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O rompimento de Murray Bookchin com o anarquismo

Murray Bookchin (1921-2006)


Se você se politizou nas alas mais à esquerda da esquerda, entre o final dos anos 1990 e o início dos 2000, é provável ter ouvido falar de Murray Bookchin.

Ele apareceu para mim, ao lado de pensadores como Noam Chomsky e David Graeber, como aqueles que estavam dando vida ao anarquismo no cenário político contemporâneo.

Já nos anos 2010, tomei contato com a informação de que Bookchin havia rompido com o anarquismo. 

Isso foi pouco antes de seu nome ganhar mais um sobre fôlego nas esquerdas devido à associação com  Abdullah Öcalan.

Öcalan é uma liderança da histórica luta curda, proponente do confederalismo democrático, um projeto socialista para o Oriente Médio e explicitamente inspirado na ecologia social de Bookchin.

Contudo, ontem, foi esclarecido de uma vez por todas para mim como se deu esse rompimento com o anarquismo. 

Isso ocorreu por meio de uma obra póstuma que estou entendendo ser quase uma espécie de testamento político.

Social ecology and communalism é uma ótima porta de entrada para conhecer o pensamento de Murray Bookchin, um dos mais criativos e longevos socialistas norte-americanos do século XX.

O livro é uma coletânea de ensaios organizada por Eirik Eiglad e foi publicado em 2007, um ano após o falecimento de Bookchin. 

Por isso mesmo, a obra oferece um ótimo panorama do desenvolvimento de sua ecologia social e a culminância dela no que ele nomeou de comunalismo.

A introdução escrita por Eiglad apresenta uma breve, mas sólida biografia do autor. 

Também consegue organizar os ensaios de maneira a fazer o leitor entender diferentes etapas do desenvolvimento teórico de Bookchin.

Em determinado momento do texto, o apresentador da obra afirma: "Ele (Murray Bookchin) rompeu abertamente com o anarquismo na segunda Conferência Internacional sobre Municipalismo Libertário, em Vermont, em 1999, e deixou claro que sua teoria da ecologia social precisa ser incorporada à ideologia que denominou comunalismo".

Eiglad aponta os desacordos de Bookchin com o anarquismo. 

Alguns me pareceram bastante válidos, como a crítica à falta de uma teoria do poder, baseada no caso histórico da Guerra Civil Espanhola. 

Contudo, acusações de niilismo e individualismo extremo no anarquismo me soaram como uma descrição circunscrita do cenário anarquista dos EUA entre o final dos anos 90 e início dos 2000. 

Bookchin parece ter ignorado, por desconhecimento, talvez, que os plataformistas russos e ucranianos do final dos anos 1920 já haviam realizado essa crítica interna ao campo. Contudo, entenderam o individualismo como um "desvio" do anarquismo histórico, e não como a sua "essência".

Já li em fóruns de internet, em tempos passados, que Bookchin simplesmente estava puto com toda a contaminação dos anarquistas pelo "anarquismo de estilo de vida" e resolveu "chutar o pau da barraca", jogando fora o bebê junto da água suja. 

Entretanto, não parece justo reputar isso a uma espécie de estado emocional ranzinza, já atribuído ao pensador em sua velhice.

A verdade é que, se você for uma leitora ou leitor atento de Bookchin, verá que o pensamento dele foi atravessado por um "ecletismo" teórico.

Este, muitas vezes, criativo, não confuso, uma mescla de anarquismo (antiestatismo, federalismo, autogestão), feminismo (crítica ao patriarcado, reconhecimento de hierarquias para além da classe social), marxismo (influência da Escola de Frankfurt) e ecologia (que deu o sabor especial ao seu pensamento).

Tudo fica mais compreensivo quando o próprio Bookchin escreve em Social ecology and communalism sobre ter aproveitado as melhores partes do marxismo e do anarquismo durante o desenvolvimento de seu próprio pensamento político.

De todo modo, entre os anos 1980 e 1990, quando amadurece sua proposta do municipalismo libertário, Bookchin já havia rompido com a estratégia antiestatista do anarquismo. Optando, em minha humilde avaliação, por uma contraditória e confusa construção estatista do poder popular.

O programa do municipalismo baseia-se na estratégia eleitoral de tomar prefeituras nos EUA, para impulsionar assembleias populares, confederá-las e criar um duplo poder frente ao Estado-nação. Algo, ao meu ver, não livre de alguma confusão política para alguém tão versado na história do socialismo e dos movimentos populares.

Se isso poderia fazer algum sentido na região da Nova Inglaterra, local onde Bookchin se estabeleceu e militou, não sei como poderia ser útil ou praticável em outros lugares, particularmente nas periferias do capitalismo.

Aqui cabe um ponto interessante sobre a apropriação curda da ecologia social.

O povo curdo teve que travar uma guerra para conseguir a administração autônoma de certos territórios. Isso não foi conquistado por meio de eleições, até onde eu sei.

De certa forma, no Oriente Médio, se deu o oposto da aposta estratégica de Bookchin: lá, primeiro se fez a guerra para conquistar a administração autônoma e assim organizar eleições locais, já sem a presença do Estado-nação.

Na proposta original do municipalismo libertário, primeiro se candidata em eleições, conquista-se prefeituras, cria-se assembleias populares para administrar a localidade ao invés do corpo profissional prefeitural.

Em seguida, confedera-se essas assembleias e, então, o Estado-nação, ao perder poder, desencadeia uma guerra com os municipalistas confederados.

O vislumbre de uma guerra entre o Estado e os municipalistas é uma etapa posterior no esquema de Bookchin. Na vida do povo curdo, foi a etapa inicial.

Agora, voltemos aos desacordos de Murray Bookchin com o anarquismo.

Outro rompimento anterior, mas no nível teórico, é quando ele abandona a centralidade da classe trabalhadora na construção de uma sociedade socialista. 

Graham Purchase, em Anarchism and social ecology: a critique of Murray Bookchin (1993), oferece um bom comentário sobre como a crítica específica do autor ao anarco-sindicalismo entre o fim dos anos 1970 e início dos 1980, já era um rompimento com o anarquismo em geral. 

Ao final, me parece ter sido um processo gradual o afastamento de Bookchin do anarquismo. O que acabou por levar a defesa do autor da associação da ecologia social com o comunalismo. 

Ainda assim, Bookchin merece ser lido e estudado com atenção e respeito por novas gerações de anarquistas. Principalmente pela abordagem dialética de base ecológica que ele oferta para entender as questões sociais e ambientais como indissociáveis para a construção do socialismo no século XXI.

Raphael Cruz


Capitalismo como sistema de contradições socioecológicas: as perspectivas da ecologia social e do marxismo ecológico

Murray Bookchin(1921-2006) e James O' Connor (1930-2017)


Pierre-Joseph Proudhon foi possivelmente o primeiro socialista a compreender o capitalismo como um "sistema de contradições", como expressou em seu livro Filosofia da miséria, ou sistema das contradições econômicas (1846). 

Esta foi uma contribuição duradoura do autor francês para a ampla tradição socialista de crítica da economia política, incluindo aí o marxismo, ao sugerir que identificar as contradições seria uma condição de possibilidade de conhecimento científico do capitalismo, e que essas contradições poderiam originar um "quadro conceitual operatório" (Gurvitch, 1971) de explicação do sistema. Contudo, águas rolaram desde os tempos do capitalismo oitocentista que Proudhon experimentou e analisou.

A expansão das relações de produção capitalista sobre suas condições sociais e ambientais de reprodução, expressa na degradação ambiental e das condições de vida dos povos, promoveu lutas ecológicas que indicaram novas contradições do capitalismo que, ao que parece, nem Proudhon nem Marx dimensionaram devidamente, mas que, contudo, não escapou da atenção de uma nova geração de "clínicos do social", para usar a expressão de Pierre Ansart (2022). Esses, cada vez mais, assumindo-se como clínicos das relações socioecológicas.

Murray Bookchin (1980,2006), por exemplo, identificou ao menos duas contradições fundamentais do capitalismo contemporâneo: uma que pode-se classificar até de "contradição ontológica" entre a sociedade capitalista e a evolução biológica. E outra que nomearei propriamente de "contradição socioecológica", referente ao crescimento econômico e os limites ecológicos do planeta.

A primeira contradição diz respeito a expansão do capitalismo e a consequente desestruturação de processos naturais que sustentam a vida. Para Bookchin (2006), o capitalismo estaria reduzindo a diversidade biológica e simplificando os ecossistemas em prol da exploração de recursos, colocando em risco tanto a equilíbrio ambiental quanto o a própria condição de possibilidade de existência biológica da humanidade. Essa contradição ontológica evidencia que a crise ambiental não é apenas um problema técnico ou econômico, mas um choque fundamental entre o capitalismo e os processos ecológicos que permitiram a própria existência humana.

A segunda contradição, a propriamente sócioecologica, opera entre o crescimento infinito da economia capitalista e os limites ecológicos do planeta. Bookchin (1980) argumenta que essa contradição é mais relevante do que a tendência ao declínio da taxa de lucro destacada pelos marxistas clássicos. Para ele, a crise ecológica não pode ser ignorada ou reduzida a um problema secundário dentro da atual lógica e funcionamento do capitalismo. 

Diante desse deslocamento histórico, a leitura do capitalismo como um sistema de contradições permanece válida, mas exige atualização teórica. Se, em Filosofia da Miséria, a ênfase recaía sobre as tensões internas da economia política, hoje torna-se incontornável reconhecer que tais contradições extrapolam o plano estritamente econômico e se inscrevem nas próprias condições de reprodução da vida. As formulações de Murray Bookchin evidenciam que o capitalismo não apenas organiza antagonismos sociais, mas produz um descompasso estrutural entre sociedade e natureza, colocando em questão sua própria viabilidade histórica. Nesse sentido, a ampliação do conceito de contradição — incorporando as dimensões ontológica e socioecológica — não apenas prolonga a intuição proudhoniana, mas a radicaliza. Trata-se, portanto, de compreender que o capitalismo contemporâneo já não pode ser analisado apenas como um sistema economicamente contraditório, mas como um sistema ecologicamente insustentável, cujas tensões internas apontam não apenas para crises cíclicas, mas para limites civilizatórios.

James O’Connor (1988), por sua vez, apresentou uma teoria marxista ecológica que ampliou a análise tradicional da contradição entre "forças produtivas" e "relações de produção". Ele argumentou que, além da superprodução de capital e crise econômica, existe uma contradição entre as forças produtivas e as relações de produção com as condições de produção – isto é, os fatores ecológicos e sociais que sustentam a economia capitalista. O esgotamento ambiental, portanto, não apenas limita o crescimento econômico, mas também gera crises que podem levar a reestruturações. 

O' Connor (1988) sugere que há dois caminhos para a superação do capitalismo: um baseado na "crise econômica" tradicional e outro na "crise ecológica".

O caminho tradicional da crise econômica é aquele baseado na teoria marxista clássica, parte da contradição entre as forças produtivas e as relações de produção. No capitalismo, a necessidade constante de acumulação de capital leva à superprodução, à queda da taxa de lucro e a crises econômicas. Essas crises podem criar condições para transformações revolucionárias, na medida em que o sistema se torna incapaz de garantir sua própria reprodução e os trabalhadores se organizam para superá-lo.

O caminho da crise ecológica e das condições de produção é uma inovação da teoria de O’Connor. Ele argumenta que, além da crise econômica tradicional, o capitalismo também gera crises ao destruir as próprias condições de produção – isto é, os recursos naturais, a força de trabalho e as infraestruturas sociais que sustentam o sistema. A degradação ambiental, o esgotamento de solos, a escassez de água e as mudanças climáticas são exemplos de como essa contradição se manifesta empiricamente. Essas crises podem impulsionar mudanças sociais, a partir do que ele nomeou de "rebeliões da natureza", pois tornam evidente a necessidade de novas formas de organização econômica que sejam ecologicamente viáveis e socialmente justas.

Enquanto o primeiro caminho está ligado à lógica interna da acumulação de capital e à luta de classes, o segundo destaca que o capitalismo também mina suas próprias bases materiais e ecológicas. Assim, a transição para um sistema pós-capitalista pode ocorrer não apenas pela falência econômica, mas também pela necessidade de reconstrução das condições de vida, o que pode levar a formas mais coletivas e ecológicas de organização social.

Tanto a ecologia social de Boikchin quanto o marxismo ecológico de O' Connor onvergiram ao reconhecer que a crise ecológica é central para a crítica ao capitalismo contemporâneo. A diferença é que Bookchin vê essa contradição como a mais importante e não como uma questão a ser integrada ao marxismo tradicional, enquanto O’Connor busca articular o problema ecológico dentro da estrutura conceitual marxista e inová-la para dar conta de desafios societários atuais.

Contudo, enquanto O'Connor manteve-se esperançoso com o possível desenvolvimento de lutas sociais a partir da identificação daquela segunda contradição do capitalismo, Bookchin se empenhou em tirar conclusões estratégicas de sua ecologia social e desenhou um projeto societário condizente com ela, que nomeou de sociedade ecológica em contraposição a sociedade hierárquica, da qual o capitalismo é a expressão atual.

Raphael Cruz


Referências

ANSART, Pierre. Proudhon, clínico do social. História: Questões & Debates, Curitiba, v. 70, n. 2, p. 292–306, 2022.

BOOKCHIN, Murray. The communalist project. In: BOOKCHIN, Murray. The social ecology and communalism. Oslo: New Compass, 2006.

BOOKCHIN, Murray. Toward an ecological society. Montreal: Black Rose Books, 1980. p. 36.

GURVITCH, Georges. Dialética e Sociologia. São Paulo: Vértice; Editora Revista dos Tribunais, 1987.

O'CONNOR, James. Capitalism, nature, socialism: a theoretical introduction. Capitalism Nature Socialism, New York, v. 1, n. 1, p. 11-38, 1988.

PROUDHON, Pierre-Joseph. Sistema das contradições econômicas, ou, filosofia da miséria. Tomo I. São Paulo: Ícone, 2003.



O maior legado de um velhinho de Vermont

 Noto que a ecologia social de Bookchin assumiu alguma importância para os movimentos sociais e ecológicos entre o fim dos anos 1960 e o início da década de 1990, ao ponto de receber críticas tanto de direita (ecologia profunda) como de esquerda (anarcossindicalismo).

Os textos de Murray Bookchin sobre agricultura, produzidos entre 1962 e 1976, são um primor de bem escritos e relevantes para o contexto do sul global devido à ênfase dada pelo autor aos prejuízos sociais e ecológicos promovidos pelo uso indiscriminado de agrotóxicos.

Na minha opinião, a principal contribuição de Murray Bookchin não foi a estratégia política do municipalismo “libertário”, mas a inserção de um paradigma ecológico nos projetos socialistas.

Essa foi a contribuição mais universal do velhinho de Vermont, justamente por não estar tão presa às particularidades culturais da Nova Inglaterra, ao contrário da ideia de ganhar prefeituras pelo voto e depois submetê-las às assembleias de cidadãos.


A problemática teoria da classe em Bookchin

Murray Bookchin (1921-2006)


O que acho interessante em Bookchin é a sua tese de que o problema ecológico é condicionado socialmente. Contudo sua teoria das classes sociais é fraca. 

Iain McKay notou que a concepção de classe trabalhadora de Bookchin é limitada ao operário industrial. Ao avaliar corretamente que esta fração estava integrada ao capitalismo fordista do pós-guerra, ele concluiu erroneamente que todo o proletariado havia perdido o potencial revolucionário.

Essa concepção teórica teve desdobramentos políticos. Como notou Wayne Price, Bookchin substituiu o proletariado pelo "cidadão". Isso o levou a estratégia política do municipalismo libertário como abandono do sindicalismo e do mundo do trabalho em geral, concentrando-se em assembleias populares e disputa eleitoral no nível municipal. Ao final de sua vida, rompeu com o anarquismo, concebendo o que chamou de comunalismo. 

Apesar disso, Bookchin continua sendo uma boa referência para pensar como as formas de organização social criam seus próprios problemas ecológicos. E que uma ecologia equilibrada é alcançada por meio de uma sociedade não hierárquica.

Raphael Cruz

Teses sobre a ecologia social

Murray Bookchin (1921-2006) e Janet Biehl (1953-)



APRESENTAÇÃO

Esta é uma tradução de partes do texto de Janet Biehl, intitulado Teses sobre a ecologia social e ecologia profunda, escrito em 1º de agosto de 1995. O texto foi originalmente disponibilizado no site do Institute for Social Ecology. A tradução, baseou-se no mesmo texto disponível na The Anarchist Library.

O mérito de Biehl é condensar em teses, a complexidade do pensamento de Murray Bookchin, que foi elaborado a partir de um diálogo crítico e racionalista entre filosofia da natureza e teoria social, realizado pelo autor entre os anos 1950 e 2000.

Raphael Cruz

***

TESES SOBRE A ECOLOGIA SOCIAL

Janet Biehl

I

A ecologia social argumenta que a ideia de dominar a natureza resultou da dominação do humano pelo humano, e não o contrário. Ou seja, as causas da crise ecológica são, em última instância e fundamentalmente, de natureza social. A emergência histórica de hierarquias, classes, estados e, finalmente, a economia de mercado e o próprio capitalismo são as forças sociais que produziram, tanto ideológica quanto materialmente, a atual espoliação da biosfera.

II

A ecologia social vê o mundo natural como um processo – e não apenas qualquer processo, mas um desenvolvimento em direção à crescente complexidade e subjetividade. Este desenvolvimento não foi predeterminado desde o início e não precisava ter ocorrido, mas retrospectivamente a complexidade crescente da evolução natural e o desenvolvimento de subjetividade crescente são impossíveis de ignorar. Com o surgimento dos seres humanos, os processos evolutivos biológicos (primeira natureza) continuaram e foram suprimidos por processos evolutivos sociais e culturais (segunda natureza). Ao contrário da sociobiologia, que reduz o social ao biológico, a ecologia social enfatiza as gradações entre a primeira e a segunda natureza: a segunda natureza emergiu da primeira natureza. No entanto, a fronteira entre a natureza humana e não humana é real e articulada.

III

A ecologia social visa reintegrar o desenvolvimento social humano com o desenvolvimento biológico, e as comunidades humanas com as ecocomunidades, produzindo uma sociedade racional e ecológica. A mera presença biológica de humanos em grande número não determina o tipo de sociedade que formarão. Mesmo um grande número de seres humanos é capaz de organizar a sociedade de acordo com linhas que não apenas não destroem a natureza primária, mas até a aprimoram. Uma combinação sensível de ecotécnica e tecnologias existentes aplicadas com prudência constitui a base tecnológica para a pós-escassez, proporcionando aos humanos, tempo livre para administrar os seus assuntos sociais, políticos e econômicos de acordo com linhas racionais e promover e restaurar a complexidade ecológica da primeira natureza.

IV

A ecologia social afirma abertamente que os seres humanos são potencialmente a forma de vida mais avançada que a evolução natural produziu, em aspectos cruciais de inteligência, capacidade moral e destreza - o que de forma alguma fornece uma licença para os humanos destruírem arbitrariamente a primeira natureza. De fato, numa sociedade racional, os seres humanos poderiam ser a natureza tornada autoconsciente. Claramente, faz parte da sua composição evolutiva intervir no mundo natural; o que não está determinado é se essa intervenção será ecologicamente benigna ou maligna, um problema que é resolvido pelo tipo de sociedade que eles criam.

V

A ecologia social, embora enfatize fortemente a necessidade de uma sensibilidade ecológica, de fato uma ética da complementaridade, afirma que enfrentar a crise ecológica requer engajar-se em atividades sociais e políticas para confrontar e, finalmente, eliminar as suas causas sociais objetivas: o capitalismo, a hierarquia social e o Estado-nação. A dimensão política da ecologia social, o municipalismo libertário, é um programa para estabelecer democracias diretas, face à face e confederá-las num poder dual para enfrentar essas forças. A ecologia social situa-se assim na tradição iluminista e revolucionária.

VI

A ecologia social argumenta que uma das características distintivas dos seres humanos, a sua capacidade de raciocinar num alto nível de generalidade, dá-lhes a capacidade de entender potencialmente os processos naturais e potencialmente organizarem a sociedade de acordo com linhas ecológicas e racionais. Ao mesmo tempo, em que critica as reivindicações onipresentes de um racionalismo de “meios-fins” que historicamente instrumentalizou fenômenos humanos e não humanos, ela avança um raciocínio dialético que é apropriado para compreender os processos evolucionários sociais e naturais humanos. Em si, ele incorpora esse compromisso com a racionalidade ao defender e demonstrar coerência no pensamento social.


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