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| Piotr Arshinov (1887-1937) |
Identifiquei dois textos em que Piotr Arshinov aborda a questão agrária, ambos no contexto revolucionário. Embora o tema não seja central em seus escritos, ele aparece de forma lateral, como um desdobramento de sua reflexão sobre a revolução. Sua abordagem tem uma particularidade: é profundamente marcada pela experiência direta na Revolução Russa e na Makhnovtchina. Assim, suas reflexões não são meros exercícios teóricos, mas expressões de uma prática revolucionária vivida.
O primeiro texto é datado de 1923 e intitulado de "Problemas construtivos da revolução social". No texto, Arshinov enfatiza que a revolução não pode ter sucesso sem resolver a questão agrária e estabelecer uma relação equilibrada entre indústria e agricultura. Ele alerta para os erros da política bolchevique, que opôs trabalhadores urbanos e rurais, e propõe que a revolução precisa de um acordo direto e horizontal entre essas classes. Além disso, o autor destaca a necessidade de criar organismos comuns de coordenação, garantindo o abastecimento e a estabilidade da economia revolucionária.
O segundo texto é intitulado "A revolução social e o sindicalismo", de 1925. Peter Arshinov, em sua reflexão sobre a questão agrária no referido texto, destaca que a revolução social precisará enfrentar imediatamente o problema da posse e uso da terra. Segundo ele, os camponeses tomarão os bens territoriais e os instrumentos de trabalho agrícola dos exploradores, e caberá às organizações operárias e camponesas assegurar que essas propriedades sejam redistribuídas aos camponeses, a quem pertencem de direito. No entanto, a forma de cultivo (comunal ou familiar) deverá ser decidida pelos próprios camponeses, com as organizações operárias exercendo apenas uma influência ideológica, preferencialmente em favor do cultivo comunal, considerado mais racional e eficiente com o uso de tecnologias modernas.
Arshinov critica duramente a política de requisição forçada de alimentos implementada pelos bolcheviques durante a Revolução Russa, que levou a confrontos violentos entre o Estado e os camponeses, resultando em mortes, destruição e desconfiança. Para evitar esse cenário, ele propõe que a relação entre os trabalhadores urbanos e rurais seja baseada na solidariedade revolucionária, com esforços mútuos para atender às necessidades de ambas as partes.
A união entre cidade e campo seria facilitada pela participação ativa dos camponeses na revolução, com a garantia de que seus interesses seriam respeitados e de que poderiam colaborar voluntariamente no abastecimento alimentar das cidades. Arshinov defende a criação de conferências conjuntas entre camponeses e operários, bem como de órgãos locais e regionais que promoveriam a integração econômica e política. Essa aliança entre trabalhadores urbanos e rurais formaria a base de uma nova economia revolucionária, resistente às pressões externas de partidos ou elites financeiras.
Algumas considerações sobre as reflexões do autor:
1. Ele retoma o tema da aliança operário-camponesa como estratégico para a revolução social, tema este já presente na proposta proudhoniana da federação agrícola-industrial e nas reflexões históricas e propostas programáticas de Bakunin.
2. Arshinov retoma esse fio intelectual da tradição anarquista anterior, mas o problematiza a partir de sua experiência concreta na Revolução Russa e da Makhnovitchna. Nesse sentido, trabalha com elementos que não foram acessíveis aos seus predecessores de ideologia e programa anarquista, fazendo esses dois elementos avançarem em seu desenvolvimento teórico e estratégico.
3. Os escritos do período 1923-1925 são anteriores a publicação da Plataforma da União Geral dos Anarquistas, texto coletivo escrito pelos exilados russos e publicado em 1926. Percebe-se como naqueles escritos antecipam-se a caracterização da condição camponesa como proletária e que o debate a ser realizado sobre a propriedade com o campesinato no período revolucionário deveria ter em conta a autonomia camponesa sobre a decisão de optar pela propriedade familiar ou comunal. Ainda que os esforços de propaganda anarquista devesse incentivar o modelo comunal.
Raphael Cruz
Alguns trechos dos textos
Problemas construtivos da revolução social (1923)
Encontrar una solución a los problemas rurales facilitará en gran medida la solución de los problemas de abastecimiento de alimentos, y los problemas de la producción industrial no se resolverán sin resolver también estos problemas rurales. La producción industrial, en los primeros días de la revolución, estará indudablemente tan desordenada e inadaptada a las necesidades de los trabajadores rurales y urbanos que los trabajadores necesitarán pedir ayuda al campesinado. Esta ayuda, de importancia decisiva para la revolución, sólo será posible si existe una colaboración revolucionaria entre obreros y campesinos.
Tres aspectos no pueden disociarse.
La cuestión más fácil y evidente es la de la tierra. Indudablemente, tras las primeras victorias en el torbellino revolucionario, los campesinos se apoderarán tanto de la tierra como de los medios para cultivarla. Es deseable que los campesinos trabajen de forma colectiva y comunal, de lo contrario, al ser la economía agrícola una parte de la economía general del país, ésta no podría evitar las contradicciones burguesas en una sociedad comunista. Sin embargo, éste es un problema que sólo los campesinos pueden resolver por sí mismos, lo que nos obliga, tanto ahora como en el futuro, a realizar entre ellos una amplia propaganda a favor de la organización libertaria de la economía agrícola.El progreso dependerá también de la forma en que los trabajadores urbanos creen la producción comunista en la fábrica; también, de si su trabajo en relación con los campesinos se lleva a cabo no aisladamente unos de otros, sino a través de colectivos, lo que influiría enormemente en la dirección que puedan tomar los campesinos.
Encontrar una solución a los problemas rurales facilitará en gran medida la solución de los problemas de abastecimiento de alimentos, y los problemas de la producción industrial no se resolverán sin resolver también estos problemas rurales. La producción industrial, en los primeros días de la revolución, estará indudablemente tan desordenada e inadaptada a las necesidades de los trabajadores rurales y urbanos que los trabajadores necesitarán pedir ayuda al campesinado. Esta ayuda, de importancia decisiva para la revolución, sólo será posible si existe una colaboración revolucionaria entre obreros y campesinos.
La desatinada y fatal política alimentaria bolchevique, durante la cual las ciudades entraron en guerra contra el campo por el pan, muestra de forma obvia y demostrable que -al menos en Rusia y en países similares- la revolución no puede triunfar sin un acuerdo revolucionario entre obreros y campesinos. En la cuestión de la producción, los obreros deben tener en cuenta las necesidades de los campesinos y, del mismo modo, los campesinos no deben retrasar el suministro de alimentos y materias primas a la ciudad; es necesario un acuerdo directo de ida y vuelta entre la industria y la agricultura. La ayuda mutua entre las dos clases trabajadoras hará indispensables organismos comunes de enlace y abastecimiento. Sólo esto podría garantizar tanto el desarrollo de un nuevo modo de producción como el éxito ulterior de toda la revolución.
A revolução social e o sindicalismo (1925)
A questão agraria
A revolução terá logo que achar solução para a questão agraria. Aos primeiros exitos obtidos pela revolução, 08 camponeses apossar-se-hão de todos os bens territoriais e de todos os Instrumen- tos de trabalho agricola que se encontrem na posве dos exploradores do trabalho alheio. A orientação da revolução deverá ser no sentido de as organi- zações dos operarios e dos camponeses assegura- rem, de comum acordo, a posse do solo e de todos os instrumentos de trabalho agricola á população camponesa, á qual pertencem de direito. A questão das formas em que a terra deverá ser disfrutada e a maneira como a população deverá cultivá-las (comunal ou familiarmente) deverá er resolvida pelos proprios camponeses. As organizaçõев орега- rias não poderão exercer nesse particular senão uma influencia ideologica.
Seria desejavel, evidentemente, que essa influen- cia se fizesse sentir desde logo no sentido de uma exploração e de um cultivo comunal das terras, porque essa é a forma a que chegarão os trabalha- dores, tarde ou cedo, pelas leis do desenvolvimento sociall e tecnico do trabalho. Quanto mais ampla e energicamente se fizer hoje essa propaganda, mais se farão sentir os efeitos no momento da re- volução social. O aspecto material e tecnico da questão os instrumentos de trabalho agricola não terá uma importancia pouco menor para o método comunal do cultivo e da exploração da terra. Quanto mais poderosos e aperfeiçoados se- jam esses instrumentos, mais racional será em- pregá-los na exploração comunal, para o disfruto comunal do solo.
O abastecimento e os camponeses
A organização da produção operaria apresenta- se particularmente importante e complicada no de- curso da revolução, mas não poderia er resolvida à margem da solução ação que terá a questão funda- mental o aprovisionamento dos víveres. Por muito feliz que haja sido posta em marcha a organização da produção operaria livre, se o proplema dos víveres não é resolvido de uma maneira razoavel e ditosa, ezsa organização deverá, infali- velmente, enfraquecer-se, deslocar-se e ser destruídos.
No decurso da revolução russa, o partido comu- mista encontrou para a questão do aprovisiona mento uma solução extremamente simples, prati cada já por outros na Russia desde os tempos de Gengis Can e de Tamerlan. Em 1918, Lenine lançou o grito: Todos á guerra sagrada para a conquista do pão. Numerosos destacamentos armados de espingardas, de metralhadoras e até de canhões foram organizados e enviados a todos os recantos da Rus- sia para requisitar e tomar pela força o trigo aos camponeses. Estes destacamentos, que executavam as ordens das autoridades centrais, personifica- vam em certo modo a «cidade». E aqui temos que a cidade (ainda que no fundo não fosse senão im só partido a desfigurar o aspecto verdadeiro da cidade) foi ao campo revolucionario para nele conseguir o pão, com o auxilio da polvora e do chumbo. Uma nova era de guerras civis se abriu entre as massas laboriosas de camponeses e as au- das cidades. Esta luta intestina dura há mais de cinco anos, durante os quais inumeros camponeses foram mortos, seguramente mais de m milhão, aldeias inteiramente foram, ás centenas, destruidas e queimadas, e a revolução russa desfalece nos quadros da fome.
Para a massa dos camponeses, a pólvora e chumbo estão ligados tão intimamente ao poder dos comunistas, que que olham com desconfiança até a troca de mercadorias, posta em moda pelo governo nestes ultimos tempos, e preferem negociar com os especuladores privados do que com os representantes da autoridade. A unica solução possivel da questão dos viveres
(...)
Os camponeses jamais quererão ceder de bom grado os produtos do seu trabalho aos funcionarios do Estado, consideram não só inuteis, mas tambem nocivos á sociedade dos trabalhadores. Mas, por outro lado, os campo- dos instrumentos de trabalho moderna. A criação de laços semelhantes será consideravelmente facilitada pela participação da população camponesa laboriosa na causa da revolução
(...)
Quando a população camponesa sentir que a revolução não é para ela uma madrasta como na Russia com a ditadura do partido comunista, po- dendo na mesma tomar a sua quota parte de actividade com confiança, ela concorrerá com todas as suas forças de criação social e revolucionaria para o seu triunfo. Não deixará de avançar ao lado da classe operaria na revolução social que lhe faça entrever o horizonte de liberdade de trabalho e de igualdade. Sustentará o proletariado das cidades fornecendo-lhe os víveres necessarios, porque sabe que os poderosos instrumentos da classe operaria - a mecanica da industria moderna não tar- darão em ser postos ao serviço das necessidades de todos os trabalhadores, das cidades e dos campos, indiferentemente.
Conferencias conjuntas de camponeses e opera- rilos, conferencias de concelhos, de distritos, de provincias, de regiões, marcarão os primeiros pas- sos, os primeiros esforços рата a solução das difi- culdades do abastecimento e serão tambem os pri- meiros orgãos que sirvam para aplanar dificulda- des e formarão a base de união da cidade e qu campo laboriosos.
O abastecimento organizado sobre uma aliança deste genero dará á classe operaria a possibili- dade de estabelecer sobre fundamentos solidos a obra de uma produção nova. Mas a fim de que aquele, tal qual como com a mecanica da produção, se afirme e se desenvolva sem interrupções, será preciso que o proletariado das cidades se ocupe logo nos primeiros dias de satisfazer as necessidades mais instantes do campo. Os esforços mutuos dos camponeses e operarios chegarão as- sim a formar uma base economica poderosa para a revolução e nem os reis da finança nem os dos partidos conseguirão desalojá-los de lá.

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