O maior "programa" de transferência de renda se chama mais-valia. Seu beneficiário é a buguesia.
Raphael Cruz
O maior "programa" de transferência de renda se chama mais-valia. Seu beneficiário é a buguesia.
Raphael Cruz
No discurso administrativo do varejo alimentar, não se pode nomear o trabalhador como trabalhador, apenas como colaborador, promotor e terceiro.
É uma tentativa de (re)constituir o mundo da empresa capitalista nomeando-o, poderia dizer Bourdieu, a despeito das desigualdades concretas expressadas nas hierarquias dos locais de trabalho.
Esse é um exemplo cotidiano da evitação da linguagem "classista" no setor de serviços. Um intento de que pelo discurso, o trabalhador não se perceba enquanto tal, mas como algo que não é um patrão nem um administrador, contudo também não é um trabalhador.
Afinal, essa palavra passou por uma politização via sindicalização. E se um sindicato é aquilo que agrupa trabalhadores, no sentido de suas demandas políticas e econômicas num contexto de antagonismo de classes, ao evitar nomear "colaboradores", "promotores" e "terceiros" como trabalhadores, se desejasse contornar a politização dessas categorias. É como se a linguagem pudesse funcionar eficazmente como mecanismo antissindical.
Ao reduzir discursivamente o espaço de possibilidades de congregação sindical, a única instituição que poderia os agrupar seria a empresa ou melhor dizendo, seria a hierarquia da empresa. Ao menos parece ser esse o efeito de realidade almejado pelos operadores do discurso administrativo do varejo alimentar.
Raphael Cruz
Se você lê Karl Marx, aprenderá a lógica geral de funcionamento do capitalismo. Se lê David Harvey, Nancy Fraser ou Mark Fisher aprenderá algo de sua faceta atual. Porém, estas são análises eurocentradas. Para entender a particularidade do capitalismo na América Latina, o livro de Vania Bambirra, Capitalismo dependente latino-americano, é fundamental.
Raphael Cruz
No sertão, a chuva não é apenas um fenômeno da natureza, mas um evento social cheio de significado cultural. É algo que quebra a "rotina climática" costumeira e faz a pessoa parar e observar o "tempo", conversar sobre ele com um vizinho, reagendar tarefas, mandar uma mensagem com foto ou vídeo da chuva para parente que se encontra distante. Tudo isso porque a chuva é a exceção e não a regra do cotidiano socioecológico do sertanejo. É um fenômeno fantástico, nesse sentido da excepcionalidade.
Raphael Cruz
Adoro a letra e a música de Terral, famosa na voz de Ednardo, mas convenhamos, não é uma canção sobre ser do Ceará, é sobre ser de Fortaleza.
Raphael Cruz
Longas viagens de ônibus são um contexto social propício para estranhos interagirem e contarem suas vidas uns aos outros. Experiencia-se uma situação na qual há tempo ocioso, mas pouca coisa a fazer, que não seja conversar. O que é interessante para um sociólogo é a facilidade com que certas pessoas falam sobre suas biografias e as de seus parentes com pessoas que elas acabaram de conhecer. Ao nível da personalidade, isso implica uma disposição para a interação face a face, uma habilidade, biograficamente adquirida, para o diálogo, a conversa com quem não é íntimo ao nível da amizade ou do parentesco. Ao nível sociológico, isso denota que existe, em alguma medida, a produção social de uma espécie de "intimidade com estranhos" ou uma "estranhidade íntima", a partir dessas interações efémeras entre pessoas que não se conheciam, tais como as que acontecem em viagens de ônibus. Penso que não conhecer o outro é convidativo para essas interações, pois compartilhar a própria intimidade ou a de parentes e amigos ou conhecidos com um estranho, alheio aos círculos de amizade e relações de parentesco, não põe em risco a privacidade, a integridade ou a reputação das pessoas cujas vidas são temas das conversas. O estranho possui, momentaneamente, uma espécie de combinação entre distanciamento social e próximidade física, que tende a ser como a de um psicanalista numa sessão de terapia, nessas situações de "confinanento" provisório como as longas viagens de ônibus. Uma dúvida é se esse é um fenômeno apenas nordestino, brasileiro ou universal.
Raphael Cruz
Ler deitado numa rede é perigoso. Torna desconfortável a leitura em outros lugares.
Raphael Cruz
Adultos pensam que apenas as crianças gostam de ouvir "historinhas" antes de dormir. Contudo, nós, adultos, estamos o tempo todo a procura de ouvir histórias "antes de dormir" por meio de séries, filmes, podcasts e livros.
Raphael Cruz
Nessa época de teologismo, é mais fácil imaginar o paraíso no céu do que o socialismo na terra.
Raphael Cruz
Se o filme do Senhor dos anéis se passasse num sertão mítico e fantástico, a trilha sonora seria Quinteto Armorial de cabo a rabo, particularmente o disco Do romance ao galope nordestino.
Raphael Cruz
A estrada é por onde circula a força de trabalho para encontrar emprego, encontrar parente, encontrar sentido na vida. Eu passo, a estrada fica. Eu passarinho, ela mundão.
Raphael Cruz
Eu devo ter cara de padre ou terapeuta. Porque é recorrente estranhos iniciarem conversas comigo sobre o clima e falarem de seu casamento, família e trabalho. Aprendo muito com eles.
Raphael Cruz
O vizinho pôs passarinhos em gaiolas. Toda manhã, ele toca por meia hora o hino do Flamengo em forma de assobio para os passarinhos aprenderem a cantar. Um castigo para as aves e para quem não é flamenguista.
Tive a sorte de estudar num colégio que no 7 de setembro não levava os alunos ao Desfile Militar, mas ao Grito dos Excluídos. Éramos incentivados a fazer os próprios cartazes. Foi a primeira vez que segurei uma bandeira anarquista. E tudo isso numa pequena cidade do Nordeste do Brasil.
Raphael Cruz
Para quem se politizou à esquerda nos últimos trinta anos, a insurreição zapatista de 1994, está para os Millenials assim como a atual revolução confederalista curda está para a geração Z.
Raphael Cruz
Redescobrir os Kinks depois de tantos anos sem ouvi-los se parece com reencontrar um velho amigo.
Raphael Cruz
É triste essa obrigação social de demonstrar alegria nessa época do ano.
O fascinante de crescer no interior do Nordeste brasileiro é saber participar das conversas do lugar com pessoas que você não conhece, mas parece que sempre conheceu. E tudo começa com um "bom dia" ou "boa noite" e termina com um "até mais" ou "valeu, meu irmão".
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| Joseph Stalin (1878-1953) |
Ver jovens de hoje aderir ao stalinismo é um fenômeno interessante para mim.
Isso porque quando me politizei, entre o final dos anos 1990 e início dos 2000, era o trotskismo, o autonomismo marxista e o (neo)anarquismo que se apresentavam como as escolhas mais prováveis para quem, como eu, circulava entre a cena punk e o mundo dos movimentos sociais.
Naquele período, o stalinismo era visto por mim, e por aqueles como eu, como uma "coisa de coroa" e de burocratas sindicais filiados ao Partido Comunista do Brasil ou ao Partido Comunista Revolucionário.
Que em 2022, uma parte dos jovens se pareça com os "tiozões" de minha juventude, mostra o quanto aquele clima de crítica de esquerda à experiência da URSS foi substituído pela idealização acrítica do período stalinista.
Penso que todos esses anos de barbárie neoliberal podem ter promovido essa "saudade" de um passado idealizado, e que esta tem funcionado como vetor de certa "identidade" socialista contemporânea.
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O socialismo passa a ser associado, neste Zeitgeist, não mais com a crítica implacável da desigualdade promovida pelo capitalismo e nem com a autocrítica das experiências socialistas, mas com o culto à Stalin, espécie de paizinho nostálgico.
O triunfo desta nostalgia significa o fracasso da crítica e da autocrítica na formação política dessa juventude. E o fracasso da crítica tem sido, ao longo da história, o pai das derrotas.
Raphael Cruz
Brasília, 02 de julho de 2026 1. Primeira vez numa Smartfit. 2. Achei escura. A última vez que estive num lugar assim foi num show de ...