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Do conhecimento da realidade à transformação da sociedade: uma reconstrução do método na obra tardia de Bakunin (1870–1873)

 Em Considerações Filosóficas (1870-1871), a preocupação de Mikhail Bakunin está na crítica da metafísica e na defesa de um "percurso epistemológico" que parte do "concreto", produz "abstrações" explicativas e "retorna ao concreto". O foco recai sobre o "problema do conhecimento". 

Bakunin procura demonstrar como a ciência deve operar: 1) observando os seres reais, 2) formulando generalizações e 3) recolocando essas abstrações em contato com a realidade histórica efetiva. 

Trata-se de um método que poderíamos caracterizar como empírico, relacional e histórico.

Já em Estatismo e Anarquia (1873), essa mesma estrutura é deslocada para o "terreno da crítica social" e política.

O que antes aparecia como movimento entre "concreto" e "abstrato" passa a assumir a forma de uma articulação entre "positivo" e "negativo". 

O "positivo" corresponde ao momento da observação e da reconstrução da realidade existente. O "negativo" corresponde à crítica das contradições e formas de dominação reveladas por essa análise.

Dessa forma, é possível inferir que o par "positivo-negativo" constitui uma operacionalização política do movimento "concreto-abstrato-concreto" formulado anteriormente. 

Observa-se, então, uma "transição" do problema do conhecimento da realidade para a questão da transformação da sociedade. 

Em ambos os casos, Bakunin rejeita a dedução de modelos ideais a partir de princípios abstratos. 

O conhecimento nasce da realidade concreta e retorna a ela.

A principal conclusão é que, entre 1870 e 1873, Bakunin parece consolidar um método que combina empirismo, historicidade, análise relacional e crítica dialética.

O conhecimento deve partir da realidade, reconstruir suas determinações e revelar suas contradições internas. 

A função da teoria não é projetar modelos perfeitos de sociedade, mas compreender o mundo existente de modo suficientemente profundo para identificar aquilo que nele precisa ser negado e transformado.

Essa talvez seja uma das formulações metodológicas mais consistentes presentes em seus "escritos tardios" da década de 1870.

O positivo e o negativo no método bakuniniano em Estatismo e anarquia (1873)

Nas reflexões desenvolvidas por Mikhail Bakunin em Estatismo e Anarquia (1873), é possível identificar um procedimento metodológico fundado na relação entre o "positivo" e o "negativo" como momentos distintos, porém complementares, da análise da "realidade social". 

O ponto de partida é sempre o "positivo", entendido como a realidade efetivamente existente, os fatos concretos e as formas históricas de organização social. 

Em oposição ao método metafísico, que parte de abstrações para tentar deduzir a vida, Bakunin sustenta que o conhecimento deve avançar do "concreto" ao "abstrato", dos "fatos" às "ideias" que os explicam. 

Entretanto, a apreensão do "real" não se encerra na descrição do "existente". 

O momento seguinte é o "negativo": a crítica das contradições, limites e formas de dominação presentes na realidade. 

Inspirado na tradição hegeliana da negação, mas deslocando-a para o terreno histórico e social, Bakunin concebe a "crítica" como instrumento de "desvelamento" e "superação" das estruturas existentes. 

A ciência não é capaz de determinar positivamente as formas futuras da sociedade, mas pode identificar, por meio da crítica rigorosa do presente, aquilo que deve ser negado. 

Assim, a negação da propriedade hereditária, do Estado e das relações de exploração emerge não como uma construção utópica arbitrária, mas como resultado lógico da análise das contradições do mundo existente. 

O movimento metodológico bakuniniano consiste, portanto, em partir do "positivo" (a realidade concreta), atravessá-lo pelo "negativo" (a crítica de suas contradições) e, a partir dessa tensão, abrir possibilidades históricas para novas formas de liberdade e organização social que não podem ser previamente determinadas em todos os seus detalhes.

O retorno ao concreto: nota sobre o método bakuniniano em Considerações filosóficas sobre o fantasma divino, sobre o mundo real e sobre o homem (1870–1871)

 Em seu manuscrito Considerações Filosóficas sobre o Fantasma Divino, sobre o Mundo Real e sobre o Homem (1870–1871), Bakunin sugere uma concepção metodológica particularmente interessante ao defender um movimento permanente entre o "concreto" e o "abstrato".

Para ele, o "conhecimento" não deve começar por "princípios metafísicos", essências ou categorias pré-estabelecidas, mas pelos "seres reais", pelas relações efetivas e pelos processos históricos concretos.

A partir da "observação" da realidade, o pensamento produz "abstrações" que permitem identificar "regularidades", conexões e determinações mais amplas. 

Contudo, a investigação não pode encerrar-se nesse nível "abstrato". Os conceitos devem retornar ao mundo "concreto" do qual surgiram, iluminando a diversidade, a historicidade e o movimento dos fenômenos.

Bakunin observa que a vida realiza constantemente a passagem do concreto para o abstrato e do abstrato para o concreto, acrescentando que este "retorno ao concreto" é precisamente o momento que frequentemente "falta" à ciência.

Seu método implícito sugere articulação entre observação empírica, análise relacional, reconstrução histórica e crítica das abstrações que pretendem substituir a própria realidade.

Satã como metáfora da revolta no pensamento de Mikhail Bakunin (1864–1871)

    Mikhail Bakunin (1814-1876)

Entre 1864 e 1871, Bakunin mobiliza reiteradamente a figura de Satã como metáfora para uma crítica à teologia política. Por meio dela, ele operou uma inversão sistemática da polarização cristã entre bem e mal. 

Se, na mitologia cristã, Deus é o polo positivo e o diabo o negativo, Bakunin reverte qualitativamente essa hierarquia simbólica. Nesse sentido, Deus passa a representar obediência, ignorância e servidão; Satã, desobediência, conhecimento e emancipação. 

A metáfora acaba por estruturar uma homologia entre revolta, pensamento e liberdade.

No Programa de uma sociedade internacional secreta da emancipação da humanidade (1864), Bakunin expõe a lógica teológica da autodepreciação humana diante de Deus. O homem, afirma, “livre em relação a seu próximo, é o escravo de Deus”. Escreve de forma irônica: “Querer tornar-se algo de bom por si próprio! Mas é o cúmulo da loucura e a ilusão de um orgulho satânico, é uma revolta e uma blasfêmia contra Deus!” (p. 80). O que aparece aqui é a tentativa humana de fundar sua dignidade em si mesma. A categoria teológica de “pecado” torna-se, na leitura bakuniniana, uma possibilidade emancipatória.

Essa identificação reaparece em O Império Knuto-germânico e a revolução social (1871), onde Bakunin define o conteúdo desse “orgulho satânico”: “O sentimento de revolta, este orgulho satânico que rejeita a dominação do mestre que for, divino ou humano, e que é o único a criar no homem o amor pela independência e pela liberdade” (p. 228). Aqui a metáfora ganha precisão política. Satã designa a recusa da dominação — não apenas divina, mas também humana. 

No mesmo livro, a figura satânica adquire estatuto histórico-universal. 

Referindo-se aos Fraticelli – grupo católico medieval que considerava a riqueza da Igreja como escandalosa, condenando a propriedade privada e a maldade da vida material –  Bakunin escreve que eles ousaram tomar “contra o déspota celeste, o partido de Satã, este chefe espiritual de todos os revolucionários passados, presentes e futuros, o verdadeiro autor da emancipação humana segundo o testemunho da Bíblia, o negador do império celeste como nós o somos de todos os impérios terrestres, o criador da liberdade” (p. 236). 

Aqui, emerge uma analogia explícita. Satã é elevado à condição de princípio espiritual da revolução. Ele é o negador do império celeste, assim como os revolucionários são negadores dos impérios terrestres.

Essa interpretação alcança formulação mais sistemática em Sofismas históricos da escola doutrinária dos comunistas alemães (1871). No comentário ao mito do pecado original, Bakunin caracteriza Satã como “o eterno revoltado, o primeiro livre-pensador e o emancipador dos mundos” (pp. 257–258). 

E continua: “Ele envergonha o homem de sua ignorância e de sua obediência bestiais; ele o emancipa e imprime em sua testa o carimbo da liberdade e da humanidade, incitando-o a desobedecer e a comer o fruto da ciência”. A sequência é estrutural: desobedecer → conhecer → tornar-se humano.

O próprio Deus, segundo Bakunin, confirma a verdade de Satã: “Deus deu razão à Satã e reconheceu que o diabo não tinha enganado Adão e Eva quando lhes prometeu o conhecimento e a liberdade, como recompensa do ato de desobediência” (p. 259). 

O sentido do mito é então explicitado: “O homem se emancipou, separou-se da animalidade e constituiu-se enquanto homem; começou a sua história e seu desenvolvimento propriamente humano por um ato de desobediência e de conhecimento, ou seja, pela revolta e pelo pensamento” (p. 259).

Pode-se dizer que a metáfora de Satã condensa quatro dimensões articuladas nesses escritos de Bakunin: 1. revolta contra Deus; 2. rejeição da dominação do mestre; 3. conhecimento como fruto da desobediência; 4. constituição da humanidade pela revolta pensante. 

Para além de um personagem mítico reapropriado, Satã ganha no pensamento de Bakunin contornos de um sujeito histórico-metafórico: “chefe espiritual de todos os revolucionários”, “emancipador da humanidade”, “criador da liberdade”, “primeiro livre-pensador”.

Quando Fritz Brupacher intitula sua biografia Bakunin: o satã da revolta (1922), a metáfora retorna ao próprio revolucionário. 

Em Bakunin, Satã é o nome simbólico da "negatividade ativa" — da negação da autoridade que produz pensamento, liberdade e humanidade. A revolta não é mera desordem; é o ato inaugural da história humana.

Raphael Cruz


Referências

BAKUNIN, Mikhail. O Império Knuto-germânico e a revolução social (1871). In: FERREIRA, A. C.; TONIATTI, T. B. De baixo para cima e da periferia para o centro: textos políticos, filosóficos e de teoria sociológica de Mikhail Bakunin. Niterói: Alternativa, 2014. v. 1. (Coleção Pensamento Insurgente).

BAKUNIN, Mikhail. Programa de uma sociedade internacional secreta da emancipação da humanidade (1864). In: FERREIRA, A. C.; TONIATTI, T. B. De baixo para cima e da periferia para o centro: textos políticos, filosóficos e de teoria sociológica de Mikhail Bakunin. Niterói: Alternativa, 2014. v. 1. (Coleção Pensamento Insurgente).

BAKUNIN, Mikhail. Sofismas históricos da escola doutrinária dos comunistas alemães (1871). In: FERREIRA, A. C.; TONIATTI, T. B. De baixo para cima e da periferia para o centro: textos políticos, filosóficos e de teoria sociológica de Mikhail Bakunin. Niterói: Alternativa, 2014. v. 1. (Coleção Pensamento Insurgente).

BRUPBACHER, Fritz. Bakunin: o satã da revolta (1922). São Paulo: Editora Imaginário; Intermezzo Editorial, 2015.

A servidão compulsória: trabalho e dominação no capitalismo segundo Mikhail Bakunin

Mikhail Bakunin (1814-1876)


Por que trabalhamos em empregos precários, que nos exploram ao ponto da exaustão física ou do adoecimento psíquico?

Empregos estes que não permitem desenvolver nossas habilidades e potenciais criativos? 

Mikhail Bakunin pode ajudar a responder essas questões.

Desde os anos 2000, circula na internet lusófona um texto do autor intitulado "Sistema capitalista". Na verdade, ele é um trecho da obra "O Império Knuto-Germânico e a revolução social". 

Nesse trecho específico, o autor reflete sobre as relações de trabalho no capitalismo e contesta a lógica liberal que afirma existir liberdade para o trabalhador vender sua força de trabalho no mercado.

As relações entre capitalismo e liberdade, trabalho e dominação são tratadas por Bakunin desde uma perspectiva sociológica e dialética, oferecendo elementos para compreender como a dominação se expressa no trabalho assalariado em regime capitalista.

Para Bakunin, a relação de trabalho no capitalismo expressa uma relação de dominação, derivada do monopólio da propriedade privada dos meios de produção pela burguesia.

Isso condiciona os trabalhadores a vender sua força de trabalho para sobreviver em um contexto de despossessão de meios de vida e, assim, evitar a ameaça da fome. 

Essa dinâmica coloca a classe trabalhadora em uma posição estrutural de submissão aos capitalistas. Como ele afirma:

"O trabalhador está na posição de servo porque esta terrível ameaça de fome, que diariamente paira sobre ele e sua família, o forçará a aceitar quaisquer condições impostas pelos cálculos proveitosos do capitalista, do industrial, do empregador." (Bakunin, Sistema capitalista, 2007, p. 9).

Ele encara o trabalho assalariado como uma modalidade de servidão contemporânea, na qual a liberdade é uma ilusão. 

Fonte: @um_surto

Ele relaciona as noções de servidão "voluntária" e "compulsória" para problematizar a ilusão de liberdade no mercado de trabalho e a realidade da exploração da classe trabalhadora no capitalismo.

Embora os trabalhadores, do ponto de vista jurídico burguês, não sejam legalmente forçados a trabalhar para um patrão específico — o que, em tese, implicaria uma voluntariedade da servidão —, eles são economicamente compelidos a se submeter às condições impostas pelos capitalistas, resultando, na verdade, em uma servidão compulsória

Bakunin explica:

"A verdade é que toda a vida do trabalhador é simplesmente uma sucessão contínua e horrível de períodos de servidão – voluntária do ponto de vista jurídico, mas compulsória pela lógica econômica – interrompida por momentâneos e breves intervalos de liberdade acompanhados de fome; em outras palavras, é a verdadeira escravidão." (Bakunin, Sistema capitalista, 2007, p. 10).

Em síntese, a lógica econômica do capitalismo obriga a classe trabalhadora a vender sua força coletiva de trabalho para sobreviver. 

Nesse sentido, a suposta liberdade do trabalhador em escolher um patrão para vender sua força de trabalho é uma ilusão criada pelo sistema jurídico, que ignora as condições materiais e econômicas reais dos trabalhadores. 

Esse próprio sistema jurídico protegerá, então, essa ilusão de liberdade e funcionará como uma instituição de manutenção e reprodução da ordem capitalista, preservando os interesses da burguesia e legitimando a dominação dos trabalhadores. 

Bakunin reforça essa ideia ao afirmar:

"Os Estados, religiões e todas as leis jurídicas, tanto criminais quanto civis, e todos os governos políticos, monarquias e repúblicas – com seus imensos aparatos judiciais e policiais e seus exércitos permanentes – não têm outra missão senão a de consagrar e proteger tais práticas." (Bakunin, Sistema capitalista, 2007, p. 2).

Isso remete à lógica de fundo do pensamento de Bakunin, que é a dialética entre a política e a economia, e à problematização sociológica por ele feita entre igualdade econômica e política. 

Para Bakunin, há uma relação de interdependência e retroalimentação entre a "escravidão política", que é o Estado, e a "miséria econômica", que é o capitalismo. 

Ele abordará essa relação dialética ao criticar o sobredeterminismo econômico presente no pensamento de Karl Marx:

"A escravidão política, o Estado, por sua vez, reproduz e conserva a miséria, como uma condição de sua existência; assim, para destruir a miséria, é preciso destruir o Estado." (Bakunin, Carta ao Jornal La Liberté).

Quanto à relação entre igualdade política e econômica, Bakunin é categórico:

"Enquanto não houver igualdade econômica e social, enquanto uma minoria qualquer puder tornar-se rica, proprietária, capitalista, não pelo próprio trabalho individual, mas pela herança, a igualdade política será uma mentira. Sabeis qual é a verdadeira definição de propriedade hereditária? É a faculdade hereditária de explorar o trabalho coletivo." (Bakunin, O Império Knuto-germânico e a revolução social – Parte II, 2014, p. 50).

Se o capitalismo é baseado na desigualdade econômica, qualquer menção à liberdade política ou jurídica não passará de ilusão, mentira e fantasia. Bakunin é incisivo ao denunciar essa falsa liberdade:

"Sim, a pobreza é a escravidão, é a necessidade de vender seu trabalho, e com seu trabalho sua pessoa, ao capitalista que vos dá o meio de não morrer de fome. É preciso ter realmente o espírito interessado na mentira dos senhores burgueses para ousar falar da liberdade política das massas operárias! Bela liberdade essa que os escraviza aos caprichos do capital e os acorrenta à vontade do capitalista, pela fome." (Bakunin, A ciência e a questão vital da revolução, 2009, p. 72).

Além disso, o autor critica a igualdade jurídica como uma farsa, argumentando que as leis são criadas pelos burgueses para proteger seus próprios interesses, perpetuando a dominação sobre o povo:

"A igualdade política, mesmo nos Estados mais democráticos, é uma mentira. O mesmo acontece com a igualdade jurídica, a igualdade diante da lei. A lei é feita pelos burgueses, para os burgueses, e é exercida pelos burgueses contra o povo. O Estado e a lei que o exprime só existem para eternizar a escravidão do povo em proveito dos burgueses." (Bakunin, A ciência e a questão vital da revolução, 2009, p. 84).

O mercado de trabalho no capitalismo, assentado na exploração da força coletiva da classe trabalhadora em benefício da minoria burguesa, é parte de uma matriz de dominação mais ampla, que inclui o Estado, suas instituições jurídicas, políticas, militares e policiais, assim como a igreja. Bakunin reforça essa ideia ao afirmar:

"Os Estados, religiões e todas as leis jurídicas, tanto criminais quanto civis, e todos os governos políticos, monarquias e repúblicas – com seus imensos aparatos judiciais e policiais e seus exércitos permanentes – não têm outra missão senão a de consagrar e proteger tais práticas." (Bakunin, Sistema capitalista, 2007, p. 2).

Bakunin oferece uma análise profunda e crítica das relações de trabalho no capitalismo, destacando a servidão compulsória dos trabalhadores e a ilusão de liberdade criada pelo sistema jurídico. 

Para Amadeo Bertolo, o anarquismo é tanto um sistema de hipóteses interpretativas sobre a sociedade quanto um projeto revolucionário:

Por um lado, é um sistema de hipóteses interpretativas sobre a sociedade e a história (ou sobre as mudanças sociais); um sistema de análises que, partindo do reconhecimento dos males sociais, enfatiza a natureza da exploração e da opressão, da injustiça e da desigualdade, seja de acordo com a evolução histórica, seja identificando suas causas. (Bertolo, Anarchists... and proudly so, 1972).

A perspectiva bakuniniana oferta esse sistema de hipóteses do qual falou Bertolo, ajudando a revelar a interdependência entre economia, política e cultura na manutenção da dominação capitalista. 

E mais do que isso, ofertou, historicamente, também um projeto revolucionário que buscava desfazer o trabalho enquanto uma servidão e refazê-lo enquanto liberdade.

Raphael Cruz

Teoria da organização como teoria do poder em Bakunin

A teoria da organização de classe de Bakunin é também uma teoria do poder social.

Ao refletir de por que a burguesia é inferior em quantidade ao proletariado, contudo mais poderosa, ele sugere que a força dela reside em sua organização enquanto classe.

A capacidade da burguesia em partilhar interesses e articular estratégias em comum, apesar de inevitáveis diferenças entre suas frações, é um fator qualitativo que compensa sua desvantagem numérica frente ao proletariado.

Nesse sentido, para Bakunin o segredo da vitória dos trabalhadores na luta de classes, reside em sua organização enquanto classe para si (consciência e luta por seus interesses) e por si (autonomia na ação frente a burguesia e o Estado).

É ciente disso que Bakunin apoiará e participará da Associação Internacional dos Trabalhadores.


Raphael Cruz

Educação e revolução social


Participarei de uma conversa com a professora e pesquisadora do anarquismo, Luciana Brito, sobre a perspectiva de Mikhail Bakunin acerca da relação entre educação e revolução social. O encontro acontecerá no canal Anarquismo e Geografia, do @max_stirner_king, no dia 29 de março, às 19h.


Congresso Internacional de Estudos Bakuninianos

 


Ao completar um século do falecimento de Mikhail Bakunin, foi realizado um congresso internacional de estudos na Itália sobre sua vida e obra.

Percebe-se que foi um grande evento pela quantidade de palestrantes renomados e demais participantes. Pena que não tenha se tornado uma tradição nem iniciado um campo relativamente estável de estudos sobre a obra bakuniniana ainda nos anos 1970.

Se passarariam três décadas para que parte considerável da produção intelectual de Bakunin fosse organizada pelo Instituto de História Social de Amesterdã e, com isso, uma série de investigações reavivassem esse impulso inicial e coletivo de pesquisa.

Se passarariam ainda quarenta anos até que ocorresse um evento internacional de tamanha projeção sobre o legado de Bakunin, como foi a Conferência do Bicentenário (1814-2014) de seu nascimento, em sua terra natal Pryamuchino, na Rússia.

Abaixo segue texto retirado e traduzido de Estel Negre, que recorda o evento internacional de 1976.

Raphael Cruz

***

Entre os dias 24 e 26 de setembro de 1976, no centenário da morte de Mikhail Bakunin, foi realizado no Palazzo Seriman de Veneza (Vêneto, Itália) o Convegno Internazionale di Studi Bakuniniani (Congresso Internacional de Estudos Bakuninianos), organizado pelos Grupos Anarquistas Federados (GAF) e sob o patrocínio da Associação Cultural Libertária "A. e B. Carocari". O congresso, coordenado por Nico Berti, contou com a presença de dezenas de especialistas em Bakunin e centenas de pessoas interessadas em sua vida e obra. Nas sessões mais populares, reuniram-se mais de quinhentas pessoas na sala e no pátio adjacente, onde a organização havia instalado alto-falantes. Neste congresso, a figura de Bakunin foi estudada a partir de um ponto de vista acadêmico interdisciplinar, com diversas abordagens (sociológica, pedagógica, filosófica, ideológica, poética, etc.). Participaram com palestras destacados intelectuais, como Alexander Alexiev, Maurizio Antonioli, Henri Arvon, Giovanni Biagioni, Giampietro N. Berti, Amedeo Bertolo, Lamberto Borghi, Romano Broggini, Eduardo Colombo, Sam Dolgoff, Marianne Enckell, Paola Feri, Violette Gaffiot, Daniel Guerin, Gianni Landi, Arthur Lehning, Jean Maitron, Pier Carlo Masini, Luciano Pellicani, Giorgio Penzo, Silvia Rota Ghibaudi, Domenico Settembrini, Misato Toda, Tina Tomasi, Claudio Venza, Marc Vuilleumier, entre outros – Franco Della Peruta e Juan Gómez Casas estavam no programa, mas acabaram não participando. Em 1977, as Edizioni Antiestato de Milão (Lombardia, Itália) publicaram as atas sob o título Bakunin cent'anni dopo: Atti del Convegno Internazionale di Studi Bakuniniani.





Fonte


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Proudhon e Bakunin: as formas elementares da alienação e as estratégias de emancipação

Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865) e Mikhail Bakunin (1814-1876)

Em Proudhon throughout History, Pierre Ansart concluiu que existe uma teoria das três alienações que atravessa a obra proudhoniana e que versa sobre as alienações econômica, política e espiritual. A 1° causada pela propriedade. A 2° pelo Estado. E a 3° pelo respeito à autoridade transcendente, que prega a obediência, plasmada socialmente na religião.

"Podemos levantar a hipótese de que as reações extremas em relação à obra de Proudhon no passado, e em menor grau ainda hoje, são devidas a razões fortes e não acidentais. Parece que a crítica das três alienações da propriedade, do Estado e da religião toca em três questões fundamentais da ordem social, e que essas questões, quaisquer que sejam as mudanças que tenham sofrido ao longo de mais de um século, permanecem abertas, provocando posições e reações explícitas e implícitas. Além disso, embora as condições tenham mudado, as reações emocionais básicas em relação a esses três fundamentos da ordem social têm um grau de continuidade histórica, e é talvez nesse aspecto que o discurso proudhoniano aborda mais diretamente as atitudes em andamento." (Ansart, 1997, p. 3. [Destaques meus]).


Fonte: Elaborado pelo autor, a partir de Ansart (1997). Clique na imagem para aumentá-la.

Esta crítica aos três fundamentos da ordem social moderna podem ter influenciado Mikhail Bakunin a elaborar seu modelo das três estratégias de emancipação: a econômica, a política e a intelectual e moral. Em seu texto de 1869, intitulado Instrução integral, ao criticar os educacionistas, Bakunin proporá as três formas elementares de emancipação popular, em consonância intelectual e política com Proudhon.

"Apesar de todo o nosso respeito para com a grande questão da instrução integral, declaramos que tal é hoje a grande questão que se põe ao povo. A primeira questão,  é a da sua emancipação econômica, que leva necessariamente à sua emancipação política, e pouco depois à sua emancipação intelectual e moral." (Bakunin, 2015, p. 178).

Neste modelo, a emancipação econômica do proletariado é a parteira das  demais emancipações e deveria ser priorizada estrategicamente pelo movimento dos trabalhadores.


Fonte: Elaborado pelo autor, a partir de Bakunin (2015 [1869]). Clique na imagem para aumentá-la.


Pode-se perceber que esse modelo triádico das alienações, como três questões fundamentais da ordem social, nos dizeres de Ansart, foi apropriado pelo mais francês entre os russos, que foi Mikhail Bakunin, e ganhou sobrevida, ainda, dois anos depois, no seu livro Federalismo, Socialismo e Antiteologismo (1872).

Fonte: Elaborado pelo autor a partir de Bakunin (1988). Clique na imagem para aumentá-la.

No qual o federalismo é indicado como a solução política para a alienação promovida pelo Estado. O socialismo é a solução econômica para a alienação promovida pelo capitalismo. E o antiteologismo como materialismo é a solução para a alienação espiritual.

Dessa forma, é possível perceber como a crítica proudhoniana às três alienações – econômica, política e espiritual – não apenas influenciou o pensamento de Bakunin, mas também contribuiu para a consolidação de um modelo de emancipação baseado nessas três esferas fundamentais da ordem social.

A relação entre ambos os autores demonstra uma continuidade teórica e estratégica dentro do anarquismo do século XIX, reafirmando a centralidade da emancipação econômica como condição primária para a superação das demais formas de dominação. 

Assim, o legado dessa estrutura triádica ressoa não apenas na história do pensamento anarquista, mas também nas tentativas concretas de reorganização social ao longo do tempo levada a cabo por aqueles que se identificavam como anarquistas, como pode ser identificado nos casos da Makhnovitchina, na Ucrânia, e da Guerra Civil Espanhola.

Raphael Cruz


Referência

ANSART, Pierre. Proudhon throughout History. The Anarchist Library. Disponível em: https://theanarchistlibrary.org/library/pierre-ansart-proudhon-throughout-history. Acesso em: 21 dez 2022.

BAKUNIN, Mikhail. A instrução integral. In: BAKUNIN, Mikhail. Educação, ciência e revolução. São Paulo: Intermezzo, 2015.

BAKUNIN, Mikhail. Federalismo, socialismo e antiteologismo. São Paulo: Cortez,1988.



Mikhail Bakunin na imprensa oitocentista do Brasil

 

O Brasil, V. X, n. 1803, 18 de março de 1848

A mais antiga, talvez, menção a Bakunin na imprensa brasileira. Jornal O Brasil, 18 de março de 1848. Três meses após a publicação dessa notícia, Bakunin participará do Congresso eslavo e da Insurreição de Praga.


Cabeçalho de O Brasil, na edição em que Bakunin é mencionado

Raphael Cruz

Diagrama 1: Triângulo de Bakunin

 

Esta é uma tentativa de transpor para um diagrama, as formulações de Mikhail Bakunin em torno do socialismo, federalismo e antiteologismo (materialismo), presentes em seu livro Federalismo, socialismo e antiteologismo, de 1867-1868. Cada um desses elementos está em oposição a outros três: o federalismo ao estatismo, o socialismo ao capitalismo e o antiteologismo ao idealismo. O significado que o diagrama busca passar é que esses três elementos interagem entre si, e integram uma totalidade no pensamento do revolucionário russo, representada graficamente pelo triângulo. Nesse contexto sistêmico, o nexo antiteologismo-federalismo produz uma crítica ao estatismo; o nexo antitetologismo-socialismo produz uma crítica ao capitalismo; e o nexo federalismo-socialismo produz um projeto de organização societária oposta à sociedade estatista-capitalista criticada pelo autor. 

Raphael Cruz


Referência

BAKUNIN, Mikhail. Federalismo, socialismo e antiteologismo. In: BAKUNIN, Mikhail. Obras escolhidas. Tradução de Plínio Augusto Coelho. São Paulo: Hedra; Imaginário, 2015. 

Leitura 12: A sociologia de Bakunin


No texto "As intrigas do senhor Utin" (1870), Bakunin explora a dinâmica entre indivíduo e sociedade, bem como a relação do educador com crianças e adolescentes, revelando nuances de suas sociologia geral e sociologia da educação.

Raphael Cruz


Referência

BAKUNIN, Mikhail. Educação, ciência e revolução. São Paulo: Intermezzo Editorial, 2015.

Bakunin e a sociologia

Mikhail Bakunin anarquismo socialismo sociologia rússia libertário filosofia
Mikhail Bakunin (1814-1876)


UMA CIÊNCIA RECENTE E DIFÍCIL

Para Bakunin, a sociologia é, em 1867, a mais difícil ciência, contudo bastante recente, ainda em busca de seus princípios, e que levaria um século, no mínimo, para se tornar uma ciência séria e completa.

"A sociologia é uma ciência que acabou de nascer, que ainda está à procura de seus elementos, e se julgamos esta ciência como a mais difícil de todas, segundo o exemplo das outras, devemos reconhecer que lhe serão necessários séculos, um século pelo menos, para que se constitua definitivamente e se torne uma ciência séria, um tanto suficiente e completa" (1979, p. 87). [1]

O QUE É SOCIOLOGIA?

Mas o que Bakunin entendia por sociologia?

Para ele, a sociologia englobaria "toda a história humana como o desenvolvimento do ser humano coletivo e individual na vida econômica, política, social, religiosa, artística e científica" (1979, p. 85).

Acaba por defini-la como a "ciência de leis gerais que presidem a todos os desenvolvimentos da sociedade humana" (1979, p. 86). 

Nestas definições, a sociologia não se restringe ao entendimento de uma única esfera da vida social, mas abarca "toda a história humana". Essa é uma característica do pensamento sociológico, buscar relações entre as diversas esferas da vida.

O QUE É A SOCIEDADE?

Aqui, cabe fazer duas perguntas fundamentais: o que ele compreendia por sociedade e o que significa lei na concepção bakuniniana?

Comecemos por sua definição de sociedade:

"A sociedade é o modo natural de existência da comunidade humana, independente de qualquer contrato. É governada por costumes ou hábitos tradicionais, mas nunca por leis. Avança lentamente pelo impulso de iniciativas individuais e não pelo pensamento ou vontade do legislador. Há muitas leis que a regem à sua maneira, mas são leis naturais, inerentes ao corpo social, uma vez que as leis físicas são inerentes aos corpos materiais. A maior parte destas leis são até agora desconhecidas, e no entanto têm governado a sociedade humana desde o seu nascimento, independentemente do pensamento e da vontade dos homens que a compuseram; daí decorre que não devem ser confundidas com as leis políticas e jurídicas que, nos sistemas que estamos a examinar, proclamadas por qualquer poder legislativo, fingem ser as deduções lógicas do primeiro contrato conscientemente formado por homens" (1979, p. 125).

Para Bakunin, a sociedade é o "modo de existência" da "comunidade humana". Ele compreende esse modo como "natural", isto é, como organizado por leis "inerentes ao corpo social" como os costumes e os hábitos. Ele justifica essa conclusão por meio da analogia com as "leis físicas" que são inerentes aos "corpos materiais".

Bakunin atenta para a diferenciação entre esses costumes e hábitos (leis inerentes ao social), que se desenvolvem na sociabilidade humana, com a legislação estatal ("leis políticas e jurídicas"), que não deriva dos costumes e dos hábitos, mas do "pensamento ou vontade do legislador".

Quanto ao nível de conhecimento dessas leis sociais, a maior parte delas permanece desconhecida, apesar de governarem a "sociedade humana desde o seu nascimento". Isto é, o fato de existirmos nessa sociedade, não implica que tenhamos consciência das leis que a organizam. Tal afirmativa revela algo do realismo epistemológico de Bakunin.

Quanto a sua procedência, essas leis sociais são compostas pelos homens, isto é, originam-se socialmente e não de forma sobrenatural, divina ou teológica. As leis sociais são imantentes à sociedade. Bakunin dá seguimento a concepção proudhoniana do social, que antecipou em mais de um século, as reflexões de Cornelius Castoriadis sobre a autoprodução da sociedade.

O QUE SÃO AS LEIS DA SOCIEDADE?

Contudo, o que Bakunin entende por "lei"?

Temos uma pista disso em sua reflexão sobre o emprego pelas ciências da natureza da expressão "leis naturais que governam o mundo", expressão que, por sinal, ele repudiava, e que, enquanto categoria de pensamento, havia se originado na teologia.

"(...) o que chamamos leis naturais não constituem outra coisa que diferentes modos regulares do desenvolvimento dos fenômenos e das coisas, que se produzem, de uma maneira desconhecida para nós" (1979, p. 259).

A palavra lei significa, então, "modos regulares do desenvolvimento dos fenômenos".

Como nota Bakunin, essas leis são criações do espírito humano para tentar explicar, mas não esgotar, a indefinida riqueza desse desenvolvimento.

Nesse sentido, o conhecimento humano possui limites. Ele também reconhece que a constância e a repetição desses modos não são absolutas, havendo espaço para anomalias e exceções em relação a esses modos regulares. 

"Essa constância e essa repetição não são absolutas. Deixam sempre um amplo campo ao que chamamos impropriamente anomalias e exceções, modo de falar muito injusto, porque os fatos ao que correspondem somente provam que essas regras gerais, reconhecidas por nós como leis naturais, e que não são mais que abstrações elaboradas por nosso espírito do desenvolvimento real das coisas, não estão em estado de abarcar, de esgotar, de explicar toda a indefinida riqueza desse desenvolvimento" (1979, p. 97).

COMO INVESTIGAR A SOCIEDADE?

Entretanto, como investigar essas "leis", isto é, os "modos regulares do desenvolvimento dos fenômenos" do "corpo social"? Bakunin afirma que por meio das "leis dos eventos passados e da massa dos fatos presentes" (1979, p. 86).

"A história e a estatística nos provam que o corpo social, como qualquer outro corpo natural, obedece, em suas evoluções e transmutações, à leis gerais, que parecem ser tão necessárias quanto as do mundo físico. Extrair estas leis dos eventos passados e da massa dos fatos presentes, tal deve ser o objetivo desta ciência" (1979, p. 86).

Estudar as leis do desenvolvimento da sociedade humana é o objetivo da sociologia. Para isso, deveria ter como objeto de análise os eventos e os fatos, do passado e do presente, em outras palavras, aquilo que acontece e aquilo que aconteceu, em síntese, o mundo empírico.

Como visto acima, ele fundamenta essa escolha metodológica de objeto e objetivo por meio de resultados alcançados, à época, pela estatística e pela história.

Podemos indicar, com base nessas passagens das obras citadas, que para Bakunin, por meio da análise de eventos do passado e de fatos do presente (objetos), a sociologia busca descobrir o que há de regular (como os hábitos e os costumes) no desenvolvimento da sociedade humana (objetivo).

SOCIOLOGIA COMO TEORIA CRÍTICA

Por fim, para além de compreender e explicar as leis da sociedade (o ser), a sociologia teria um outro objetivo: tornar viáveis as transformações sociais almejadas pelos revolucionários socialistas. Nesse sentido, a sociologia responderia também a uma intenção política (o dever ser), o que antecipa a concepção de teoria crítica defendida por Horkheimer (2000), e a de sociologia crítica em particular.

"Fora do imenso interesse que apresenta ao espírito, ela nos promete, no futuro, uma grande ultilidade prática; isto porque, assim como não podemos dominar a natureza e transformá-la segundo nossas necessidades progressivas a não ser graças ao conhecimento que adquirimos de suas leis, só poderemos realizar nossa liberdade e nossa prosperidade no meio social se levarmos em conta as leis naturais e permanentes que o governam. Uma vez admitido isto, torna-se claro que o conhecimento e a estrita observação destas leis se tornam indispensáveis para que as transformações sociais que empreendermos sejam viáveis" (1979, p. 86).

No entanto, não caberia a sociologia resolver os problemas de organização social por meio de um "governo de sábios", mas, apenas, "indicar" as "causas gerais dos sofrimentos individuais" e "mostrar", então, "as condições gerais necessárias à emancipação real dos indivíduos que vivem na sociedade" (2014, p. 297). Nesse sentido, para Bakunin, a sociologia indica e mostra soluções para a sociedade, tem a mesma função das ciências físicas, a saber, "iluminar a estrada" (2014, p. 297), mas não concertar ela mesma essa estrada [2].

"Tudo o que temos direito de exigir dela [da ciência social] é que nos indique, com uma mão firme e fiel, as causas gerais dos sofrimentos individuais – e entre estas causas ela não esquecerá, sem dúvida, a imolação e a subordinação, infelizmente ainda costumeiras demais, (...) e que ao mesmo tempo nos mostre as condições gerais necessárias à emancipação real dos indivíduos que vivem na sociedade. Eis a sua missão, eis também os seus limites, além dos quais a ação da ciência social só saberia ser impotente e funesta. Pois além destes limites começam as pretensões doutrinárias e governamentais de seus representantes patenteados, de seus sacerdotes. E já está mais do que na hora de acabar com todos os papas e sacerdotes: não os queremos, mesmo que se chamem democratas socialistas" (2014, p. 297).

Raphael Cruz


Notas

[1] O termo sociologia fora usado pela primeira vez em 1839 por Auguste Comte no quarto tomo de seu "Curso de filosofia positiva", isto é, 28 anos antes de Bakunin escrever esse trecho. Nesse sentido, ele tem razão em classificá-la como uma  "ciência que acabou de nascer". Contudo, se levarmos em conta o prognóstico histórico de Bakunin, a sociologia só teria se tornado uma "ciência séria" em 1967. Contudo, as aspirações a essa seriedade já datam de 1895, quando Émile Durkheim publica "As regras do método sociológico", na França, isto é, 28 após Bakunin escrever aquele trecho. Assim, no período entre 1839 e 1895, isto é, em 56 anos, a sociologia é inventada e proposta como uma ciência na França. O que nos sugere a possibilidade de pensá-la, ao menos em seu estágio inicial, como um tipo de pensamento francês, associada à uma tradição nacional de pensamento social elaborada por filósofos de formação: Auguste Comte e Émile Durkheim.

[2] Para a discussão de Bakunin sobre as possibilidades e limites da ciência para a revolução social e a reorganização da sociedade, consultar sua obra O império Knuto-germânico e a revolução social e o manuscrito Sofismas históricos da escola doutrinária dos comunistas alemães, que é a segunda parte de O império Knuto-germânico e a revolução social.

Referências

BAKUNIN, Miguel. Federalismo, socialismo y anti-teologismo. In: BAKUNIN, Miguel. Obras completas de Miguel Bakunin, Vol. 3. Tradução Diego A. de Santillán. Madri: La Piqueta, 1979.

BAKUNIN, Miguel. Filosofía. Ciencia In: BAKUNIN, Miguel. Obras completas de Miguel Bakunin, Vol. 3. Tradução Diego A. de Santillán. Madri: La Piqueta, 1979.

BAKUNIN, Mikhail. Sofismas históricos da escola doutrinária dos comunistas alemães [O império Knuto-germânico parte II]. In Ferreira, A. C.; Toniatti, T. B. De baixo para cima e da periferia para o centro: textos políticos, filosóficos e de teoria sociológica de Mikhail Bakunin. Niterói : Alternativa, 2014.

HORKHEIMER, Max. Teoría tradicional y teoría crítica. Barcelona: Paidós, 2000.


Observação: esta postagem foi modificada em 12 de junhi de 2024.

Leitura 3: Bakunin e o estatismo

Edição russa de 1873, de Estatismo e anarquia.


Impressiona como Estatismo e Anarquia ([1873]), de Mikhail Bakunin, é pouco lido. Há tanto argumento interessante lá. Não só uma teoria do Estado, mas do imperialismo e do sistema interestatal capitalista. A própria noção de hegemonia desenvolvida por ele é central na compreensão do Estado. 


Referências

BAKUNIN, Mikhail. Estatismo e anarquia. São Paulo: Imaginário; Ícone, 2003.

Bakunin e a política etnográfica

Nikolai Yaroshenk. O estudante, 1881


Em 1922, Malinowsk publicou sua etnografia sobre os trobriandeses. Nos anos 1940, a Escola de Manchester em antropologia, capitaneada por Max Gluckman, etnografou a política entre povos africanos. 

Em Malinowski, a etnografia ganhou sua face contemporânea. Por meio dos africanistas de Manchester emergiu uma etnografia política.

Sugiro que num escrito de Mikhail Bakunin está implícita uma política etnográfica ao invés de uma etnografia política. O referido texto trata da aplicação de um método para-etnográfico para a compressão do campesinato russo, visando a agitação, propaganda e organização de massas com fins políticos revolucionários.

No texto Aonde ir e o que fazer? (1873), Bakunin instigou a juventude russa a ir ao povo para conhecê-lo e organizar junto à ele uma revolução social. Constituiu-se num apelo para a juventude universitária russa trair politicamente sua origem de classe aristocrática e se misturar ao campesinato. 


Nikolai Yaroshenko. A estudante, 1883


No verão de 1874, ocorreu uma massiva ida de jovens às comunidades rurais. Esta foi a primeira aproximação em massa de estudantes socialistas com o campesinato russo. 

Esse evento entrou para a historiografia com o nome de movimento "ir ao povo". Expressou uma evolução importante em relação à juventude russa da década passada. Pois, os niilistas dos anos 1860 canalizavam a rebeldia para discussões metafísicas e para o fatalismo. 


Vasily Vereshchagin, Retrato de um camponês, s/d


No referido texto, Bakunin indicava os meios para conhecer o campesinato russo in situ. O método é incrivelmente semelhante à etnografia, contudo, o objetivo é político.

"Os detalhes que se repetem cotidianamente são bem amiúde mais importantes e mais dignos de observação do que fatos proeminentes dos quais, evidentemente, nenhum escapará à vossa atenção. Estudando minuciosamente a vida material das pessoas simples que vos cercam, buscai penetrar o fundo de sua alma, seus hábitos coletivos no plano mental e moral, suas diversas relações na família e na sociedade bem como a razão secreta de sua atitude em relação aos outros corpos sociais e as autoridades. O que pensam eles de seus direitos e de suas humilhações que, evidentemente, não faltam em nenhum lugar na Rússia? O que querem, a que aspiram e esperam algo? E de quem?".

Algumas considerações extraídas do parágrafo:

1) observar o cotidiano camponês

2) sem desprezar os "fatos proeminentes"

3) iniciar pela "vida material"

4) em seguida, a vida cultural

5) e o comportamento político 

Anos depois, militantes do amplo espectro socialista russo abandonaram a condição social de classe média ou aristocrata. Eles se tornaram operários de fábrica na intenção de agitar e organizar trabalhadores urbanos. No Brasil dos anos 1960, esse método foi chamado proletarização. 

Raphael Cruz

Observação: esta postagem foi modificada em 8 de julho de 2023.

Bakunin: teoria e prática do anti-Leviatã



No dia 29 de maio de 2021, compus a mesa de encerramento do curso online promovido pela Universidade Popular Mikhail Bakunin sobre os 150 anos da Comuna de Paris. 

Tive o prazer de dividir esse momento com René Berthier, pesquisador do pensamento de Bakunin e militante anarco-sindicalista da Confedération Générale du Travail, e o estudioso da obra bakuniniana Jean Angaut da École Normale Supériere de Lyon

A mesa foi mediada por Tadeu, editor-chefe da Revista Bakunin Vive, e pela colega Luciana Brito que compõe o Projeto Obras Completas de Mikhail Bakunin.

Tratei da diferenciação realizada por Bakunin entre o Estado e a Comuna como formas de organização política, contrapondo o ponto de vista bakuniniano com a posterior tradição marxista e marxista-leninista que interpretou a Comuna de Paris como uma espécie de Estado proletário (sic).

A mesa contou com participação do público com perguntas interessantes que iam desde questões relacionadas a orientação política dos participantes da Comuna até dúvidas sobre a possibilidade de diálogo entre a perspectiva de Bakunin e os estudos decoloniais.

A mesa de encerramento está disponível na íntegra no Canal do Arquivo Bakunin no YouTube. Você pode assistir clicando neste link


Raphael Cruz









A liberdade no anarquismo e no liberalismo



Mikhail Bakunin (1814-1876)


Estava lendo o texto A Comuna de Paris e a noção de Estado, de Bakunin, para me preparar para uma live no curso sobre a Comuna promovido pela Universidade Popular Mikhail Bakunin. 

Esta leitura me fez pensar a diferença entre anarquismo e liberalismo sobre o tema da liberdade. Tema tão vasto quanto incompreendido.

A diferença pode ser entendida por meio do contraste entre “limite” e “extensão”.

Eles correspondem a natureza individual ou coletiva da liberdade. 

Na famosa frase de Bakunin, que circula pela internet, “a liberdade do outro estende a minha ao infinito”, provavelmente uma adaptação de “a minha liberdade pessoal, assim confirmada pela liberdade de todos, estende-se até o infinito” (Bakunin, O conceito de liberdade, 1975, pp. 22-23), contrasta com o filosofema liberal, “a minha liberdade acaba quando começa a do outro”, atribuído a Herbert Spencer.

De um lado, a concepção extensionista ou coletivista de liberdade na filosofia de Bakunin.

Do outro lado, a concepção limitante e individualista de liberdade na filosofia liberal. 

Para o filósofo liberal, a unidade da liberdade é o indivíduo.

Para o anarquista, é a coletividade. 

O anarquismo não concebe a liberdade do indivíduo como individual, mas como um produto social da liberdade coletiva. 

No anarquismo, a liberdade é concebida a partir da coletividade ou sociedade e orientada pela ideia de extensão, já no liberalismo, é orientada pela ideia de limite.

Minha hipótese é que esse contraste se relaciona com as concepções de propriedade individual no liberalismo e propriedade coletiva no anarquismo.


Raphael Cruz

Bakunin e a dialética negativa

Mikhail Bakunin (1814-1876)


Chegou meu livro do Bakunin, A Reação na Alemanha

É um de sues primeiros textos, ainda da época dos Jovens Hegelianos. 

Está sendo maravilhoso entender a dialética de Bakunin. 

Ainda não terminei de ler. 

Bakunin dá importância para o elemento negativo da dialética. 

Para Bakunin, assim como para Proudhon, mas diferente de Marx, não há síntese. 

O que existe é uma contradição “eterna” sem solução, onde o fim da contradição, o fim da luta e do movimento, é o fim da vida.

O movimento é necessariamente contraditório. 

Por isso para Bakunin a Ordem é a morte, porque ela é o fim do movimento, o fim da contradição. 

O entendimento da dialética de Bakunin é realizado melhor se usada a ciência política e a relação entre as classes na história.

Raphael Cruz


Referência

BAKUNINE, Miguel. A reação na Alemanha.In: Cadernos Peninsulares, Nova Série, Ensaio 17.  Tradução: José Gabriel. Portugal: Editora Assírio & Alvin, 1976.

Obervação: esta postagem foi revisada em 16 de outubro de 2022.


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