelecer a AWO no Vale de Yakima. Com várias centenas de Wobblies na região, a liderança da AWO enviou delegados de emprego ao centro de Washington para alcançar colhedores independentes e outros trabalhadores agrícolas. Além disso, houve uma tentativa de incorporar pastores de ovelhas, tratadores de cordeiros e tosquiadores ao sindicato. Inicialmente, a ação foi prejudicada por disputas entre os diversos grupos étnicos, que incluíam vários mexicanos, espanhóis e brancos nativos. Apesar das divisões, entraram em greve para exigir melhores salários.

A atividade foi novamente recebida com mão brutal das autoridades locais. Em 16 de setembro de 1916, a polícia prendeu onze Wobblies em seus quartos alugados no centro de Yakima. Os oficiais levaram os homens ao juiz R.B. Milroy, que os informou de que Yakima não tinha lugar para os Industrial Workers of the World. Produtores de frutas da região aparentemente acreditavam que a distribuição de literatura Wobbly entre os trabalhadores prejudicava o recrutamento de mão de obra e apresentaram queixas contra a IWW local.⁹

A repressão fora comum durante a presença inicial da IWW no Vale de Yakima. As elites locais e os agricultores comerciais utilizaram o sistema judiciário e outras instituições em seu benefício.¹⁰ A repressão sancionada pelo Estado foi mais uma camada somada à hostilidade de vigilantes. Jornais do vale não apenas apoiavam o status quo, mas também incentivavam a violência vigilante contra organizadores e trabalhadores da AWO.¹¹

Segundo Hall: “A IWW viu-se sob ataque já em março de 1917, quando a legislatura estadual aprovou um projeto que teria tornado crime a ‘promoção de sindicatos, sabotagem ou uso de violência em disputas industriais’. Com a IWW definida pelos legisladores estaduais como uma organização que aderiria a tais políticas, membros da organização poderiam agora enfrentar prisão.”¹²

Quando os Estados Unidos entraram na Primeira Guerra Mundial poucos meses depois, a repressão se acelerou. A IWW se opôs à guerra, considerando-a uma guerra capitalista que desperdiçava vidas de trabalhadores enquanto permitia que grandes empresas lucrassem. Autoridades federais agiram contra a organização “sediciosa” e, em Washington, agentes federais, em colaboração com autoridades locais, reprimiram eficientemente a atividade da AWO. O governador Ernest Lister solicitou um grupo de espiões para monitorar e infiltrar o sindicato. Em 9 de julho de 1917, tropas federais invadiram o Wobbly Hall em Yakima, prenderam 24 Wobblies e confiscaram panfletos informativos. Espiões espalharam-se pelo estado, especialmente nas pequenas cidades onde trabalhadores da colheita se reuniam, relatando informações ao chefe do Serviço Secreto do Estado de Washington, C.B. Reed.¹³ Os Wobblies nunca estavam seguros contra prisão no centro de Washington.

A histeria de guerra gerou preocupação adicional com a organização dos trabalhadores. Promotores federais lançaram uma série de prisões e batidas direcionadas especificamente à IWW em março de 1918. Agências federais justificaram a ação como repressão a “estrangeiros inimigos”. A repressão do pós-guerra continuou muito além do fim da guerra, notadamente sob o procurador-geral A. Mitchell Palmer, com esforços do Departamento de Justiça em colaboração com o recém organizado Bureau of Investigation e sua Divisão de Inteligência Geral.¹⁴ Como afirma Hall, “…tornou-se ilegal expressar ‘qualquer linguagem desleal, profana, difamatória ou abusiva’ em relação ao governo dos Estados Unidos, à Constituição, à bandeira ou a qualquer uniforme das forças armadas.”¹⁵

A imprensa local também fomentou antipatia contra a IWW e seus membros. O Yakima Daily Republic frequentemente interpretava erroneamente a tática de desaceleração do trabalho como sabotagem e como perturbação pró-alemã. Afirmava que a IWW pretendia “espalhar venenos pelos pomares do vale.”¹⁶

Apesar da repressão, a AWO manteve certa organização até a década de 1920. Com o aumento do desemprego na depressão pós-guerra de 1921 e 1922, a organização renovou esforços para defender os direitos dos trabalhadores rurais sob novo nome. A AWO passou a chamar-se Agricultural Workers’ Industrial Union (AWIU).

Conscientes da necessidade de organizar mantendo distância da IWW, mais controversa, trabalhadores locais organizaram o Fruit Workers Union of Yakima (FWUY), grupo que logo se afiliou à AFL, dominada por homens brancos. Contudo, a luta contra a exploração dos trabalhadores rurais declinou. Os produtores contornavam negociações sindicais recorrendo ao abundante contingente de trabalhadores não sindicalizados. Tornou-se imprudente ao FWUY deflagrar greves. Enquanto houvesse grande reserva de mão de obra, os produtores manteriam vantagem ao demitir dissidentes e contratar substitutos.

A repressão local e nacional debilitou gradualmente a organização. A IWW e a AWIU alcançaram poucos resultados na organização de trabalhadores rurais nos Estados Unidos das décadas de 1910 e 1920.¹⁷ Produtores no Vale de Yakima e em outras regiões frutícolas mantiveram controle por meio de tribunais, legislaturas, polícia local, imprensa e violência vigilante para destruir qualquer tentativa de contestar sua hegemonia.

Isso teve impacto debilitante sobre a organização, a ponto de restarem poucos recursos para sustentar esforços organizativos. Em 1924, muitos dos estrategistas que haviam guiado a ascensão nacional da IWW já não estavam presentes. Muitos estrangeiros foram deportados; outros foram presos, morreram ou deixaram a organização para trabalhar com a AFL ou com o Partido Comunista Americano.

Como argumenta Greg Hall, o fator-chave na queda final da IWW foi que os Wobblies da colheita e os organizadores da AWIU “não conseguiram superar satisfatoriamente [sua] cultura de vida laboral. O vínculo cultural que atuara como forte atração para trabalhadores agrícolas migrantes nas décadas de 1910 e início dos anos 1920 tornou-se ironicamente uma força isoladora, criando um abismo entre os Wobblies da colheita e outros trabalhadores.” Trabalhadores fixos ignoravam a mensagem do sindicato. Trabalhadores rurais latinos e asiáticos não se sentiam atraídos pela cultura e ideias da AWIU, ainda largamente enraizadas na experiência transitória masculina branca.¹⁸ Embora alguns membros da IWW tivessem buscado romper com a AFL ao incluir a massa racial e etnicamente diversa de trabalhadores não qualificados, esse objetivo permaneceu não alcançado.

O fim da AWIU e a dissolução subsequente da IWW como um todo também podem ser atribuídos ao fracasso da IWW em recrutar uma força de trabalho mais diversa. A organização considerou quase impossível organizar famílias de colhedores, trabalhadores não brancos e os poucos trabalhadores das frutas afiliados à AFL. Ainda que tivesse estendido a filiação a todos os trabalhadores, independentemente de raça, cor ou sexo, não conseguiu dialogar com os atributos sociais e culturais da força de trabalho.¹⁹ Assim, durante as décadas de 1920 e 1930, as condições de vida e trabalho de muitos migrantes permaneceram precárias.

Os Wobblies da colheita eventualmente desapareceram completamente da indústria agrícola após a década de 1930. Ainda assim, a AWO/AWIU teve impacto profundo como um dos primeiros grandes sindicatos industriais a tentar organizar milhares de trabalhadores rurais. Em um período em que a exclusão com base em raça e origem nacional era comum entre sindicatos afiliados à AFL, a IWW ofereceu abordagem única e inovadora aos trabalhadores agrícolas.²⁰ O Vale de Yakima permaneceria relativamente silencioso pelas duas décadas seguintes, exceto por uma grande onda de atividade em 1933.


Notas de rodapé

1. A AWO foi posteriormente renomeada como Agricultural Workers’ Industrial Union (AWIU).

2. Entre os membros proeminentes da IWW estavam William D. “Big Bill” Haywood, Carlo Tresca, Emma Goldman, Mother Jones, Joe Hill e Ricardo Flores Magon (um dos progenitores intelectuais da Revolução Mexicana de 1910).

3. Greg Hall, Harvest Wobblies: The Industrial Workers of the World and Agricultural Laborers in the American West, 1905-1930 (Corvallis: Oregon State University Press, 2001), 67–68. Como observa Hall, a IWW encontrou vários obstáculos à organização no Vale de Yakima e teve dificuldades em criar uma estratégia eficaz. Esse foi um deles.

4. Ibid.

4. A cidade de North Yakima foi estabelecida logo após a Northern Pacific Railroad anunciar, em 1883, sua decisão de contornar Yakima City e construir sua estação quatro milhas a noroeste da cidade. Em 1884, 100 edifícios foram transferidos para o novo local, onde formariam o núcleo da nova cidade, que se tornou sede do condado de Yakima em janeiro de 1886. Em 1918, North Yakima encurtou seu nome para “Yakima”, enquanto o antigo sítio urbano de Yakima City também mudou seu nome para “Union Gap”.

5. Hall, 144.

6. Hall, 65–66. Ao optarem por não pagar as multas, Foss e Gordon aceitaram cumprir pena de prisão como forma de quitá-las.

7. Ross Reider, “Lumber Workers Industrial Union, IWW, holds founding convention in Spokane on March 5, 1917,” HistoryLink, 14 de junho de 2005. Edição eletrônica disponível em: http://www.historylink.org/index.cfm?DisplayPage=output.cfm&fileid=7345.

8. Hall, 102.

9. Hall, 141.

10. O jornal local publicou editoriais que enfatizavam a suposta propensão dos Wobblies à violência, bem como a tática wobblie de aceitar qualquer salário oferecido por um agricultor até chegar ao campo e então exigir salário mais alto. A imprensa local observava que a IWW expressava slogans como “mais salários, menos horas, melhor comida ou sabotagem”, “abolição do sistema salarial” e “bom pagamento ou trabalho ruim”. A imprensa defendia os produtores argumentando que os agricultores locais não eram uma elite capitalista, minimizando as queixas dos trabalhadores.

11. Hall, 128.

12. Ibid., 126.

13. Esse órgão foi o precursor do Federal Bureau of Investigation (FBI).

14. Como observa Hall, “autoridades federais prenderam ativistas antiguerra e aqueles que consideravam um obstáculo ao esforço de guerra.” Após a guerra, muitos estados continuaram campanhas implacáveis destinadas a suprimir pontos de vista dissidentes por meio da repressão a radicais. Hall, 157.

15. O Yakima Daily Republic frequentemente acusava os Wobblies de simpatia pró-alemã, de portar bolsos cheios de ouro de origem suspeita e de planejar envenenar cidadãos de Yakima. Hall, 43.

16. Hall, 231.

17. Ibid., 232.

18. Ibid., 167.

19. Segundo Hall, um panfleto escrito por Wobblies de Seattle e publicado no Industrial Worker afirmava que “[n]ão apenas seu sindicato deve incluir o negro, o japonês, o mexicano, o trabalhador nascido no exterior, a mulher e a criança, bem como o cidadão adulto, mas deve também fazer causa comum com o restante dos trabalhadores.” 

20. Hall, 180.

Errico Malatesta, a questão agrária e o campesinato: algumas notas de pesquisa (1891-1929)

 

Errico Malatesta (1853-1932)

Entre 1891 e 1929, o pensamento de Malatesta sobre a questão agrária desloca-se de uma preocupação predominantemente econômico-material para uma elaboração estratégica e, por fim, institucional-libertária, sem abandonar seus pressupostos centrais.

Os três textos identificados como possuindo elementos da reflexão de Malatesta sobre a questão agrária e o campesinato, abrangem um período de  39 anos, de onde se pode inferir algo de sua perspectiva agrária.

Em 1891, ele enfatiza que a escassez agrícola não é natural, mas produto da produção orientada pelo lucro, isto é, capitalista. Defende a expropriação da terra acompanhada da reorganização imediata e intensificação da produção como condição de sobrevivência da revolução social.

Em 1920, a questão agrária é integrada explicitamente ao programa revolucionário: a abolição da propriedade privada da terra torna-se princípio normativo e eixo estratégico da luta contra a exploração e o Estado.

Já em 1929, a reflexão aprofunda-se no plano institucional, sublinhando que o acesso universal à terra é condição da liberdade real, mas advertindo que a organização pós-revolucionaria não pode assumir formas autoritárias ou dogmáticas, sob pena de recriar privilégios e o Estado.

A evolução, portanto, vai da viabilidade produtiva agrícola da revolução à formulação programática da expropriação da classe dominante no campo, culminando na preocupação com os limites libertários da organização social da terra.

Entre 1891 e 1929, a reflexão de Malatesta sobre o campesinato desloca-se de uma consideração implícita de sua função produtiva estratégica para uma concepção mais explícita de sua posição estrutural na dominação e de seu papel na reorganização libertária da sociedade.

Em 1891, o campesinato aparece sobretudo como sujeito material indispensável à revolução: sem a imediata retomada e intensificação da produção agrícola pelos trabalhadores da terra, a escassez poderia comprometer a transformação social.

Em 1920, os trabalhadores rurais são integrados ao conjunto dos despossuídos cujo monopólio da terra os força à dependência, sendo a expropriação fundiária apresentada como condição de sua independência econômica.

Já em 1929, o campesinato é pensado dentro da coletividade que deve ter acesso garantido aos meios de produção, mas sem imposição de modelos organizativos únicos, pois a forma de uso da terra deve emergir da livre experimentação e da preservação da liberdade.

A evolução, portanto, vai do campesinato como agente produtivo decisivo para a viabilidade revolucionária, passa por sua identificação como classe expropriada na estrutura histórica da dominação, e culmina na sua inserção como sujeito em uma ordem pós-capitalista não autoritária.

Nos três textos, Malatesta articula questão agrária e campesinato como núcleo material da dominação e condição estratégica da emancipação social.

A propriedade privada da terra aparece como fundamento histórico da exploração, pois ao monopolizar os meios de produção força trabalhadores à dependência e à submissão.

Ao mesmo tempo, a escassez agrícola não é natural, mas resultado da produção orientada pelo lucro, o que torna a expropriação da terra e a imediata reorganização produtiva condição de sobrevivência da revolução social 

Contudo, essa expropriação não deve conduzir a formas economicamente concentradas ou politicamente autoritárias de organização, mas assegurar acesso universal à terra sob princípios de liberdade e experimentação associativa. 

Assim, para Malatesta, a questão agrária é um eixo estrutural da crítica ao capitalismo, e o campesinato integra o sujeito social cuja autonomia produtiva é indispensável à transformação libertária da sociedade.

Raphael Cruz


Referências

MALATESTA, Errico. The products of soil and industry. In: TURCATO, Davide (ed.). The method of freedom: an Errico Malatesta reader. Translated by Paul Sharkey. Oakland: AK Press, 2014. Publicado originalmente em El Productor (Barcelona), 24 dez. 1891.

MALATESTA, Errico.An anarchist programme. In: RICHARDS, Vernon (ed.). Life and ideas: the anarchist writings of Errico Malatesta. 2015 ed. London: Freedom Press, 2015. Publicado originalmente como Il programma anarchico, 1920.

MALATESTA, Errico. Some thoughts on the post-revolutionary property system. In: RICHARDS, Vernon (ed.). The anarchist revolution: polemical articles 1924–1931. London: Freedom Press, 1995. Publicado originalmente em Risveglio (Genebra), nov. 1929.

VI Seminário Nacional Economia Solidária, Desenvolvimento Sustentável e Educação Ambiental



Nesta segunda-feira, estarei no Seminário Nacional Economia Solidária, Desenvolvimento Sustentável e Educação Ambiental (SENESDE) para discutir uma questão pouco abordada na transição energética: seus impactos fundiários e ambientais sobre comunidades camponesas e tradicionais.

A convite da @fernandahcalcantara, vou comentar como essa transição tem avançado sobre territórios rurais por meio de mecanismos de expropriação primária, trazendo um caso concreto do litoral do Piauí, que investiguei por quatro anos.

Treinando numa Smartfit pela primeira vez

  Brasília, 02 de julho de 2026 1. Primeira vez numa Smartfit. 2.  Achei escura. A última vez que estive num lugar assim foi num show de ...