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O rompimento de Murray Bookchin com o anarquismo

Murray Bookchin (1921-2006)


Se você se politizou nas alas mais à esquerda da esquerda, entre o final dos anos 1990 e o início dos 2000, é provável ter ouvido falar de Murray Bookchin.

Ele apareceu para mim, ao lado de pensadores como Noam Chomsky e David Graeber, como aqueles que estavam dando vida ao anarquismo no cenário político contemporâneo.

Já nos anos 2010, tomei contato com a informação de que Bookchin havia rompido com o anarquismo. 

Isso foi pouco antes de seu nome ganhar mais um sobre fôlego nas esquerdas devido à associação com  Abdullah Öcalan.

Öcalan é uma liderança da histórica luta curda, proponente do confederalismo democrático, um projeto socialista para o Oriente Médio e explicitamente inspirado na ecologia social de Bookchin.

Contudo, ontem, foi esclarecido de uma vez por todas para mim como se deu esse rompimento com o anarquismo. 

Isso ocorreu por meio de uma obra póstuma que estou entendendo ser quase uma espécie de testamento político.

Social ecology and communalism é uma ótima porta de entrada para conhecer o pensamento de Murray Bookchin, um dos mais criativos e longevos socialistas norte-americanos do século XX.

O livro é uma coletânea de ensaios organizada por Eirik Eiglad e foi publicado em 2007, um ano após o falecimento de Bookchin. 

Por isso mesmo, a obra oferece um ótimo panorama do desenvolvimento de sua ecologia social e a culminância dela no que ele nomeou de comunalismo.

A introdução escrita por Eiglad apresenta uma breve, mas sólida biografia do autor. 

Também consegue organizar os ensaios de maneira a fazer o leitor entender diferentes etapas do desenvolvimento teórico de Bookchin.

Em determinado momento do texto, o apresentador da obra afirma: "Ele (Murray Bookchin) rompeu abertamente com o anarquismo na segunda Conferência Internacional sobre Municipalismo Libertário, em Vermont, em 1999, e deixou claro que sua teoria da ecologia social precisa ser incorporada à ideologia que denominou comunalismo".

Eiglad aponta os desacordos de Bookchin com o anarquismo. 

Alguns me pareceram bastante válidos, como a crítica à falta de uma teoria do poder, baseada no caso histórico da Guerra Civil Espanhola. 

Contudo, acusações de niilismo e individualismo extremo no anarquismo me soaram como uma descrição circunscrita do cenário anarquista dos EUA entre o final dos anos 90 e início dos 2000. 

Bookchin parece ter ignorado, por desconhecimento, talvez, que os plataformistas russos e ucranianos do final dos anos 1920 já haviam realizado essa crítica interna ao campo. Contudo, entenderam o individualismo como um "desvio" do anarquismo histórico, e não como a sua "essência".

Já li em fóruns de internet, em tempos passados, que Bookchin simplesmente estava puto com toda a contaminação dos anarquistas pelo "anarquismo de estilo de vida" e resolveu "chutar o pau da barraca", jogando fora o bebê junto da água suja. 

Entretanto, não parece justo reputar isso a uma espécie de estado emocional ranzinza, já atribuído ao pensador em sua velhice.

A verdade é que, se você for uma leitora ou leitor atento de Bookchin, verá que o pensamento dele foi atravessado por um "ecletismo" teórico.

Este, muitas vezes, criativo, não confuso, uma mescla de anarquismo (antiestatismo, federalismo, autogestão), feminismo (crítica ao patriarcado, reconhecimento de hierarquias para além da classe social), marxismo (influência da Escola de Frankfurt) e ecologia (que deu o sabor especial ao seu pensamento).

Tudo fica mais compreensivo quando o próprio Bookchin escreve em Social ecology and communalism sobre ter aproveitado as melhores partes do marxismo e do anarquismo durante o desenvolvimento de seu próprio pensamento político.

De todo modo, entre os anos 1980 e 1990, quando amadurece sua proposta do municipalismo libertário, Bookchin já havia rompido com a estratégia antiestatista do anarquismo. Optando, em minha humilde avaliação, por uma contraditória e confusa construção estatista do poder popular.

O programa do municipalismo baseia-se na estratégia eleitoral de tomar prefeituras nos EUA, para impulsionar assembleias populares, confederá-las e criar um duplo poder frente ao Estado-nação. Algo, ao meu ver, não livre de alguma confusão política para alguém tão versado na história do socialismo e dos movimentos populares.

Se isso poderia fazer algum sentido na região da Nova Inglaterra, local onde Bookchin se estabeleceu e militou, não sei como poderia ser útil ou praticável em outros lugares, particularmente nas periferias do capitalismo.

Aqui cabe um ponto interessante sobre a apropriação curda da ecologia social.

O povo curdo teve que travar uma guerra para conseguir a administração autônoma de certos territórios. Isso não foi conquistado por meio de eleições, até onde eu sei.

De certa forma, no Oriente Médio, se deu o oposto da aposta estratégica de Bookchin: lá, primeiro se fez a guerra para conquistar a administração autônoma e assim organizar eleições locais, já sem a presença do Estado-nação.

Na proposta original do municipalismo libertário, primeiro se candidata em eleições, conquista-se prefeituras, cria-se assembleias populares para administrar a localidade ao invés do corpo profissional prefeitural.

Em seguida, confedera-se essas assembleias e, então, o Estado-nação, ao perder poder, desencadeia uma guerra com os municipalistas confederados.

O vislumbre de uma guerra entre o Estado e os municipalistas é uma etapa posterior no esquema de Bookchin. Na vida do povo curdo, foi a etapa inicial.

Agora, voltemos aos desacordos de Murray Bookchin com o anarquismo.

Outro rompimento anterior, mas no nível teórico, é quando ele abandona a centralidade da classe trabalhadora na construção de uma sociedade socialista. 

Graham Purchase, em Anarchism and social ecology: a critique of Murray Bookchin (1993), oferece um bom comentário sobre como a crítica específica do autor ao anarco-sindicalismo entre o fim dos anos 1970 e início dos 1980, já era um rompimento com o anarquismo em geral. 

Ao final, me parece ter sido um processo gradual o afastamento de Bookchin do anarquismo. O que acabou por levar a defesa do autor da associação da ecologia social com o comunalismo. 

Ainda assim, Bookchin merece ser lido e estudado com atenção e respeito por novas gerações de anarquistas. Principalmente pela abordagem dialética de base ecológica que ele oferta para entender as questões sociais e ambientais como indissociáveis para a construção do socialismo no século XXI.

Raphael Cruz


Autodeterminação de classe

Lendo a literatura anarquista, percebo que das reflexões de Proudhon em Da Capacidade Política das Classes Operárias às memórias de Archinov sobre a experiência da Makhnovitchina, o anarquismo se forja historicamente como prática e teoria da autodeterminação da classe trabalhadora.

Educação e revolução social


Participarei de uma conversa com a professora e pesquisadora do anarquismo, Luciana Brito, sobre a perspectiva de Mikhail Bakunin acerca da relação entre educação e revolução social. O encontro acontecerá no canal Anarquismo e Geografia, do @max_stirner_king, no dia 29 de março, às 19h.


Congresso Internacional de Estudos Bakuninianos

 


Ao completar um século do falecimento de Mikhail Bakunin, foi realizado um congresso internacional de estudos na Itália sobre sua vida e obra.

Percebe-se que foi um grande evento pela quantidade de palestrantes renomados e demais participantes. Pena que não tenha se tornado uma tradição nem iniciado um campo relativamente estável de estudos sobre a obra bakuniniana ainda nos anos 1970.

Se passarariam três décadas para que parte considerável da produção intelectual de Bakunin fosse organizada pelo Instituto de História Social de Amesterdã e, com isso, uma série de investigações reavivassem esse impulso inicial e coletivo de pesquisa.

Se passarariam ainda quarenta anos até que ocorresse um evento internacional de tamanha projeção sobre o legado de Bakunin, como foi a Conferência do Bicentenário (1814-2014) de seu nascimento, em sua terra natal Pryamuchino, na Rússia.

Abaixo segue texto retirado e traduzido de Estel Negre, que recorda o evento internacional de 1976.

Raphael Cruz

***

Entre os dias 24 e 26 de setembro de 1976, no centenário da morte de Mikhail Bakunin, foi realizado no Palazzo Seriman de Veneza (Vêneto, Itália) o Convegno Internazionale di Studi Bakuniniani (Congresso Internacional de Estudos Bakuninianos), organizado pelos Grupos Anarquistas Federados (GAF) e sob o patrocínio da Associação Cultural Libertária "A. e B. Carocari". O congresso, coordenado por Nico Berti, contou com a presença de dezenas de especialistas em Bakunin e centenas de pessoas interessadas em sua vida e obra. Nas sessões mais populares, reuniram-se mais de quinhentas pessoas na sala e no pátio adjacente, onde a organização havia instalado alto-falantes. Neste congresso, a figura de Bakunin foi estudada a partir de um ponto de vista acadêmico interdisciplinar, com diversas abordagens (sociológica, pedagógica, filosófica, ideológica, poética, etc.). Participaram com palestras destacados intelectuais, como Alexander Alexiev, Maurizio Antonioli, Henri Arvon, Giovanni Biagioni, Giampietro N. Berti, Amedeo Bertolo, Lamberto Borghi, Romano Broggini, Eduardo Colombo, Sam Dolgoff, Marianne Enckell, Paola Feri, Violette Gaffiot, Daniel Guerin, Gianni Landi, Arthur Lehning, Jean Maitron, Pier Carlo Masini, Luciano Pellicani, Giorgio Penzo, Silvia Rota Ghibaudi, Domenico Settembrini, Misato Toda, Tina Tomasi, Claudio Venza, Marc Vuilleumier, entre outros – Franco Della Peruta e Juan Gómez Casas estavam no programa, mas acabaram não participando. Em 1977, as Edizioni Antiestato de Milão (Lombardia, Itália) publicaram as atas sob o título Bakunin cent'anni dopo: Atti del Convegno Internazionale di Studi Bakuniniani.





Fonte


Fonte

Estudos sobre o periódico anarquista A Plebe: uma bibliografia comentada em ordem cronológica (1998-2024)

A Plebe, 9 de setembro de 1933, n 39. 

Apresentação

A pesquisa acadêmica sobre o jornal anarquista A Plebe passou por uma diversificação temática desde os anos 1990, ampliando o seu escopo e aprofundando sua análises conforme novos interesses foram incorporadas. Essa trajetória pode ser dividida em quatro momentos principais, correspondentes às décadas em que os estudos foram publicados. 

Nos anos 1990, a pesquisa sobre A Plebe era incipiente e concentrava-se exclusivamente na análise da imagem. O estudo realizado nesse período sugere interesse inicial pelos aspectos visuais do jornal.

Nos anos 2000, o escopo temático se expandiu, incorporando novos objetos de estudo. A educação tornou-se tema relevante, com três trabalhos tratando do tema, o que sugere um interesse pela relação entre o anarquismo e a pedagogia. Além disso, emergiram análises sobre arte, representação da revolução social, discurso e sexualidade. A década também marcou o início das investigações sobre o embate entre anarquistas e comunistas. 

Nos anos 2010, houve uma diversificação dos estudos, consolidando A Plebe como um objeto de pesquisa mais abrangente. A análise da imagem e da arte ganhou fôlego, com temas como ilustrações, caricaturas políticas e experiência visual, o que indica tanto um retorno de uma temática de estudo inaugurada nos anos 1990, como um aprofundamento na investigação da dimensão estética do periódico.

Paralelamente, cresceu o interesse pela representação e pelo imaginário, especialmente no que diz respeito à iconografia, à representação do feminino e ao imaginário dos militantes anarquistas. Além disso, a pesquisa sobre discurso e propaganda continuou avançando, sendo acompanhada por estudos sobre literatura e poesia no jornal.

A década também testemunhou um crescimento dos trabalhos sobre gênero e sexualidade, evidenciado por pesquisas sobre a emancipação feminina e a representação da mulher no periódico.

O tema dos conflitos políticos e ideológicos também foi reforçado, com novas análises sobre o fascismo, o antifascismo, o catolicismo e a interpretação anarquista da Revolução Russa. Por fim, houve um aumento nos estudos sobre o movimento operário e sindicalismo, incluindo pesquisas sobre o Primeiro de Maio, greves, ação direta, sindicalismo revolucionário e internacionalismo operário. 

Nos anos 2020, os estudos passaram a conectar A Plebe com a questão social, organização política anarquista e condições de vida da classe trabalhadora. Pela primeira vez, surgiu investigação sobre moradia e transporte. Além disso, a análise do sindicalismo revolucionário e da consciência de classe indicou um esforço para relacionar o discurso do jornal com as dinâmicas de organização e mobilização política dos trabalhadores. 

A trajetória dos estudos sobre A Plebe revela, portanto, uma evolução que vai da análise de aspectos mais formais e discursivos para um olhar mais amplo sobre a atuação do jornal no movimento operário e suas implicações para a compreensão da questão social. Se nos anos 1990 o interesse acadêmico se limitava à imagem, nas décadas seguintes a pesquisa expandiu-se para temas como educação, discurso, gênero, conflito político e sindicalismo, chegando, nos anos 2020, com a questão social.

Bibliografia em ordem cronológica

Anos 1990

CAMARGO, Dayse de. O teatro do medo: a encenação de um pesadelo nas imagens do periódico anarquista A Plebe (1917-1951). 1998. Dissertação (Mestrado em História) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 1998. 

Anos 2000

GONÇALVES, Ody Furtado. Trajetória e ação educativa do jornal A Plebe (1917-1927). Quaestio – Revista de Estudos em Educação, v. 6, n. 2, 2004. 

FIGUEIRA, Cristina Aparecida Reis. O jornal, o cinema, o teatro e a música como dispositivos da propaganda social anarquista: um estudo sobre as colunas “Espetacullos” e “Palcos, Telas e Arenas” nos jornais A Lanterna e A Plebe (1901-1921). In: Congresso Luso-Brasileiro de História da Educação, 2006. p. 32-48. 

GONÇALVES, A. M. ; NASCIMENTO, M. I. M. . Anarquismo, trabalho e educação nas folhas do jornal " A Plebe". In: VII Seminário Nacional de Estudos e Pesquisas, 2006, Campinas. VII Seminário Nacional de Estudos e Pesquisas. Campinas: faculdade de Educação da Unicamp. v. 01. p. 50-51.

MARTINS, Angela Maria Roberti. Palavras e imagens que fazem sonhar: imprensa libertária e representações da revolução social (A Plebe – 1919). Maracanan, v. 3, n. 3, p. 57-72, 2007. 

GONÇALVES, Aracely Mehl (2007). Francisco Ferrer y Guardia: Educação e a imprensa anarcosindicalista – “A Plebe” (1917- 1919). Dissertação (Mestrado em Educação) -Universidade Estadual de Ponta Grossa, Ponta Grossa.

RIBAS, Ana Claudia. As sexualidades d'A Plebe: um breve olhar sobre os discursos e os debates sobre sexualidade no jornal anarquista A Plebe. Revista Ártemis, v. 8, 2008. 

GONÇALVES, Aracely Mehl; NASCIMENTO, Maria Isabel Moura. A educação nas folhas do jornal “a plebe”: 1917-1919. Publicatio UEPG: Ciências Sociais Aplicadas, v. 16, n. 2, 2008.

VENANCIO, Rafael Duarte Oliveira. Ethos e Revolução: legitimação retórica dos jornais alternativos. Revista Alterjor, v. 1, p. 1-18, 2009.

PEIXOTO, Maitê. O quarto poder vermelho: embates teóricos e político-ideológicos entre anarquistas e comunistas nos jornais A Plebe e Voz Cosmopolita (1917-1927). In: Simpósio Nacional de História, 25., 2009, Fortaleza. Anais... Fortaleza: ANPUH, 2009. 

Anos 2010

MACIEL, Camila Queiroz. Mulher libertária é a mulher libertada: um projeto de emancipação feminina anarquista no jornal A Plebe (1917-1927). 2010. 159f. TCC (Graduação em Comunicação Social) - Universidade Federal do Ceará, Curso de Comunicação Social, Habilitação em Jornalismo, Fortaleza (CE), 2010.

PEIXOTO, Maitê. O quarto poder vermelho: embates teóricos e político-ideológicos entre anarquistas e comunistas (1917-1927). Oficina do Historiador, v. 1, n. 1, p. 41-50, 2010.

GARZIA, R. F. . Pela Desordem: Imagens e Imaginário da Revolução Social entre o Círculo Militante do Jornal A Plebe (1917-1922). In: V Congresso Internacional de História, 2011, Maringá-PR. Anais do V Congresso Internacional de História, 2011. p. 53-63.

GARZIA, R. F. . Imagens e imaginário anarquista a partir do jornal A Plebe (1917-1920). In: Colóquio de História e Arte: "História e Arte: encontros", 2011, Recife-PE. Anais do Colóquio de História e Arte, 2011. p. 302-307.

GARZIA, R. F. Imaginário Gravado: o imaginário anarquista a partir das gravuras do A Plebe (1917-1920). In: SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA, 26., 2011, São Paulo. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História, 2011.

RIBAS, Ana Claudia. CORPO, LIBERDADE E ANARQUISMO: Perspectivas libertárias nas páginas do jornal A Plebe durante a primeira metade do século XX. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História–ANPUH, São Paulo, 2011.

CAMARGO, Daisy. Bestiário da autoridade: representação iconográfica do periódico anarquista A Plebe. Domínios da Imagem, v. 7, n. 12, p. 71-81, 2013. 

CASADEI, Eliza Bachega. A função revolucionária da mulher: representações do feminino nos jornais operários e anarquistas do início do século XX. Revista Alterjor, v. 7, n. 1, p. 1-13, 2013.

DA FONSECA, João Gabriel. A insurgência da ação direta na imprensa operária da Primeira República em A Plebe. Revista Três Pontos, 2013. 

GARZIA, Ricardo Ferrini. Traçando a anarquia: o imaginário dos militantes do Jornal A Plebe e as suas ilustrações (1917-1924). 2013. 200 f. Dissertação (Mestrado em História Social) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2013.

PEIXOTO, Maitê. A partilha da experiência visual vivenciada nas páginas do jornal A Plebe. Revista Latino-Americana de História, v. 2, n. 7, p. 309-326, 2013. 

SANTOS, Kauan Willian dos. O jornal A Plebe: militância e estratégias de propaganda anarquista no movimento operário em São Paulo (1917 a 1920). Trabalho de conclusão de curso (Bacharelado e Licenciatura em História) – Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), Guarulhos, 2013.

SILVA, Zélia Lopes. A caricatura política na concepção libertária do periódico A Plebe (1947-1949). Antíteses, p. 261-287, 2013. 

DA FONSECA MATEUS, João Gabriel. Arte e anarquismo no periódico A Plebe (1917). REVHIST – Revista de História da UEG, v. 3, n. 1, p. 163-182, 2014. 

DE CAMARGO, Daisy. O teatro do medo: a encenação de um pesadelo nas imagens do periódico anarquista A Plebe (1917-1951). Paco Editorial, 2014. 

RIBAS, Ana Claudia. A questão feminina nas páginas libertárias: propaganda e emancipação feminina nas páginas do jornal anarquista A Plebe (1917-1935). Anais do XV Encontro Estadual de História, v. 11, 2014. 

FERREIRA, Denise Cristina. O jornal A Plebe: uma análise do pensamento educacional dos anarquistas no Brasil (1917-1935). In: CONGRESSO NACIONAL DE EDUCAÇÃO (CONEDU), 2., 2015, Campina Grande. Anais [...]. Campina Grande: Realize Editora, 2015.

RIBAS, Ana Claudia et al. As sexualidades d'A Plebe: sexualidade, amor e moral nos discursos anarquistas do jornal A Plebe (1917-1951). 2015. 

RIBAS, Ana Claudia. As sexualidades d’A Plebe: um breve olhar sobre os discursos e os debates sobre sexualidade no jornal anarquista A Plebe (1917-1951). 2015. 290 f. Tese (Doutorado em Interdisciplinar em Ciências Humanas) – Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2015.

RODRIGUES, André. O Primeiro de Maio nos jornais anarquistas A Plebe e A Lanterna (1932-1935). Vozes, Pretérito & Devir: Revista de História da UESPI, v. 4, n. 1, p. 95-109, 2015.

RODRIGUES, André. A identidade entre movimentos fascistas e Igreja Católica nos jornais anarquistas A Plebe e A Lanterna (1932 - 1935). Boletim Historiar, v. 11, p. 37-50, 2015.

RODRIGUES, André. As relações entre os movimentos fascistas e a Igreja Católica nas páginas dos jornais anarquistas A Plebe e A Lanterna (1932-1935). In: CONGRESSO DE HISTÓRIA, 5., 2015, Ivaiporã. Anais [...]. Ivaiporã: UEM, 2015.

RODRIGUES, André. O jornal A Plebe e a luta anarquista contra o Ministério do Trabalho (1932-1935). In: CONGRESSO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA, 7., 2015, Maringá. Anais [...]. Maringá: [s.n.], 2015. p. 98.

SANTOS, Kauan Willian dos. Derrubando fronteiras: a construção do jornal A Plebe e o internacionalismo operário em São Paulo (1917-1920). História e Cultura, Franca, v. 4, n. 1, p. 122-139, 2015.

SANTOS, Kauan Willian dos. Paz entre nós, guerra aos senhores: o internacionalismo anarquista e as articularições políticas e sindicais nos grupos e periódicos anarquistas guerra social e a plebe na segunda década do século XX em São Paulo. 2016. 179 f. Dissertação (Mestrado) - Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), Guarulhos, 2016.

DE SOUZA DIANNA, Eduardo Matheus. O movimento operário na Primeira República, debates, considerações e contribuições. Revista Eletrônica História em Reflexão, v. 10, n. 20, p. 16-37, 2016.

DE SÁ BENEVIDES, Bruno Corrêa. O antifascismo na imprensa anarquista durante a Primeira República – A Plebe e Alba Rossa (c. 1919-c. 1922). Revista Aedos, v. 8, n. 19, p. 277-296, 2016.  

DE SÁ BENEVIDES, Bruno Corrêa. O antifascismo na imprensa anarquista durante a Primeira República – A Plebe e Alba Rossa (c. 1919-c. 1922). Revista Aedos, v. 8, n. 19, p. 277-296, 2016. 

MACHADO, Liliane Maria Macedo; STRONGREN, Fernando Figueiredo. O agendamento da greve nas páginas de A Plebe. Revista Comunicação Midiática, v. 11, n. 1, p. 77-92, 2016. 

DE BRITO, Rose Dayanne Santos. “O pobre não é vadio”: uma crítica ao discurso elitista acerca do trabalho na Primeira República. História e Cultura, v. 6, n. 2, p. 144-160, 2017.

RODRIGUES, André. Sob o estandarte rubro-negro : anarquismo e antifascismo nos jornais A Plebe e A Lanterna (1932-1935). 2017. 116 f. Dissertação (mestrado em História) - Universidade Estadual de Maringá, Maringá, 2017.

RODRIGUES, André. Bandeiras negras contra camisas verdes: anarquismo e antifascismo nos jornais A Plebe e A Lanterna (1932-1935). Tempos Históricos, v. 21, n. 2, p. 74-106, 2017. 

JÚNIOR, Demetrio Quiros Bello. “Dentro da nossa esplêndida chimera, encerramos o mundo d’amanhã”: literatos e poesia libertária nas páginas de A Plebe. Revista Hydra: Revista Discente de História da UNIFESP, v. 2, n. 3, p. 33-57, 2017. 

STRONGREN, Fernando Figueiredo. Imprimindo a anarquia: o jornalismo anarquista no Brasil nas primeiras décadas do século XX. 2017. 192 f., il. Dissertação (Mestrado em Comunicação)—Universidade de Brasília, Brasília, 2017.

GONÇALVES FELIPE, Cláudia Tolentino. A áurea revolucionária no discurso anarquista brasileiro (1917-1922). Cadernos de Pesquisa do CDHIS, v. 31, n. 2, 2018. 

KIST, André Urban. Discurso revolucionário na greve geral de São Paulo em 1917. 2018. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) – Universidade do Vale do Rio dos Sinos, Escola de Humanidades, 2018.

SANTOS, Kauan Willian dos ; FERNANDES, André Santoro. A bandeira vermelha e negra: posições políticas e estratégias anarquistas frente à Revolução Russa no Brasil. Revista Latino-Americana de História-UNISINOS, v. 7, n. 19, p. 63-85, 2018.

STRONGREN, Fernando Figueiredo; MACHADO, Liliane Maria Macedo. Informar para mobilizar: o caso do jornal anarquista A Plebe. Revista Extraprensa, v. 12, n. 1, p. 27-49, 2018. 

PIOVEZANI, Carlos. A oratória popular na imprensa anarquista brasileira: um estudo de caso do jornal A Plebe. Cadernos de Estudos Linguísticos, v. 61, p. 1-19, 2019.

GRIGOLIN, Fernanda. Expressão, registro e propaganda: o anarquismo impresso em A Plebe. Anais do 30º Simpósio Nacional de História, 2019. 

Anos 2020

Barbosa, Joyce Martins. Os escritos femininos no jornal A Plebe em 1917. 2020. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em História) - Faculdade de Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2020.

FERREIRA, Denise Cristina; LIVÉRIO, Andressa Oliveira. Educação anarquista: o Brasil em inícios do século XX pelo jornal A Plebe. In: CONGRESSO NACIONAL DE EDUCAÇÃO (CONEDU), 7., 2021, Campina Grande. Anais [...]. Campina Grande: Realize Editora, 2021.

RIBEIRO, Vitória. “O que urge fazer?": Sobre moradia e transporte nas páginas d'O Combate e d'A Plebe durante a greve de 1917. Trabalho de conclusão de curso (Bacharelado em História). – Guarulhos: Universidade Federal de São Paulo, 2021.

FERREIRA, Matheus Barrientos. O jornal A Plebe e a luta pela construção de uma consciência anarquista de classe (1917-1924). 2023. Dissertação (Mestrado) – Universidade Estadual de Londrina, Londrina, 2023. 

SANTOS, Kauan Willian dos. "Reunindo numerosos camaradas”: organizações políticas anarquistas e libertárias no período da Primeira República no Brasil. Revista Estudos Libertários, v. 5, n. 13, 2023. 

ALVARENGA, Maria Eduarda de; GOMES, Marco Antonio de Oliveira; MAIO, Eliane Rose. Gênero e imprensa: a emancipação das mulheres no início do século XX e o jornal A Plebe (1919-1934). Cadernos de História da Educação, v. 23, p. 1-17, 2024. 

FERRARI, João Paulo Rocha. A influência do sindicalismo revolucionário na institucionalização da questão social: rebatimentos na gênese do serviço social no Brasil. 2024. 143 f. Dissertação (Mestrado em Serviço Social e Políticas Sociais) – Instituto de Saúde e Sociedade, Universidade Federal de São Paulo, Santos, 2024.

Raphael Cruz

Fontes:

https://bdtd.ibict.br

https://www.escavador.com

https://scholar.google.com.br

https://repositorio.unb.br

https://oasisbr.ibict.br

https://www.periodicos.capes.gov.br

https://repositorio.unifesp.br

https://repositorio.ufc.br

https://tede2.pucsp.br

Piotr Arshinov e a questão agrária

Piotr Arshinov (1887-1937)


 Identifiquei dois textos em que Piotr Arshinov aborda a questão agrária, ambos no contexto revolucionário. Embora o tema não seja central em seus escritos, ele aparece de forma lateral, como um desdobramento de sua reflexão sobre a revolução. Sua abordagem tem uma particularidade: é profundamente marcada pela experiência direta na Revolução Russa e na Makhnovtchina. Assim, suas reflexões não são meros exercícios teóricos, mas expressões de uma prática revolucionária vivida.

O primeiro texto é datado de 1923 e intitulado de "Problemas construtivos da revolução social". No texto, Arshinov enfatiza que a revolução não pode ter sucesso sem resolver a questão agrária e estabelecer uma relação equilibrada entre indústria e agricultura. Ele alerta para os erros da política bolchevique, que opôs trabalhadores urbanos e rurais, e propõe que a revolução precisa de um acordo direto e horizontal entre essas classes. Além disso, o autor destaca a necessidade de criar organismos comuns de coordenação, garantindo o abastecimento e a estabilidade da economia revolucionária.

O segundo texto é intitulado "A revolução social e o sindicalismo", de 1925.  Peter Arshinov, em sua reflexão sobre a questão agrária no referido texto, destaca que a revolução social precisará enfrentar imediatamente o problema da posse e uso da terra. Segundo ele, os camponeses tomarão os bens territoriais e os instrumentos de trabalho agrícola dos exploradores, e caberá às organizações operárias e camponesas assegurar que essas propriedades sejam redistribuídas aos camponeses, a quem pertencem de direito. No entanto, a forma de cultivo (comunal ou familiar) deverá ser decidida pelos próprios camponeses, com as organizações operárias exercendo apenas uma influência ideológica, preferencialmente em favor do cultivo comunal, considerado mais racional e eficiente com o uso de tecnologias modernas.

Arshinov critica duramente a política de requisição forçada de alimentos implementada pelos bolcheviques durante a Revolução Russa, que levou a confrontos violentos entre o Estado e os camponeses, resultando em mortes, destruição e desconfiança. Para evitar esse cenário, ele propõe que a relação entre os trabalhadores urbanos e rurais seja baseada na solidariedade revolucionária, com esforços mútuos para atender às necessidades de ambas as partes.

A união entre cidade e campo seria facilitada pela participação ativa dos camponeses na revolução, com a garantia de que seus interesses seriam respeitados e de que poderiam colaborar voluntariamente no abastecimento alimentar das cidades. Arshinov defende a criação de conferências conjuntas entre camponeses e operários, bem como de órgãos locais e regionais que promoveriam a integração econômica e política. Essa aliança entre trabalhadores urbanos e rurais formaria a base de uma nova economia revolucionária, resistente às pressões externas de partidos ou elites financeiras.

Algumas considerações sobre as reflexões do autor:

1. Ele retoma o tema da aliança operário-camponesa como estratégico para a revolução social, tema este já presente na proposta proudhoniana da federação agrícola-industrial e nas reflexões históricas e propostas programáticas de Bakunin.

2. Arshinov retoma esse fio intelectual da tradição anarquista anterior, mas o problematiza a partir de sua experiência concreta na Revolução Russa e da Makhnovitchna. Nesse sentido, trabalha com elementos que não foram acessíveis aos seus predecessores de ideologia e programa anarquista, fazendo esses dois elementos avançarem em seu desenvolvimento teórico e estratégico.

3. Os escritos do período 1923-1925 são anteriores a publicação da Plataforma da União Geral dos Anarquistas, texto coletivo escrito pelos exilados russos e publicado em 1926. Percebe-se como naqueles escritos antecipam-se a caracterização da condição camponesa como proletária e que o debate a ser realizado sobre a propriedade com o campesinato no período revolucionário deveria ter em conta a autonomia camponesa sobre a decisão de optar pela propriedade familiar ou comunal. Ainda que os esforços de propaganda anarquista devesse incentivar o modelo comunal.


Raphael Cruz


Alguns trechos dos textos

Problemas construtivos da revolução social (1923)

Encontrar una solución a los problemas rurales facilitará en gran medida la solución de los problemas de abastecimiento de alimentos, y los problemas de la producción industrial no se resolverán sin resolver también estos problemas rurales. La producción industrial, en los primeros días de la revolución, estará indudablemente tan desordenada e inadaptada a las necesidades de los trabajadores rurales y urbanos que los trabajadores necesitarán pedir ayuda al campesinado. Esta ayuda, de importancia decisiva para la revolución, sólo será posible si existe una colaboración revolucionaria entre obreros y campesinos.

Tres aspectos no pueden disociarse.

La cuestión más fácil y evidente es la de la tierra. Indudablemente, tras las primeras victorias en el torbellino revolucionario, los campesinos se apoderarán tanto de la tierra como de los medios para cultivarla. Es deseable que los campesinos trabajen de forma colectiva y comunal, de lo contrario, al ser la economía agrícola una parte de la economía general del país, ésta no podría evitar las contradicciones burguesas en una sociedad comunista. Sin embargo, éste es un problema que sólo los campesinos pueden resolver por sí mismos, lo que nos obliga, tanto ahora como en el futuro, a realizar entre ellos una amplia propaganda a favor de la organización libertaria de la economía agrícola.El progreso dependerá también de la forma en que los trabajadores urbanos creen la producción comunista en la fábrica; también, de si su trabajo en relación con los campesinos se lleva a cabo no aisladamente unos de otros, sino a través de colectivos, lo que influiría enormemente en la dirección que puedan tomar los campesinos.

Encontrar una solución a los problemas rurales facilitará en gran medida la solución de los problemas de abastecimiento de alimentos, y los problemas de la producción industrial no se resolverán sin resolver también estos problemas rurales. La producción industrial, en los primeros días de la revolución, estará indudablemente tan desordenada e inadaptada a las necesidades de los trabajadores rurales y urbanos que los trabajadores necesitarán pedir ayuda al campesinado. Esta ayuda, de importancia decisiva para la revolución, sólo será posible si existe una colaboración revolucionaria entre obreros y campesinos.

La desatinada y fatal política alimentaria bolchevique, durante la cual las ciudades entraron en guerra contra el campo por el pan, muestra de forma obvia y demostrable que -al menos en Rusia y en países similares- la revolución no puede triunfar sin un acuerdo revolucionario entre obreros y campesinos. En la cuestión de la producción, los obreros deben tener en cuenta las necesidades de los campesinos y, del mismo modo, los campesinos no deben retrasar el suministro de alimentos y materias primas a la ciudad; es necesario un acuerdo directo de ida y vuelta entre la industria y la agricultura. La ayuda mutua entre las dos clases trabajadoras hará indispensables organismos comunes de enlace y abastecimiento. Sólo esto podría garantizar tanto el desarrollo de un nuevo modo de producción como el éxito ulterior de toda la revolución.

A revolução social e o sindicalismo (1925)

A questão agraria

A revolução terá logo que achar solução para a questão agraria. Aos primeiros exitos obtidos pela revolução, 08 camponeses apossar-se-hão de todos os bens territoriais e de todos os Instrumen- tos de trabalho agricola que se encontrem na posве dos exploradores do trabalho alheio. A orientação da revolução deverá ser no sentido de as organi- zações dos operarios e dos camponeses assegura- rem, de comum acordo, a posse do solo e de todos os instrumentos de trabalho agricola á população camponesa, á qual pertencem de direito. A questão das formas em que a terra deverá ser disfrutada e a maneira como a população deverá cultivá-las (comunal ou familiarmente) deverá er resolvida pelos proprios camponeses. As organizaçõев орега- rias não poderão exercer nesse particular senão uma influencia ideologica.

Seria desejavel, evidentemente, que essa influen- cia se fizesse sentir desde logo no sentido de uma exploração e de um cultivo comunal das terras, porque essa é a forma a que chegarão os trabalha- dores, tarde ou cedo, pelas leis do desenvolvimento sociall e tecnico do trabalho. Quanto mais ampla e energicamente se fizer hoje essa propaganda, mais se farão sentir os efeitos no momento da re- volução social. O aspecto material e tecnico da questão os instrumentos de trabalho agricola não terá uma importancia pouco menor para o método comunal do cultivo e da exploração da terra. Quanto mais poderosos e aperfeiçoados se- jam esses instrumentos, mais racional será em- pregá-los na exploração comunal, para o disfruto comunal do solo.

O abastecimento e os camponeses

A organização da produção operaria apresenta- se particularmente importante e complicada no de- curso da revolução, mas não poderia er resolvida à margem da solução ação que terá a questão funda- mental o aprovisionamento dos víveres. Por muito feliz que haja sido posta em marcha a organização da produção operaria livre, se o proplema dos víveres não é resolvido de uma maneira razoavel e ditosa, ezsa organização deverá, infali- velmente, enfraquecer-se, deslocar-se e ser destruídos.

No decurso da revolução russa, o partido comu- mista encontrou para a questão do aprovisiona mento uma solução extremamente simples, prati cada já por outros na Russia desde os tempos de Gengis Can e de Tamerlan. Em 1918, Lenine lançou o grito: Todos á guerra sagrada para a conquista do pão. Numerosos destacamentos armados de espingardas, de metralhadoras e até de canhões foram organizados e enviados a todos os recantos da Rus- sia para requisitar e tomar pela força o trigo aos camponeses. Estes destacamentos, que executavam as ordens das autoridades centrais, personifica- vam em certo modo a «cidade». E aqui temos que a cidade (ainda que no fundo não fosse senão im só partido a desfigurar o aspecto verdadeiro da cidade) foi ao campo revolucionario para nele conseguir o pão, com o auxilio da polvora e do chumbo. Uma nova era de guerras civis se abriu entre as massas laboriosas de camponeses e as au- das cidades. Esta luta intestina dura há mais de cinco anos, durante os quais inumeros camponeses foram mortos, seguramente mais de m milhão, aldeias inteiramente foram, ás centenas, destruidas e queimadas, e a revolução russa desfalece nos quadros da fome.

Para a massa dos camponeses, a pólvora e chumbo estão ligados tão intimamente ao poder dos comunistas, que que olham com desconfiança até a troca de mercadorias, posta em moda pelo governo nestes ultimos tempos, e preferem negociar com os especuladores privados do que com os representantes da autoridade. A unica solução possivel da questão dos viveres

(...)

Os camponeses jamais quererão ceder de bom grado os produtos do seu trabalho aos funcionarios do Estado, consideram não só inuteis, mas tambem nocivos á sociedade dos trabalhadores. Mas, por outro lado, os campo- dos instrumentos de trabalho moderna. A criação de laços semelhantes será consideravelmente facilitada pela participação da população camponesa laboriosa na causa da revolução

(...)

Quando a população camponesa sentir que a revolução não é para ela uma madrasta como na Russia com a ditadura do partido comunista, po- dendo na mesma tomar a sua quota parte de actividade com confiança, ela concorrerá com todas as suas forças de criação social e revolucionaria para o seu triunfo. Não deixará de avançar ao lado da classe operaria na revolução social que lhe faça entrever o horizonte de liberdade de trabalho e de igualdade. Sustentará o proletariado das cidades fornecendo-lhe os víveres necessarios, porque sabe que os poderosos instrumentos da classe operaria - a mecanica da industria moderna não tar- darão em ser postos ao serviço das necessidades de todos os trabalhadores, das cidades e dos campos, indiferentemente.

Conferencias conjuntas de camponeses e opera- rilos, conferencias de concelhos, de distritos, de provincias, de regiões, marcarão os primeiros pas- sos, os primeiros esforços рата a solução das difi- culdades do abastecimento e serão tambem os pri- meiros orgãos que sirvam para aplanar dificulda- des e formarão a base de união da cidade e qu campo laboriosos.

O abastecimento organizado sobre uma aliança deste genero dará á classe operaria a possibili- dade de estabelecer sobre fundamentos solidos a obra de uma produção nova. Mas a fim de que aquele, tal qual como com a mecanica da produção, se afirme e se desenvolva sem interrupções, será preciso que o proletariado das cidades se ocupe logo nos primeiros dias de satisfazer as necessidades mais instantes do campo. Os esforços mutuos dos camponeses e operarios chegarão as- sim a formar uma base economica poderosa para a revolução e nem os reis da finança nem os dos partidos conseguirão desalojá-los de lá.

Proudhon e Bakunin: as formas elementares da alienação e as estratégias de emancipação

Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865) e Mikhail Bakunin (1814-1876)

Em Proudhon throughout History, Pierre Ansart concluiu que existe uma teoria das três alienações que atravessa a obra proudhoniana e que versa sobre as alienações econômica, política e espiritual. A 1° causada pela propriedade. A 2° pelo Estado. E a 3° pelo respeito à autoridade transcendente, que prega a obediência, plasmada socialmente na religião.

"Podemos levantar a hipótese de que as reações extremas em relação à obra de Proudhon no passado, e em menor grau ainda hoje, são devidas a razões fortes e não acidentais. Parece que a crítica das três alienações da propriedade, do Estado e da religião toca em três questões fundamentais da ordem social, e que essas questões, quaisquer que sejam as mudanças que tenham sofrido ao longo de mais de um século, permanecem abertas, provocando posições e reações explícitas e implícitas. Além disso, embora as condições tenham mudado, as reações emocionais básicas em relação a esses três fundamentos da ordem social têm um grau de continuidade histórica, e é talvez nesse aspecto que o discurso proudhoniano aborda mais diretamente as atitudes em andamento." (Ansart, 1997, p. 3. [Destaques meus]).


Fonte: Elaborado pelo autor, a partir de Ansart (1997). Clique na imagem para aumentá-la.

Esta crítica aos três fundamentos da ordem social moderna podem ter influenciado Mikhail Bakunin a elaborar seu modelo das três estratégias de emancipação: a econômica, a política e a intelectual e moral. Em seu texto de 1869, intitulado Instrução integral, ao criticar os educacionistas, Bakunin proporá as três formas elementares de emancipação popular, em consonância intelectual e política com Proudhon.

"Apesar de todo o nosso respeito para com a grande questão da instrução integral, declaramos que tal é hoje a grande questão que se põe ao povo. A primeira questão,  é a da sua emancipação econômica, que leva necessariamente à sua emancipação política, e pouco depois à sua emancipação intelectual e moral." (Bakunin, 2015, p. 178).

Neste modelo, a emancipação econômica do proletariado é a parteira das  demais emancipações e deveria ser priorizada estrategicamente pelo movimento dos trabalhadores.


Fonte: Elaborado pelo autor, a partir de Bakunin (2015 [1869]). Clique na imagem para aumentá-la.


Pode-se perceber que esse modelo triádico das alienações, como três questões fundamentais da ordem social, nos dizeres de Ansart, foi apropriado pelo mais francês entre os russos, que foi Mikhail Bakunin, e ganhou sobrevida, ainda, dois anos depois, no seu livro Federalismo, Socialismo e Antiteologismo (1872).

Fonte: Elaborado pelo autor a partir de Bakunin (1988). Clique na imagem para aumentá-la.

No qual o federalismo é indicado como a solução política para a alienação promovida pelo Estado. O socialismo é a solução econômica para a alienação promovida pelo capitalismo. E o antiteologismo como materialismo é a solução para a alienação espiritual.

Dessa forma, é possível perceber como a crítica proudhoniana às três alienações – econômica, política e espiritual – não apenas influenciou o pensamento de Bakunin, mas também contribuiu para a consolidação de um modelo de emancipação baseado nessas três esferas fundamentais da ordem social.

A relação entre ambos os autores demonstra uma continuidade teórica e estratégica dentro do anarquismo do século XIX, reafirmando a centralidade da emancipação econômica como condição primária para a superação das demais formas de dominação. 

Assim, o legado dessa estrutura triádica ressoa não apenas na história do pensamento anarquista, mas também nas tentativas concretas de reorganização social ao longo do tempo levada a cabo por aqueles que se identificavam como anarquistas, como pode ser identificado nos casos da Makhnovitchina, na Ucrânia, e da Guerra Civil Espanhola.

Raphael Cruz


Referência

ANSART, Pierre. Proudhon throughout History. The Anarchist Library. Disponível em: https://theanarchistlibrary.org/library/pierre-ansart-proudhon-throughout-history. Acesso em: 21 dez 2022.

BAKUNIN, Mikhail. A instrução integral. In: BAKUNIN, Mikhail. Educação, ciência e revolução. São Paulo: Intermezzo, 2015.

BAKUNIN, Mikhail. Federalismo, socialismo e antiteologismo. São Paulo: Cortez,1988.



Greve Geral de 1917: um movimento por segurança e soberania alimentar?



Um aspecto frequentemente negligenciado ao relembrar a Greve Geral de 1917 é que esse movimento também reivindicou melhores condições de alimentação para a classe trabalhadora.

O Comitê de Defesa Proletária (CDP), após consultar ligas, corporações e associações, elaborou dois conjuntos de reivindicações: um relacionado à organização do trabalho e à liberdade sindical, voltado diretamente aos operários, e outro, denominado "medidas de caráter geral", direcionado à população como um todo.

A alimentação figurava entre os itens que o CDP classificou como "gêneros de primeira necessidade", junto à moradia. Entre as demandas, destacavam-se o barateamento e a fiscalização dos preços desses itens essenciais, antecipando que um aumento salarial sem tais medidas poderia provocar a alta dos preços dos alimentos, anulando os ganhos reais da classe trabalhadora.

A primeira medida do conjunto de reivindicações de "caráter geral" visava assegurar um aumento efetivo do poder de compra, evitando que os salários reajustados pela greve fossem corroídos pela inflação. Tal medida beneficiaria amplamente a população trabalhadora.

Caso as ações de fiscalização se mostrassem insuficientes para conter os aumentos abusivos de preços, o CDP propunha uma segunda medida de regulação estatal: "a requisição de todos os gêneros indispensáveis à alimentação pública, subtraindo-os assim do domínio da especulação". Essa proposta representava uma demanda por intervenção estatal direta no mercado de alimentos, buscando proteger os trabalhadores dos impactos da especulação em um contexto de ofensiva proletária.

A terceira medida de caráter geral exigia o fim da adulteração e falsificação de alimentos, práticas comuns na indústria alimentícia durante a Primeira Guerra Mundial. Essa reivindicação defendia a qualidade dos alimentos consumidos pela classe trabalhadora e, consequentemente, a saúde pública.

As três propostas relacionadas às "medidas de caráter geral" elaboradas pelo Comitê de Defesa Proletária anteciparam debates cruciais sobre segurança e soberania alimentar, além do controle social da produção agrícola. Esses temas continuam pertinentes e de grande relevância nos dias atuais.

Raphael Cruz


Imagem: Fonte

Introdução ao anarquismo


Fui convidado pelo Grupo de Estudos do Anarquismo, de Fortaleza, Ceará, para realizar uma apresentação do anarquismo. A atividade será no Centro de Humanidades 3, da Universidade Federal do Ceará. Abordarei o anarquismo desde uma perspectiva histórica em oposição ao modo anistórico que, geralmente, fala-se sobre ele. Apresentarei as origens, desenvolvimento e principais debates ocorridos durante a história desta corrente política socialista e antiestatista. Pedi a organização do evento que solicitasse aos membros recorrentes do grupo, dúvidas que possuem sobre o anarquismo. Até o momento, chegaram até mim, duas questões: o anarquismo no nordeste do Brasil, e a relação do anarquismo com a arte. Abordarei elas ao final de minha apresentação.

Raphael Cruz

Leitura 13: A herança proudhoniana de Émile Pouget



Relendo Pouget, notei que sua concepção de "ação direta", como autoconsciência, autoatividade e autodeterminação do proletariado, em seu livro de 1904, é fundamentada na ideia de "capacidade política real" proposta por Proudhon em "Da capacidade política das classes operárias" (1865). Pouget praticamente atualizou a noção de capacidade política real ou "classe para si" de Proudhon para o contexto político francês do início do século XX.

Raphael Cruz

Leitura 10: pensar e praticar anarquia desde a negritude

 


1° leitura finalizada em 2024. Ainda que eu tenha críticas à definição e a periodização do anarquismo feitas por Bagby-Williams e Suekama, reconheço que os autores traçam uma didática história do anarquismo negro desde a origem até o desenvolvimento de suas duas ondas. Recomendo.

Raphael Cruz

O dia em que Louise Michel inventou a bandeira anarquista

Louise Michel (1830-1905)


Quase todo anarquista conhece a história de que a bandeira negra foi utilizada pela primeira vez por Louise Michel, a communard e anarquista francesa, durante uma passeata de desempregados em Paris, França.

A bandeira negra ou a rubro-negra são dois estandartes do anarquismo ao nível internacional. Junto ao mais contemporâneo "anabola", eles sinalizam a presença de anarquistas em manifestações e demais rituais políticos.

Ao ler "Anarquismo e a história da bandeira negra", de Jason Wehling (1997), tomei conhecimento sobre o pioneirismo de Louise Michel no uso do referido estandarte como um símbolo anarquista.

Naquele artigo, Wehling afirma, apoiado em George Woodcock, que Michel teria usado a bandeira negra pela primeira vez em 9 de março de 1883, durante uma passeata de desempregados em Paris, na França, que contou com 500 pessoas e Louise como líder. O autor diz ainda que "nenhum aparecimento mais antigo pode ser encontrado da bandeira negra" e identifica um uso posterior ao de Michel em 27 de novembro de 1884, em Chicago, EUA, durante uma manifestação anarquista.

Guardei essa sociogênese da bandeira como parte de minha autofomação em anarquismo. Décadas depois, pesquisando sobre Louise Michel na Hemeroteca Virtual da Biblioteca Nacional, ressurgiu para mim a história daquela bandeira.

Na edição de 28 de julho de 1883 do Mercantil, um jornal de Petrópolis, encontrei o artigo de um correspondente do periódico em Paris, que relatava, numa crônica política, aquela passeata de desempregados liderada por Michel.

A crônica indica que a bandeira negra foi usada na mesma data afirmada por Woodcock. O cronista, diga-se de passagem, é simpático à Louise Michel e afirma que Emile Pouget esteve com ela na liderança daquela manifestação e foi condenado a oito anos de prisão, e Michel a seis anos.

A crônica contém detalhes que não foram mencionados por Wehling. Ela nos informa que o evento inaugurador do uso da bandeira negra contou não só com uma manifestação de desempregados, mas com brutalidade policial, provas forjadas, criminalização do protesto, acusações injustas, prisão de lideranças e indignação popular com o veredito.

É representativo do que é o anarquismo, o fato da gênese social da bandeira negra ocorrer numa manifestação de tralhadores desempregados contra a carestia, liderada por uma anarquista ex-communard e pelo futuro vice-secretário de uma histórica organização operária francesa, a CGT, e um brilhante teórico do sindicalismo revolucionário (Santos, Mauricio, 2020a).

O dia em que a bandeira negra foi erguida pela primeira vez, indica uma prévia do modus operandi antianarquista do Estado, quase uma receita de bolo para criminalizar o protesto social e encarcerar lideranças popoulares. Isto é, um manual de como transformar a questão social em caso de polícia.

Três meses após inventar o estandarte que posteriormente seria associado ao anarquismo, Michel foi condenada à prisão. Sua mãe morreu durante esse período. Com quase três anos de encarceramento, ela foi perdoada e libertada com a intervenção de Clemenceau e Rochefort. Saiu dali e realizou uma série de comícios. Pouget seria libertado ainda naquele mesmo ano (Santos, Mauricio, 2020b).

O antropólogo Leslie White (2009) disse que o símbolo é composto de um significado e uma estrutura física através da qual o símbolo "entra" em nossa experiência. Em 9 de março de 1883, Louise Michel nos deu esse objeto, um pedaço de pano preto, e um significado, a anarquia. Ela inventou um símbolo político até hoje legitimado pelos anarquistas e reconhecido em todo o mundo. 

Obrigado, Louise.

Segue trecho da crônica que narra aquele dia em que o anarquismo ganhou um de seus símbolos mais longevos. O texto está com a ortografia da época em que foi escrito.

Raphael Cruz

***

EXTERIOR. Correspondente particular do Mercantil. Paris, 2 de julho de 1883

(...) Os politicos mais optimistas receião viva commoção, facilmente explicavel pela effervescencia dos animos em face da inqualificavel sentença arrancada ao jury pela accusação publica contra Puget e Louise Michel, por terem tomado parte na manifestação de 9 de março.

Muitos operarios sem trabalho, e consequentemente sem pão, organisárão um meeting, nessa data, para protestarem contra a inercia governamental, quando se trata de questões sociaes estreitamente ligadas aos interesses vitaes dos proletarios.

Essa reunião pacifica que, como varias outras da mesma especie, seria tolerada sob o regimen monarchico da Inglaterra, desagradara soberanamente ao gabinete francez, embuçado em um falso manto republicano.

Dispersando os grupos, a policia, segundo o seu suave costume, espancara e ferira quantos cidadãos se achavão à sua alçada.

À frente de um delles, percorrendo varias ruas, marchava LouiseMichel, arvorando uma bandeira preta, signal de miseria e fome.

Aproveitando o ensejo, que lhes parecia extremamente propicio a tornar os manifestantes responsaveis de qualquer delicto, immundos policiaes, armados de bengalas, invadirão algumas padarias, roubando pães e injuriando os padeiros.

E, para não se julgar exagerada a esta estupenda asserção, accrescentarei que não se prendeu uma só pessoa culpada de roubo de paes; sobre as que forão presas pesava accusação de haverem incitado as outras a roubarem.

Graças a esta simples accusação, baseada em ridiculos depainentos, e ao discuso do procurador, que incutio no animo dos jurados, geralmente negociantes, o terror de verem suas lojas e armazens saqueados se absolvessem os réos. Louise Michel foi condemnada a seis annos de prisão, Pouget a oito annos e Moreau a um anno, como chefes; não comparecendo sequer um gato da manifestação tendo comido os famosos pães, tão favoraveis ás insidias da camarilha.

Quão pifios e abjectos parecerão os autores desse indigno processo, ao lado de Pouget, denunciando, em alto e bom som, a infamia da justiça que abria os testamentos dos réos e transformava os delictos politicos em delictos de direito commum!

Que baixa vileza desses birbantes ante a nobreza de Louise Michel, declarando, sobranceira, que a pena de morte ou de galés ser-lhe-hia indifferente, se dos seus soffrimentos proviesse a menor modificação em proveito da sociedade.


Referências

SANTOS, Alexandre; MAURICIO, Francisco (Orgs). MICHEL, Louise. Paris está em chamas: memórias da Comuna. S/l: Terra sem Amos: 2020a.

SANTOS, Alexandre; MAURICIO, Francisco (Orgs). POUGET, Emile. A sabotagem - Ação direta. Parnaíba: Taipa Editorial, 2020b.

Exterior. Mercantil, Petrópolis, ano 27, n. 57, p. 2, 28 julho 1883.

WEHLING, Jason. History of the black flag: why anarchists fly it. What are its origins?’. Fifth Estate, n. 349, 1997.

WHITE, Leslie. O conceito de cultura. Rio de Janeiro: Contraponto, 2009.

A promessa de uma imaginação sociológica anarquista

Erwin F. Rafael


Apresentação

Esta é uma tradução de trecho do artigo The promisse of a anarchist imagination, de autoria do sociólogo Erwin F. Rafael, e disponibilizado na Anarchist Library. Nele, o autor busca integrar a proposta da imaginação sociológica de Wrigt Mills aos princípios políticos gerais do anarquismo. Uma palestra de Rafael sobre este artigo foi proferida em 19 de setembro de 2019 no Departamento de Sociologia da University of Phillipines.

Raphael Cruz

***

A promessa de uma imaginação sociológica anarquista

Erwins F. Rafael

A preocupação compartilhada com as estruturas sociais e suas implicações na liberdade individual e coletiva cria afinidades entre a sociologia e o anarquismo. Muitos estudiosos tentaram sintetizar as duas tradições. Um dos precursores nesse sentido é Howard Ehrlich, um sociólogo anarquista autoidentificado (1991) que foi uma figura importante no Movimento de Sociologia Radical do final da década de 1960. Ehrlich não delineou explicitamente como seria uma sociologia anarquista ou quais seriam seus objetivos. Em vez disso, seus estudos refletem a práxis do intelectual antiautoritário engajado (Ehrlich, 2001), que não se preocupa tanto com a construção de teorias, mas sim com a produção e contribuição de conhecimentos que seriam úteis aos movimentos que lutam pela ampliação das liberdades.

Jonathan Purkis (2004) ofereceu uma visão mais definida de como uma sociologia anarquista poderia se parecer na prática. Ele fez as seguintes perguntas para animar a agenda de pesquisa sociológica e levá-la a uma direção anarquista: "Como o poder é formado e perpetuado? Por que as pessoas desejam sua própria opressão? Como devemos pesquisar essas coisas com sensibilidade? O que devemos fazer com os resultados quando os obtivermos?" (Purkis 2004:53-54).

Até o momento, a tentativa mais promissora de uma síntese entre o anarquismo e a sociologia foi feita por Jeff Shantz e Dana Williams. Sua tentativa de casamento entre os dois sistemas de pensamento se inclina mais para anarquizar a tradição sociológica do que para sociologizar a prática anarquista. Shantz e Williams (2014:9) definiram a sociologia anarquista como "o estudo orientado para a ação e a transformação teoricamente informada das sociedades". Isso significa revitalizar a sociologia com a infusão da ética que anima o anarquismo. "Como o anarquismo está enraizado em valores e práticas, buscamos reorientar a sociologia com base nos principais valores e enfoques anarquistas, particularmente a liberdade, o antiautoritarismo, a ação direta, a ajuda mútua e a descentralização" (Shantz e Williams 2014:11).

Meu apelo por uma imaginação sociológica anarquista não se afasta muito da visão de Shantz e Williams para uma sociologia anarquista. No entanto, enquanto a intervenção de Shantz e Williams visa reinventar a própria disciplina sociológica, mantenho o conceito original de Mills sobre a imaginação sociológica como uma sensibilidade não disciplinar que sociólogos e não sociólogos considerariam útil para entender a sociedade e o lugar de cada um nela. Infundir a imaginação sociológica com uma sensibilidade anarquista implica ir além da compreensão da história e da biografia e de suas relações dentro da sociedade. Significa colocar a aspiração à liberdade na frente e no centro como a motivação que impulsiona o ato de dar sentido ao mundo. Significa viver substancialmente no presente, habitar e estar em sintonia com as situações a fim de encontrar oportunidades para resistir à dominação e expandir a liberdade. Significa estar ativamente engajado em lutas transformadoras contra o Império.

Para tanto, proponho o seguinte complemento à lista de perguntas de Mills que animam aquele que exercita a imaginação sociológica:

1. Como a liberdade é definida nesta sociedade, neste momento da história? Como as pessoas participam ativamente da composição das relações que compõem seu mundo? Que arranjos institucionais impedem as pessoas de formular alternativas e fazer escolhas sobre como viver suas vidas? Quais formas de controle e dominação são legitimadas e quais são desaprovadas? Que grupo de pessoas pode exercer mais controle sobre suas vidas do que outros?

2. Como a dominação e o controle são combatidos nessa sociedade? Que grupo de pessoas está liderando essa resistência? Como as pessoas estão criando espaços de autodeterminação coletiva dentro da teia de controle que as envolve? Que formas de organização estão sendo oferecidas e testadas como alternativas às relações de dominação geradas pelo Império? Como essas iniciativas estão expondo as rachaduras no edifício do Império? Como essas alternativas à ordem dominante poderiam ser afirmadas, defendidas e vinculadas a outras lutas transformadoras?

A imaginação sociológica anarquista não difere do conceito de Mills em termos de sua prescrição para explicitar as interseções entre história e biografia na sociedade. Ela exige, entretanto, uma articulação explícita da aspiração normativa da imaginação sociológica para a liberdade, da mesma forma que o anarquismo "traz uma ética igualitária para o mundo, tornando-a transparente, pública e compartilhada" (Milstein 2010a:49). Isso oferece direcionalidade ética ao esforço de alguém para obter uma compreensão sociológica de sua situação. Parto da premissa de que todas as tentativas de entender o mundo são eticamente informadas. Insistir na chamada postura "científica" livre de valores na investigação social é, por si só, uma posição ética, embora amplamente eurocêntrica e patriarcal branca (Montgomery e Bergman, 2017). Como observou Milstein (2010a:48-49),

"Os seres humanos têm se mostrado capazes de imaginação e inovação quase ilimitadas... As pessoas têm usado essa capacidade para fazer tanto o bem quanto o mal... Faz sentido perguntar primeiro o que as pessoas querem fazer e por que, de um ponto de vista ético, e depois chegar às questões pragmáticas de como fazer. O próprio processo de perguntar o que é certo mostra como as pessoas preenchem a ética na práxis, para atender a novas demandas e dilemas, novas condições e contextos sociais".

Defender uma imaginação sociológica anarquista não significa insistir que se deva aderir totalmente ao anarquismo para que essa imaginação possa ser exercida. Da mesma forma que o objetivo do anarquismo não é transformar todos em anarquistas, mas sim "encorajar as pessoas a pensar e agir por si mesmas, [e] a fazer as duas coisas a partir de um conjunto de valores emancipatórios" (Milstein 2010a:49), o apelo por uma imaginação sociológica anarquista tem o objetivo de encorajar as pessoas a pensar sociologicamente com um olhar claro para a realização de sua promessa normativa de liberdade individual e coletiva. Voltando à analogia do teatro de marionetes de Berger (1963/2011), a compreensão sociológica não se limita a perceber que somos marionetes sendo puxadas pelos fios sutis das estruturas da sociedade em que vivemos. Em vez disso, procuramos entender a lógica desse teatro de marionetes e os mecanismos pelos quais fomos movidos a fim de reduzir nossa condição de marionetes e obter um controle mais substancial sobre nossas vidas.

O porquê do conhecimento é tão importante quanto o como. O indivíduo que pratica a imaginação sociológica anarquista leva a sério as questões relativas ao propósito do conhecimento. A promessa de liberdade só será cumprida se servir como objetivo do entendimento sociológico desde o início. Ao insistir na articulação explícita de suas metas normativas, a imaginação sociológica anarquista traz à tona a polêmica de Mills contra uma ciência social preocupada com conteúdo trivial e que atende aos interesses das elites do poder. Tanto a trivialização quanto a instrumentalização do conhecimento sociológico são especialmente agudas no meio acadêmico, que é atormentado pelos problemas da intelectualização impenetrável que se faz passar por avanço profissional no conhecimento assim como pela tecnologização de acordo com os interesses dos financiadores de pesquisa. Como Hartung (1983:88) observou, "uma vez que uma teoria é retirada das ruas ou fábricas e levada para a academia, há o risco de que o potencial revolucionário seja subvertido para a erudição". A imaginação sociológica anarquista busca preservar o potencial revolucionário e emancipatório do conhecimento.

Além de expor e explicar os impedimentos estruturais à liberdade, a imaginação sociológica anarquista busca ativamente exemplos de resistência contra a dominação. O importante empreendimento de traduzir problemas pessoais em questões públicas anda de mãos dadas com a tradução de lutas individuais em coletivas. Não é uma questão de as pessoas precisarem entender como os sistemas de controle funcionam antes que uma resistência eficaz possa ser travada. Muitas vezes, é por meio de atos de resistência que os mecanismos de dominação são revelados de forma a estimular respostas coletivas (Montgomery e Bergman 2017).

O indivíduo que exercita a imaginação sociológica anarquista possui uma qualidade mental que não é apenas crítica, mas também reconstrutiva, enxergando não apenas as restrições estruturais, mas também as possibilidades estruturais de liberdade. A visão reconstrutiva é o produto tanto da consciência do quadro geral quanto da presença intensa nas situações. A pessoa se torna consciente das oportunidades estruturais para expandir a liberdade sociologicamente por meio da análise comparativa e histórica sistemática e, de forma anarquista, por meio da prática prefigurativa real de modos de vida e organização que evitam a dominação e o controle. Isso significa levar a sério o conselho de Mills (1959/2000) de que se deve aprender a usar a experiência de vida no trabalho intelectual e se envolver pessoalmente em cada produto intelectual em que se está envolvido. O exercício da imaginação sociológica anarquista não é um intelectualismo isolado, mas uma práxis transformadora ativa.

A imaginação sociológica anarquista olha para além do Estado e de outros tipos de organizações hierárquicas formais – que são os objetos de interesse usuais da investigação sociológica – em busca por alternativas viáveis aos modos de vida oferecidos pelo Império. Ela questiona a eficácia do uso de relações de poder verticais, como as soluções estatistas e gerencialistas, na realização de fins igualitários e da liberdade substantiva. Ela destaca a cooperação voluntária e as formas amplamente não hierárquicas de relacionamento e organização que caracterizam uma parte significativa da vida social (Shantz e Williams 2014; Ward 1982/1966). Ela parte da premissa anarquista de que as sementes para a realização de uma sociedade livre de indivíduos livres estão à mão e não são algo que se manifestaria apenas em um futuro pós-revolucionário.

A ênfase da imaginação sociológica anarquista em encontrar o potencial de liberdade no presente não se baseia em um otimismo infundado ou em uma visão positiva e ingênua da natureza humana. Em vez disso, ela decorre do reconhecimento e da aceitação da complexidade da sociedade. A dominação é o resultado da reação à complexidade por meio da simplificação (Bookchin, 1982). A resposta anárquica, por outro lado, significa aprender a conviver com a complexidade, da mesma forma que se orienta pelas ondas ao navegar no oceano. A incerteza é vista como um correlato necessário da complexidade. Como observaram Montgomery e Bergman (2017:33), "a incerteza é onde precisamos começar, porque a experimentação e a curiosidade são parte do que nos foi roubado". O império funciona, em parte, fazendo com que nos sintamos impotentes, corroendo nossas habilidades de moldar mundos juntos". Apesar da realidade avassaladora da falta de liberdade no mundo hierárquico do Império, as coisas podem se tornar, e em muitos casos já são, diferentes.

A liberdade é a chance de criar, deliberar e escolher caminhos alternativos na vida (Mills 1959/2000). A expansão dos espaços de liberdade individual e coletiva anda de mãos dadas com o reconhecimento da variedade humana e a celebração dessas diferenças. Em um mundo complexo, não poderia haver um plano rígido para um futuro emancipado. As lutas contra a dominação e o controle parecem diferentes em todos os lugares porque todos os lugares são diferentes (Montgomery e Bergman, 2017). Um objetivo crucial da análise comparativa e histórica é encontrar afinidades entre essas lutas e, posteriormente, criar conexões que facilitem o aumento do poder transformador coletivo (Montgomery e Bergman, 2017).

Não buscamos a segurança intelectual ilusória de uma teoria universal da história e da sociedade humanas, um infeliz legado do Império que assola os sistemas modernos de pensamento, inclusive a sociologia. A imaginação sociológica não deve servir como um cobertor para sufocar nossas aspirações de liberdade com prescrições tecnocráticas de como devemos viver nossas vidas, mas como "uma lente útil para visualizar os caminhos potencialmente mais bem-sucedidos para a mudança" (Shantz e Williams 2014:10). Sua promessa normativa seria cumprida somente se a maneira como pensamos fosse um exemplo da liberdade que aspiramos: consciente da diversidade humana, sem controle de propósito e com espírito experimental. A imaginação sociológica anarquista gera uma qualidade de mente que busca entender o mundo não para comandá-lo, mas para apoiar e participar do processo de sua alegre transformação em uma sociedade livre de indivíduos livres.


Referências

Berger, Peter. 1963/2011. Invitation to Sociology: A Humanistic Perspective. New York: Open Road Integrated Media.

Bookchin, Murray. 1982. The Ecology of Freedom:The Emergence and Dissolution of Hierarchy. Palo Alto, California: Cheshire Books.

Ehrlich, Howard. 1991. “Notes from an Anarchist Sociologist: May 1989.” Pp. 233–248 in Radical Sociologists and the Movement: Experiences, Lessons, and Legacies, edited by M. Oppenheimer, M. J. Martin, and R.F. Levine. Philadelphia: Temple University Press.

Ehrlich, Howard J. 2001. On Scholars, Intellectuals, and Anarchists. Social Anarchism 29:45.

Hartung, Beth. 1983. Anarchism and the Problem of Order. Mid-American Review of Sociology 8(1): 83–101.

Purkis, Jonathan. 2004. “Towards an Anarchist Sociology.” Pp. 39–54 in Changing Anarchism: Anarchist Theory and Practice in a Global Age, edited by J. Purkis and J. Bowen. United Kingdom: Manchester University Press.

Shantz, Jeff, and Dana W. Williams. 2014. Anarchy and Society: Reflections on Anarchist Sociology. Chicago, Illinois: Haymarket Books.

Mills, C. Wright. 1959/2000. The Sociological Imagination. New York: Oxford University Press.

Milstein, Cindy. 2010a. “Anarchism and Its Aspirations.” Pp. 10–77 in Anarchism and Its Aspirations. California: AK Press.

Montgomery, Nick, and Carla Bergman. 2017. Joyful Militancy: Building Resistance in Toxic Times. California: AK Press.

Ward, Colin. 1982/1996. Anarchy in Action, 2nd ed. London: Freedom Press.


A cooptação da ecologia pelos capitalistas

Brian Morris (1936-)


APRESENTAÇÃO

Esta é uma tradução livre do artigo Ecology and its recuperation by capitalists, escrito por Brian Morris para a centenária publicação libertária inglesa Freedom, e disponível na Anarchist Library. Uma primeira versão desta tradução foi publicada em meu outro blog Sociedade de Quintais e no site da editora Terra sem Amos.

Raphael Cruz


A COOPTAÇÃO DA ECOLOGIA PELOS CAPITALISTAS

Há muito tempo, o biólogo Paul Sears descreveu a ecologia como a “ciência subversiva” e não há dúvida de que, quando me envolvi com questões ambientais pela primeira vez, na década de 1960, a ecologia era vista como um movimento radical. Os escritos de Barry Commoner e Murray Bookchin enfatizaram que estávamos enfrentando uma crise ecológica iminente e que as raízes desta crise estavam enraizadas em um sistema econômico - o capitalismo - que era voltado não para o bem-estar humano, mas para a geração de lucro, que não via limites para o crescimento ou a tecnologia, comemorando as conquistas da “megamáquina”.

Em última análise, foi sentido, por Commoner e Bookchin, que o capitalismo era destrutivo não apenas para nós, mas para toda a estrutura da vida no planeta. Pois a ética subjacente do capitalismo era de fato a dominação tecnológica da Natureza, uma ética que via a biosfera como sem valor intrínseco; era simplesmente um recurso a ser explorado pelo capital.

Há mais de trinta anos, Bookchin estava descrevendo o capitalismo como “saqueando” a terra em busca de lucros e destacando com alguma presciência - muito antes de Al Gore e George Monbiot - os problemas do aquecimento global - que o crescente manto de dióxido de carbono levaria para padrões de tempestade destrutivos e, eventualmente, para o derretimento das calotas polares e aumento do nível do mar (em “Post scarcity anarchism”, 1971, p. 60).

Isso foi além de muitos outros problemas ecológicos que Bookchin identificou como constituindo a "crise moderna" - desmatamento, urbanização, o impacto da agricultura industrial, poluição dos oceanos, produtos químicos tóxicos e aditivos alimentares, e a destruição desenfreada da vida selvagem e da perda subsequente da diversidade de espécies.

A crítica ecológica pioneira de Bookchin ao capitalismo industrial foi mais recentemente reafirmada (com pouco reconhecimento a Bookchin!) No excelente “The Enemy of Nature” (2002) de Joel Kovel - o inimigo, é claro, o capitalismo global.

Como as coisas mudaram! O “aquecimento global” está agora firmemente na agenda política, reconhecido por quase todos, exceto alguns neoliberais de direita obstinados, e todos estão sendo persuadidos a encontrar maneiras de “salvar” o planeta. Essa arrogância é bastante incompreensível! Os humanos são totalmente incapazes de destruir o planeta; o que eles estão fazendo por meio de um sistema econômico baseado na ganância e na exploração é tornar muitas partes da terra virtualmente inabitáveis ​​para os humanos e outras formas de vida.

Questões “ecológicas” ou “verdes” têm, portanto, sido adotadas por indivíduos e grupos de todo o espectro político. Até os neonazistas afirmam ser anti-capitalistas e abraçar a perspectiva verde. Portanto, você não ficará surpreso ao saber que a maioria das grandes corporações transnacionais - incluindo Shell, Nestlé e Coca Cola - embarcaram no movimento verde e estão exigindo com entusiasmo que todos reduzamos nossas emissões de carbono.

Então, o que está acontecendo? Quatro tendências, eu acho, são dignas de nota.

1. As corporações capitalistas estão agora em processo de “tornar mais verde” sua imagem pública. Algo em que a corporação Shell está engajada há várias décadas, devido ao seu péssimo histórico em termos de destruição ambiental. Seria difícil encontrar qualquer grande empresa transnacional hoje em dia que não clama e anuncia com orgulho sua sensibilidade ecológica e suas credenciais “verdes”.

2. Embora a maioria das pessoas agora reconheça que existe uma crise ambiental, esforços estão sendo continuamente feitos para nos convencer de que essa crise não tem nada a ver com a economia capitalista em si. Ecologistas profundos há muito nos informam que tudo se deve à falta de espiritualidade, ou que há muitas pessoas, ou mesmo que os humanos são por natureza “alienígenas” ou “parasitas” indesejados na Terra. Esses sentimentos misantrópicos foram criticados há muito tempo por Bookchin. Portanto, de acordo com Jonathan Porritt (um conselheiro do New Labour para questões ambientais), o que precisamos é um casamento adequado entre capitalismo e espiritualismo! Deus me livre! 

Os especialistas em desenvolvimento, ao contrário, culpam os problemas ecológicos, como o desmatamento, às vítimas, os camponeses pobres que, por sua pobreza e falta de técnicas agrícolas modernas, estão destruindo - dizem - as florestas. Considerando que, é claro, os principais culpados são as empresas madeireiras, as empresas de mineração, como Vedanta e Rio Tinto, e as empresas de pecuária em expansão que atendem à crescente demanda por carne.

Os especialistas em desenvolvimento criaram há muito tempo o conceito de “desenvolvimento sustentável”. Isso não tem nada a ver com a conservação da Natureza; é tudo uma questão de sustentar o “desenvolvimento”, ou seja, o crescimento capitalista. 

O que também obscurece a questão é a sugestão de que o aquecimento global e outras questões ambientais não se relaciona com um sistema econômico voltado para o crescimento e o lucro privado: deve-se exclusivamente às ações de “consumidores” individuais. Portanto, todos nós somos instados a fazer o que pudermos para “salvar” o planeta.

3. Esta louvável preocupação com o meio ambiente por parte das corporações transnacionais é claramente uma frente para permitir que essas corporações busquem novas oportunidades de expansão capitalista e de geração de mais lucro. Assim, parques eólicos industriais cobrindo grandes áreas do campo, a produção crescente de biocombustíveis (às custas da produção de alimentos) e a expansão e exportação da indústria nuclear para todas as partes do mundo, todas essas três iniciativas são anunciadas como grandes maneiras de cortar “emissões de carbono” e assim ajudar a salvar o planeta! Mas a que custo social e ecológico? Vale ressaltar que cada uma dessas iniciativas está nas mãos de grandes empresas, amplamente subsidiadas pelos governos ocidentais.

4. Por fim, o que também vivenciamos nas últimas décadas, ao lado da defesa do capitalismo verde, é a emergência do conceito de “gestão global”. Para proteger o planeta, portanto, precisamos (dizem-nos) é de uma infinidade de especialistas em conservação e ecotecnocratas para monitorar o planeta e oferecer conselhos a governos e corporações transnacionais sobre a melhor forma de “salvar” o planeta. Mas “salvar” o planeta, como Wolfgang Sachs argumentou (em “Planet Dialectics”, 1999) é na verdade pouco mais do que uma justificativa para uma nova onda de intervenções do Estado na vida das pessoas comuns.

Os anarquistas precisam ser cautelosos e críticos com cada uma dessas quatro tendências. Precisamos, portanto, desenvolver um projeto que combine socialismo (não o individualismo radical dos estetas nietzschianos) e uma sensibilidade ecológica (não neo-primitivismo) como sugeriram Peter Kropotkin, Edward Carpenter e Eliseé Reclus há muito tempo.

Brian Morris 

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