Normatividade imanente: uma nota sobre o modo proudhoniano de investigar e solucionar a questão social

Se você ler Proudhon, algo que não passa desapercebido é que os momentos "interpretativo" e "normativo" não aparecem separados em sus escrita, eles estão constantemente entrelaçados.

Em O Que é a Propriedade? (1840) e em Filosofia da Miséria (1846), Proudhon procura, simultaneamente, 1) descrever o funcionamento efetivo das instituições sociais e 2) revelar as tendências normativas imanentes a esse funcionamento.

Ele não procede como um "economista clássico", que primeiro descreve os fatos e depois, em separado, formula prescrições políticas.

Tampouco age como um "socialista utópico" que parte de um ideal abstrato de sociedade para julgar a realidade.

Seu método consiste em 1) investigar as categorias econômicas — propriedade, valor, divisão do trabalho, concorrência, crédito, monopólio — como 2) realidades históricas concretas e, ao mesmo tempo, 3) como portadoras de contradições internas que 4) apontam para formas superiores de organização social.

Em O Que é a Propriedade?, por exemplo, a famosa tese de que "a propriedade é um roubo" não é apresentada apenas como um juízo moral.

Proudhon procura demonstrar que a propriedade privada, tal como existe, contradiz os próprios princípios jurídicos que pretende defender — liberdade, igualdade e reciprocidade.

A crítica é simultaneamente "descritiva" e "normativa": ele mostra como 1) a instituição funciona e, ao mesmo tempo, por que 2) ela é incompatível com seus próprios fundamentos declarados.

Algo semelhante ocorre em Filosofia da Miséria.

A análise do valor, da divisão do trabalho ou da concorrência busca 1) explicar mecanismos efetivos da economia moderna, mas cada categoria é 2) examinada também sob a perspectiva da justiça e da reciprocidade que ela promete realizar sem conseguir cumprir plenamente.

Por isso, pode-se dizer que Proudhon opera em "três níveis simultâneos":

1. "Analítico-descritivo": no qual explica como funcionam as instituições econômicas e sociais.

2. "Crítico-diagnóstico": no qual revela as contradições internas dessas instituições.

3. "Normativo-imanente": identifica, dentro das próprias contradições, princípios que apontam para formas mais justas de organização social.

Esse terceiro aspecto é importante.

Diferentemente de muitos pensadores socialistas de sua época, Proudhon raramente apresenta um modelo acabado de sociedade futura.

Seu "normativismo" é geralmente "imanente", isto é, extraído das próprias tendências presentes na realidade social.

Quando fala de mutualidade, reciprocidade, constituição do valor ou federação, ele não pretende introduzir princípios "externos" à sociedade existente, mas desenvolver possibilidades que já estariam "latentes" nas relações econômicas e sociais.

Ouso dizer que a sua obra procura responder simultaneamente a duas perguntas: 1°como a sociedade funciona? e 2° quais princípios de justiça emergem das próprias contradições desse funcionamento?

É justamente essa "dupla preocupação" que confere à sua escrita o caráter híbrido e, por vezes, difícil de classificar como observado nas leituras de O Que é a Propriedade? e Filosofia da Miséria.

A normatividade imanente em Proudhon oferece um método de crítica social que evita dois extremos: o "conservadorismo", que aceita as instituições tal como são, e o "utopismo", que as julga a partir de ideais externos à realidade histórica.

Nota conceitual e metodológica acerca da tripla dimensão do valor nos capítulos II e III de Filosofia da Miséria (1846) de Proudhon

 No capítulo II, "Do valor", de Filosofia da Miséria (1846), dedicado ao problema do "valor", Proudhon distingue três formas elementares de valor. 

O "valor de utilidade" refere-se à capacidade que um bem possui de satisfazer necessidades humanas, independentemente de seu preço ou de sua circulação no mercado; assim, a água, os alimentos ou a terra possuem elevado valor de utilidade porque são indispensáveis à vida.

O "valor de troca", por sua vez, corresponde à capacidade que um bem tem de ser trocado por outros bens, expressando uma relação social que depende da oferta, da procura e das condições do mercado; nesse caso, um objeto pode ter pouca utilidade prática e, ainda assim, alcançar elevado valor de troca devido à sua raridade. 

A tensão entre essas duas formas de valor leva Proudhon a formular a ideia de "valor constituído", entendido como um valor regulado pela quantidade de trabalho social incorporada na produção de um bem. 

O valor constituído representaria uma medida objetiva e justa das trocas, capaz de reconciliar "utilidade" e "troca", superando as oscilações arbitrárias do mercado e estabelecendo uma "equivalência" fundada no "trabalho". 

Assim, enquanto o "valor de utilidade" expressa a relação entre o bem e as necessidades humanas, e o "valor de troca" expressa a relação entre os produtores no mercado, o "valor constituído" aparece como a síntese reguladora que permitiria "harmonizar" essas duas dimensões contraditórias da vida econômica.

No capítulo III, "A Divisão do Trabalho", Proudhon retoma a categoria do "valor" como fundamento da economia política e a apresenta sob uma forma explicitamente triádica. 

Segundo ele, o valor manifesta-se sucessivamente como "valor útil", que expressa a aptidão de um bem para satisfazer necessidades; "valor trocável", que expressa sua capacidade de ser permutado no mercado; e "valor sintético" ou "valor social", que resulta da síntese dos dois primeiros e constitui o “valor verdadeiro”. 

Proudhon sustenta que o valor útil e o valor trocável se encontram em "relação contraditória", mas que essa contradição não é estéril: ela "impulsiona o desenvolvimento" econômico e conduz à constituição progressiva de um valor socialmente determinado, fundado na "proporcionalidade" dos produtos e na "solidariedade" das trocas. 

O "valor sintético" aparece, assim, como a "forma superior" do valor, capaz de "reconciliar" utilidade e troca numa ordem econômica orientada pela "justiça" e pela "equivalência". 

Em comparação com o capítulo II, "Do Valor", observa-se menos uma "mudança" de teoria do que uma "reformulação" sistemática de seus elementos. 

No capítulo II, Proudhon havia identificado a "oposição" fundamental entre "valor de utilidade" e "valor de troca", mostrando que a abundância tende a reduzir o valor de mercado dos bens, enquanto a raridade tende a elevá-lo. 

A partir dessa antinomia, introduziu a noção de "valor constituído", entendida como o valor "regulado" pelo "trabalho" e pela "proporcionalidade" das trocas. 

No capítulo III, essa formulação é reorganizada numa estrutura dialética mais explícita: o valor útil corresponde à "tese", o valor trocável à "antítese" e o valor sintético ou social à "síntese". 

Assim, o que antes aparecia como uma "solução" para a "contradição" do valor passa a ser apresentado como o resultado necessário do "desenvolvimento" interno das categorias econômicas. 

A inovação do capítulo não está na "criação" de novos tipos de valor, mas na "explicitação" de sua "articulação" lógica e de seu papel como fundamento da "evolução" econômica e social.  

Embora a exposição do capítulo III pareça adotar uma "estrutura hegeliana" — valor útil, valor trocável e valor sintético ou social —, o desenvolvimento efetivo da obra sugere uma lógica distinta, mais próxima daquilo que posteriormente será identificado como a dialética "serial" e "antinômica" de Proudhon.

O "valor constituído", apresentado no capítulo II como "síntese" entre "utilidade" e "troca", não "resolve" definitivamente a contradição inicial; ao contrário, ele "abre" caminho para uma nova antinomia.

A "divisão do trabalho", que deveria realizar a "proporcionalidade" dos produtos e a constituição do valor social, produz simultaneamente riqueza e miséria, progresso técnico e degradação do trabalhador.

Teoria do valor em Filosofia da miséria (1846), de Proudhon

O mesmo movimento reaparece ao longo de toda a obra: as "máquinas" surgem para corrigir os efeitos da divisão do trabalho, mas engendram novas contradições; a "concorrência" aparece para combater os privilégios do monopólio, mas produz novos monopólios; o "crédito" procura corrigir os desequilíbrios da concorrência, mas cria novas formas de dependência e dominação. 

A "série", portanto, nunca se encerra numa "síntese" final. 

Por essa razão, intérpretes como Gurvitch, Ansart, Bancal e Prichard sustentam que a "lógica profunda" de Proudhon não é a da "superação" dialética hegeliana (Aufhebung), mas a de uma "sucessão" de antinomias que se corrigem parcialmente sem jamais se resolverem definitivamente, fazendo da "contradição" permanente o próprio motor do desenvolvimento social e econômico.

Entre a tríade e a antinomia: uma nota metodológica sobre a dialética de Proudhon em O que é a propriedade? (1840)

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Na Seção 1 da Segunda Parre do Capítulo sexto de O que é a Propriedade? (1840), Pierre-Joseph Proudhon aciona uma dialética marcada por uma interessante "ambiguidade metodológica".

De um lado, o autor recorre explicitamente ao esquema hegeliano de "tese", "antítese" e "síntese", apresentando o comunismo como primeiro termo do desenvolvimento social, a propriedade como seu contrário e uma futura forma de associação como resultado de sua reconciliaçãoa, a liberdade. 

Nessa formulação, a "síntese" parece desempenhar uma função próxima à Aufhebung hegeliana, isto é, um movimento simultâneo de "negação", "conservação" e "superação" dos termos em conflito. 

A propriedade, nascida da faculdade de raciocínio, entrincheira-se por trás das comparações. Mas, assim como a reflexão e a razão são subsequentes à espontaneidade, a observação à sensação e a experiência ao instinto, também a propriedade é subsequente ao comunismo. O comunismo — ou associação, em sua forma mais simples — é o objeto necessário e a aspiração original da natureza social, o movimento espontâneo pelo qual ela se manifesta e se estabelece. É a primeira fase da civilização humana. Nesse estado de sociedade — que os juristas chamaram de comunismo negativo — o homem se aproxima do homem e compartilha com ele os frutos do campo e o leite e a carne dos animais. Pouco a pouco, esse comunismo — negativo enquanto o homem não produz — tende a se tornar positivo e orgânico por meio do desenvolvimento do trabalho e da indústria. Mas é então que a soberania do pensamento e a terrível faculdade de raciocinar lógica ou ilogicamente ensinam ao homem que, se a igualdade é a condição sine qua non da sociedade, o comunismo é a primeira espécie de escravidão. Para expressar essa ideia por meio de uma fórmula hegeliana, direi: 
O comunismo — a primeira expressão da natureza social — é o primeiro termo do desenvolvimento social — a tese; a propriedade, o oposto do comunismo, é o segundo termo — a antítese . Quando tivermos descoberto o terceiro termo, a síntese , teremos a solução necessária. Ora, essa síntese resulta necessariamente da correção da tese pela antítese. Portanto, é necessário, por meio de um exame final de suas características, eliminar aqueles traços que são hostis à sociabilidade. A união dos dois remanescentes nos dará a verdadeira forma da associação humana.

De outro lado, o próprio modo como Proudhon constrói essa síntese já anuncia elementos que se tornariam característicos de sua reflexão posterior: em vez da simples "absorção" de um termo pelo outro em uma "unidade superior", ele procura identificar os aspectos "positivos" e "negativos" de cada "polo", "conservando" certos elementos e "rejeitando" outros. 

A "contradição" aparece, assim, simultaneamente como um "momento" a ser superado e como uma "tensão" constitutiva da realidade social. 

Esse "duplo movimento" sugere que a obra ocupa uma posição intermediária na evolução de seu pensamento, situando-se entre uma dialética ainda fortemente influenciada pela lógica da Aufhebung e a futura dialética serial e antinômica, na qual os contrários deixam de convergir para uma "síntese final" e passam a constituir relações permanentes de "equilíbrio", "reciprocidade" e "tensão dinâmica".

A invenção da anarquia: nota conceitual sobre o uso político e sociológico do termo por Proudhon em O que é a propriedade? (1840)

Em O que é a Propriedade? (1840), Pierre-Joseph Proudhon atribui ao termo "anarquia" um significado distinto do que correntemente lhe era associado. Longe de representar caos, desordem ou ausência de organização social, a anarquia aparece como uma forma superior de ordem fundada na liberdade, na igualdade e na associação entre os indivíduos. 

Definida como a "ausência de um mestre, de um soberano", ela corresponde à superação do governo do homem pelo homem, considerado uma forma de opressão, e à substituição da "soberania da vontade" pela "soberania da razão". 

Nessa perspectiva, a sociedade não necessita de reis, chefes ou governantes para manter sua coesão, pois a ordem pode emergir da livre associação e da cooperação entre indivíduos iguais. 4

Por isso, Proudhon afirma que "a liberdade é anarquia" e que a sociedade encontra sua máxima perfeição na "união da ordem com a anarquia", fazendo desse conceito não uma negação da organização social, mas a expressão de uma sociedade livre de dominação política e fundada na autogestão das relações coletivas.

A "anarquia" aparece, portanto, como um conceito político-normativo que designa uma forma de organização social fundada na ausência de soberanos, na livre associação dos indivíduos e na superação do governo do homem pelo homem. 

Mais do que uma simples noção, é uma categoria central da reflexão proudhoniana, articulada aos princípios da liberdade, da igualdade, da razão e da ordem social, funcionando simultaneamente como "instrumento de crítica" das instituições existentes e como "horizonte de transformação" da sociedade.

Traduzida para um vocabulário sociológico contemporâneo, a "anarquia" em Proudhon pode ser entendida como um modelo de autogestão social baseado na livre associação, na horizontalidade das relações, na descentralização do poder e na coordenação coletiva sem estruturas permanentes de dominação. 

Em vez de representar ausência de organização, ela designa uma forma de ordem social emergente, produzida pela cooperação entre indivíduos livres e iguais, sem a separação entre governantes e governados que caracteriza o Estado e outras instituições hierárquicas.

Sob essa perspectiva, a anarquia pode ser interpretada também como uma "categoria sociológica" emergente. 

Ao afirmar que a sociedade busca "ordem na anarquia" e que a associação entre os indivíduos pode substituir o governo do homem pelo homem, Proudhon acaba por deslocar a questão da ordem social do campo da "autoridade" para o das "relações sociais". 

A "anarquia" deixa então de designar apenas um "ideal político" e passa a funcionar como uma categoria para pensar as condições de produção da "coesão social" sem soberanos, chefes ou estruturas permanentes de dominação. 

Sua originalidade reside em sugerir que a "ordem" pode emergir da "livre associação", da cooperação e da interdependência entre indivíduos livres e iguais, antecipando uma problemática que, décadas mais tarde, se tornaria central para a sociologia francesa e a antropologia africanista. 

Do conhecimento da realidade à transformação da sociedade: uma reconstrução do método na obra tardia de Bakunin (1870–1873)

 Em Considerações Filosóficas (1870-1871), a preocupação de Mikhail Bakunin está na crítica da metafísica e na defesa de um "percurso epistemológico" que parte do "concreto", produz "abstrações" explicativas e "retorna ao concreto". O foco recai sobre o "problema do conhecimento". 

Bakunin procura demonstrar como a ciência deve operar: 1) observando os seres reais, 2) formulando generalizações e 3) recolocando essas abstrações em contato com a realidade histórica efetiva. 

Trata-se de um método que poderíamos caracterizar como empírico, relacional e histórico.

Já em Estatismo e Anarquia (1873), essa mesma estrutura é deslocada para o "terreno da crítica social" e política.

O que antes aparecia como movimento entre "concreto" e "abstrato" passa a assumir a forma de uma articulação entre "positivo" e "negativo". 

O "positivo" corresponde ao momento da observação e da reconstrução da realidade existente. O "negativo" corresponde à crítica das contradições e formas de dominação reveladas por essa análise.

Dessa forma, é possível inferir que o par "positivo-negativo" constitui uma operacionalização política do movimento "concreto-abstrato-concreto" formulado anteriormente. 

Observa-se, então, uma "transição" do problema do conhecimento da realidade para a questão da transformação da sociedade. 

Em ambos os casos, Bakunin rejeita a dedução de modelos ideais a partir de princípios abstratos. 

O conhecimento nasce da realidade concreta e retorna a ela.

A principal conclusão é que, entre 1870 e 1873, Bakunin parece consolidar um método que combina empirismo, historicidade, análise relacional e crítica dialética.

O conhecimento deve partir da realidade, reconstruir suas determinações e revelar suas contradições internas. 

A função da teoria não é projetar modelos perfeitos de sociedade, mas compreender o mundo existente de modo suficientemente profundo para identificar aquilo que nele precisa ser negado e transformado.

Essa talvez seja uma das formulações metodológicas mais consistentes presentes em seus "escritos tardios" da década de 1870.

O positivo e o negativo no método bakuniniano em Estatismo e anarquia (1873)

Nas reflexões desenvolvidas por Mikhail Bakunin em Estatismo e Anarquia (1873), é possível identificar um procedimento metodológico fundado na relação entre o "positivo" e o "negativo" como momentos distintos, porém complementares, da análise da "realidade social". 

O ponto de partida é sempre o "positivo", entendido como a realidade efetivamente existente, os fatos concretos e as formas históricas de organização social. 

Em oposição ao método metafísico, que parte de abstrações para tentar deduzir a vida, Bakunin sustenta que o conhecimento deve avançar do "concreto" ao "abstrato", dos "fatos" às "ideias" que os explicam. 

Entretanto, a apreensão do "real" não se encerra na descrição do "existente". 

O momento seguinte é o "negativo": a crítica das contradições, limites e formas de dominação presentes na realidade. 

Inspirado na tradição hegeliana da negação, mas deslocando-a para o terreno histórico e social, Bakunin concebe a "crítica" como instrumento de "desvelamento" e "superação" das estruturas existentes. 

A ciência não é capaz de determinar positivamente as formas futuras da sociedade, mas pode identificar, por meio da crítica rigorosa do presente, aquilo que deve ser negado. 

Assim, a negação da propriedade hereditária, do Estado e das relações de exploração emerge não como uma construção utópica arbitrária, mas como resultado lógico da análise das contradições do mundo existente. 

O movimento metodológico bakuniniano consiste, portanto, em partir do "positivo" (a realidade concreta), atravessá-lo pelo "negativo" (a crítica de suas contradições) e, a partir dessa tensão, abrir possibilidades históricas para novas formas de liberdade e organização social que não podem ser previamente determinadas em todos os seus detalhes.

O método perseguido por Proudhon: nota sobre o capítulo I de O que é a Propriedade? (1840)

 No primeiro capítulo de O que é a Propriedade? (1840), Pierre-Joseph Proudhon desenvolveu um método de investigação baseado na crítica dos pressupostos que fundamentam a legitimidade das instituições sociais.

Em vez de aceitar a propriedade como um "fato natural" ou um "direito evidente", ele a transformou em "problema" e submeteu seus fundamentos a um exame crítico. 

Seu procedimento consistiu em 1) partindo das justificativas tradicionalmente apresentadas em defesa da propriedade — como a ocupação, o trabalho e a lei — para 2) analisá-las até as suas últimas consequências lógicas, 3) buscando revelar as contradições existentes entre os "princípios" proclamados e os "efeitos" efetivamente produzidos na vida social. 

Pode-se concluir que o método proudhoniano deslocou a investigação do plano da "legalidade" para o da "legitimidade", permitindo questionar racionalmente instituições historicamente aceitas ainda que socialmente injustas.

O retorno ao concreto: nota sobre o método bakuniniano em Considerações filosóficas sobre o fantasma divino, sobre o mundo real e sobre o homem (1870–1871)

 Em seu manuscrito Considerações Filosóficas sobre o Fantasma Divino, sobre o Mundo Real e sobre o Homem (1870–1871), Bakunin sugere uma concepção metodológica particularmente interessante ao defender um movimento permanente entre o "concreto" e o "abstrato".

Para ele, o "conhecimento" não deve começar por "princípios metafísicos", essências ou categorias pré-estabelecidas, mas pelos "seres reais", pelas relações efetivas e pelos processos históricos concretos.

A partir da "observação" da realidade, o pensamento produz "abstrações" que permitem identificar "regularidades", conexões e determinações mais amplas. 

Contudo, a investigação não pode encerrar-se nesse nível "abstrato". Os conceitos devem retornar ao mundo "concreto" do qual surgiram, iluminando a diversidade, a historicidade e o movimento dos fenômenos.

Bakunin observa que a vida realiza constantemente a passagem do concreto para o abstrato e do abstrato para o concreto, acrescentando que este "retorno ao concreto" é precisamente o momento que frequentemente "falta" à ciência.

Seu método implícito sugere articulação entre observação empírica, análise relacional, reconstrução histórica e crítica das abstrações que pretendem substituir a própria realidade.

Uma genealogia das instituições? Nota metodológica acerca da carta de Proudhon a Bastiat sobre a renda da terra

 Uma das contribuições metodológicas mais interessantes presentes na carta de Pierre-Joseph Proudhon sobre a origem da renda da terra para Frederic Bastiat (1849) reside em sua tentativa de "reconstruir" historicamente a "formação" das instituições econômicas. 

Em vez de tomar a propriedade, a renda da terra, o juro ou o aluguel como "fatos naturais", ele investiga as "condições históricas" que tornaram possível seu aparecimento, recuando às formas sociais que os antecederam. 

Esse procedimento permite identificar "conexões" frequentemente invisíveis entre instituições aparentemente distintas, revelando uma "continuidade histórica" que liga a escravidão, a servidão, a renda fundiária, o juro e o aluguel. 

Para Proudhon, essas formas não constituem "fenômenos isolados", mas diferentes manifestações de um "mesmo problema": a apropriação do trabalho e dos meios de existência por grupos que controlam a terra, o capital ou outros recursos indispensáveis à vida social.

Embora separados por contextos históricos e referenciais teóricos distintos, é possível identificar uma aproximação metodológica entre Proudhon e Michel Foucault. Em ambos os casos, o interesse não recai sobre a busca de "essências" ou fundamentos universais das instituições, mas sobre a "reconstrução" dos processos históricos que as tornaram "possíveis".

Ao perguntar não apenas "o que são" essas instituições, mas "como surgiram" e "quais transformações" as produziram, seu método oferece uma espécie de "genealogia" das instituições, capaz de revelar as "permanências" das relações de dominação por trás das "mudanças" de suas formas históricas.

Bandeira da AIT

Viagem de campo a Algodões

A convite do camarada @gisvaldooliveira fui com suas turmas do curso de História da UESPI até o município de Nazaré, terra de Esperança Garcia.

Visitamos e dialogamos com os moradores de Algodões. 

Ouvimos suas histórias e demandas por uma sede para a associação local, um trator e uma política agrícola voltada às necessidades da agricultura camponesa como estratégia para gerar emprego, renda e evitar a migração.

Uma manhã enriquecedora e acolhedora. Fomos guiados por Tina, da comunidade Quilombola de Artur Passos, e acolhidos na casa da família de Martinho, com  mesa farta. 

Também conheci a Mariana, professora do curso de Direito da UESPI, que me presenteou com o livro Dossiê Esperança Garcia, organizado pela saudosa professora Sueli Rodrigues e Mairton Celestino, em sua 2° edição revista e ampliada.

Conhecendo Harriet Martineau

 


A pedido da colega Fernanda Alcântara, da Universidade Federal de Juiz de Fora, do Laboratório Harriet Martineau, gravei este vídeo para o Instagram comentando brevemente sobre como travei contato inicial com a obra de Martineau.

Leituras de março

Mauro Assis, Imprensa radical: a trajetória do periódico Regeneración (1910-1918).

Orlandeli, Chico Bento: viola.

Explicando o modelo sindical da CNT [Tradução]



por Miguel G. Gómez (@blackspartak)

Dadas as dúvidas em torno do atual modelo sindical da CNT, apresentarei um panorama histórico para contrastá-lo com o modelo de representação unitária (conselhos de fábrica), bem como para destacar a continuidade e os paralelos entre diferentes exemplos e períodos. Portanto, analisaremos esses modelos desde suas origens para facilitar sua compreensão. 

A representação “unitária”

Começaremos por recuar até à época da Primeira Guerra Mundial. Nessa altura, o Segundo Reich alemão precisava de garantir a produção industrial para a guerra. Para isso, exigia que a classe trabalhadora industrial fabricasse tudo o que o exército necessitava para travar as suas batalhas. Os sindicatos alemães eram esmagadoramente dominados pela social-democracia, e esta última tinha concordado em ir à guerra ao lado da burguesia e da aristocracia nacionais — destruindo, aliás, a Segunda Internacional. Como o Estado alemão não queria problemas com os trabalhadores, garantiu a existência desses sindicatos. 

Contudo, em locais onde não existiam sindicatos, era preciso encontrar uma forma de manter os trabalhadores em silêncio… mas ainda assim impedi-los de formar sindicatos. A solução foi nomear representantes sindicais eleitos pelos operários da fábrica. Esses representantes eram responsáveis ​​por negociar as condições de trabalho com a empresa. A social-democracia aceitava que esses delegados operários estariam subordinados às necessidades da produção em tempos de guerra e que a organização seria hierárquica. Mais tarde, uma facção radical emergiria entre esses representantes, conhecida como Trabalhadores Revolucionários, que defendia a autonomia da classe trabalhadora e que foi a semente do Partido Comunista do pós-guerra, mas essa é outra história. [1]

Consideremos o terror que a Revolução Russa, os sovietes húngaro e bávaro, os conselhos operários alemães e os motins nas marinhas francesa e britânica, entre outros casos, representaram para a burguesia internacional. A classe trabalhadora ameaçava com a revolução social em todos os lugares, e era preciso encontrar algum meio de sufocar sua inquietação. O melhor que os vencedores da Grande Guerra conseguiram foi atender a algumas de suas reivindicações históricas.

O Tratado de Versalhes de 1919 estabeleceu um organismo internacional para regular as relações laborais: a Organização Internacional do Trabalho (OIT). Vale lembrar que o destino da Europa foi decidido em Versalhes. Em sua declaração de fundação, a OIT falou sobre garantir a paz futura por meio da justiça social e laboral. Em outras palavras, todos estavam bem cientes das reivindicações da classe trabalhadora. Essas frases ainda aparecem no site da OIT. Hoje, ela é uma agência das Nações Unidas. 

A OIT foi estruturada como uma organização supranacional, composta por delegações de seus Estados-membros. O termo "liberdade sindical" foi cunhado em suas declarações iniciais. [2] As delegações eram tripartidas, com representantes do Estado, das associações patronais e das organizações operárias. Essa instituição internacional era liderada pela burguesia liberal progressista, pela social-democracia e pelo movimento operário. A Espanha participou da OIT desde o início, na primeira Conferência de Washington. O primeiro representante sindical espanhol foi Francisco Largo Caballero, líder da UGT (União Geral dos Trabalhadores). Ele foi eleito para o Conselho de Administração. 

Mas espere um minuto. O maior sindicato espanhol em 1919 era a CNT. Então, o que a UGT estava fazendo na OIT? 

O mesmo acontecia com as delegações de trabalhadores de outros países, como a Holanda, que levavam sindicatos menores (mas mais complacentes) à OIT em vez de sindicatos maiores (mas mais radicais). A chave está no Artigo 389.3 da OIT, que afirma que as “organizações profissionais mais representativas” são aquelas que comparecem, juntamente com representantes do Estado e dos empregadores, de cada país, à Conferência anual da organização. [3]

Assim, cada estado criou seu próprio sistema para determinar qual sindicato era o mais representativo. Em alguns casos, baseava-se na filiação, em outros em algum tipo de disputa eleitoral para avaliar sua força em relação a outros sindicatos. Mas em outros casos, era uma completa anarquia, na qual os governos indicavam os sindicatos de sua escolha. Seja qual for o método, o fato é que, por insistência de organizações internacionais, foram criados órgãos tripartites para mediar as relações trabalhistas na época. 

Em consonância com esse espírito, no Estado espanhol, já em 1919 e 1920, começaram a ser aprovadas leis de tipo corporativista que criavam comissões mistas e conjuntas do trabalho baseadas no interesse social, que nada mais eram do que o “estabelecimento de órgãos e regras que permitam a solução harmoniosa de todas as diferenças que possam surgir entre empregadores e empregados […] antes que se transformem em conflitos” (4). Em outras palavras: evitar greves, sabotagens, boicotes e toda aquela luta operária que empoderava o proletariado e lhe dava a perigosa ideia de fazer a Revolução Social. 

Após o golpe de Estado de Miguel Primo de Rivera (1923), a UGT (União Geral dos Trabalhadores) participou das comissões mistas ou de paridade da ditadura. Isso ocorreu a pedido de Largo Caballero, que defendia a participação nas instituições de Primo de Rivera que tratavam de questões sociais. De fato, ele próprio atuou no Conselho de Estado. A ditadura pretendia criar um "parlamento corporativista" no qual tanto empregadores quanto trabalhadores seriam representados. Para isso, seriam necessárias eleições sindicais. No entanto, esse projeto jamais foi implementado. Desnecessário dizer que as decisões de Largo Caballero provocaram uma tempestade política dentro do movimento socialista, que, em sua maioria, discordou de toda a situação. 

Também podemos observar esse tipo de instituição mediadora na criação dos júris mistos em 1931, [5] durante a Segunda República. A lei foi promulgada pelo Ministro Republicano do Trabalho e da Previdência Social, Largo Caballero. A função dos júris mistos era regular as relações trabalhistas. Eles eram compostos por representantes de associações patronais e representantes de associações operárias. A CNT (Conferência Nacional sobre o Trabalho) defendeu o boicote a eles desde o início, e, portanto, os júris mistos nunca conseguiram se desenvolver suficientemente ou se consolidar.

Vejamos agora qual era a proposta anarcossindical no âmbito empresarial. 

Os comitês de fábrica 

Em 1931, em seu Terceiro Congresso, a CNT aprovou a criação de comitês de fábrica e oficina como complemento necessário aos Sindicatos Unificados. Até então, os sindicatos eram representados apenas pelo delegado, responsável pela arrecadação das mensalidades e com poder para negociar coletivamente com a empresa. Mas a CNT desejava que essa implementação fosse mais profunda e alinhada ao objetivo anarcossindicalista de socialização das empresas. Propuseram que esses comitês tivessem uma dupla missão: "essa missão, além de ser a confirmação prática do federalismo, é um ato de penetração, primeiro, e de gestão, depois.". [6]

Os comitês de fábrica serviram para descentralizar o sindicato e estender sua estrutura a centenas de locais de trabalho. Dessa forma, os conflitos seriam gerenciados diretamente pelos novos comitês e não precisariam mais recair sobre os ombros dos sindicatos individuais ou das seções locais, que controlavam os delegados. 

Neste caso, quando falo de seções, estou me referindo aos tipos de ofícios em que os sindicatos industriais eram subdivididos. Por exemplo, marmoristas ou estucadores formavam seções dos sindicatos da construção civil. Estas não devem ser confundidas com as seções sindicais de hoje. Eram remanescentes das antigas associações de trabalhadores que se fundiram nos sindicatos unificados.

Portanto, o comitê de fábrica tinha que realizar uma tarefa, que chamavam de "penetração", para ser admitido como representante dos trabalhadores, obter acesso ao controle estatístico da produção e promover a formação do proletariado nos aspectos organizacionais e administrativos da economia. Esperava-se que esses comitês de fábrica fossem responsáveis ​​pela gestão das empresas assim que a Revolução Social começasse. 

Os militantes revolucionários da época conseguiam explicar a função desses comitês e como eles se encaixavam nos planos revolucionários do movimento libertário. Por exemplo, Buenaventura Durruti, em um comício antes das eleições de novembro de 1933, para as quais a CNT e a FAI defendiam a abstenção, expressou-se com estas palavras:

"A FAI aconselha os trabalhadores da CNT, visto que a CNT controla as fábricas e os locais de produção, a não abandonarem seus postos; a permanecerem junto às máquinas e, em caso de tentativa de ditadura ou golpe militar, a responderem de forma plena e enérgica, como for necessário. Os comitês técnicos e de fábrica devem estar vigilantes. Um conselho também aos membros da FAI: Seu posto se estende além da fábrica. Lembremo-nos da Itália. A ação complementar é essencial. Diante do fascismo de Gil Robles, diante de qualquer tentativa militar ou de outra natureza, os trabalhadores devem tomar imediatamente as fábricas. Os homens da FAI irão para outros lugares para completar a revolução iniciada com a tomada dos meios de produção." [7]

Em outras palavras, em uma revolta proletária, os trabalhadores devem tomar as fábricas, e os comitês de fábrica são responsáveis ​​por administrá-las. Enquanto isso, os revolucionários "nas ruas" lançarão uma ofensiva para controlar todos os pontos estratégicos da cidade ou região. Esse é o mesmo esquema que foi seguido após 19 de julho de 1936, e é o prelúdio para as coletivizações industriais que proliferaram no território republicano. 

A união vertical

Durante os primeiros anos do regime franquista, Franco retirou a Espanha da OIT (1941), acreditando que os nazistas venceriam a guerra. Isso se deu em parte para usar mão de obra escrava na reconstrução do país e em parte para continuar a acumulação de capital sem precedentes e criminosa pelos vencedores. A maioria das empresas listadas no IBEX 35 tem origem nesse saque.

Contudo, em 1944, ficou claro que os Aliados venceriam a guerra. O regime decidiu mudar completamente de postura para projetar uma imagem mais aberta. Para esse fim, criou um único sindicato hierárquico ao qual todos eram obrigados a pertencer. Obviamente, todas as associações empresariais, organizações agrícolas e sindicatos anteriores foram dissolvidos. O regime não pretendia legalizar a UGT e a CNT, que haviam lutado contra ele na guerra de 1936 e já se organizavam clandestinamente naquela época.  

Assim, naquele ano, a Organização Sindical Espanhola (OSE) foi lançada como instrumento do Estado totalitário, com a missão de implementar a política econômica. A OSE era dirigida pela Falange e tinha representação em diversas instituições estatais (câmaras municipais, conselhos provinciais, as Cortes, etc.). Promovia a harmonia e a colaboração entre as classes sociais num sentido corporativista e fascista, típico do início do período franquista. Mas o aspecto que interessava à classe trabalhadora era que uma das funções da OSE seria transmitir as aspirações dos produtores às camadas superiores da sociedade. [8] 

A partir de 1944, também foram realizadas eleições sindicais para escolher delegados, denominados representantes sindicais e júris empresariais. Esses órgãos resolviam conflitos trabalhistas no Tribunal do Trabalho. Percebe-se, portanto, que se tratava de um órgão mediador em consonância com as práticas da OIT. 

Naquela época, numerosos sindicalistas, antigos membros da UGT ou da CNT, foram eleitos como representantes sindicais pelos seus colegas. Não se tratava de uma questão política, mas sim prática, uma vez que eram eles os mais bem preparados para defender os interesses dos trabalhadores e os que melhor conheciam a legislação. No caso dos militantes da CNT, quando um deles era eleito representante sindical, era expulso da Confederação por colaboração com o regime. Nesse período (1944-47), os movimentos guerrilheiros estavam no auge, e era até comum pensar que os Aliados interviriam em Espanha assim que a Segunda Guerra Mundial terminasse. 

Em 1948, Stalin convocou o Partido Comunista para uma reunião em Moscou. Foi nesse momento que abandonaram a guerrilha e seus membros foram incentivados a participar dos canais oficiais da ditadura franquista. Consequentemente, o PCE (Partido Comunista Espanhol) criou a Oposição Sindical Operária na década de 1950, seguindo instruções da URSS, com a missão de participar dos processos eleitorais dos sindicatos oficiais, controlados pelo Estado. Inicialmente, não obtiveram resultados positivos, mas gradualmente ganharam experiência e conseguiram tirar proveito de leis específicas, como o regulamento que regia os conselhos de fábrica (1953) e os acordos coletivos de trabalho (1958). Por fim, alcançariam considerável influência dentro do movimento operário e até mesmo dentro dos próprios sindicatos oficiais. Um desses líderes, formado durante esse período, foi Marcelino Camacho.

Foi durante esses anos que a Espanha começou a se alinhar com a Europa em diversos aspectos, inclusive trabalhista. Isso levou ao seu retorno à OIT em 1956. Perante a comunidade internacional, o regime franquista apresentou as eleições sindicais como justificativa para sua liberalização social. A partir desse momento, a Espanha franquista passou a se alinhar com as potências econômicas do bloco ocidental durante a Guerra Fria. Como resultado, os Estados Unidos alertaram sobre o crescente poder dos comunistas nas eleições sindicais. Portanto, na década de 1960, fortaleceram a social-democracia em conjunto com a Alemanha. Quadros socialistas e da UGT (União Geral dos Trabalhadores) foram treinados para competir contra os comunistas também no ambiente de trabalho. 

Entretanto, no início da década de 1960, os líderes sindicais do PCE começaram a se organizar em comitês de trabalhadores dentro das empresas para negociar coletivamente. Essa abordagem obteve um sucesso estrondoso nas eleições sindicais de 1966 e, a partir daí, o regime franquista perdeu parte do controle sobre o movimento operário, que se radicalizou cada vez mais nos anos seguintes, principalmente de 1969 até a morte do ditador. 

A Transição 

A intervenção decisiva dos Estados Unidos e da Alemanha conseguiu estabelecer uma social-democracia forte na Espanha, que havia sido marginal durante o regime franquista. No que diz respeito às relações trabalhistas, após a aprovação da Constituição em 1978, o Estatuto dos Trabalhadores foi promulgado em 1980. Enquanto este estava em tramitação, ocorreram as eleições sindicais de 1978. O Estado se viu na necessidade de conciliar as expectativas dos comunistas, que se consideravam os claros vencedores dessas eleições, com a necessidade de fortalecer a recém-formada UGT (União Geral dos Trabalhadores). Portanto, manteve o modelo anterior, mas o abriu para candidatos sindicais, que seriam representados nos conselhos de fábrica, como desejavam os socialistas. Esses conselhos seriam eleitos pelos trabalhadores de uma empresa ou local de trabalho.

Podemos entender isso como uma solução à la Salomão: por um lado, apaziguaram os comunistas, que já eram hábeis em vencer essas eleições, e por outro, criaram um contrapeso à UGT, que na época exigia representação sindical. É um acordo muito típico do período da Guerra Fria na Europa Ocidental. O novo sistema funcionava de maneira muito semelhante ao que funcionava sob Franco, mas com a liberdade de filiar-se a qualquer sindicato. 

Mas, para resumir o período de transição, é necessário compreender outros aspectos do contexto: 

Em primeiro lugar, houve a enorme militância dessa época, que teve início no período anterior. O número de greves disparou para níveis sem precedentes. Assembleias proliferaram em locais de trabalho e bairros. Houve inúmeras manifestações e, sobretudo, esperanças de mudanças substanciais. Além disso, o anseio por liberdade criou um clima político e social totalmente novo, muito aberto e assertivo, que fomentou o associativismo em todas as esferas da vida.

Em segundo lugar, a CNT foi reconstituída bastante tarde, em 1976, atraindo setores da classe trabalhadora insatisfeitos com a CC.OO. e aqueles mais alinhados emocionalmente com a CNT histórica. Naquela época, a Confederação era muito heterogênea e variava consideravelmente de um lugar para outro. Deve-se acrescentar que ela nunca foi um sindicato tão grande quanto a propaganda anarco-sindicalista da época afirmava, embora tivesse considerável influência social, em parte graças à juventude da classe trabalhadora e, em alguns casos, à contracultura.  

Em terceiro lugar, com a assinatura dos Pactos de Moncloa (1977), os políticos e militares do "bunker" pós-franquista pretendiam deixar tudo "sob controle e em segurança". Concordaram com políticos e sindicatos de esquerda numa paz social duradoura para inaugurar uma era de desenvolvimento e entrada numa sociedade de consumo. Um dos elementos-chave dos pactos foi a aprovação de eleições sindicais, a serem realizadas no ano seguinte. Como vimos, a principal intenção era apaziguar as duas principais federações sindicais em troca da sua renúncia a greves significativas. 

Até então, a UGT se opunha às eleições sindicais, pois buscava restaurar a estrutura dos sindicatos históricos, assim como a CNT. Por sua vez, as Comissões Operárias se estruturariam formalmente como uma central sindical em 1976, já que planejavam participar das eleições sindicais de 1978, destinadas a sindicatos legalmente constituídos, e não a grupos de trabalhadores auto-organizados. Elas elegeram Marcelino Camacho como Secretário-Geral. 

Em quarto lugar, por volta de 1978, uma grave crise se instalou. Isso levou a uma queda na filiação sindical, e muitas pessoas abandonaram o movimento sindical devido ao aumento do desemprego e ao fechamento de muitas empresas. Isso marcou o início do que ficou conhecido como "desencantamento". Também desencadeou crises significativas em todas as organizações revolucionárias de esquerda, que viram a janela de oportunidade aberta após a morte de Franco se fechar. Essa nova situação pode ser explicada por uma combinação de problemas internacionais, mudanças geopolíticas, ações do Estado e seus infiltrados na esquerda, ascensão da sociedade de consumo, uso de heroína, violência policial, terrorismo, fascistas nas ruas, e assim por diante. Todos esses fatores contribuíram para esse desencantamento em diferentes graus. 

O ciclo terminou com o golpe de Tejero, a Copa do Mundo de 1982 e a vitória esmagadora do PSOE nas eleições. Agora, vejamos a trajetória do anarcossindicalismo após o auge de 1975-78. 

A CNT foi a única a rejeitar completamente as eleições sindicais. Mesmo assim, alguns membros da CNT participaram das eleições sindicais de 1978. Sob a bandeira da CNT, 413 delegados foram eleitos, apesar da recusa formal da Confederação em participar desses processos eleitorais. Essa recusa foi reafirmada no Congresso da CNT em dezembro de 1979. O argumento da CNT para não participar era que essas eleições quebravam a unidade efetiva da força de trabalho nos locais de trabalho, pois forçavam os trabalhadores a participar de disputas eleitorais. A CNT também defendia, como vimos anteriormente, um retorno à estrutura dos sindicatos tradicionais. Além disso, naquela época, a CNT dava grande ênfase à autogestão. Embora não fosse equiparada ao comunismo libertário, essa autogestão servia para moldar uma era em que as empresas estavam fechando e podiam ser convertidas em cooperativas por seus trabalhadores, uma aspiração compartilhada pelo anarcossindicalismo. 

Pouco depois, em meados de 1980, um grupo de sindicatos que havia desafiado o Quinto Congresso se reuniu em Valência para criar uma nova organização. Ela ficou conhecida como "Congresso da CNT Valência". Nos anos seguintes, a CNT expulsou outros sindicatos, perpetuando o clima amargo de divisão e conflito que havia começado na primavera de 1978. 

Em 1983, para o seu Sexto Congresso, a CNT publicou os seus acordos em vigor até então. [9] Os comités de fábrica e de oficina continuavam a ser listados como um elemento fundamental. O texto era uma simples adaptação dos acordos de 1931, embora fosse evidente que se referiam à secção sindical. 

É relevante observar, nesse mesmo jornal, a avaliação que fizeram de como haviam conduzido suas negociações coletivas até então. Em sua autocrítica, destacaram os seguintes fatores: os acordos da organização eram excessivamente teóricos e ideológicos, muito distantes da realidade trabalhista do país; os membros eram jovens e inexperientes, carecendo de preparo para a negociação coletiva; as disputas internas impediam críticas construtivas, e havia muita desconfiança entre os membros, o que impedia a busca por soluções práticas por medo de serem rotulados como "reformistas"; haviam dado muita importância às eleições sindicais, ignorando o fato de que muitas pessoas não participavam delas; suas seções sindicais não tinham presença suficiente, recorrendo a queixas junto aos outros grandes sindicatos; o programa da CNT não havia sido comunicado de forma eficaz aos membros; e, por fim, reconheceram a vulnerabilidade de muitas seções, que ficaram à deriva, isoladas, sem o apoio de seus próprios sindicatos. [10]

Naquela época (1983), a CNT aprovou uma reivindicação pela dissolução dos conselhos de fábrica e pelo fortalecimento das seções sindicais como forma de representação dos trabalhadores nas empresas. Aceitaram a realização de eleições, mas apenas para medir o grau de representação sindical nas empresas sem ter que recorrer à mobilização constante, e não para construir um órgão intermediário entre a empresa e os trabalhadores. [11]

Contudo, naquela época, havia vários sindicatos filiados à CNT que defendiam a participação nas eleições sindicais. A proposta deles era retirar o poder dos comitês internamente e promover a participação dos trabalhadores em assembleias organizadas pelos próprios comitês. Essa opção ganhou considerável apoio em 1983, chegando até a vencer brevemente o congresso. Mas o acordo foi rapidamente modificado e o assunto foi abafado, para grande indignação de seus defensores.

Isso levou ao Congresso de Unificação Confederal, realizado em 1984. Nessa época, um número significativo de sindicatos da CNT-AIT, favoráveis ​​à participação nas eleições sindicais, aderiram à nova organização, denominada CNT-Unificada. Em outras palavras, juntaram-se aos sindicatos que haviam se desligado e sido expulsos da CNT. Em poucos anos, essa organização precisou mudar de nome, tornando-se a atual CGT. 

O modelo sindical da CNT

A CNT levou muitos anos para implementar seu modelo. Embora já o tivesse em vigor em 1983, a Confederação estava tão enfraquecida por problemas internos e pela incapacidade de compreender que um modelo sindical também exigia ação sindical consistente, que reagiu lentamente, permanecendo em grande parte teórica. É por isso que, em diversos congressos da CNT, surgiram propostas para participar das eleições sindicais, demonstrando uma falta de confiança em seu próprio modelo.

Em 1985, o governo aprovou a Lei Orgânica da Liberdade Sindical. Essa lei reconhecia os direitos das seções sindicais. Na realidade, ela copiava as diretrizes da OIT sobre liberdade sindical. 

A partir de então, a CNT concentrou-se em aprimorar seu próprio modelo, apesar de seu pequeno porte. Durante esse período, dada a sua fragilidade, muitas seções sindicais foram reduzidas ao mínimo, incluindo seções compostas por apenas uma pessoa, a fim de defender os empregos contra represálias da empresa. Essa prática coexistiu com a existência de algumas seções significativas. 

De um modo geral, os seções cresciam durante períodos de conflito e desapareciam durante períodos de calmaria, como durante as greves nos estaleiros na década de 1980. Mas a perspectiva mudou radicalmente no início dos anos 2000 com as greves de Tomares, Mercadona e, posteriormente, Caprabo, onde as lições das anteriores foram aprendidas e novos seções foram fortalecidos nos locais de trabalho.

Embora alguns indícios de um modelo distinto tenham começado a surgir no Congresso de Bilbao em 1990, esse congresso, na verdade, focou mais no outro modelo. No Congresso de Granada em 1995, um modelo sindical separado foi teorizado, mas carecia de desenvolvimento prático. Foi somente a partir de 2008-09 que um modelo sindical distinto foi discutido com mais clareza e incorporado definitivamente aos acordos de ação sindical da CNT no Congresso de Córdoba em 2010. Seu desenvolvimento deu mais um passo adiante no Congresso de Saragoça em 2015 e atingiu sua maturidade final no Congresso de Canovellas em 2022. 

O modelo baseia-se no que chamamos de representação sindical, que já discutimos detalhadamente. Dentro das seções sindicais, os cargos e as tarefas são distribuídos. É a atividade sindical, e não os cargos, que protege você da repressão e das demissões por parte da empresa, portanto, todos os membros da seção devem cumprir as obrigações sindicais. Quanto mais trabalho sindical demonstrável você realizar, maior será a sua proteção. 

Todos os cargos (delegado, secretário de prevenção, secretário de organização, tesoureiro, secretário de igualdade, etc.) são revogáveis ​​a qualquer momento pela assembleia. Isso permite o controle democrático da seção, que nomeará quem julgar adequado para desempenhar as funções necessárias. Esses membros podem distribuir informações relacionadas ao trabalho fora do horário de expediente, receber informações enviadas pelo sindicato, cobrar as mensalidades dos membros, e assim por diante. 

O modelo sindical da CNT baseia-se na filiação, ou seja, em um número suficiente de membros. É isso que confere legitimidade à seção local. Para alcançar melhorias por meio da negociação coletiva, é preciso ter força. As seções locais podem negociar acordos justos, aumentos salariais ou opor-se a demissões em massa. 

Durante muitos anos, toda uma rede de proteção legal foi implementada para esses setores graças a inúmeras decisões judiciais que a CNT venceu pacientemente. A Organização adaptou-se a esse sistema e criou seus próprios recursos para apoiar os setores em conflito, como o Escritório Técnico Confederal e o Fundo de Resistência Confederal.

Em comparação, na década de 90, a dinâmica na CNT era reclamar da discriminação injusta sofrida pela Confederação, cujas seções tinham o acesso ao quadro de avisos, aos horários, às instalações do sindicato, etc., negado.

No caso dos conselhos de empresa, a CNT os considera órgãos sobre os quais os sindicatos têm pouco controle real e dos quais a autonomia da classe trabalhadora é negada. Ter autonomia implicaria ter estruturas organizacionais que não sejam mediadas pelo Estado ou pelos empregadores. O importante é saber quem nomeia nossos representantes nas empresas e qual órgão é responsável por implementar as ações sindicais. 

Não podemos esquecer que um conselho de trabalhadores é um órgão coletivo onde as decisões são tomadas por maioria simples. Portanto, depende do equilíbrio de poder entre os diferentes sindicatos que o compõem. Em outras palavras, o que importa não é simplesmente ter presença, mas sim ter maioria no conselho.

Encontramos muitos candidatos nas eleições sindicais que nem sequer são membros do sindicato que representarão na comissão. Encontramos representantes sobre os quais os seus próprios sindicatos não têm qualquer controle, e seções sindicais de outros sindicatos sem poder de ação, uma vez que toda a ação concreta é delegada ao órgão unificado, o conselho de fábrica. Portanto, não há absolutamente nenhuma possibilidade de algo que se assemelhe a uma ação direta. Que tipo de mobilização podem eles promover nestas circunstâncias?

Um comitê desse tipo, sem apoio real (embora algum apoio exista), não é considerado uma ameaça séria para a empresa. Não custa nada para as empresas montar uma chapa de candidatos com familiares ou funcionários alinhados aos interesses da administração. Afinal, é a empresa que define as urnas e é perfeitamente capaz de influenciar os resultados. Essas chapas pró-empresa competem com as apoiadas pelos trabalhadores. E isso sem levar em conta que as eleições sindicais acontecem a cada quatro anos e que a maioria dos sindicatos não aproveita esse período para garantir melhorias imediatas, mas sim para incluí-las em sua plataforma e ver se conseguem votos… “e então, talvez”, essas melhorias sejam negociadas. 

É por isso que a CNT acredita ser melhor organizar-se coletivamente dentro do mesmo sindicato por meio de uma seção local, que pode então agir imediatamente. E isso será feito sem subsídios ou tempo sindical concedido pela empresa, o que pode parecer uma desculpa ideológica, mas é uma forma muito real de pressão usada pelas empresas. O anarcossindicalismo é mais prático do que ideológico, mesmo que possa parecer o contrário, e rejeitar esses privilégios serve para garantir nossa autonomia de classe. Tudo isso é feito para que o controle permaneça com o sindicato, a seção local e os trabalhadores que a compõem. Em última análise, baseia-se na construção de uma rede associativa dentro das empresas — poder popular, poder operário ou como quisermos chamar. 

Mais especificamente, dentro dos atuais acordos da CNT, as seções locais devem apresentar suas próprias reivindicações. Particularmente importantes são aquelas relacionadas à igualdade de gênero e ao respeito à diversidade LGBTQ+, que devem ser garantidas pela seção tanto dentro da empresa quanto em suas relações internas. Da mesma forma, a seção pode começar imediatamente a defender questões relacionadas à transição socioambiental, como auxílio-transporte, redução de resíduos, melhoria da segurança, higiene e reciclagem, redução da poluição e do impacto ambiental, e qualquer outra questão que considerem pertinente. Em um contexto de decrescimento, as seções locais podem propor mudanças na forma como os setores produtivos operam e transformar os métodos de produção. Nesse caso, tudo depende da força e também do grau de politização de cada seção, uma responsabilidade que recai sobre os sindicatos e sua capacidade de capacitação. 

Outro aspecto notável é que a atual CNT possui um programa revolucionário adaptado ao século XXI. Embora seja um processo de longo prazo, entende-se que as seções locais também precisam estar preparadas. Por exemplo, se o objetivo for controlar o acesso ao emprego, as seções sindicais devem colaborar com agências de emprego e associações de desempregados, facilitando entrevistas bem-sucedidas durante o processo seletivo. Ou, se for realizada uma análise setorial, as seções de um setor específico podem colaborar. E com isso, fechamos o ciclo deste artigo, retornando à ideia da seção sindical como semente da socialização das empresas dentro da implementação do comunismo libertário. 

Final

Hoje, a Confederação ultrapassou o número de membros de 1983 e está presente em centenas de empresas. Podemos afirmar que o crescente descontentamento com o modelo de conselho de empresa após quatro décadas, e o fato de o atual panorama empresarial ser cada vez mais composto por pequenas empresas, também contribuem para esse cenário. De qualquer forma, considerando as atuais taxas de sindicalização, todos os sindicatos têm um potencial significativo de crescimento, e não devemos nos desculpar, visto que na Espanha existem 20 milhões de trabalhadores assalariados sem representação sindical e, portanto, sem qualquer modelo sindical. 

A CNT precisa aprimorar sua estrutura, pois muitas pessoas não estão acompanhando o ritmo e nem todos os sindicatos têm as mesmas capacidades. Será necessário continuar avaliando o que funcionou e o que não funcionou nos últimos anos, a fim de melhorar o modelo e alcançar um salto definitivo. 

E, para concluir, vou repetir as duas ideias principais do debate sobre modelos sindicais: a) é importante como os sindicatos nomeiam seus representantes dentro das empresas; e b) é importante saber onde concentramos o peso da nossa atuação sindical. 


Notas de Rodapé

1. Para conocer la historia de esos representantes revolucionarios Alejandro Andeasi Cieri (2019). “Delegados revolucionarios de empresa [Revolutionäre Obleute] y movimiento consejista en la Gran Guerra y en la Revolución alemana de 1918-1919”. UAB Nuestra Historia, vol. 8, 2019, pp. 67-90. https://www.aacademica.org/alejandro.andreassi.cieri/25.pdf

2. É direito dos trabalhadores formar sindicatos ou filiar-se a qualquer sindicato de sua escolha. Este direito está consagrado no Artigo 28 da Constituição Espanhola. Portanto, trata-se de um direito fundamental de acordo com o direito internacional. Este direito deriva dos Direitos Humanos. A primeira vez que este direito foi conquistado foi na Inglaterra, em 1824. Ou seja, o sindicalismo existiu primeiro, e os direitos civis e políticos básicos foram conquistados posteriormente, e nunca o contrário.

3. Carlos Molero Manglano. Los sindicatos más representativos. https://vlex.es/vid/sindicatos-representativos-205924505

4. Daniel Vallès Muiño (2020). “El Ministerio de Trabajo 1920-1923: Iniciativas normativas relevantes. Corporativismo, Casas Baratas e Inspección de Trabajo.” IUSLabor 2/2020 https://www.google.com/url?sa=t&source=web&rct=j&opi=89978449&url=https://www.raco.cat/index.php/ IUSLabor/article/download/370078/466109/

5. O texto da lei pode ser lido aqui: https://www.boe.es/gazeta/dias/1931/11/28/pdfs/GMD-1931-332.pdf 

6. Atas do Congresso da CNT. Madrid, 1931 

7. Solidaridad Obrera, 17/11/1933, pág. 3

8. Glicerio Sánchez Recio. El sindicato vertical como instrumento político y económico franquista. Univeridad de Alicante.

9. CNT , fevereiro de 1983 

10. Ibid.

11. Outra resolução de interesse foi o pedido de controle sindical da Previdência Social, que nunca foi implementado .

Modo de produção comunal na Espanha rural insurgente (1936-1939) [Tradução]

Fonte

Apresentação

Esta é a tradução para o português da conclusão do artigo de Myrna Margulies Breitbart intitulado "Anarchist decentralism in rural Spain, 1936-1939: The integration of community and environment" (Fonte), publicado originalmente em 1978 na revista de geografia radical Antipode. Recomenda-se a leitura integral do texto para melhor contextualizar os argumentos apresentados na Conclusão. O título da postagem é uma criação do autor do blog, ainda que faça jus aos argumentos da autora do artigo.

Raphael Cruz

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Conclusão do texto "Anarchist decentralism in rural Spain, 1936-1939: The integration of community and environment"

por Myrna Margulies Breitbart

A insurreição fascista de julho de 1936 ofereceu aos camponeses espanhóis a primeira oportunidade real de tomar a terra e implementar, em larga escala, princípios comunais anarquistas. Iniciou-se uma sequência de transformações que teve origem nas relações sociais, prosseguiu na organização econômica e técnica e terminou por promover grandes alterações no uso do tempo e do espaço. Uma revolução social que começou transformando as pessoas acabou criando um ambiente totalmente novo.

Antes de 1936, os camponeses espanhóis viviam uma contradição. Suas rotinas diárias eram divididas, temporal, espacial e experiencialmente, entre o trabalho — sobre o qual tinham pouco controle — e a vida social — sobre a qual possuíam controle limitado e alguma recompensa pessoal. Interesses capitalistas e feudais dominavam diretamente os ritmos de tempo e espaço do trabalho. Indiretamente, também afetavam as rotinas sociais da vida nas aldeias, tornando difícil que camponeses e trabalhadores satisfizessem suas necessidades comuns de saúde, educação e cultura.

A propriedade comunal da terra e a eliminação das classes nas áreas anarquistas após julho de 1936 substituíram a propriedade privada da terra e as hierarquias de poder capitalistas ou feudais. Um aparato administrativo que exigia a participação de todos os membros trabalhadores de cada coletivo sustentou essas mudanças e alterou profundamente as relações produtivas. Os trabalhadores passaram a compartilhar a responsabilidade pelas decisões e pela coordenação das tarefas. As transformações fundamentais nas relações sociais de produção também estimularam a cooperação entre diferentes ramos da agricultura e da indústria, bem como entre cidade e campo.

O controle sobre os meios de produção agrícola levou à ampliação do uso de recursos e à modificação das técnicas de cultivo. As mudanças combinadas nas relações sociais e técnicas foram então acompanhadas por grandes alterações no uso do espaço em níveis locais e regionais. Os camponeses diversificaram o plantio e construíram sistemas de irrigação que colocaram em cultivo terras que permaneciam incultas havia gerações. Pela primeira vez em séculos, o problema da fome foi eliminado.

A preocupação com a autonomia local não fechou horizontes na Espanha anarquista — ao contrário, abriu-os. Embora os coletivos individuais buscassem a autossuficiência nas necessidades básicas para reduzir a dependência externa, também estabeleceram fortes vínculos intercomunais. O objetivo dessas trocas coletivas era proporcionar às aldeias acesso a uma maior variedade de bens e serviços, permitindo assim certa especialização em nível regional. As federações regionais também ajudaram a integrar a produção agrícola e industrial, fornecer às coletividades rurais uma ligação crucial com mercados e suprimentos internacionais e oferecer assistência técnica.

Em um sentido muito concreto, essas redes permitiram que aldeias que, de outro modo, permaneceriam isoladas mantivessem sua autonomia e viabilidade econômica diante de severos obstáculos de guerra.

O modo de produção comunal também alterou o conteúdo e o significado da vida social, permitindo que os camponeses incorporassem diretamente princípios libertários às rotinas cotidianas. As tensões criadas pela guerra e por uma jornada de trabalho extremamente exigente poderiam sugerir que os camponeses não encontrariam satisfação pessoal nessa existência comunal. No entanto, o fato de perceberem suas vidas como menos tediosas indica que o tédio era tanto produto de estresse mental e contradição pessoal quanto de esforço físico.

Antes da coletivização, o estresse entre os camponeses vinha de ter de viver duas vidas contraditórias: uma vida social comunal, porém secreta, e uma existência econômica competitiva marcada pela incapacidade de controlar os meios de produção. A coletivização permitiu que os trabalhadores escapassem da autoridade opressiva e exercessem prerrogativas pessoais sobre suas vidas econômicas e sociais. Essa humanização dos valores econômicos e sociais gerou novos ritmos de vida e produziu a energia necessária para reduzir o impacto dos enormes problemas que ainda permaneciam.

A tomada do controle da própria vida pelos camponeses anarquistas em 1936 enterrou grande parte do esgotamento associado ao antigo modo de vida. Por um curto período, ao menos uma parte da Espanha conseguiu desenvolver um modo de produção que sustentava — em vez de contradizer — os comportamentos que as pessoas valorizavam em sua vida social.

O anarquismo e todos os vestígios de liberdade foram removidos da Espanha em 1939, depois que Franco, auxiliado por Hitler e Mussolini, alcançou a vitória militar. Milhares de militantes foram executados diariamente diante de pelotões de fuzilamento, no que foi descrito como “uma contínua orgia de assassinatos, uma Noite de São Bartolomeu que durou seis anos” (Peirats, 1977: 342).

Se adotarmos a visão de Malatesta e deixarmos de medir o sucesso das revoluções apenas por sua vitória política final, torna-se claro que os anarquistas espanhóis têm vários êxitos construtivos a apresentar. Melhorias imensas e duradouras foram realizadas na paisagem econômica rural como resultado da coletivização. Embora não discutido neste trabalho, a escala e a importância da coletivização urbana e do controle operário da indústria também foram grandes, impressionando “até observadores altamente hostis” (Chomsky, 1969: 78).

Os anarquistas demonstraram a importância de considerar tanto o local de trabalho quanto a comunidade como terrenos de luta e como espaços nos quais relações cooperativas poderiam ser reavivadas. Como a mudança social radical não foi iniciada por organizações elitistas e hierárquicas, as questões emergiram das lutas da vida cotidiana e as pessoas puderam transformar-se em agentes ativos de mudança.

Os sindicatos industriais e os coletivos agrícolas também redefiniram o conceito de eficiência, alcançando formas de organização mais produtivas do que empresas tanto do setor privado quanto do setor estatal.

O descentralismo anarquista foi, porém, mais do que um processo social ou uma forma espacial: baseava-se em uma filosofia de vida inteiramente nova. Suas características — autogestão, integração das atividades econômicas e sociais, pequena escala e federalismo — tinham como objetivo desenvolver qualidades humanas positivas.

O fato de os anarquistas espanhóis terem conseguido fazê-lo é indicado pelos traços pessoais de seus militantes: pessoas dispostas a cooperar com outras em todos os níveis, capazes de compreender as necessidades alheias e responder a elas, que mantinham interesse e entusiasmo em seu trabalho apesar das longas horas, que viviam próximas da natureza e a respeitavam, e que conseguiam conduzir suas vidas complexas de forma responsável sem recorrer a formas arraigadas de autoridade.

Embora os anarquistas tenham sofrido derrota política e militar na Espanha em 1939, isso não ocorreu sem deixar algo concreto para os revolucionários do presente: as realizações práticas de controle comunitário e operário e um povo impregnado de uma profunda compreensão das raízes da liberdade pessoal na ação social.

A origem do preço da terra [Tradução]

Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865)


por Pierre-Joseph Proudhon (Fonte)

(Carta dirigida ao economista Frédéric Bastiat, publicada originalmente em A Voz do Povo, 1849)

Expliquei anteriormente que, na Antiguidade, o proprietário de terras, quando nem ele nem sua família cultivavam a terra — como ocorreu entre os romanos nos primeiros dias da República — fazia com que ela fosse cultivada por seus escravos; essa era a prática geral das famílias patrícias. Então a escravidão e o solo eram bens encadeados; o agricultor, chamado glebae adscriptus, era ligado à terra; a posse de homens e coisas era indistinta. O preço de uma fazenda dependia (1) de sua extensão e da qualidade do solo, (2) da quantidade de bens e (3) do número de escravos.

Quando foi proclamada a emancipação dos escravos, o proprietário perdeu seus homens e conservou a terra; assim como hoje, na libertação dos negros, deixamos ao senhor sua propriedade da terra e dos bens. No entanto, do ponto de vista da lei antiga, assim como do direito natural e cristão, o homem nascido para trabalhar não pode prescindir dos instrumentos de trabalho; os princípios da emancipação implicam a promulgação de uma lei agrária que lhe garanta e proteja o uso desses instrumentos; de outro modo, essa pretensa emancipação não seria senão um ato de odiosa crueldade, um engano infame. E se, como disse Moisés, o juro ou a renda anual reembolsa o capital, não se poderia dizer também que a servidão reembolsa a propriedade? Os teólogos e legisladores da época não compreenderam isso e, por uma contradição irreconciliável que ainda subsiste, continuaram no caminho da usura, mas absolveram o aluguel.

O resultado foi que o escravo se emancipou e, alguns séculos mais tarde, o servo emancipado, sem meios de subsistência, viu-se obrigado a tornar-se arrendatário e pagar tributo. O proprietário tornou-se ainda mais rico.

“Vou emprestar-te dez peças”, dizia o homem abastado ao trabalhador; “usarás e depois dividiremos os lucros; ou então, enquanto mantiveres meu dinheiro, pagar-me-ás um vigésimo; ou, se preferires, ao final do empréstimo devolverás o dobro do que recebeste.”

Dessa prática surgiu a renda da terra, desconhecida entre os russos e os árabes. A exploração do homem pelo homem, graças a essa transformação, assumiu a forma de lei: a usura, condenada sob a forma de empréstimo a juros, tolerada no contrat à la grosse, foi exaltada sob a forma de renda fundiária. A partir desse momento, o progresso comercial e industrial serviu para torná-la cada vez mais comum. Isso foi necessário para exibir todas as variedades da escravidão e do roubo e para estabelecer a verdadeira lei da liberdade humana.

Uma vez comprometida nessa prática, a sociedade começou a girar no círculo de suas misérias. A desigualdade das condições passou a parecer uma lei da civilização, e o mal, uma necessidade de nossa natureza. Dois caminhos, contudo, pareciam abrir-se aos trabalhadores para libertar-se da exploração pelo capitalista: um era, como já disse anteriormente, o equilíbrio gradual dos valores e, consequentemente, a diminuição do preço do capital; o outro era a reciprocidade dos benefícios.

Mas é evidente que a renda do capital, representada principalmente pelo dinheiro, não pode ser totalmente destruída por sua diminuição; como bem dizes, senhor, se meu capital não me rendesse nada, em vez de emprestá-lo eu o conservaria, e o trabalhador, por ter recusado pagar o dízimo, ficaria sem trabalho. Quanto à reciprocidade da usura, ela é certamente possível entre contratante e contratante, capitalista e capitalista, proprietário e proprietário; mas entre proprietário, capitalista, contratante e o trabalhador comum é absolutamente impossível. É impossível, digo, enquanto o lucro comercial do capital for acrescentado aos salários como parte do preço da mercadoria, obrigando o trabalhador a readquirir aquilo que ele mesmo produziu. Viver trabalhando é um princípio que, enquanto existir o juro, implica uma contradição.

O absurdo da teoria capitalista demonstra-se pelo absurdo de suas consequências; a perversidade inerente aos resultados do juro revela-se por seus efeitos homicidas; e, como a propriedade começa e termina na renda e na usura, estabelece-se sua afinidade com o roubo. Pode ela existir sob outras condições? De minha parte, digo que não; mas esta é uma investigação alheia à questão que discutimos, e não entrarei nela.

Observemos agora a situação de ambos, capitalista e operário, como resultado da invenção do dinheiro, do poder da espécie e da analogia estabelecida entre o empréstimo de dinheiro e o arrendamento de terras e casas.

O primeiro — e é necessário justificá-lo até mesmo aos teus olhos — dominado pelo preconceito em favor do dinheiro, não pode despojar-se gratuitamente de seu capital em favor do trabalhador. Não porque tal despojamento constitua sacrifício, já que em suas mãos o capital é improdutivo; nem porque incorra em risco de perda, pois, mediante garantia hipotecária, assegura o reembolso; nem porque o empréstimo lhe cause o menor incômodo, salvo contar o dinheiro e verificar a garantia; mas porque, ao despojar-se para sempre de parte de seu dinheiro — desse dinheiro que, por sua prerrogativa, é, como se disse com razão, o poder — o capitalista diminui sua força e sua segurança.

Seria diferente se o ouro e a prata fossem apenas mercadorias ordinárias; se a posse de moedas não fosse considerada mais desejável que a posse de trigo, vinho, azeite ou couro; se a simples capacidade de trabalho desse ao homem a mesma segurança que a posse de dinheiro.

Ora, essa necessidade imposta ao capitalista por um preconceito involuntário e generalizado é, aos olhos do trabalhador, o mais vergonhoso dos roubos e a mais odiosa das tiranias, a tirania da força.

Quais são, de fato, as consequências teóricas e práticas para a classe trabalhadora — essa porção vital, produtiva e moral da sociedade — do empréstimo a juros e de seu correlato, o arrendamento da terra? Limito-me hoje a enumerar algumas, chamando tua atenção para elas e reservando-as para futura discussão, se assim o desejares.

Primeiro: é o princípio do juro ou do produto líquido que permite a um indivíduo viver real e legitimamente sem trabalhar; esta é a conclusão de tua penúltima carta, e é, de fato, a condição à qual hoje todos aspiram.

Segundo: se o princípio do produto líquido é verdadeiro para o indivíduo, deve sê-lo também para a nação; por exemplo, o capital da França, real e pessoal, avaliado em cento e trinta e dois bilhões, renderia a cinco por cento uma renda anual de seis bilhões e seiscentos milhões; pelo menos metade da nação francesa poderia, se quisesse, viver sem trabalhar. Na Inglaterra, onde o capital acumulado é muito maior e a população menor, toda a nação — da rainha Vitória ao mais humilde parasita de Liverpool — viveria do produto de seu capital, passeando de bengala na mão ou gemendo em reuniões públicas.

Conclusão evidente: é absurdo que, graças a seu capital, uma nação possa ter renda superior àquilo que seu trabalho produz.

Terceiro: o total anual dos salários pagos na França é de cerca de seis bilhões, e o total das rendas do capital é também de seis bilhões; assim, o mercado avalia o produto anual da nação em doze bilhões. Os produtores, que são também consumidores, devem pagar com os seis bilhões de salários os doze bilhões exigidos pelo comércio como preço das mercadorias, sob pena de os capitalistas verem suas rendas diminuídas.

Quarto: o juro, sendo perpétuo por natureza e não considerado, como desejava Moisés, reembolso do capital original, e sendo possível capitalizar anualmente a renda, transformando-a em novo empréstimo que gera nova renda, a menor soma de capital poderia, com o tempo, produzir montantes tão grandes que excederiam em valor uma massa de ouro do tamanho do mundo em que vivemos. Price demonstrou isso em sua teoria da liquidação.

Quinto: a produtividade do capital é a causa imediata e exclusiva da desigualdade das riquezas e da acumulação contínua do capital em poucas mãos.

Deve-se admitir que, apesar dos progressos do conhecimento, apesar da revelação cristã e da extensão da liberdade pública, a sociedade divide-se natural e necessariamente em duas classes: uma classe de capitalistas exploradores e uma classe de trabalhadores explorados.

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