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Entre a tríade e a antinomia: uma nota metodológica sobre a dialética de Proudhon em O que é a propriedade? (1840)

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Na Seção 1 da Segunda Parre do Capítulo sexto de O que é a Propriedade? (1840), Pierre-Joseph Proudhon aciona uma dialética marcada por uma interessante "ambiguidade metodológica".

De um lado, o autor recorre explicitamente ao esquema hegeliano de "tese", "antítese" e "síntese", apresentando o comunismo como primeiro termo do desenvolvimento social, a propriedade como seu contrário e uma futura forma de associação como resultado de sua reconciliaçãoa, a liberdade. 

Nessa formulação, a "síntese" parece desempenhar uma função próxima à Aufhebung hegeliana, isto é, um movimento simultâneo de "negação", "conservação" e "superação" dos termos em conflito. 

A propriedade, nascida da faculdade de raciocínio, entrincheira-se por trás das comparações. Mas, assim como a reflexão e a razão são subsequentes à espontaneidade, a observação à sensação e a experiência ao instinto, também a propriedade é subsequente ao comunismo. O comunismo — ou associação, em sua forma mais simples — é o objeto necessário e a aspiração original da natureza social, o movimento espontâneo pelo qual ela se manifesta e se estabelece. É a primeira fase da civilização humana. Nesse estado de sociedade — que os juristas chamaram de comunismo negativo — o homem se aproxima do homem e compartilha com ele os frutos do campo e o leite e a carne dos animais. Pouco a pouco, esse comunismo — negativo enquanto o homem não produz — tende a se tornar positivo e orgânico por meio do desenvolvimento do trabalho e da indústria. Mas é então que a soberania do pensamento e a terrível faculdade de raciocinar lógica ou ilogicamente ensinam ao homem que, se a igualdade é a condição sine qua non da sociedade, o comunismo é a primeira espécie de escravidão. Para expressar essa ideia por meio de uma fórmula hegeliana, direi: 
O comunismo — a primeira expressão da natureza social — é o primeiro termo do desenvolvimento social — a tese; a propriedade, o oposto do comunismo, é o segundo termo — a antítese . Quando tivermos descoberto o terceiro termo, a síntese , teremos a solução necessária. Ora, essa síntese resulta necessariamente da correção da tese pela antítese. Portanto, é necessário, por meio de um exame final de suas características, eliminar aqueles traços que são hostis à sociabilidade. A união dos dois remanescentes nos dará a verdadeira forma da associação humana.

De outro lado, o próprio modo como Proudhon constrói essa síntese já anuncia elementos que se tornariam característicos de sua reflexão posterior: em vez da simples "absorção" de um termo pelo outro em uma "unidade superior", ele procura identificar os aspectos "positivos" e "negativos" de cada "polo", "conservando" certos elementos e "rejeitando" outros. 

A "contradição" aparece, assim, simultaneamente como um "momento" a ser superado e como uma "tensão" constitutiva da realidade social. 

Esse "duplo movimento" sugere que a obra ocupa uma posição intermediária na evolução de seu pensamento, situando-se entre uma dialética ainda fortemente influenciada pela lógica da Aufhebung e a futura dialética serial e antinômica, na qual os contrários deixam de convergir para uma "síntese final" e passam a constituir relações permanentes de "equilíbrio", "reciprocidade" e "tensão dinâmica".

Hegel, anarquismo e teoria do reconhecimento

Hegel (1770-1831)


Foi na Realphilosophie de Jena (1804/05) que o jovem Hegel sistematizou  sua discussão sobre reconhecimento.

O reconhecimento referia-se a percepção de si no mundo a partir do outro. 

Isso levou o filósofo ao tema da intersubjetividade na produção da identidade.

De modo que, o desenvolvimento da identidade pessoal foi compreendida como indissociável do reconhecimento por outros sujeitos. 

Ainda no século XIX, a ideia de reconhecimento foi acionada por anarquistas históricos como Proudhon e Bakunin.

Contudo, ela não foi explicitamente trabalhada por eles ou pela maioria de seus comentadores. 

Ao reler O que é a propriedade ([1865] 1975), encontrei na definição de justiça de Proudhon, um tanto de teoria do reconhecimento. 

A certa altura desta obra, Proudhon definirá justiça como o "reconhecimento de uma personalidade igual à nossa em outrem" (1975, p. 201). 

Hall (1970) notou que naquela obra, para Proudhon justiça implica igualdade entre os sujeitos.

Em escritos posteriores, o autor afirmou a justiça como reciprocidade (Hall, 1070). 

Apesar do eco hegeliano, o único momento em que o filósofo francês cita Hegel em O que é a propriedade é ao mencionar seu método dialético tripartido na discussão sobre as formas sociais (propriedade, comunidade e liberdade) (Proudhon, 1975, p. 224).

Hegel parece não ter sido um ponto de partida explicitado para as definições proudhonianas de justiça enquanto reconhecimento. 

Apesar disso, há de destacar que Hegel, e também Kant, foram influências decisivas para Proudhon (Hall, 1970).

Mikhail Bakunin foi outro anarquista influenciado por Hegel (McLaughlin, 2002). 

Jon Stewart chamou atenção para a presença da filosofia do reconhecimento no pensamento de Bakunin.

Para aquele autor, a teoria bakuniniana da liberdade está ancorada na perspectiva hegeliana do reconhecimento. 

"I am not myself free or human until I recognize the freedom and humanity of all my fellowmen" (Bakunin apud Stewart, 2021, p. 243).

Já havia mencionado neste blog como a concepção de Bakunin da liberdade é social e não atomista.

Debatendo o liberalismo (Locke) e os contratualistas (Rousseau), ele concluiu que a condição para a liberdade do sujeito  é a liberdade de todos os sujeitos. 

Sendo a liberdade realizada por meio das igualdades política e econômica. 

Em Bakunin, o reconhecimento hegeliano e a igualdade proudhoniana são bases para elaborar sua teoria da liberdade. 

Pode-se concluir que o eco hegeliano da teoria do reconhecimento é audível nas elaborações de justiça e liberdade do anarquismo histórico de Proudhon e Bakunin. 

São bem-vindas pesquisas sobre a presença da teoria do reconhecimento nestes pensadores para melhor conhecer a herança hegeliana do anarquismo. 

Raphael Cruz


Referências

HALL, Constance Margaret. The Sociology of Pierre Joseph Proudhon (1809-1865). American University, 1970. 

MCLAUGHLIN, Paul. Mikhail Bakunin: The philosophical basis of his theory of anarchism. Algora Publishing, 2002.

PROUDHON, Pierre-Joseph. O que é a propriedade? Lisboa: Editorial Estampa, 1975. 

STEWART, Jon. Hegel’s Century: Alienation and Recognition in a Time of Revolution. Cambridge: Cambridge University Press, 2021. 

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