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Trabalho, guerra e revolução: As comunas agrárias makhnovistas

Nestor Makhno (1888-1934)

O que sabemos sobre as “comunas agrárias” implantadas pela Makhnovitchina? 

Em suas memórias, Nestor Makhno (1988) descreve algo de sua organização, funcionamento e composição social.

Ele nos informa que ao redor de Gulai-Polé existiam quatro, e muitas outras pela região. Elas tinham a função tanto de construir uma vida nova quanto de defender as conquistas da revolução em curso. 

Makhno organizou pessoalmente aquelas quatro e participou de uma delas. Nela, colaborava dois dias da semana em todos os trabalhos: revirar e semear a terra, e, às vezes, na granja ou na estação de eletricidade. Nos quatro outros dias, trabalhava em Gulai-Polé no grupo anarco-comunista e no Comitê Revolucionário.

Cada comuna era composta por uma dúzia de famílias e possuía entre 100 e 300 membros. O Congresso Regional das Comunas Agrárias decidiu dar às famílias animais e ferramentaria agrícola já existentes nas propriedades que expropriaram, além de uma quantidade de terra proporcional à sua capacidade de cultivo e situada em sua vizinhança imediata.

Nota-se que as comunas agrárias makhnovistas combinavam posse familiar e trabalho comum. Não tendo optado nem pelo caminho autoritário de uma coletivização forçada, nos moldes do que fariam os governos bolchevique e stalinista anos depois, nem, exclusivamente, baseando-se no trabalho familiar. 

A própria Plataforma da União Geral dos Anarquistas (1926), documento que Makhno escreverá junto a Ida Mett, Piotr Arshinov e outros, na década seguinte, postulará a necessidade de se evitar a coletivização forçada nos momentos iniciais da revolução social e a adoção de um regime híbrido entre posse familiar e comunal no campo.  

Nas comunas agrárias makhnovistas, existia um “fundo comum da comunidade”, para onde os soldados, sob direção do Comitê Revolucionário, levavam ferramentas e animais que haviam sido expropriados dos latifundiários locais (pomechtchiki).

As antigas propriedades dos latifundiários eram tomadas e divididas pelos próprios camponeses. Instalados nessas propriedades, empenhavam-se no trabalho agrícola, enquanto outra parte se dedicava à defesa da revolução por meio de “unidades de combate”. Uma simbiose entre trabalho e guerra a organizar a dinâmica social da comuna livre.

Aqui cabe um destaque, que seria assinalado com importância nos textos de Piotr Arshinov (1923;1925) dos anos 1920: a revolução vai se consolidando por meio da reorganização da produção sob bases socialistas e da defesa militar de suas conquistas. Produção econômica e defesa militar são complementares, e não opostas.

Elaborado pelo autor, a partir de Makhno (1988). Clique na imagem para ampliá-la.

A composição social da maior parte das comunas agrárias era de camponeses, e algumas reuniam camponeses e operários, fundamentadas na igualdade e na solidariedade de seus membros. 

Segundo Makhno, homens e mulheres trabalhavam conjuntamente nos trabalhos domésticos e nos campos, o que nos permite visualizar algo da relação entre gênero e trabalho, produção econômica e reprodução social no território makhnovista. 

Em cada comuna havia camponeses anarquistas, mas a maioria não o era.

Existiam cozinha, despensa e refeitório comuns. A pessoa podia preparar a comida na cozinha comum, mas consumi-la em casa. Cada indivíduo ou grupo podia organizar-se da maneira que lhe convinha. A única condição era informar aos membros da comuna, a fim de que, na cozinha e na despensa, fossem tomadas as decisões necessárias para tais modificações.

Quanto ao trabalho, Makhno descreve que se levantavam cedo e logo iam ao trabalho com o gado, os cavalos ou nas tarefas domésticas. O programa de trabalho era estabelecido coletivamente em reuniões, nas quais se definiam as tarefas de cada um. Havia o direito de ausência, mas devia-se avisar ao companheiro de trabalho mais próximo, a fim de que pudesse haver substituição. O domingo era dia de repouso, havendo uma escala.

Makhno afirma que ficou pendente a questão do ensino, pois as comunas agrárias não queriam reconstruir as escolas segundo o modelo antigo. 

Os membros das comunas demonstravam interesse pela escola de Francisco Ferrer, da qual haviam ouvido falar por meio do grupo anarco-comunista do qual Makhno era membro. Contudo, faltavam pessoas que entendessem dos métodos, e decidiram convidar aqueles que estavam nas cidades. Durante o primeiro ano da revolução, na impossibilidade de aplicar o ensino de Ferrer, chamariam pessoas capazes de ensinar.

Makhno nota que os habitantes das pequenas vilas e aldeias vizinhas às comunas agrícolas, ainda sob a dependência dos koulaki, “tinham ciúme das comunas e manifestaram, mais de uma vez, o desejo de lhes tomar tudo: animais e ferramentas, a fim de repartir entre si”. Nota-se que havia uma convivência entre as “comunas agrícolas livres” e as vilas e aldeias que ainda viviam sob o antigo regime.

As comunas agrárias da Makhnovitchina configuraram formas concretas de reorganização da vida no campo, baseadas na expropriação dos latifúndios, na redistribuição da terra, na posse familiar, no trabalho coletivo e na gestão comum dos recursos, reunindo majoritariamente camponeses — e também operários — em estruturas assentadas na igualdade e na solidariedade. 

Seu funcionamento articulava produção e defesa, combinando a reorganização econômica com a autodefesa armada, ao mesmo tempo em que ensaiava transformações nas relações de gênero e nas formas de sociabilidade cotidiana. 

Contudo, enfrentavam limites práticos e tensões externas, como a indefinição do ensino e os conflitos com vilas ainda submetidas aos koulaki, de modo que essas comunas emergiram como experiências parciais e disputadas de construção de uma nova vida camponesa em meio à guerra e à revolução.

Raphael Cruz


Referências

ARSHINOV, Piotr. A revolução social e o sindicalismo. 1925. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/arshinov/ano/mes/40.pdf. Acesso em: 12 fev. 2026.

ARSHINOV, Peter. Constructive Problems of the Social Revolution. 1923. Disponível em: https://theanarchistlibrary.org/library/peter-arshinov-constructive-problems-of-the-social-revolution. Acesso em: 12 fev. 2026.

GRUPO DE ANARQUISTAS RUSSOS NO ESTRANGEIRO [Dielo Truda]. A Plataforma Organizacional da União Geral dos Anarquistas – Projeto. 1926. Nova tradução para o português a partir do original em russo; tradução de Ina Hergert; revisão, preparação e coordenação de Felipe Corrêa; Instituto de Teoria e História Anarquista (ITHA), 2017. Disponível em: https://ithanarquista.wordpress.com/wp-content/uploads/2019/08/dielo-truda-a-plataforma-organizacional-nova-traduc3a7c3a3o-com-nota-ajustada.pdf. Acesso em: 12 fev. 2026.

MAKHNO, Nestor. A "revolução" contra a revolução: a Revolução Russa na Ucrânia, março 1917-abril 1918. Coleção Pensamento e Ação. Tradução Milton José de Almeida. São Paulo: Cortez, 1988.

A questão agrária no anarquismo russo-ucraniano


Lendo as memórias de Makhno, é possível perceber que na Makhnovitchina foi preservada a posse familiar da terra.

Essa preservação desempenha um papel crucial para a reprodução camponesa enquanto camponês propriamente dito, e não como um operário agrícola.

Maximoff, que se identificava como sindicalista revolucionário/anarcossindicalista, defendeu, em 1927, a "comunização imediata" da terra, propondo o fim imediato da posse familiar camponesa.

Em sua crítica à Plataforma da União Geral dos Anarquistas, elaborada por Makhno, Arshinov e Mett, destacou sua oposição à manutenção da posse familiar.

Contudo, em 1932, após observar os efeitos da coletivização forçada na URSS (1929-1931), Maximoff revisou sua posição sobre a "comunização imediata", aproximando-se da visão plataformista que havia anteriormente criticado.

Para Proudhon, Bakunin, os plataformistas originais e na experiência concreta da Makhnovitchina, a posse familiar camponesa não tinha o mesmo significado que no marxismo e, aparentemente, também no sindicalismo revolucionário/anarcossindicalismo russo do período, como exemplifica o caso de Maximoff.

Esse é um debate instigante, que tenho estudado e pretendo explorar em um artigo futuro.


Raphael Cruz

Nestor Makhno, Emma Goldman e a etnografia espontânea da Revolução Russa




Penso em Nestor Makhno e Emma Goldman como "etnógrafos espontâneos" da Revolução Russa. Suas obras O comunismo não existe na Rússia (Goldman, 2007) e A "Revolução" contra a Revolução (Makhno, 1988) são descrições daquele importante evento político do século XX, por olhares atentos aos "detalhes que se repetem cotidianamente" (Bakunin, 2015).

O adjetivo "espontânea" vem do fato de seus autores não serem cientistas sociais por profissão e nem terem a intensão de produzir um trabalho formatado às regras acadêmicas. Contudo, chamar de etnografia, neste caso, um tipo particular de etnografia, faz-me sentido. Vejamos.

Nestor Makhno descreveu minúcias do cotidiano de um processo de transformação social chave para a compreensão do século XX, desde a localidade onde nasceu.

Num contexto de radical reconfiguração política e econômica das relações sociais no campo, Makhno registrou falas de camponeses proferidas em assembleias, revelando um tato de etnógrafo para identificar as noções morais desse grupo social, como a de justiça, que justificavam suas ações perante outros grupos como os antigos latifundiários ou as recém empossadas autoridades bolcheviques.

Emma Goldman, a partir da descrição da desigual distribuição da ração alimentícia entre a massa popular e a burocracia soviética, foi hábil em identificar ali os contornos de uma nova hierarquia social que emergia e, posteriormente, se estabilizaria devido ao enfraquecimento político dos conselhos de operários, camponeses e soldados, e o fortalecimento do "estatismo" (Bakunin, 2003) como tendência de governo na Rússia pós-revolucionaria.

Goldman foi, assim, capaz de identificar o processo de burocratização da revolução, por meio de um aspecto cotidiano como as práticas alimentares da sociedade soviética.

Descrever a produção de estruturas e processos sociais a partir do cotidiano das interações humanas ou identificar a lógica cultural que orienta a ação de grupos sociais, são duas contribuições das mais interessantes da sociologia e antropologia acadêmicas. Encontram-se essas contribuições nessas obras para-etnográficas de Nestor Makhno e Emma Goldman.

Raphael Cruz


Referências

BAKUNIN, Mikhail. Aonde ir e o que fazer? [1872]. In: BAKUNIN, Mikhail. Educação, ciência e revolução. São Paulo: Intermezzo Editorial, 2015.

BAKUNIN, Mikhail Alexandrovich. Estatismo e anarquia [1873]. São Paulo: Imaginário, 2003.

GOLDMAN, Emma. O comunismo não existe na Rússia [1935]. In: GOLDMAN, Emma. O indivíduo, a sociedade e o Estado, e outros ensaios. Série Estudos Libertários. São Paulo: Hedra 2007.

MAKHNO, Nestor. A "revolução" contra a revolução [1927]. Coleção Pensamento e Ação, v. 4. São Paulo: Cortez, 1988.

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