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Etnografia da autonomia


Em 2025, completam-se 10 anos do movimento de ocupação de escolas que tomou o Brasil entre 2015 e 2016, em protesto contra a precarização da educação. 

Tive a oportunidade de acompanhar de perto esse processo de luta e refletir etnograficamente sobre ele com @yoellenrocha e @saraivaiara, neste artigo publicado na Revista Terra sem Amos, da @tsa.editora.

Aquele movimento foi auto-organizado e desafiou as burocracias estudantis e sindicais que tentavam contê-lo. Foi uma oportunidade para os estudantes autogerirem as escolas e, por meio de suas lutas, indicarem formas alternativas de organização do ensino e da aprendizagem.

Algo que aprendi com o saudoso David Graeber, em seu seminal Fragmentos de Antropologia Anarquista, é que os movimentos sociais, ao contestarem a ordem social, não estão apenas resistindo, mas também propondo formas alternativas de reorganizar diversos setores da vida. 

É por isso que os movimentos emancipatórios costumam ser laboratórios onde se experimentam outros mundos possíveis.

Etnografar resistências

Sherry Beth Ortner (1941-)


Durante minha pesquisa de doutorado, dois artigos foram importantes, do ponto de vista metodológico, para orientar como seria possível observar e descrever formas de resistência de grupos sociais subalternizados.

O primeiro foi o aclamado "Formas cotidianas de resistência camponesas", de James C. Scott. O segundo foi o menos conhecido, mas não menos importante "Resistance and problem of ethnographic refuse", em tradução livre: Resistência e o problema da recusa etnográfica, de Sherry B. Ortner.

O primeiro texto desvelou todo um mundo de resistência camponesa para além das "formas não-cotidianas", como bloqueios de pista, passeatas, ocupação de terras, e possibilitou olhar e legitimar os "pequenos" atos cotidianos de recusa a colaborar com a dominação.

O segundo texto reafirmou o quanto era importante valorizar as formas de resistência dos subalternizados para aqueles pesquisadores interessados em compreender os processos sociais de dominação e resistência e a dialética que os organiza e atualiza.

Isso porque ao se centrar nos efeitos deletérios da economia global ou da política imperial sempre corre-se o risco de simplesmente tratar os "condenados da terra" como corpos passíveis e sem agência, como "impactados" somente, e não como formuladores de uma visão de mundo sobre o que os acomete a partir de seu próprio repertório cultural, e como agenciadores de resistências a partir de um repertório político imanente e criativo.

Esse texto de Ortner foi importante para que eu valorizasse o ponto de vista de meus interlocutores de pesquisa sobre o conflito socioambiental e territorial que experienciavam junto a empresas de energia eólica no litoral piauiense, e para que depois eu pudesse formular o enquadramento da "transição energética vista de baixo", que parte justamente da perspectiva dos povos e comunidades sobre os recentes processos capitalistas de transformação socioambiental.

Apresento, a seguir, uma tradução da conclusão do artigo de Ortner.


Resistance and the Problem of Ethnographic Refusal

Sherry B. Ortner

Comparative Studies in Society and History, Vol. 37, No. 1 (Jan., 1995), pp. 173-193

O argumento central deste ensaio pode ser expresso de maneira muito simples. Os estudos sobre resistência são superficiais porque são etnograficamente superficiais: são superficiais quanto à política interna dos grupos dominados, superficiais quanto à riqueza cultural desses grupos, superficiais quanto à subjetividade—intenções, desejos, medos, projetos—dos atores envolvidos nesses dramas. Essa superficialidade etnográfica, por sua vez, deriva de várias fontes (além, é claro, da simples má etnografia, que sempre é uma possibilidade). 

A primeira fonte é a falta de coragem para abordar questões sobre a política interna dos grupos dominados e sobre a autenticidade cultural desses grupos, um tema que levantei ao longo deste ensaio. A segunda está relacionada às questões que envolvem a crise da representação—isto é, a possibilidade de representações verídicas dos outros (ou Outros) e a capacidade do subalterno de ser ouvido—, um ponto que acabei de discutir. Essas duas problemáticas, quando combinadas, convergem para produzir uma espécie de buraco negro etnográfico. 

Preencher esse buraco negro certamente aprofundaria e enriqueceria os estudos sobre resistência, mas há mais do que isso em jogo. Esse preenchimento revelaria—ou deveria revelar—as ambivalências e ambiguidades da própria resistência. Essas ambivalências e ambiguidades, por sua vez, emergem das complexas teias de articulações e desarticulações que sempre existem entre dominantes e dominados. Isso porque a política da dominação externa e a política dentro de um grupo subordinado podem tanto se conectar quanto se repelir; as culturas dos grupos dominantes e dos subalternos podem dialogar, mesmo ao se contraporem entre si; e, como Nandy argumenta de maneira eloquente, os sujeitos subordinados podem manter sua autenticidade oposicional e sua agência ao recorrer a aspectos da cultura dominante para criticar tanto seu próprio mundo quanto a situação de dominação em que se encontram. 

Em suma, só é possível compreender como a resistência pode ser mais do que simples oposição—como pode ser verdadeiramente criativa e transformadora—se reconhecermos a multiplicidade de projetos nos quais os seres sociais estão sempre envolvidos e a multiplicidade de maneiras pelas quais esses projetos se alimentam, ao mesmo tempo que colidem, uns com os outros.

Antropólogos e anarquismo

Brian Morris (1936-)


APRESENTAÇÃO

Essa é uma tradução livre de um trecho de Anthropology and anarchism, artigo de autoria do inglês Brian Morris, professor emérito de antropologia no Goldsmiths College da Universidade de Londres. O texto foi originalmente publicado em 1998, em Anarchy: a Journal of Desire Armed, número 45.

Raphael Cruz


ANTROPÓLOGOS E ANARQUISMO: RECLUS, BOUGLÉ, MAUSS, RADCLIFFE-BROWN

Muitos antropólogos tiveram afinidades com o anarquismo. Um dos primeiros textos etnográficos foi o livro de Elie Reclus chamado Primitive Folk, publicado em 1903 e que traz o subtítulo “studies in comparative ethnology”. Baseia-se em informações derivadas de relatos de viajantes e missionários, e tem aquele sabor evolucionário dos escritos do final do século XIX, contudo com lucidez e simpatia a povos como os Apache, Nayar, Toda e Inuit. Reclus declara a igualdade moral e intelectual dessas culturas com a dos chamados “estados civilizados”. É interessante que ele tenha usado o agora familiar termo Inuit, que significa “povo”, em vez do termo francês esquimó. Elie Reclus era o irmão mais velho de Elisée, o geógrafo anarquista mais famoso.

Outro antropólogo francês com simpatias anarquistas foi Célestin Bouglé, que escreveu não apenas um estudo clássico do sistema de castas indiano (1908) – que teve profunda influência sobre Louis Dumont – mas também um importante estudo sobre Proudhon. Bougle foi um dos primeiros a afirmar, em 1911, de forma controversa, que Proudhon foi um pensador sociológico de primeira. De fato, havia uma estreita relação entre a tradição sociológica francesa, centrada em Durkheim, e o socialismo e o anarquismo, embora o próprio Durkheim fosse antagônico à ênfase anarquista no indivíduo. Durkheim era uma espécie de socialista de guilda, mas seu sobrinho Marcel Mauss escreveu um estudo clássico, Ensaio sobre a dádiva (1925), que se concentrou na troca recíproca ou de presentes entre culturas pré-alfabetizadas. Este pequeno texto não é apenas de certa forma um tratado anarquista, mas é um dos textos fundamentais da antropologia, lido por todo antropólogo iniciante. Os antropólogos britânicos têm menos ligação com o anarquismo, mas vale a pena notar que um dos chamados “pais” da antropologia britânica, A.R. Radcliffe-Brown foi anarquista em sua juventude.

Alfred Brown era um rapaz de Birmingham, que conseguiu, com a ajuda de seu irmão, chegar à Universidade de Oxford. Lá, duas influências foram importantes para ele. Uma delas foi o filósofo do processo Alfred Whitehead, cuja teoria organísmica teve profunda influência em Radcliffe-Brown. A outra foi Kropotkin, cujos escritos ele assimilou. Em seus dias de estudante em Oxford, Radcliffe-Brown era conhecido como “Anarchy Brown”. Infelizmente, o ambiente ideológico de Oxford falou mais alto. Mais tarde, ele se tornou uma espécie de aristocrata intelectual e mudou seu nome para “AR Radcliffe-Brown”. Mas, como escreveu Tim Ingold (1986), os escritos de Radcliffe-Brown são permeados por uma sensação de que a vida social é um processo, embora, como a maioria dos funcionalistas durkheimianos, ele tendesse a minimizar questões relacionadas a conflito, poder e história.

Brian Morris


Referências

BOUGLÉ, Célestin. La sociologie de Proudhon. Colin, 1911.

INGOLD, Tim. Evolution and social life. Cambridge: Cambridge Univ. Press, 1986.

RECLUS, Élie. Primitive folk: studies in comparative ethnology. Walter Scott, 1891.

MAUSS, Marcel. The gift: the form and reason for exchange in archaic societies. New York: WW Norton, 1925.


Mary Douglas e a outra origem do estruturalismo


Mary Douglas (1921-2007)


Qualquer estudante de ciências sociais esbarrou com a palavra estruturalismo durante sua formação acadêmica.

É muito provável que esse estudante lembre-se que a palavra estava associada há pelo menos duas outras: linguística e antropologia. 

A narrativa mais recorrente nos anos de formação é a seguinte: 

A antropologia estrutural foi inaugurada por Lévi-Strauss ao "aplicar" a abordagem de Saussure ao estudo dos mitos e do parentesco.

Que abordagem seria essa?

A de que a língua é um sistema em que um elemento se define pela relação com os demais.

Nesse sentido, a letra se define em relação a outras letras e, assim, formam uma palavra. A palavra se define em relação a outras palavras, formando uma frase. A frase se define em relação a outras frases, dando forma a um texto.

A ideia principal é a de sistema. Este é formado por elementos que se relacionam entre si. Eles formam um "todo" 

O ganho epistemológico disso é que nenhum objeto pode ser devidamente entendido por si, mas em relação a outros objetos. 

A antropóloga Mary Douglas entende que a aplicação dessa abordagem à sociedade não foi inaugurado pelo etnólogo americanista Lévi-Strauss, mas pelo antropólogo africanista Evans-Pritchard.

Douglas ainda afirma que a origem do estruturalismo não estaria na linguística, mas na psicologia da gestalt. 

Lendo os agradecimentos que ela escreveu em seu livro Pureza e Perigo (1966), encontrei sua própria narrativa da origem e invenção da antropologia estrutural. 

Assim escreveu a autora:

"A abordagem estrutural tem sido amplamente disseminada desde as primeiras décadas deste século, particularmente através da influência da psicologia da Gestalt. Somente teve um impacto direto em mim através do professor Evans-Pritchard em sua análise do sistema político dos Nuers (1940)" (Douglas, [1966], 2014, p. 8).

Mais adiante, ela continua:

"(...) Evans Pritchard viu que ele poderia fazer uma análise política de um sistema que não tivesse órgãos centrais de governo, e onde o peso da autoridade e as tensões do funcionamento político estivessem dispersas por toda estrutura do corpo político (Ibid.)".

E finaliza:

"Assim, a análise estrutural estava no ar da Antropologia antes de Lévi-Strauss ser estimulado pela Linguística Estrutural a aplicá-la ao parentesco e mitologia" (Ibid).

É interessante ouvir outro ponto de vista sobre uma narrativa tão comum nas ciências sociais como a da origem da abordagem estrutural. 

No entanto, Douglas (1966) não desenvolve seu argumento sobre a origem gestaltiana do estruturalismo, algo que eu gostaria de ter lido. 

Outro ponto é que a autora não está equivocada ao associar estrutura e sistema, contudo ao reduzir a primeira ao segundo, talvez, a origem desse "sistemismo" não estivesse em Pritchard nem Lévi-Strauss, mas no velho Durkheim. 

Raphael Cruz


Referência

DOUGLAS, Mary. Pureza e perigo [1966]. São Paulo: Perspectiva, 2014.

Florestan e o camponês polonês


Fazer buscas na internet é algo que tem proporcionado conhecer objetos que eu nem sequer desconfiava da existência.

Como essa resenha de Polish peasant in Europe and America, de Thomas e Znaniecki, escrita por Florestan Fernandes e publicada na Revista de Antropologia da USP (vol. 8, no. 2, 1960, pp. 166–168).

Trata-se de resenha da reedição de 1958, composta por dois volumes, diferenciando-se da edição original de 1918 – 1920, publicada em cinco volumes.

No início de sua resenha, Florestan nomeia a obra Polish peasant de “revolução metodológica” que inaugura a “era moderna da sociologia” como “ciência especial e empírico-indutiva”.

Lembro-me que ele havia citado a “contribuição metodológica” dessa dupla de autores em seu ensaio A sociologia: objeto e principais problemas (In: Ensaios de sociologia geral e aplicada. São Paulo: Pioneira, 1960, pp. 11–45).

Ao final da resenha, Florestan recomenda à obra tanto àqueles que se iniciam nos “segredos da pesquisa” quanto aos já veteranos na sociologia.

Pode-se constatar que à época, Florestan recepcionou de maneira positiva a obra, que àquela altura, quarenta anos após a primeira edição, tornara-se canônica.


Raphael Cruz





Radcliffe-Brown no Brasil

 


Correio Paulista, 27 de março de 1942


Fazendo uma busca por Emilio Willems na internet, me deparei com essa notícia da chegada de Radcliffe-Brown ao Brasil.

Foi interessante notar como tinha algum impacto o deslocamento de cientistas sociais entre os países, ao ponto disso ser noticiado.

Não era qualquer cientista. Era o "conhecido antropologista inglês", como é referido neste jornal. Brown é lembrado pelos estudantes de ciências sociais no Brasil como o "pai do estrutural-funcionalismo", uma interessante alcunha que associa um termo de parentesco a uma escola teórica.

Após essa notícia, busquei por outras, e achei algumas referentes as suas conferências e, inclusive, uma que registra o jantar de despedida ofertado pelos cientistas brasileiros ao "conhecido antropologista inglês".


Raphael Cruz

As guerras da antropologia

Ruth Benedict (1887-1948)


A antropologia serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra?

Existe um manual de contra-insurgência elaborado pelo estrategista Nathan Finney com a colaboração de antropólogos e utilizado nas ações do exército americano no Oriente Médio.

O manual se chama Human Terrain Team Handbook (2008) e vazou para o público há alguns anos via Wikileaks.

Através do documento é possível analisar a aplicação da antropologia na ocupação americana do Afeganistão e do Iraque.

Mas antes mesmo desse manual, os antropólogos culturais como Margareth Mead e Ruth Benedict já haviam participado dos "esforços de guerra" dos EUA.

Os estudos de “culture and personality”, como O crisântemo e a espada (1946), de Benedict, sobre a cultura do povo japonês, foram incorporados a máquina dos Aliados na II Guerra Mundial.

Naquela época, pelo menos, poderia argumentar-se que estavam combatendo o nazismo.

Antes mesmo disso, Malinowski, no prefácio ou apresentação de Crime e costume na sociedade selvagem (1926), falava do auxílio da antropologia no processo de dominação política e econômica dos “povos selvagens”.

Listo esses exemplos para demarcar certos aspectos da história da disciplina frente à romantização e encantamento acrítico, que, às vezes, percebo, na fala das pessoas sobre o que é a antropologia e o que é ser antropólogo.

Não se trata de condenar a antropologia como imperialista, existem importantes estudos no passado recente da disciplina com coloração anti-imperialista, como Europa e os povos sem história de Eric Wolf, além das mais recentes contribuições produzidas pela fertilização cruzada entre antropologia e pensamento decolonial. 

Contudo, refletir sobre como as classes dominantes em determinados contextos instrumentalizaram a disciplina para atender seus interesses econômicos e geopolíticos, faz parte dos esforços de preservar a criticidade frente aos interesses da máquina de guerra do Estado e do capital.

Quanto ao manual de contra-insurgência elaborado com a ajuda de antropólogos, ele foi contestado pela American Anthropological Association por ferir o Código Disciplinar de Ética, pois o material faz parte do setor de espionagem do Departamento da Defesa, ficando, assim, não sujeito a revisão externa, o que o qualificou como não sendo um “exercício legítimo de antropologia profissional”. 

Raphael Cruz

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