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| Mikhail Bakunin (1814-1876) |
Entre 1864 e 1871, Bakunin mobiliza reiteradamente a figura de Satã como metáfora para uma crítica à teologia política. Por meio dela, ele operou uma inversão sistemática da polarização cristã entre bem e mal.
Se, na mitologia cristã, Deus é o polo positivo e o diabo o negativo, Bakunin reverte qualitativamente essa hierarquia simbólica. Nesse sentido, Deus passa a representar obediência, ignorância e servidão; Satã, desobediência, conhecimento e emancipação.
A metáfora acaba por estruturar uma homologia entre revolta, pensamento e liberdade.
No Programa de uma sociedade internacional secreta da emancipação da humanidade (1864), Bakunin expõe a lógica teológica da autodepreciação humana diante de Deus. O homem, afirma, “livre em relação a seu próximo, é o escravo de Deus”. Escreve de forma irônica: “Querer tornar-se algo de bom por si próprio! Mas é o cúmulo da loucura e a ilusão de um orgulho satânico, é uma revolta e uma blasfêmia contra Deus!” (p. 80). O que aparece aqui é a tentativa humana de fundar sua dignidade em si mesma. A categoria teológica de “pecado” torna-se, na leitura bakuniniana, uma possibilidade emancipatória.
Essa identificação reaparece em O Império Knuto-germânico e a revolução social (1871), onde Bakunin define o conteúdo desse “orgulho satânico”: “O sentimento de revolta, este orgulho satânico que rejeita a dominação do mestre que for, divino ou humano, e que é o único a criar no homem o amor pela independência e pela liberdade” (p. 228). Aqui a metáfora ganha precisão política. Satã designa a recusa da dominação — não apenas divina, mas também humana.
No mesmo livro, a figura satânica adquire estatuto histórico-universal.
Referindo-se aos Fraticelli – grupo católico medieval que considerava a riqueza da Igreja como escandalosa, condenando a propriedade privada e a maldade da vida material – Bakunin escreve que eles ousaram tomar “contra o déspota celeste, o partido de Satã, este chefe espiritual de todos os revolucionários passados, presentes e futuros, o verdadeiro autor da emancipação humana segundo o testemunho da Bíblia, o negador do império celeste como nós o somos de todos os impérios terrestres, o criador da liberdade” (p. 236).
Aqui, emerge uma analogia explícita. Satã é elevado à condição de princípio espiritual da revolução. Ele é o negador do império celeste, assim como os revolucionários são negadores dos impérios terrestres.
Essa interpretação alcança formulação mais sistemática em Sofismas históricos da escola doutrinária dos comunistas alemães (1871). No comentário ao mito do pecado original, Bakunin caracteriza Satã como “o eterno revoltado, o primeiro livre-pensador e o emancipador dos mundos” (pp. 257–258).
E continua: “Ele envergonha o homem de sua ignorância e de sua obediência bestiais; ele o emancipa e imprime em sua testa o carimbo da liberdade e da humanidade, incitando-o a desobedecer e a comer o fruto da ciência”. A sequência é estrutural: desobedecer → conhecer → tornar-se humano.
O próprio Deus, segundo Bakunin, confirma a verdade de Satã: “Deus deu razão à Satã e reconheceu que o diabo não tinha enganado Adão e Eva quando lhes prometeu o conhecimento e a liberdade, como recompensa do ato de desobediência” (p. 259).
O sentido do mito é então explicitado: “O homem se emancipou, separou-se da animalidade e constituiu-se enquanto homem; começou a sua história e seu desenvolvimento propriamente humano por um ato de desobediência e de conhecimento, ou seja, pela revolta e pelo pensamento” (p. 259).
Pode-se dizer que a metáfora de Satã condensa quatro dimensões articuladas nesses escritos de Bakunin: 1. revolta contra Deus; 2. rejeição da dominação do mestre; 3. conhecimento como fruto da desobediência; 4. constituição da humanidade pela revolta pensante.
Para além de um personagem mítico reapropriado, Satã ganha no pensamento de Bakunin contornos de um sujeito histórico-metafórico: “chefe espiritual de todos os revolucionários”, “emancipador da humanidade”, “criador da liberdade”, “primeiro livre-pensador”.
Quando Fritz Brupacher intitula sua biografia Bakunin: o satã da revolta (1922), a metáfora retorna ao próprio revolucionário.
Em Bakunin, Satã é o nome simbólico da "negatividade ativa" — da negação da autoridade que produz pensamento, liberdade e humanidade. A revolta não é mera desordem; é o ato inaugural da história humana.
Raphael Cruz
Referências
BAKUNIN, Mikhail. O Império Knuto-germânico e a revolução social (1871). In: FERREIRA, A. C.; TONIATTI, T. B. De baixo para cima e da periferia para o centro: textos políticos, filosóficos e de teoria sociológica de Mikhail Bakunin. Niterói: Alternativa, 2014. v. 1. (Coleção Pensamento Insurgente).
BAKUNIN, Mikhail. Programa de uma sociedade internacional secreta da emancipação da humanidade (1864). In: FERREIRA, A. C.; TONIATTI, T. B. De baixo para cima e da periferia para o centro: textos políticos, filosóficos e de teoria sociológica de Mikhail Bakunin. Niterói: Alternativa, 2014. v. 1. (Coleção Pensamento Insurgente).
BAKUNIN, Mikhail. Sofismas históricos da escola doutrinária dos comunistas alemães (1871). In: FERREIRA, A. C.; TONIATTI, T. B. De baixo para cima e da periferia para o centro: textos políticos, filosóficos e de teoria sociológica de Mikhail Bakunin. Niterói: Alternativa, 2014. v. 1. (Coleção Pensamento Insurgente).
BRUPBACHER, Fritz. Bakunin: o satã da revolta (1922). São Paulo: Editora Imaginário; Intermezzo Editorial, 2015.

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