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Das armas de combate as do conhecimento: notas sobre a experiência educacional do movimento makhnovista (1918-1921)

Piotr Arshinov (1887-1937)

Ao ler History of the Makhnovist Movement (1918–1921), de Peter Arshinov, nota-se que a questão educacional esteve presente na experiência insurrecional do sul da Ucrânia.

A organização de uma escola autogestionada, a alfabetização dos membros do exército inssurrecional e as atividades culturais desenvolvidas no decurso da guerra foram momentos constitutivos do projeto revolucionário makhnovista.

O princípio fundamental foi formulado de maneira explícita: a escola deveria ser separada não apenas da Igreja, mas na mesma medida, do Estado (Arshinov, pp. 102–103).

A atividade educacional foi definida como tarefa da população trabalhadora local, assim como todas as demais atividades que diziam respeito às necessidades básicas dos trabalhadores (p. 102).

A escola, portanto, não poderia funcionar como instrumento de autoridade externa. Nas mãos do povo, afirma o texto, ela deixaria de ser simples fonte de instrução para tornar-se meio de formação de indivíduos conscientes e livres (p. 103).

Em Gulyai-Polye, após o acordo temporário com as autoridades soviéticas, a população confrontou diretamente o problema da educação (p. 102).

O que se observa não é a espera por diretrizes centrais, mas a iniciativa imediata da comunidade. Os camponeses e operários assumiram coletivamente a manutenção do corpo docente e criaram uma comissão mista composta por trabalhadores e professores para administrar tanto os aspectos econômicos quanto pedagógicos do sistema escolar (pp. 103–104).

Havia escolas primárias e dois ginásios na localidade (p. 103), e sua sustentação passou a ser responsabilidade direta da comunidade. A escola deixou, assim, de ser aparelho estatal para tornar-se uma instituição comunitária autogerida.

Arshinov registrou também a presença de apoiadores dos princípios da escola livre de Francisco Ferrer (p. 103). A população adotou um plano de educação livre muito próximo dessas concepções (p. 103), e chegou a elaborar um estudo teórico detalhado sobre os fundamentos e a organização da escola livre — documento posteriormente perdido (p. 103).

A dimensão educacional não se limitou à infância. Organizaram-se cursos de alfabetização para insurgentes analfabetos ou semialfabetizados  (p. 103) e, simultaneamente, cursos de teoria política destinados a fornecer noções elementares de economia política, história, teoria e prática do socialismo e do anarquismo, história da Revolução Francesa segundo Kropotkin e história da insurreição revolucionária russa (p. 103).

O objetivo declarado era complementar as armas militares com “armas do conhecimento”  (p. 103). A educação aparecia, assim, como parte integrante da estratégia revolucionária, e não como atividade periférica.

A formação cultural também inclui a imprensa e o teatro. O jornal Put’ k Svobode foi publicado mesmo em condições adversas (p. 86), e a seção cultural-educacional do exército organizou atividades dramáticas nas quais insurgentes, camponeses e trabalhadores participam ativamente  (pp. 103–104).

No debate sobre o idioma de ensino, a posição foi igualmente coerente com os princípios de autogoverno. A decisão não deveria ser tomada pelo exército nem por qualquer autoridade, mas por pais, professores e alunos  (pp. 119–120).

A autodeterminação não foi pensada em chave nacionalista, mas como expressão da soberania direta da comunidade trabalhadora sobre sua própria vida cultural.

Arshinov não ignorou os limites materiais da experiência. As invasões sucessivas e o estado permanente de guerra interromperam repetidamente as atividades educacionais (p. 102), e a pressão militar posterior reduziu o trabalho cultural a formas mais restritas e itinerantes (p. 140).

A escola livre existiu sob ameaça constante, atravessada pela precariedade imposta pela guerra civil e pela hostilidade bolchevique.

O que emerge do relato é uma tentativa concreta de retirar a escola do circuito da dominação estatal e reinscrevê-la no campo da auto-organização dos trabalhadores.

Não se tratou de um sistema consolidado, é claro, mas de um experimento histórico interrompido.

Ainda assim, a experiência makhnovista demonstrou que, mesmo em condições extremas, a educação pode ser concebida como prática de liberdade, inseparável da luta pelo autogoverno popular.

Raphael Cruz


Referência

ARSHINOV, Peter. History of the Makhnovist Movement (1918–1921). The Anarchist Library, [S. l.], disponível em: https://theanarchistlibrary.org/library/peter-arshinov-history-of-the-makhnovist-movement-1918-1921. Acesso em: 15 fev. 2026.

Trabalho, guerra e revolução: As comunas agrárias makhnovistas

Nestor Makhno (1888-1934)

O que sabemos sobre as “comunas agrárias” implantadas pela Makhnovitchina? 

Em suas memórias, Nestor Makhno (1988) descreve algo de sua organização, funcionamento e composição social.

Ele nos informa que ao redor de Gulai-Polé existiam quatro, e muitas outras pela região. Elas tinham a função tanto de construir uma vida nova quanto de defender as conquistas da revolução em curso. 

Makhno organizou pessoalmente aquelas quatro e participou de uma delas. Nela, colaborava dois dias da semana em todos os trabalhos: revirar e semear a terra, e, às vezes, na granja ou na estação de eletricidade. Nos quatro outros dias, trabalhava em Gulai-Polé no grupo anarco-comunista e no Comitê Revolucionário.

Cada comuna era composta por uma dúzia de famílias e possuía entre 100 e 300 membros. O Congresso Regional das Comunas Agrárias decidiu dar às famílias animais e ferramentaria agrícola já existentes nas propriedades que expropriaram, além de uma quantidade de terra proporcional à sua capacidade de cultivo e situada em sua vizinhança imediata.

Nota-se que as comunas agrárias makhnovistas combinavam posse familiar e trabalho comum. Não tendo optado nem pelo caminho autoritário de uma coletivização forçada, nos moldes do que fariam os governos bolchevique e stalinista anos depois, nem, exclusivamente, baseando-se no trabalho familiar. 

A própria Plataforma da União Geral dos Anarquistas (1926), documento que Makhno escreverá junto a Ida Mett, Piotr Arshinov e outros, na década seguinte, postulará a necessidade de se evitar a coletivização forçada nos momentos iniciais da revolução social e a adoção de um regime híbrido entre posse familiar e comunal no campo.  

Nas comunas agrárias makhnovistas, existia um “fundo comum da comunidade”, para onde os soldados, sob direção do Comitê Revolucionário, levavam ferramentas e animais que haviam sido expropriados dos latifundiários locais (pomechtchiki).

As antigas propriedades dos latifundiários eram tomadas e divididas pelos próprios camponeses. Instalados nessas propriedades, empenhavam-se no trabalho agrícola, enquanto outra parte se dedicava à defesa da revolução por meio de “unidades de combate”. Uma simbiose entre trabalho e guerra a organizar a dinâmica social da comuna livre.

Aqui cabe um destaque, que seria assinalado com importância nos textos de Piotr Arshinov (1923;1925) dos anos 1920: a revolução vai se consolidando por meio da reorganização da produção sob bases socialistas e da defesa militar de suas conquistas. Produção econômica e defesa militar são complementares, e não opostas.

Elaborado pelo autor, a partir de Makhno (1988). Clique na imagem para ampliá-la.

A composição social da maior parte das comunas agrárias era de camponeses, e algumas reuniam camponeses e operários, fundamentadas na igualdade e na solidariedade de seus membros. 

Segundo Makhno, homens e mulheres trabalhavam conjuntamente nos trabalhos domésticos e nos campos, o que nos permite visualizar algo da relação entre gênero e trabalho, produção econômica e reprodução social no território makhnovista. 

Em cada comuna havia camponeses anarquistas, mas a maioria não o era.

Existiam cozinha, despensa e refeitório comuns. A pessoa podia preparar a comida na cozinha comum, mas consumi-la em casa. Cada indivíduo ou grupo podia organizar-se da maneira que lhe convinha. A única condição era informar aos membros da comuna, a fim de que, na cozinha e na despensa, fossem tomadas as decisões necessárias para tais modificações.

Quanto ao trabalho, Makhno descreve que se levantavam cedo e logo iam ao trabalho com o gado, os cavalos ou nas tarefas domésticas. O programa de trabalho era estabelecido coletivamente em reuniões, nas quais se definiam as tarefas de cada um. Havia o direito de ausência, mas devia-se avisar ao companheiro de trabalho mais próximo, a fim de que pudesse haver substituição. O domingo era dia de repouso, havendo uma escala.

Makhno afirma que ficou pendente a questão do ensino, pois as comunas agrárias não queriam reconstruir as escolas segundo o modelo antigo. 

Os membros das comunas demonstravam interesse pela escola de Francisco Ferrer, da qual haviam ouvido falar por meio do grupo anarco-comunista do qual Makhno era membro. Contudo, faltavam pessoas que entendessem dos métodos, e decidiram convidar aqueles que estavam nas cidades. Durante o primeiro ano da revolução, na impossibilidade de aplicar o ensino de Ferrer, chamariam pessoas capazes de ensinar.

Makhno nota que os habitantes das pequenas vilas e aldeias vizinhas às comunas agrícolas, ainda sob a dependência dos koulaki, “tinham ciúme das comunas e manifestaram, mais de uma vez, o desejo de lhes tomar tudo: animais e ferramentas, a fim de repartir entre si”. Nota-se que havia uma convivência entre as “comunas agrícolas livres” e as vilas e aldeias que ainda viviam sob o antigo regime.

As comunas agrárias da Makhnovitchina configuraram formas concretas de reorganização da vida no campo, baseadas na expropriação dos latifúndios, na redistribuição da terra, na posse familiar, no trabalho coletivo e na gestão comum dos recursos, reunindo majoritariamente camponeses — e também operários — em estruturas assentadas na igualdade e na solidariedade. 

Seu funcionamento articulava produção e defesa, combinando a reorganização econômica com a autodefesa armada, ao mesmo tempo em que ensaiava transformações nas relações de gênero e nas formas de sociabilidade cotidiana. 

Contudo, enfrentavam limites práticos e tensões externas, como a indefinição do ensino e os conflitos com vilas ainda submetidas aos koulaki, de modo que essas comunas emergiram como experiências parciais e disputadas de construção de uma nova vida camponesa em meio à guerra e à revolução.

Raphael Cruz


Referências

ARSHINOV, Piotr. A revolução social e o sindicalismo. 1925. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/arshinov/ano/mes/40.pdf. Acesso em: 12 fev. 2026.

ARSHINOV, Peter. Constructive Problems of the Social Revolution. 1923. Disponível em: https://theanarchistlibrary.org/library/peter-arshinov-constructive-problems-of-the-social-revolution. Acesso em: 12 fev. 2026.

GRUPO DE ANARQUISTAS RUSSOS NO ESTRANGEIRO [Dielo Truda]. A Plataforma Organizacional da União Geral dos Anarquistas – Projeto. 1926. Nova tradução para o português a partir do original em russo; tradução de Ina Hergert; revisão, preparação e coordenação de Felipe Corrêa; Instituto de Teoria e História Anarquista (ITHA), 2017. Disponível em: https://ithanarquista.wordpress.com/wp-content/uploads/2019/08/dielo-truda-a-plataforma-organizacional-nova-traduc3a7c3a3o-com-nota-ajustada.pdf. Acesso em: 12 fev. 2026.

MAKHNO, Nestor. A "revolução" contra a revolução: a Revolução Russa na Ucrânia, março 1917-abril 1918. Coleção Pensamento e Ação. Tradução Milton José de Almeida. São Paulo: Cortez, 1988.

Autodeterminação de classe

Lendo a literatura anarquista, percebo que das reflexões de Proudhon em Da Capacidade Política das Classes Operárias às memórias de Archinov sobre a experiência da Makhnovitchina, o anarquismo se forja historicamente como prática e teoria da autodeterminação da classe trabalhadora.

Piotr Arshinov e a questão agrária

Piotr Arshinov (1887-1937)


 Identifiquei dois textos em que Piotr Arshinov aborda a questão agrária, ambos no contexto revolucionário. Embora o tema não seja central em seus escritos, ele aparece de forma lateral, como um desdobramento de sua reflexão sobre a revolução. Sua abordagem tem uma particularidade: é profundamente marcada pela experiência direta na Revolução Russa e na Makhnovtchina. Assim, suas reflexões não são meros exercícios teóricos, mas expressões de uma prática revolucionária vivida.

O primeiro texto é datado de 1923 e intitulado de "Problemas construtivos da revolução social". No texto, Arshinov enfatiza que a revolução não pode ter sucesso sem resolver a questão agrária e estabelecer uma relação equilibrada entre indústria e agricultura. Ele alerta para os erros da política bolchevique, que opôs trabalhadores urbanos e rurais, e propõe que a revolução precisa de um acordo direto e horizontal entre essas classes. Além disso, o autor destaca a necessidade de criar organismos comuns de coordenação, garantindo o abastecimento e a estabilidade da economia revolucionária.

O segundo texto é intitulado "A revolução social e o sindicalismo", de 1925.  Peter Arshinov, em sua reflexão sobre a questão agrária no referido texto, destaca que a revolução social precisará enfrentar imediatamente o problema da posse e uso da terra. Segundo ele, os camponeses tomarão os bens territoriais e os instrumentos de trabalho agrícola dos exploradores, e caberá às organizações operárias e camponesas assegurar que essas propriedades sejam redistribuídas aos camponeses, a quem pertencem de direito. No entanto, a forma de cultivo (comunal ou familiar) deverá ser decidida pelos próprios camponeses, com as organizações operárias exercendo apenas uma influência ideológica, preferencialmente em favor do cultivo comunal, considerado mais racional e eficiente com o uso de tecnologias modernas.

Arshinov critica duramente a política de requisição forçada de alimentos implementada pelos bolcheviques durante a Revolução Russa, que levou a confrontos violentos entre o Estado e os camponeses, resultando em mortes, destruição e desconfiança. Para evitar esse cenário, ele propõe que a relação entre os trabalhadores urbanos e rurais seja baseada na solidariedade revolucionária, com esforços mútuos para atender às necessidades de ambas as partes.

A união entre cidade e campo seria facilitada pela participação ativa dos camponeses na revolução, com a garantia de que seus interesses seriam respeitados e de que poderiam colaborar voluntariamente no abastecimento alimentar das cidades. Arshinov defende a criação de conferências conjuntas entre camponeses e operários, bem como de órgãos locais e regionais que promoveriam a integração econômica e política. Essa aliança entre trabalhadores urbanos e rurais formaria a base de uma nova economia revolucionária, resistente às pressões externas de partidos ou elites financeiras.

Algumas considerações sobre as reflexões do autor:

1. Ele retoma o tema da aliança operário-camponesa como estratégico para a revolução social, tema este já presente na proposta proudhoniana da federação agrícola-industrial e nas reflexões históricas e propostas programáticas de Bakunin.

2. Arshinov retoma esse fio intelectual da tradição anarquista anterior, mas o problematiza a partir de sua experiência concreta na Revolução Russa e da Makhnovitchna. Nesse sentido, trabalha com elementos que não foram acessíveis aos seus predecessores de ideologia e programa anarquista, fazendo esses dois elementos avançarem em seu desenvolvimento teórico e estratégico.

3. Os escritos do período 1923-1925 são anteriores a publicação da Plataforma da União Geral dos Anarquistas, texto coletivo escrito pelos exilados russos e publicado em 1926. Percebe-se como naqueles escritos antecipam-se a caracterização da condição camponesa como proletária e que o debate a ser realizado sobre a propriedade com o campesinato no período revolucionário deveria ter em conta a autonomia camponesa sobre a decisão de optar pela propriedade familiar ou comunal. Ainda que os esforços de propaganda anarquista devesse incentivar o modelo comunal.


Raphael Cruz


Alguns trechos dos textos

Problemas construtivos da revolução social (1923)

Encontrar una solución a los problemas rurales facilitará en gran medida la solución de los problemas de abastecimiento de alimentos, y los problemas de la producción industrial no se resolverán sin resolver también estos problemas rurales. La producción industrial, en los primeros días de la revolución, estará indudablemente tan desordenada e inadaptada a las necesidades de los trabajadores rurales y urbanos que los trabajadores necesitarán pedir ayuda al campesinado. Esta ayuda, de importancia decisiva para la revolución, sólo será posible si existe una colaboración revolucionaria entre obreros y campesinos.

Tres aspectos no pueden disociarse.

La cuestión más fácil y evidente es la de la tierra. Indudablemente, tras las primeras victorias en el torbellino revolucionario, los campesinos se apoderarán tanto de la tierra como de los medios para cultivarla. Es deseable que los campesinos trabajen de forma colectiva y comunal, de lo contrario, al ser la economía agrícola una parte de la economía general del país, ésta no podría evitar las contradicciones burguesas en una sociedad comunista. Sin embargo, éste es un problema que sólo los campesinos pueden resolver por sí mismos, lo que nos obliga, tanto ahora como en el futuro, a realizar entre ellos una amplia propaganda a favor de la organización libertaria de la economía agrícola.El progreso dependerá también de la forma en que los trabajadores urbanos creen la producción comunista en la fábrica; también, de si su trabajo en relación con los campesinos se lleva a cabo no aisladamente unos de otros, sino a través de colectivos, lo que influiría enormemente en la dirección que puedan tomar los campesinos.

Encontrar una solución a los problemas rurales facilitará en gran medida la solución de los problemas de abastecimiento de alimentos, y los problemas de la producción industrial no se resolverán sin resolver también estos problemas rurales. La producción industrial, en los primeros días de la revolución, estará indudablemente tan desordenada e inadaptada a las necesidades de los trabajadores rurales y urbanos que los trabajadores necesitarán pedir ayuda al campesinado. Esta ayuda, de importancia decisiva para la revolución, sólo será posible si existe una colaboración revolucionaria entre obreros y campesinos.

La desatinada y fatal política alimentaria bolchevique, durante la cual las ciudades entraron en guerra contra el campo por el pan, muestra de forma obvia y demostrable que -al menos en Rusia y en países similares- la revolución no puede triunfar sin un acuerdo revolucionario entre obreros y campesinos. En la cuestión de la producción, los obreros deben tener en cuenta las necesidades de los campesinos y, del mismo modo, los campesinos no deben retrasar el suministro de alimentos y materias primas a la ciudad; es necesario un acuerdo directo de ida y vuelta entre la industria y la agricultura. La ayuda mutua entre las dos clases trabajadoras hará indispensables organismos comunes de enlace y abastecimiento. Sólo esto podría garantizar tanto el desarrollo de un nuevo modo de producción como el éxito ulterior de toda la revolución.

A revolução social e o sindicalismo (1925)

A questão agraria

A revolução terá logo que achar solução para a questão agraria. Aos primeiros exitos obtidos pela revolução, 08 camponeses apossar-se-hão de todos os bens territoriais e de todos os Instrumen- tos de trabalho agricola que se encontrem na posве dos exploradores do trabalho alheio. A orientação da revolução deverá ser no sentido de as organi- zações dos operarios e dos camponeses assegura- rem, de comum acordo, a posse do solo e de todos os instrumentos de trabalho agricola á população camponesa, á qual pertencem de direito. A questão das formas em que a terra deverá ser disfrutada e a maneira como a população deverá cultivá-las (comunal ou familiarmente) deverá er resolvida pelos proprios camponeses. As organizaçõев орега- rias não poderão exercer nesse particular senão uma influencia ideologica.

Seria desejavel, evidentemente, que essa influen- cia se fizesse sentir desde logo no sentido de uma exploração e de um cultivo comunal das terras, porque essa é a forma a que chegarão os trabalha- dores, tarde ou cedo, pelas leis do desenvolvimento sociall e tecnico do trabalho. Quanto mais ampla e energicamente se fizer hoje essa propaganda, mais se farão sentir os efeitos no momento da re- volução social. O aspecto material e tecnico da questão os instrumentos de trabalho agricola não terá uma importancia pouco menor para o método comunal do cultivo e da exploração da terra. Quanto mais poderosos e aperfeiçoados se- jam esses instrumentos, mais racional será em- pregá-los na exploração comunal, para o disfruto comunal do solo.

O abastecimento e os camponeses

A organização da produção operaria apresenta- se particularmente importante e complicada no de- curso da revolução, mas não poderia er resolvida à margem da solução ação que terá a questão funda- mental o aprovisionamento dos víveres. Por muito feliz que haja sido posta em marcha a organização da produção operaria livre, se o proplema dos víveres não é resolvido de uma maneira razoavel e ditosa, ezsa organização deverá, infali- velmente, enfraquecer-se, deslocar-se e ser destruídos.

No decurso da revolução russa, o partido comu- mista encontrou para a questão do aprovisiona mento uma solução extremamente simples, prati cada já por outros na Russia desde os tempos de Gengis Can e de Tamerlan. Em 1918, Lenine lançou o grito: Todos á guerra sagrada para a conquista do pão. Numerosos destacamentos armados de espingardas, de metralhadoras e até de canhões foram organizados e enviados a todos os recantos da Rus- sia para requisitar e tomar pela força o trigo aos camponeses. Estes destacamentos, que executavam as ordens das autoridades centrais, personifica- vam em certo modo a «cidade». E aqui temos que a cidade (ainda que no fundo não fosse senão im só partido a desfigurar o aspecto verdadeiro da cidade) foi ao campo revolucionario para nele conseguir o pão, com o auxilio da polvora e do chumbo. Uma nova era de guerras civis se abriu entre as massas laboriosas de camponeses e as au- das cidades. Esta luta intestina dura há mais de cinco anos, durante os quais inumeros camponeses foram mortos, seguramente mais de m milhão, aldeias inteiramente foram, ás centenas, destruidas e queimadas, e a revolução russa desfalece nos quadros da fome.

Para a massa dos camponeses, a pólvora e chumbo estão ligados tão intimamente ao poder dos comunistas, que que olham com desconfiança até a troca de mercadorias, posta em moda pelo governo nestes ultimos tempos, e preferem negociar com os especuladores privados do que com os representantes da autoridade. A unica solução possivel da questão dos viveres

(...)

Os camponeses jamais quererão ceder de bom grado os produtos do seu trabalho aos funcionarios do Estado, consideram não só inuteis, mas tambem nocivos á sociedade dos trabalhadores. Mas, por outro lado, os campo- dos instrumentos de trabalho moderna. A criação de laços semelhantes será consideravelmente facilitada pela participação da população camponesa laboriosa na causa da revolução

(...)

Quando a população camponesa sentir que a revolução não é para ela uma madrasta como na Russia com a ditadura do partido comunista, po- dendo na mesma tomar a sua quota parte de actividade com confiança, ela concorrerá com todas as suas forças de criação social e revolucionaria para o seu triunfo. Não deixará de avançar ao lado da classe operaria na revolução social que lhe faça entrever o horizonte de liberdade de trabalho e de igualdade. Sustentará o proletariado das cidades fornecendo-lhe os víveres necessarios, porque sabe que os poderosos instrumentos da classe operaria - a mecanica da industria moderna não tar- darão em ser postos ao serviço das necessidades de todos os trabalhadores, das cidades e dos campos, indiferentemente.

Conferencias conjuntas de camponeses e opera- rilos, conferencias de concelhos, de distritos, de provincias, de regiões, marcarão os primeiros pas- sos, os primeiros esforços рата a solução das difi- culdades do abastecimento e serão tambem os pri- meiros orgãos que sirvam para aplanar dificulda- des e formarão a base de união da cidade e qu campo laboriosos.

O abastecimento organizado sobre uma aliança deste genero dará á classe operaria a possibili- dade de estabelecer sobre fundamentos solidos a obra de uma produção nova. Mas a fim de que aquele, tal qual como com a mecanica da produção, se afirme e se desenvolva sem interrupções, será preciso que o proletariado das cidades se ocupe logo nos primeiros dias de satisfazer as necessidades mais instantes do campo. Os esforços mutuos dos camponeses e operarios chegarão as- sim a formar uma base economica poderosa para a revolução e nem os reis da finança nem os dos partidos conseguirão desalojá-los de lá.

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  Brasília, 02 de julho de 2026 1. Primeira vez numa Smartfit. 2.  Achei escura. A última vez que estive num lugar assim foi num show de ...