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Anarquismo, vitória social e derrota militar: uma reflexão inicial


Tanto o movimento makhnovista na Ucrânia (1918-1921) quanto o movimento anarco-sindicalista CNT-FAI (1936-1939) na Espanha demonstraram êxito em reorganizar a vida política e econômica, aliando federalismo e socialismo. 

E fizeram isso em diferentes escalas espaciais e temporais, em contextos socioculturais e demográficos distintos como o Leste Europeu e o Sul da Europa.

A continuidade da nova organização social que tais movimentos promoveram não foi interrompida por falhas socioeconômicas imanentes ou por revoltas camponesas e operárias contra as medidas socializantes. Foi interrompida pela derrota militar desses projetos societários pela União Soviética na Ucrânia e pelo fascismo franquista na Espanha.

No caso ucraniano, a experiência foi derrotada militarmente pelo Exército Vermelho, antes um aliado tático. No caso espanhol, pelo exército franquista com a condescendência das democracias liberais e as sabotagens stalinistas e republicanas, que beneficiaram a continuidade do fascismo na Península Ibérica após o seu fim na Itália e na Alemanha.

No caso espanhol, não se devem esquecer as errôneas decisões tomadas pela direção da CNT-FAI, acertadamente criticadas pelo grupo Amigos de Durruti.

É claro que foram experiências societárias temporalmente limitadas e restritas a seus países de origem. Elas emergiram internamente em condições desafiadoras de guerra civil. Externamente, no plano geopolítico, enfrentaram sistemas interestatais hostis a experiências revolucionárias.

Contudo, durante suas existências, foram resolvidos problemas sociais como a fome e a educação das massas.

Também foram solucionadas questões político-econômicas colocadas desde a fundação da Associação Internacional dos Trabalhadores no século XIX, como a integração entre indústria e agricultura, e a falta de controle operário e camponês sobre os meios de produção e o processo de trabalho.

Assim, o anarquismo, essa combinação complexa de federalismo e socialismo no plano societário, funcionou a favor das classes trabalhadoras do campo e da cidade nos casos ucraniano e espanhol, obteve apoio popular massivo, alcançando hegemonia social em seus respectivos contextos.

Nesse sentido, a pergunta a ser feita não é se a anarquia funciona, mas por que ela perdeu militarmente nos contextos em que mais sucesso obteve socialmente.

As derrotas de tais experiências precisam ser continuamente estudadas para entender as suas falhas no nível militar e pensar se haviam possibilidades de superação desde um ponto de vista coerente com o projeto societário federalista-socialista do anarquismo.

Raphael Cruz

Errico Malatesta, a questão agrária e o campesinato: algumas notas de pesquisa (1891-1929)

 

Errico Malatesta (1853-1932)

Entre 1891 e 1929, o pensamento de Malatesta sobre a questão agrária desloca-se de uma preocupação predominantemente econômico-material para uma elaboração estratégica e, por fim, institucional-libertária, sem abandonar seus pressupostos centrais.

Os três textos identificados como possuindo elementos da reflexão de Malatesta sobre a questão agrária e o campesinato, abrangem um período de  39 anos, de onde se pode inferir algo de sua perspectiva agrária.

Em 1891, ele enfatiza que a escassez agrícola não é natural, mas produto da produção orientada pelo lucro, isto é, capitalista. Defende a expropriação da terra acompanhada da reorganização imediata e intensificação da produção como condição de sobrevivência da revolução social.

Em 1920, a questão agrária é integrada explicitamente ao programa revolucionário: a abolição da propriedade privada da terra torna-se princípio normativo e eixo estratégico da luta contra a exploração e o Estado.

Já em 1929, a reflexão aprofunda-se no plano institucional, sublinhando que o acesso universal à terra é condição da liberdade real, mas advertindo que a organização pós-revolucionaria não pode assumir formas autoritárias ou dogmáticas, sob pena de recriar privilégios e o Estado.

A evolução, portanto, vai da viabilidade produtiva agrícola da revolução à formulação programática da expropriação da classe dominante no campo, culminando na preocupação com os limites libertários da organização social da terra.

Entre 1891 e 1929, a reflexão de Malatesta sobre o campesinato desloca-se de uma consideração implícita de sua função produtiva estratégica para uma concepção mais explícita de sua posição estrutural na dominação e de seu papel na reorganização libertária da sociedade.

Em 1891, o campesinato aparece sobretudo como sujeito material indispensável à revolução: sem a imediata retomada e intensificação da produção agrícola pelos trabalhadores da terra, a escassez poderia comprometer a transformação social.

Em 1920, os trabalhadores rurais são integrados ao conjunto dos despossuídos cujo monopólio da terra os força à dependência, sendo a expropriação fundiária apresentada como condição de sua independência econômica.

Já em 1929, o campesinato é pensado dentro da coletividade que deve ter acesso garantido aos meios de produção, mas sem imposição de modelos organizativos únicos, pois a forma de uso da terra deve emergir da livre experimentação e da preservação da liberdade.

A evolução, portanto, vai do campesinato como agente produtivo decisivo para a viabilidade revolucionária, passa por sua identificação como classe expropriada na estrutura histórica da dominação, e culmina na sua inserção como sujeito em uma ordem pós-capitalista não autoritária.

Nos três textos, Malatesta articula questão agrária e campesinato como núcleo material da dominação e condição estratégica da emancipação social.

A propriedade privada da terra aparece como fundamento histórico da exploração, pois ao monopolizar os meios de produção força trabalhadores à dependência e à submissão.

Ao mesmo tempo, a escassez agrícola não é natural, mas resultado da produção orientada pelo lucro, o que torna a expropriação da terra e a imediata reorganização produtiva condição de sobrevivência da revolução social 

Contudo, essa expropriação não deve conduzir a formas economicamente concentradas ou politicamente autoritárias de organização, mas assegurar acesso universal à terra sob princípios de liberdade e experimentação associativa. 

Assim, para Malatesta, a questão agrária é um eixo estrutural da crítica ao capitalismo, e o campesinato integra o sujeito social cuja autonomia produtiva é indispensável à transformação libertária da sociedade.

Raphael Cruz


Referências

MALATESTA, Errico. The products of soil and industry. In: TURCATO, Davide (ed.). The method of freedom: an Errico Malatesta reader. Translated by Paul Sharkey. Oakland: AK Press, 2014. Publicado originalmente em El Productor (Barcelona), 24 dez. 1891.

MALATESTA, Errico.An anarchist programme. In: RICHARDS, Vernon (ed.). Life and ideas: the anarchist writings of Errico Malatesta. 2015 ed. London: Freedom Press, 2015. Publicado originalmente como Il programma anarchico, 1920.

MALATESTA, Errico. Some thoughts on the post-revolutionary property system. In: RICHARDS, Vernon (ed.). The anarchist revolution: polemical articles 1924–1931. London: Freedom Press, 1995. Publicado originalmente em Risveglio (Genebra), nov. 1929.

O realismo anarquista de Berneri: uma crítica interna ao otimismo revolucionário

Camillo Berneri (1897-1937)

 Graças a uma determinada formação política que recebi, aprendi a enxergar o anarquismo não como um bloco homogêneo onde todos os pensadores e pensadoras concordavam entre si. 

Aprendi a ver nesse campo politico específico, um campo de tensões, concordâncias e discordâncias.

Sempre aprendo bastante com textos que examinam esses pontos de tensão e discórdia.

Um deles, que li recentemente, foi Por un programma de acción communalista, de autoria do italiano Camillo Berneri, publicado em 1926.

Não é demais dizer que o escrito é um acerto de contas com a tradição clássica do anarco-comunismo.

Ao criticar Peter Kropotkin, Errico Malatesta e Luigi Fabbri, Camillo Berneri não está rompendo com o anarco-comunismo clássico, mas tensionando alguns de seus limites. 

Sua objeção não é doutrinária nem moral; é estratégica. Ele não diz que lhes falta radicalidade, mas política. 

Em vez de rejeitar o comunismo libertário, pergunta algo mais incômodo: por que, sendo eticamente tão potente, ele fracassa em oferecer respostas operativas para os problemas concretos da revolução?

A primeira crítica é antropológica. Berneri vê em Kropotkin uma confiança excessiva na natureza cooperativa humana, como se a solidariedade estivesse latente e bastasse remover o Estado para que emergisse espontaneamente. 

A “iniciativa popular” aparece, então, quase como um gênio coletivo inevitável. 

Para Berneri, isso é uma idealização: povos reais não são moralmente homogêneos, nem carregam um instinto comunista automático. Apostar demais nessa suposição equivale a, pode-se dizer, em substituir análise social por esperança ética.

Daí decorre uma segunda crítica, agora sociológica. O “povo” do anarco-comunismo clássico frequentemente surge como unidade coesa, movendo-se numa trajetória revolucionária quase linear. Berneri recusa essa imagem. 

A sociedade é atravessada demais por divisões, interesses conflitantes, desigualdades de poder, disputas locais e lideranças concorrentes para que ele endosse a conclusão kropotkiniana. 

A revolução não é um coro, mas um campo de forças. Ignorar essa heterogeneidade leva a diagnósticos ingênuos e estratégias frágeis.

Há ainda uma terceira crítica, de natureza institucional. Ele é categórico quando afirma que "Kropotkin não nos basta" e mesmo "os melhores dos nossos", em referência direta a Malatesta e Fabbri, não teriam avançado o suficiente na resolução de problemas concretos.

E quais seriam esses problemas?: Como coordenar comunas entre si? Como articular decisões em grande escala? Como lidar com representação, delegação, funções técnicas, conflitos intercomunitários? Em suma, o que substitui materialmente o Estado? 

Elaborado pelo autor, a partir de Berneri (1926). Fonte


Para Berneri, muitas respostas permaneceram parciais, otimistas ou anacrônicas. Falou-se muito da abolição do Estado, mas pouco do desenho das estruturas que o suplantariam de fato.

Essas três camadas convergem numa crítica mais profunda, estratégica. 

O anarco-comunismo clássico teria fornecido ética e horizonte, mas não um método. Construiu o ideal da sociedade futura, mas negligenciou a técnica política necessária para aproximar o presente desse ideal. 

Daí sua definição seca de política como “cálculo e criação de forças”. 

Não basta ter razão histórica, nem confiar na espontaneidade das massas ou na educação moral das consciências: é preciso produzir correlações de força, organizar antagonismos, consolidar conquistas.

É nesse ponto que surge o que se poderia chamar do "realismo anarquista" de Camillo Berneri, produto de sua avaliação crítica do anarco-comunismo em geral e do italiano em específico. 

Contra o educacionismo moral e o espontaneísmo, Berneri insiste que revoluções não são milagres sociológicos, mas processos construídos. 

Entre o ideal e a realidade não há atalhos: há agitação para despertar, polarização para definir lados, sistematização para dar forma durável ao que foi conquistado. Três ações do vocabulário berneriano que podem ser úteis até hoje.

Essa tendência a identificar o anarquismo como ética não desapareceu com os séculos XIX ou XX.

Ela reaparece com alguma força em leituras contemporâneas como a de David Graeber.

Em Fragmentos de antropologia anarquista, o saudoso antropólogo contrapõe um marxismo estratégico a um anarquismo eminentemente moral

Embora simpática, essa formulação acaba reiterando um velho pressuposto já presente em Kropotkin: a confiança de que a cooperação, a iniciativa popular e as formas horizontais emergiriam quase naturalmente quando as amarras do Estado fossem removidas. 

O risco dessa herança é reduzir o anarquismo a sensibilidade ética, estilo de vida ou pedagogia das relações, como se coerência moral bastasse para produzir transformação nas estruturas sociais opressivas. 

Lida à luz de Berneri, essa longa tradição revela seu limite: sem cálculo de forças, sem organização e sem desenho institucional, a ética libertária pode inspirar, mas dificilmente disputa poder social efetivo. É precisamente contra esse deslizamento do anarquismo para o testemunho moral que o seu realismo estratégico se insurge.

A "política", no sentido de um jogo entre forças sociais conflitantes, longe de ser uma concessão ao autoritarismo, torna-se, na perspectiva do autor, a própria condição de possibilidade da liberdade socialmente administrada.

Lido hoje, Berneri soa como um estrategista: alguém que almejava salvar o anarco-comunismo de sua época das próprias ilusões generosas, obrigando-o a descer do terreno das virtudes para o terreno das forças. Não para abandonar o ideal, mas para torná-lo viável.

Raphael Cruz

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