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Leitura 6: Durkheim crítico de Simmel


No artigo, A sociologia e seu campo científico (1900), Durkheim reconhece o estilo e a sofisticação literária de Georg Simmel, mas critica duramente a concepção de sociologia do autor alemão.

Raphael Cruz

Um objeto para chamar de seu

 


Estava relendo As regas do método sociológico (1895), de Durkheim.

É patente o esforço do autor para legitimar a ciência das instituições, a sociologia, por meio da crítica à diferentes áreas do conhecimento.

A história é tida por Durkheim como particularista, por se deter na descrição de sociedades específicas, não conseguindo produzir uma teoria da sociedade, mas, apenas colecionar casos.

A filosofia (da história) é generalista, por se limitar a busca de uma abstrata natureza humana, da qual faz derivar a existência da sociedade.

A psicologia é subjetivista, produzindo a sociedade a partir do indivíduo, ou, pior ainda, na perspectiva durkheimiana, da consciência individual.

Durkheim e sua escola (Mauss, Bouglé) buscaram provar serem falhas as explicações da sociedade por meio da metafísica da natureza humana ou da subjetividade individual. 

Eles estabeleceram uma regra fundamental da sociologia: um fato social deve ser explicado por outro fato social e não pela química, biologia ou psicologia.

Identifiquei três características do projeto durkheimiano de elaboração da ciência das instituições: 

a) definição de um objeto (fato social); 

b) definição de um método (comparação); 

c) definição de uma explicação (sociológica)

A possibilidade de uma ciência da sociedade dependeria da exclusividade do método, do objeto e da explicação.

Estes não se confundiriam com os de outros saberes, particularmente a história e a psicologia.

Em outras palavras, a sociologia deveria ter o que chamar de seu. E, a partir de 1895, com a publicação de As regras do método, isso passou a acontecer.


Raphael Cruz

Tarde demais para Durkheim?

Gabriel Tarde (1843-1904)
 


O debate entre Gabriel Tarde e Émile Durkheim no final do século XIX e início do XX na França foi fundamental para o futuro da sociologia.

Não foi qualquer debate, pois marcado por posições divergentes em relação ao objeto e ao método, a subordinação ou autonomia da sociologia frente a psicologia e aos outros campos do saber.

Durkheim enfatizou a primazia do coletivo sobre o individual, enquanto Tarde realizava o caminho oposto. 

Enquanto o primeiro partia da análise dos fatos sociais, o segundo a iniciava a partir da psicologia individual.

Durkheim advogava a especificidade do social e a autonomia científica da sociologia, enquanto Tarde defendia a dependência do social a consciência individual e a subordinação da sociologia à psicologia.

Se o pensamento de Durkheim caminhou rumo à determinação do social sobre o indivíduo, Tarde foi rumo a autonomia do indivíduo sobre a coletividade.

Refletindo a partir do conceito de campo de Bourdieu, podemos indicar que na disputa interna ao campo intelectual francês da passagem para o século XX, os pensadores operaram discursos divergentes e ocuparam posições diferentes. 

Tarde era um livre-pensador, já Durkheim o profissional da sociologia.

No decorrer do século XX, a sociologia de Durkheim conseguiu acumular capital social o suficiente para se tornar um dos cânones intelectuais da sociologia moderna, sedimentando uma posição dominante no campo científico em relação à abordagem psicológica da sociologia tardiana.

No entanto, ao longo da história específica do campo, seus eixos e estruturas podem ser redefinidos.

Assim, a sociologia de Tarde experimentou um certo redescobrimento e associações com a microfísica do poder de Foucault, a filosofia da diferença de Deleuze e com a teoria do ator-rede de Bruno Latour, este um dos mais destacados neo-tardeanos contemporâneos, ocupando a cadeira Gabriel Tarde no Institut d'études politiques de Paris.

Partindo de uma perspectiva pós-durkheimiana e pró-Tarde, Latour chega a afirmar que a redescoberta de Gabriel Tarde é um começo alternativo para uma ciência social alternativa.

Seria, então, tarde demais para Durkheim?

Raphael Cruz


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