Trabalho, guerra e revolução: As comunas agrárias makhnovistas

O que sabemos sobre as “comunas agrárias” implantadas pela Makhnovitchina? 

Em suas memórias, Nestor Makhno (1988) descreve algo de sua organização, funcionamento e composição social.

Ele nos informa que ao redor de Gulai-Polé existiam quatro, e muitas outras pela região. Elas tinham a função tanto de construir uma vida nova quanto de defender as conquistas da revolução em curso. 

Makhno organizou pessoalmente aquelas quatro e participou de uma delas. Nela, colaborava dois dias da semana em todos os trabalhos: revirar e semear a terra, e, às vezes, na granja ou na estação de eletricidade. Nos quatro outros dias, trabalhava em Gulai-Polé no grupo anarco-comunista e no Comitê Revolucionário.

Cada comuna era composta por uma dúzia de famílias e possuía entre 100 e 300 membros. O Congresso Regional das Comunas Agrárias decidiu dar às famílias animais e ferramentaria agrícola já existentes nas propriedades que expropriaram, além de uma quantidade de terra proporcional à sua capacidade de cultivo e situada em sua vizinhança imediata.

Nota-se que as comunas agrárias makhnovistas combinavam posse familiar e trabalho comum. Não tendo optado nem pelo caminho autoritário de uma coletivização forçada, nos moldes do que fariam os governos bolchevique e stalinista anos depois, nem, exclusivamente, baseando-se no trabalho familiar. 

A própria Plataforma da União Geral dos Anarquistas (1926), documento que Makhno escreverá junto a Ida Mett, Piotr Arshinov e outros, na década seguinte, postulará a necessidade de se evitar a coletivização forçada nos momentos iniciais da revolução social e a adoção de um regime híbrido entre posse familiar e comunal no campo.  

Nas comunas agrárias makhnovistas, existia um “fundo comum da comunidade”, para onde os soldados, sob direção do Comitê Revolucionário, levavam ferramentas e animais que haviam sido expropriados dos latifundiários locais (pomechtchiki).

As antigas propriedades dos latifundiários eram tomadas e divididas pelos próprios camponeses. Instalados nessas propriedades, empenhavam-se no trabalho agrícola, enquanto outra parte se dedicava à defesa da revolução por meio de “unidades de combate”. Uma simbiose entre trabalho e guerra a organizar a dinâmica social da comuna livre.

Aqui cabe um destaque, que seria assinalado com importância nos textos de Piotr Arshinov (1923;1925) dos anos 1920: a revolução vai se consolidando por meio da reorganização da produção sob bases socialistas e da defesa militar de suas conquistas. Produção econômica e defesa militar são complementares, e não opostas.

Elaborado pelo autor, a partir de Makhno (1988). Clique na imagem para ampliá-la.

A composição social da maior parte das comunas agrárias era de camponeses, e algumas reuniam camponeses e operários, fundamentadas na igualdade e na solidariedade de seus membros. 

Segundo Makhno, homens e mulheres trabalhavam conjuntamente nos trabalhos domésticos e nos campos, o que nos permite visualizar algo da relação entre gênero e trabalho, produção econômica e reprodução social no território makhnovista. 

Em cada comuna havia camponeses anarquistas, mas a maioria não o era.

Existiam cozinha, despensa e refeitório comuns. A pessoa podia preparar a comida na cozinha comum, mas consumi-la em casa. Cada indivíduo ou grupo podia organizar-se da maneira que lhe convinha. A única condição era informar aos membros da comuna, a fim de que, na cozinha e na despensa, fossem tomadas as decisões necessárias para tais modificações.

Quanto ao trabalho, Makhno descreve que se levantavam cedo e logo iam ao trabalho com o gado, os cavalos ou nas tarefas domésticas. O programa de trabalho era estabelecido coletivamente em reuniões, nas quais se definiam as tarefas de cada um. Havia o direito de ausência, mas devia-se avisar ao companheiro de trabalho mais próximo, a fim de que pudesse haver substituição. O domingo era dia de repouso, havendo uma escala.

Makhno afirma que ficou pendente a questão do ensino, pois as comunas agrárias não queriam reconstruir as escolas segundo o modelo antigo. 

Os membros das comunas demonstravam interesse pela escola de Francisco Ferrer, da qual haviam ouvido falar por meio do grupo anarco-comunista do qual Makhno era membro. Contudo, faltavam pessoas que entendessem dos métodos, e decidiram convidar aqueles que estavam nas cidades. Durante o primeiro ano da revolução, na impossibilidade de aplicar o ensino de Ferrer, chamariam pessoas capazes de ensinar.

Makhno nota que os habitantes das pequenas vilas e aldeias vizinhas às comunas agrícolas, ainda sob a dependência dos koulaki, “tinham ciúme das comunas e manifestaram, mais de uma vez, o desejo de lhes tomar tudo: animais e ferramentas, a fim de repartir entre si”. Nota-se que havia uma convivência entre as “comunas agrícolas livres” e as vilas e aldeias que ainda viviam sob o antigo regime.

As comunas agrárias da Makhnovitchina configuraram formas concretas de reorganização da vida no campo, baseadas na expropriação dos latifúndios, na redistribuição da terra, na posse familiar, no trabalho coletivo e na gestão comum dos recursos, reunindo majoritariamente camponeses — e também operários — em estruturas assentadas na igualdade e na solidariedade. 

Seu funcionamento articulava produção e defesa, combinando a reorganização econômica com a autodefesa armada, ao mesmo tempo em que ensaiava transformações nas relações de gênero e nas formas de sociabilidade cotidiana. 

Contudo, enfrentavam limites práticos e tensões externas, como a indefinição do ensino e os conflitos com vilas ainda submetidas aos koulaki, de modo que essas comunas emergiram como experiências parciais e disputadas de construção de uma nova vida camponesa em meio à guerra e à revolução.

Raphael Cruz


Referências

ARSHINOV, Piotr. A revolução social e o sindicalismo. 1925. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/arshinov/ano/mes/40.pdf. Acesso em: 12 fev. 2026.

ARSHINOV, Peter. Constructive Problems of the Social Revolution. 1923. Disponível em: https://theanarchistlibrary.org/library/peter-arshinov-constructive-problems-of-the-social-revolution. Acesso em: 12 fev. 2026.

GRUPO DE ANARQUISTAS RUSSOS NO ESTRANGEIRO [Dielo Truda]. A Plataforma Organizacional da União Geral dos Anarquistas – Projeto. 1926. Nova tradução para o português a partir do original em russo; tradução de Ina Hergert; revisão, preparação e coordenação de Felipe Corrêa; Instituto de Teoria e História Anarquista (ITHA), 2017. Disponível em: https://ithanarquista.wordpress.com/wp-content/uploads/2019/08/dielo-truda-a-plataforma-organizacional-nova-traduc3a7c3a3o-com-nota-ajustada.pdf. Acesso em: 12 fev. 2026.

MAKHNO, Nestor. A "revolução" contra a revolução: a Revolução Russa na Ucrânia, março 1917-abril 1918. Coleção Pensamento e Ação. Tradução Milton José de Almeida. São Paulo: Cortez, 1988.

A servidão compulsória: trabalho e dominação no capitalismo segundo Mikhail Bakunin

Mikhail Bakunin (1814-1876)


Por que trabalhamos em empregos precários, que nos exploram ao ponto da exaustão física ou do adoecimento psíquico?

Empregos estes que não permitem desenvolver nossas habilidades e potenciais criativos? 

Mikhail Bakunin pode ajudar a responder essas questões.

Desde os anos 2000, circula na internet lusófona um texto do autor intitulado "Sistema capitalista". Na verdade, ele é um trecho da obra "O Império Knuto-Germânico e a revolução social". 

Nesse trecho específico, o autor reflete sobre as relações de trabalho no capitalismo e contesta a lógica liberal que afirma existir liberdade para o trabalhador vender sua força de trabalho no mercado.

As relações entre capitalismo e liberdade, trabalho e dominação são tratadas por Bakunin desde uma perspectiva sociológica e dialética, oferecendo elementos para compreender como a dominação se expressa no trabalho assalariado em regime capitalista.

Para Bakunin, a relação de trabalho no capitalismo expressa uma relação de dominação, derivada do monopólio da propriedade privada dos meios de produção pela burguesia.

Isso condiciona os trabalhadores a vender sua força de trabalho para sobreviver em um contexto de despossessão de meios de vida e, assim, evitar a ameaça da fome. 

Essa dinâmica coloca a classe trabalhadora em uma posição estrutural de submissão aos capitalistas. Como ele afirma:

"O trabalhador está na posição de servo porque esta terrível ameaça de fome, que diariamente paira sobre ele e sua família, o forçará a aceitar quaisquer condições impostas pelos cálculos proveitosos do capitalista, do industrial, do empregador." (Bakunin, Sistema capitalista, 2007, p. 9).

Ele encara o trabalho assalariado como uma modalidade de servidão contemporânea, na qual a liberdade é uma ilusão. 

Fonte: @um_surto

Ele relaciona as noções de servidão "voluntária" e "compulsória" para problematizar a ilusão de liberdade no mercado de trabalho e a realidade da exploração da classe trabalhadora no capitalismo.

Embora os trabalhadores, do ponto de vista jurídico burguês, não sejam legalmente forçados a trabalhar para um patrão específico — o que, em tese, implicaria uma voluntariedade da servidão —, eles são economicamente compelidos a se submeter às condições impostas pelos capitalistas, resultando, na verdade, em uma servidão compulsória

Bakunin explica:

"A verdade é que toda a vida do trabalhador é simplesmente uma sucessão contínua e horrível de períodos de servidão – voluntária do ponto de vista jurídico, mas compulsória pela lógica econômica – interrompida por momentâneos e breves intervalos de liberdade acompanhados de fome; em outras palavras, é a verdadeira escravidão." (Bakunin, Sistema capitalista, 2007, p. 10).

Em síntese, a lógica econômica do capitalismo obriga a classe trabalhadora a vender sua força coletiva de trabalho para sobreviver. 

Nesse sentido, a suposta liberdade do trabalhador em escolher um patrão para vender sua força de trabalho é uma ilusão criada pelo sistema jurídico, que ignora as condições materiais e econômicas reais dos trabalhadores. 

Esse próprio sistema jurídico protegerá, então, essa ilusão de liberdade e funcionará como uma instituição de manutenção e reprodução da ordem capitalista, preservando os interesses da burguesia e legitimando a dominação dos trabalhadores. 

Bakunin reforça essa ideia ao afirmar:

"Os Estados, religiões e todas as leis jurídicas, tanto criminais quanto civis, e todos os governos políticos, monarquias e repúblicas – com seus imensos aparatos judiciais e policiais e seus exércitos permanentes – não têm outra missão senão a de consagrar e proteger tais práticas." (Bakunin, Sistema capitalista, 2007, p. 2).

Isso remete à lógica de fundo do pensamento de Bakunin, que é a dialética entre a política e a economia, e à problematização sociológica por ele feita entre igualdade econômica e política. 

Para Bakunin, há uma relação de interdependência e retroalimentação entre a "escravidão política", que é o Estado, e a "miséria econômica", que é o capitalismo. 

Ele abordará essa relação dialética ao criticar o sobredeterminismo econômico presente no pensamento de Karl Marx:

"A escravidão política, o Estado, por sua vez, reproduz e conserva a miséria, como uma condição de sua existência; assim, para destruir a miséria, é preciso destruir o Estado." (Bakunin, Carta ao Jornal La Liberté).

Quanto à relação entre igualdade política e econômica, Bakunin é categórico:

"Enquanto não houver igualdade econômica e social, enquanto uma minoria qualquer puder tornar-se rica, proprietária, capitalista, não pelo próprio trabalho individual, mas pela herança, a igualdade política será uma mentira. Sabeis qual é a verdadeira definição de propriedade hereditária? É a faculdade hereditária de explorar o trabalho coletivo." (Bakunin, O Império Knuto-germânico e a revolução social – Parte II, 2014, p. 50).

Se o capitalismo é baseado na desigualdade econômica, qualquer menção à liberdade política ou jurídica não passará de ilusão, mentira e fantasia. Bakunin é incisivo ao denunciar essa falsa liberdade:

"Sim, a pobreza é a escravidão, é a necessidade de vender seu trabalho, e com seu trabalho sua pessoa, ao capitalista que vos dá o meio de não morrer de fome. É preciso ter realmente o espírito interessado na mentira dos senhores burgueses para ousar falar da liberdade política das massas operárias! Bela liberdade essa que os escraviza aos caprichos do capital e os acorrenta à vontade do capitalista, pela fome." (Bakunin, A ciência e a questão vital da revolução, 2009, p. 72).

Além disso, o autor critica a igualdade jurídica como uma farsa, argumentando que as leis são criadas pelos burgueses para proteger seus próprios interesses, perpetuando a dominação sobre o povo:

"A igualdade política, mesmo nos Estados mais democráticos, é uma mentira. O mesmo acontece com a igualdade jurídica, a igualdade diante da lei. A lei é feita pelos burgueses, para os burgueses, e é exercida pelos burgueses contra o povo. O Estado e a lei que o exprime só existem para eternizar a escravidão do povo em proveito dos burgueses." (Bakunin, A ciência e a questão vital da revolução, 2009, p. 84).

O mercado de trabalho no capitalismo, assentado na exploração da força coletiva da classe trabalhadora em benefício da minoria burguesa, é parte de uma matriz de dominação mais ampla, que inclui o Estado, suas instituições jurídicas, políticas, militares e policiais, assim como a igreja. Bakunin reforça essa ideia ao afirmar:

"Os Estados, religiões e todas as leis jurídicas, tanto criminais quanto civis, e todos os governos políticos, monarquias e repúblicas – com seus imensos aparatos judiciais e policiais e seus exércitos permanentes – não têm outra missão senão a de consagrar e proteger tais práticas." (Bakunin, Sistema capitalista, 2007, p. 2).

Bakunin oferece uma análise profunda e crítica das relações de trabalho no capitalismo, destacando a servidão compulsória dos trabalhadores e a ilusão de liberdade criada pelo sistema jurídico. 

Para Amadeo Bertolo, o anarquismo é tanto um sistema de hipóteses interpretativas sobre a sociedade quanto um projeto revolucionário:

Por um lado, é um sistema de hipóteses interpretativas sobre a sociedade e a história (ou sobre as mudanças sociais); um sistema de análises que, partindo do reconhecimento dos males sociais, enfatiza a natureza da exploração e da opressão, da injustiça e da desigualdade, seja de acordo com a evolução histórica, seja identificando suas causas. (Bertolo, Anarchists... and proudly so, 1972).

A perspectiva bakuniniana oferta esse sistema de hipóteses do qual falou Bertolo, ajudando a revelar a interdependência entre economia, política e cultura na manutenção da dominação capitalista. 

E mais do que isso, ofertou, historicamente, também um projeto revolucionário que buscava desfazer o trabalho enquanto uma servidão e refazê-lo enquanto liberdade.

Raphael Cruz


Emma Goldman: intérprete da questão agrária soviética (1917-1935)

Emma Goldman (1869-1940)

 

Emma Goldman é mais conhecida por ter sido uma oradora em comícios de massa nos EUA, pelo envolvimento com causas sindicais e feministas e pelo periódico que fundou, Mother Earth.

Ela foi testemunha ocular da Revolução Russa e da Guerra Civil Espanhola, além de uma personalidade reconhecida internacionalmente no meio político anarquista da primeira metade do século XX.

Seus escritos de maior circulação são sua autobiografia e aqueles sobre feminismo, educação, anarquismo e a revolução na Rússia.

Crítica anarquista da política agrária bolchevique e stalinista

Contudo, poucos sabem que Goldman refletiu sobre a questão agrária russa como parte de suas análises críticas e construtivas de esquerda aos rumos políticos e econômicos que os bolcheviques deram ao processo revolucionário naquele país.

Tendo chegado à Rússia em janeiro de 1920, foi expulsa do país em dezembro de 1921. Contudo, acompanhou o desenvolvimento do governo soviético até a década seguinte.

Nesse sentido, a interpretação da autora sobre a questão agrária pode ser identificada como um desdobramento de sua análise da Revolução Russa, o que implica que Goldman a examinou a partir de um caso histórico e do qual foi testemunha ocular.

"O comunismo não existe na Rússia" (Emma Goldman, 2007) é um texto de sua autoria publicado em 1935, cinco anos antes de seu falecimento. 

Trata-se, portanto, de um escrito de sua maturidade, que analisa o período que vai do início da revolução à implantação da Nova Política Econômica (1921-1928) por Vladimir Lenin durante o X Congresso do Partido Comunista, passando pelo período stalinista, iniciado com a ascensão de Stalin ao controle do partido (1924-1929), até a coletivização forçada da agricultura (1928-1937) e a industrialização acelerada do país (1929-1941).

Segundo Goldman, a Revolução Russa possuía uma tendência imanentemente libertária, mas assumiu uma dinâmica autoritária com a hegemonia bolchevique sobre o processo revolucionário.

No plano político, o autoritarismo foi o legado bolchevique expresso no desmantelamento dos sovietes de operários, soldados e camponeses. No plano econômico, a herança materializou-se em uma modalidade de "capitalismo de Estado".

Ao longo do referido ensaio, Goldman se recusa a classificar a Rússia sob os governos bolchevique e stalinista como comunista. Recusa-se, inclusive, a nomeá-lo de "comunismo autoritário". Ela argumenta que, seja em sua vertente libertária ou autoritária, uma característica essencial do comunismo é o fim das classes sociais.

Para Goldman, o governo soviético não apenas não pôs fim às classes, como as multiplicou por meio de novas estratificações socioeconômicas, como salários diferenciados e privilégios.

Do soviet ao sovkhozi 

Para Emma Goldman, a experiência soviética não apenas fracassou em realizar qualquer forma de comunismo agrário, como transformou o campo em um laboratório de dominação estatal sistemática.

Embora reconheça que a Revolução Russa tenha começado com uma autêntica iniciativa camponesa — marcada pela expropriação das grandes propriedades e pela conversão da terra em uso comunitário —, ela argumenta que o bolchevismo rapidamente destruiu essa dinâmica autogestionária ao substituir a posse comum pela nacionalização, dissolver cooperativas, militarizar a produção agrícola e converter o camponês em trabalhador assalariado do Estado.

Em lugar da autogestão rural, instaurou-se a estatização da terra e da produção agrícola, na qual o camponês foi proletarizado à força, transformado em empregado do governo nos sovkhozi ou submetido a uma coletivização apenas nominal nos kolkhozi, ambos rigidamente controlados pela burocracia central.

A coletivização forçada, a tributação arbitrária, o confisco de grãos, as deportações e o trabalho compulsório revelariam, segundo Goldman, não a socialização da terra, mas um regime de capitalismo de Estado baseado na extração coercitiva do campesinato. 

Assim, longe de emancipar o campesinato, o governo soviético o teria expropriado continuamente, submetendo-o à fome, ao terror e à burocracia, reproduzindo — sob nova forma — mecanismos de opressão comparáveis ou até piores que os do czarismo.

Não há comunismo na Rússia

Nesse sentido, a crítica de Goldman não é ao comunismo da revolução, mas à falta dele, o que a coloca, por um lado, em oposição às críticas reacionárias e liberais ao bolchevismo e ao stalinismo, e por outro lado, em defesa de um comunismo feito a partir de baixo por meio da autoatividade e da auto-organização popular.

Raphael Cruz

O realismo anarquista de Berneri: uma crítica interna ao otimismo revolucionário

Camillo Berneri (1897-1937)

 Graças a uma determinada formação política que recebi, aprendi a enxergar o anarquismo não como um bloco homogêneo onde todos os pensadores e pensadoras concordavam entre si. 

Aprendi a ver nesse campo politico específico, um campo de tensões, concordâncias e discordâncias.

Sempre aprendo bastante com textos que examinam esses pontos de tensão e discórdia.

Um deles, que li recentemente, foi Por un programma de acción communalista, de autoria do italiano Camillo Berneri, publicado em 1926.

Não é demais dizer que o escrito é um acerto de contas com a tradição clássica do anarco-comunismo.

Ao criticar Peter Kropotkin, Errico Malatesta e Luigi Fabbri, Camillo Berneri não está rompendo com o anarco-comunismo clássico, mas tensionando alguns de seus limites. 

Sua objeção não é doutrinária nem moral; é estratégica. Ele não diz que lhes falta radicalidade, mas política. 

Em vez de rejeitar o comunismo libertário, pergunta algo mais incômodo: por que, sendo eticamente tão potente, ele fracassa em oferecer respostas operativas para os problemas concretos da revolução?

A primeira crítica é antropológica. Berneri vê em Kropotkin uma confiança excessiva na natureza cooperativa humana, como se a solidariedade estivesse latente e bastasse remover o Estado para que emergisse espontaneamente. 

A “iniciativa popular” aparece, então, quase como um gênio coletivo inevitável. 

Para Berneri, isso é uma idealização: povos reais não são moralmente homogêneos, nem carregam um instinto comunista automático. Apostar demais nessa suposição equivale a, pode-se dizer, em substituir análise social por esperança ética.

Daí decorre uma segunda crítica, agora sociológica. O “povo” do anarco-comunismo clássico frequentemente surge como unidade coesa, movendo-se numa trajetória revolucionária quase linear. Berneri recusa essa imagem. 

A sociedade é atravessada demais por divisões, interesses conflitantes, desigualdades de poder, disputas locais e lideranças concorrentes para que ele endosse a conclusão kropotkiniana. 

A revolução não é um coro, mas um campo de forças. Ignorar essa heterogeneidade leva a diagnósticos ingênuos e estratégias frágeis.

Há ainda uma terceira crítica, de natureza institucional. Ele é categórico quando afirma que "Kropotkin não nos basta" e mesmo "os melhores dos nossos", em referência direta a Malatesta e Fabbri, não teriam avançado o suficiente na resolução de problemas concretos.

E quais seriam esses problemas?: Como coordenar comunas entre si? Como articular decisões em grande escala? Como lidar com representação, delegação, funções técnicas, conflitos intercomunitários? Em suma, o que substitui materialmente o Estado? 

Elaborado pelo autor, a partir de Berneri (1926). Fonte


Para Berneri, muitas respostas permaneceram parciais, otimistas ou anacrônicas. Falou-se muito da abolição do Estado, mas pouco do desenho das estruturas que o suplantariam de fato.

Essas três camadas convergem numa crítica mais profunda, estratégica. 

O anarco-comunismo clássico teria fornecido ética e horizonte, mas não um método. Construiu o ideal da sociedade futura, mas negligenciou a técnica política necessária para aproximar o presente desse ideal. 

Daí sua definição seca de política como “cálculo e criação de forças”. 

Não basta ter razão histórica, nem confiar na espontaneidade das massas ou na educação moral das consciências: é preciso produzir correlações de força, organizar antagonismos, consolidar conquistas.

É nesse ponto que surge o que se poderia chamar do "realismo anarquista" de Camillo Berneri, produto de sua avaliação crítica do anarco-comunismo em geral e do italiano em específico. 

Contra o educacionismo moral e o espontaneísmo, Berneri insiste que revoluções não são milagres sociológicos, mas processos construídos. 

Entre o ideal e a realidade não há atalhos: há agitação para despertar, polarização para definir lados, sistematização para dar forma durável ao que foi conquistado. Três ações do vocabulário berneriano que podem ser úteis até hoje.

Essa tendência a identificar o anarquismo como ética não desapareceu com os séculos XIX ou XX.

Ela reaparece com alguma força em leituras contemporâneas como a de David Graeber.

Em Fragmentos de antropologia anarquista, o saudoso antropólogo contrapõe um marxismo estratégico a um anarquismo eminentemente moral

Embora simpática, essa formulação acaba reiterando um velho pressuposto já presente em Kropotkin: a confiança de que a cooperação, a iniciativa popular e as formas horizontais emergiriam quase naturalmente quando as amarras do Estado fossem removidas. 

O risco dessa herança é reduzir o anarquismo a sensibilidade ética, estilo de vida ou pedagogia das relações, como se coerência moral bastasse para produzir transformação nas estruturas sociais opressivas. 

Lida à luz de Berneri, essa longa tradição revela seu limite: sem cálculo de forças, sem organização e sem desenho institucional, a ética libertária pode inspirar, mas dificilmente disputa poder social efetivo. É precisamente contra esse deslizamento do anarquismo para o testemunho moral que o seu realismo estratégico se insurge.

A "política", no sentido de um jogo entre forças sociais conflitantes, longe de ser uma concessão ao autoritarismo, torna-se, na perspectiva do autor, a própria condição de possibilidade da liberdade socialmente administrada.

Lido hoje, Berneri soa como um estrategista: alguém que almejava salvar o anarco-comunismo de sua época das próprias ilusões generosas, obrigando-o a descer do terreno das virtudes para o terreno das forças. Não para abandonar o ideal, mas para torná-lo viável.

Raphael Cruz

Leituras de janeiro de 2026

1. Monstro do Pântano, Livro I, Alan Moore.

2. Quem matou meu pai, Édouard Louis.

3. Monstro do Pântano, Alan Moore, Livro II.

4. Wolverine, n° 4, O chamado do adamantino, Saladin Ahmed.

5. Wolverine, n° 5, Linhagem, Saladin Ahmed.

6. Hell eternal, Jaime Delano.

7. Ultimate X-Men, vol. 1, O temor e o ódio, Peach Momoko.

8. Irmãos, Neil Gaiman (Swamp Thing Annual, n° 5, 1989).

Memória de DJ

Antes de ser professor, eu fui DJ na juventude.

Era os anos 2000. Toquei música punk e jamaicana nas periferias de Fortaleza, mas também na Praia de Iracema e num bar no Meireles. 

Quase toquei em Mossoró, meu nome até saiu no cartaz.

Ainda tenho alguns cartazes de recordação. Outros se perderam no tempo.

Tocava com vinil, CD e até mp3, se necessário. Tudo muito underground, alternativo e amador.

Outro tempo! Um tempo tão bom quanto o de hoje sendo professor.

O rompimento de Murray Bookchin com o anarquismo

Murray Bookchin (1921-2006)


Se você se politizou nas alas mais à esquerda da esquerda, entre o final dos anos 1990 e o início dos 2000, é provável ter ouvido falar de Murray Bookchin.

Ele apareceu para mim, ao lado de pensadores como Noam Chomsky e David Graeber, como aqueles que estavam dando vida ao anarquismo no cenário político contemporâneo.

Já nos anos 2010, tomei contato com a informação de que Bookchin havia rompido com o anarquismo. 

Isso foi pouco antes de seu nome ganhar mais um sobre fôlego nas esquerdas devido à associação com  Abdullah Öcalan.

Öcalan é uma liderança da histórica luta curda, proponente do confederalismo democrático, um projeto socialista para o Oriente Médio e explicitamente inspirado na ecologia social de Bookchin.

Contudo, ontem, foi esclarecido de uma vez por todas para mim como se deu esse rompimento com o anarquismo. 

Isso ocorreu por meio de uma obra póstuma que estou entendendo ser quase uma espécie de testamento político.

Social ecology and communalism é uma ótima porta de entrada para conhecer o pensamento de Murray Bookchin, um dos mais criativos e longevos socialistas norte-americanos do século XX.

O livro é uma coletânea de ensaios organizada por Eirik Eiglad e foi publicado em 2007, um ano após o falecimento de Bookchin. 

Por isso mesmo, a obra oferece um ótimo panorama do desenvolvimento de sua ecologia social e a culminância dela no que ele nomeou de comunalismo.

A introdução escrita por Eiglad apresenta uma breve, mas sólida biografia do autor. 

Também consegue organizar os ensaios de maneira a fazer o leitor entender diferentes etapas do desenvolvimento teórico de Bookchin.

Em determinado momento do texto, o apresentador da obra afirma: "Ele (Murray Bookchin) rompeu abertamente com o anarquismo na segunda Conferência Internacional sobre Municipalismo Libertário, em Vermont, em 1999, e deixou claro que sua teoria da ecologia social precisa ser incorporada à ideologia que denominou comunalismo".

Eiglad aponta os desacordos de Bookchin com o anarquismo. 

Alguns me pareceram bastante válidos, como a crítica à falta de uma teoria do poder, baseada no caso histórico da Guerra Civil Espanhola. 

Contudo, acusações de niilismo e individualismo extremo no anarquismo me soaram como uma descrição circunscrita do cenário anarquista dos EUA entre o final dos anos 90 e início dos 2000. 

Bookchin parece ter ignorado, por desconhecimento, talvez, que os plataformistas russos e ucranianos do final dos anos 1920 já haviam realizado essa crítica interna ao campo. Contudo, entenderam o individualismo como um "desvio" do anarquismo histórico, e não como a sua "essência".

Já li em fóruns de internet, em tempos passados, que Bookchin simplesmente estava puto com toda a contaminação dos anarquistas pelo "anarquismo de estilo de vida" e resolveu "chutar o pau da barraca", jogando fora o bebê junto da água suja. 

Entretanto, não parece justo reputar isso a uma espécie de estado emocional ranzinza, já atribuído ao pensador em sua velhice.

A verdade é que, se você for uma leitora ou leitor atento de Bookchin, verá que o pensamento dele foi atravessado por um "ecletismo" teórico.

Este, muitas vezes, criativo, não confuso, uma mescla de anarquismo (antiestatismo, federalismo, autogestão), feminismo (crítica ao patriarcado, reconhecimento de hierarquias para além da classe social), marxismo (influência da Escola de Frankfurt) e ecologia (que deu o sabor especial ao seu pensamento).

Tudo fica mais compreensivo quando o próprio Bookchin escreve em Social ecology and communalism sobre ter aproveitado as melhores partes do marxismo e do anarquismo durante o desenvolvimento de seu próprio pensamento político.

De todo modo, entre os anos 1980 e 1990, quando amadurece sua proposta do municipalismo libertário, Bookchin já havia rompido com a estratégia antiestatista do anarquismo. Optando, em minha humilde avaliação, por uma contraditória e confusa construção estatista do poder popular.

O programa do municipalismo baseia-se na estratégia eleitoral de tomar prefeituras nos EUA, para impulsionar assembleias populares, confederá-las e criar um duplo poder frente ao Estado-nação. Algo, ao meu ver, não livre de alguma confusão política para alguém tão versado na história do socialismo e dos movimentos populares.

Se isso poderia fazer algum sentido na região da Nova Inglaterra, local onde Bookchin se estabeleceu e militou, não sei como poderia ser útil ou praticável em outros lugares, particularmente nas periferias do capitalismo.

Aqui cabe um ponto interessante sobre a apropriação curda da ecologia social.

O povo curdo teve que travar uma guerra para conseguir a administração autônoma de certos territórios. Isso não foi conquistado por meio de eleições, até onde eu sei.

De certa forma, no Oriente Médio, se deu o oposto da aposta estratégica de Bookchin: lá, primeiro se fez a guerra para conquistar a administração autônoma e assim organizar eleições locais, já sem a presença do Estado-nação.

Na proposta original do municipalismo libertário, primeiro se candidata em eleições, conquista-se prefeituras, cria-se assembleias populares para administrar a localidade ao invés do corpo profissional prefeitural.

Em seguida, confedera-se essas assembleias e, então, o Estado-nação, ao perder poder, desencadeia uma guerra com os municipalistas confederados.

O vislumbre de uma guerra entre o Estado e os municipalistas é uma etapa posterior no esquema de Bookchin. Na vida do povo curdo, foi a etapa inicial.

Agora, voltemos aos desacordos de Murray Bookchin com o anarquismo.

Outro rompimento anterior, mas no nível teórico, é quando ele abandona a centralidade da classe trabalhadora na construção de uma sociedade socialista. 

Graham Purchase, em Anarchism and social ecology: a critique of Murray Bookchin (1993), oferece um bom comentário sobre como a crítica específica do autor ao anarco-sindicalismo entre o fim dos anos 1970 e início dos 1980, já era um rompimento com o anarquismo em geral. 

Ao final, me parece ter sido um processo gradual o afastamento de Bookchin do anarquismo. O que acabou por levar a defesa do autor da associação da ecologia social com o comunalismo. 

Ainda assim, Bookchin merece ser lido e estudado com atenção e respeito por novas gerações de anarquistas. Principalmente pela abordagem dialética de base ecológica que ele oferta para entender as questões sociais e ambientais como indissociáveis para a construção do socialismo no século XXI.

Raphael Cruz


A crise ecológica, segundo a ecologia social




Este fluxograma é o produto de uma manhã de estudo sobre a ecologia social de Bookchin e Biehl.

Venho estudando o tema de maneira não muito sistemática desde 2022.

Para Bookchin e os sociais-ecologistas, a dominação da natureza deriva da dominação do homem sobre o homem.

É preciso primeiro dominar uma população para depois obrigá-la a construir uma barragem, por exemplo.

Os textos da ecologia social que embasaram esse fluxograma datam de 1980. Mantive-me fiel aos termos dos autores como "forças sociais", "espoliação da biosfera", "crise ecológica".

Os textos antecipam algo hoje compreensível, pelo menos para uma parte da sociedade: a crise ecológica possui causas sociais.

Uma crise produzida pelas classes economicamente dominantes em articulação, é claro, com as elites políticas. 

Recentemente essa questão é tratada nas ciências natuais e sociais a partir dos enquadramentos do Antropoceno e do Capitaloceno.

Bookchin ajudou a criar no socialismo uma sensibilidade socioecológica que remonta aos anos 1960 com seus primeiros textos sobre a temática ambiental.

Portanto, um pioneiro, ainda que pouco reconhecido.

O fluxograma busca representar graficamente um argumento basilar da ecologia social: a emergência histórica da hierarquia social e seus desdobramentos como o Estado e o capitalismo são forças sociais responsáveis pela crise ecológica vivida hoje.

Acho que cheguei a um bom resultado, mas estou com a sensação de que posso complexificar um pouco mais.

Agora, algumas palavras sobre esquemas gráficos.

Em minha vida de estudante, percebi só muito recentemente, 2011, talvez, que "desenhar", na forma de diagrama, fluxograma e demais esquemas gráficos, é algo que muito me ajuda a compreender certos argumentos das ciências sociais e da filosofia.

Recorri a esses "esquemas" como parte de minhas aulas quando me tornei professor em 2019. Percebi uma boa receptividade deles pelos discentes.

Desde então, estudo e leciono por meio desses "desenhos". Eles veem produzindo efeitos positivos tanto para mim quanto para meus alunos.

Raphael Cruz





Um ano de treino de força

 Hoje completo 1 ano de treino ininterrupto.

São 4 dias de musculação e 2 de cardio por semana.

Não experimentei essa constância aos 20 anos. Conseguir aos 40 e sem atalhos é motivo de comemoração.

Obrigado, meu amor, por me acompanhar nessa aventura.

Dois centavos sobre Barros

 Apesar de não concordar com a crítica de Douglas Barros a Nego Bispo, reconheço que ela deve ser lida em sua complexidade.

Assim se evita entrar numa lógica de Fla x Flu, que é típica das redes sociais.

Eu mesmo discordo da maneira que Bispo argumenta sobre a categoria trabalho, mas isso é outra questão.

Algo que se destacou da crítica de Barros, e que infelizmente é recorrente, é a dificuldade que alguns colegas marxistas têm de conviver com a ideia de que o marxismo não monopoliza a crítica da vida social.

De que é possível, legítimo e necessário fazer essa crítica de outro sistema filosófico e categorias que não aquelas legadas por Marx e discípulos.

E que qualquer esforço de crítica social, inclusive o esforço marxista, tem seus limites e possibilidades, é produto de contexto histórico particular.

No final das contas, o que importa para os povos e a classe trabalhadora é o quanto tais filosofias nos permitem ou não solucionar os problemas colocados na luta por emancipação.


Monstro do Pântano

 Talvez a história em quadrinhos mais tenra e bela que alguém poderia ler em março de 1985 seria Monstro do Pântano n° 34. Nela, o verdoso e Abby levam a amizade para outro nível. A maneira que o roteiro de Moore e as imagens criadas por Bissette e Totleben expressam essa nova relação entre os personagens, me lembra de porque os quadrinhos é uma forma de arte.

Quem matou meu pai

Parecia que eu estava violando secretamente as cartas de um filho para o seu pai.

Foi essa a sensação inicial ao ler Quem matou meu pai, de Édouard Louis.

Um livro sobre identidade e paternidade, e também sobre as diversas expressões que a violência, o carinho e a política podem assumir no seio de uma família da classe trabalhadora no interior da França.

Meu primeiro livro de literatura lido em 2026. Sugestão de minha esposa.

Melhor aquisição de livro em 2025


A melhor aquisição desse ano foi uma edição espanhola de A capacidade política da classe trabalhadora, o testamento político de Proudhon, datada de 1869 e com tradução de Pi Y Margall.

O exemplar foi possivelmente restaurado, pois está em ótimas condições, e possui uma dedicatória realizada em 1959.

Existe uma tradução parcial em português da obra pela editora Intermezzo.

As raízes dos projetos societários do anarquismo e do sindicalismo revolucionário estão aí esboçadas.

Particularmente na proposta de que a classe trabalhadora possui as condições para autogerir a economia e, assim, reinventar a política através do federalismo, por fora e contra qualquer tutela capitalista ou burocrática.

Proudhon nomeou isso, antes de trotskistas e maoístas utilizarem estes termos, de "democracia operária" ou "nova democracia", assentada na força coletiva dos produtores, organizada por um direito econômico e político comutativos e sinalagmáticos.

Um olhar sociológico atento também encontra aí as raízes da discussão sobre a autoprodução do social e da reciprocidade, temas estes que tanto fizeram as cabeças de Émile Durkheim e Marcel Mauss em suas críticas ao utilitarismo nas ciências sociais.

Lembrando que os durkheimianos foram leitores e comentadores de Proudhon.

Enfim, obra com desdobramentos frutíferos e longevos no socialismo e na sociologia, contudo, permanece quase desconhecida na esquerda e na academia de nosso país.

II Colóquio Pesquisa e Anarquismo



A convite da colega Luciana Brito, da Comissão Organizadora, fui chamado a compor o Comitê Científico do II Colóquio Pesquisa e Anarquismo, que ocorrerá em abril de 2026 em Florianópolis.

O evento tem como objetivo possibilitar a aproximação de pesquisadoras/es do campo anarquista ou que partam de teorias, abordagens e práticas anarquistas para embasar suas produções acadêmicas e militantes. As inscrições são gratuitas e já estão abertas.

Nos vemos em Floripa! Para mais informações, clique aqui.

Colóquio de Economia Internacional


 

Fui convidado pelo Grupo de Estudo e Pesquisa em Economia Internacional para participar da mesa Transição energética e justiça socioambiental, durante o Colóquio de Economia Internacional.

Será uma oportunidade para comentar sobre o que venho chamando de "transição energética vista de baixo".

Isto é, como os movimentos sociais do campo vêm enquadrando a transição desde uma perspectiva que tem tensionado e entrado em conflito com os pontos de vista da tecnocracia do Estado e dos empresários do setor de energias renováveis.

Agradeço ao @gepei.ufc pelo convite para voltar à Universidade Federal do Ceará, em Fortaleza, e compartilhar meus achados de pesquisa sobre este tema tão urgente e do qual a sociologia crítica e a etnografia reflexiva têm suas contribuições a dar.


Proudhon como observador e teórico da ação proletária

Proudhon observou o que os movimentos populares de sua época faziam e tentou sistematizar isso numa teoria da autodeterminação proletária, reivindicando como categoria teórica uma categoria já utilizada pelos próprios trabalhadores no seu cotidiano organizativo: mutualismo.


Raphael Cruz

Teoria da organização como teoria do poder em Bakunin

A teoria da organização de classe de Bakunin é também uma teoria do poder social.

Ao refletir de por que a burguesia é inferior em quantidade ao proletariado, contudo mais poderosa, ele sugere que a força dela reside em sua organização enquanto classe.

A capacidade da burguesia em partilhar interesses e articular estratégias em comum, apesar de inevitáveis diferenças entre suas frações, é um fator qualitativo que compensa sua desvantagem numérica frente ao proletariado.

Nesse sentido, para Bakunin o segredo da vitória dos trabalhadores na luta de classes, reside em sua organização enquanto classe para si (consciência e luta por seus interesses) e por si (autonomia na ação frente a burguesia e o Estado).

É ciente disso que Bakunin apoiará e participará da Associação Internacional dos Trabalhadores.


Raphael Cruz

A problemática e a solucionática proudhoniana

Os problemas da propriedade e do poder são centrais na obra de Proudhon.

E a maneira de enquadrar a solução deles, desde o ponto de vista da classe trabalhadora, foi sua contribuição metodológica fundamental.


Raphael Cruz

O peso de um livro vivo

 Encantado com a escrita da Aline Bei. Interessei-me por seu trabalho ao ler entrevista cedida pela autora ao jornal literário Rascunho, do qual sou assinante. "O peso do pássaro morto" é uma experiência e tanto de leitura, um ponto fora da curva, inesquecível!

Raphael Cruz

Limbo geracional

 Na musculação, um cara me chamou de paizão, mas outro sujeito me chamou de garotão! Estou num limbo geracional?

Projeto de Extensão - Interpretações do Brasil


 

Ontem, tive o prazer de inaugurar os trabalhos do projeto de extensão @interpretacoesdobrasil.ufpi no @cchlufpi, em Teresina.

O projeto é integrado por alunos de graduação e pós-graduação da UFPI e da UESPI, de diferentes cursos, e coordenado pela @prof.rossanamarinho e por mim.

Iniciamos tratando de Clóvis Moura e de como ele propõe compreender a formação social brasileira a partir da experiência do Quilombo de Palmares.

Palmares foi um projeto societário alternativo que concorreu com o sistema escravista por mais de 100 anos, abrangendo 30 mil pessoas numa área de 27 mil km quadrados, assentado no trabalho comunitário, na propriedade comum, numa economia agrária não-monetária.

Feliz de ver a participação dos membros do projeto e dos inscritos na organização e desenvolvimento da atividade. Agradeço a aluna @_rubiaas pela edição do vídeo.

Sintam-se convidados para os próximos encontros. As atividades valem certificados e temos café e peta para saborear. Te vejo no próximo!

Debate atual sobre a crise das licenciaturas e o contínuo esvaziamento dos cursos

 


Nesta quarta-feira, terei a satisfação de mediar a mesa-redonda Debate atual sobre a crise das licenciaturas e o contínuo esvaziamento dos cursos. 

Ela é parte da programação da VII Semana de Pedagogia do @pedagogiacafsufpi. 

Participam comigo os colegas Luiz Eduardo (UFPI) e Robison Raimundo (UESPI), com quem discutiremos os desafios e perspectivas da formação docente no Brasil.

Da sociologia ao Marquês de Sade: uma memória de leitor na puberdade

O que é sociologia?, de Carlos Benedito Martins, foi o primeiro livro de sociologia que li na vida. Eu tinha uns 11 anos.

Ele estava num armário lá em casa, com outros de sexologia e gravidez da minha mãe, enciclopédias e livros de geografia, pedagogia, agronomia e ciências naturais dos meus tios.

Talvez a capa do livro tenha me chamado a atenção, pois achava esquisito uma pessoa sentar-se nas costas de outra. Abri o livro e comecei a ler. Lembro de não entender nada.

Oito anos depois, o reencontrei numa disciplina de introdução à sociologia no primeiro semestre da faculdade de ciências sociais.

Quando descobri o mundo das enciclopédias, sempre voltava aquele armário. E quando eu e @danielsdh passamos a ler histórias em quadrinhos, passamos a guardá-las ali também.

Com 12 ou 13 anos, eu descobri ali um livro diferente. Não se parecia com nada que lia na escola ou nas histórias dos X-Men. Era simplesmente a Filosofia na Alcova, do Marquês de Sade. Achei bem melhor do que sociologia, pelos motivos que qualquer menino na puberdade acharia rsrsrs. Li escondido até o dia em que meu tio descobriu e escondeu o livro de mim. O que era algo que qualquer adulto razoável deveria fazer.

Por mais que o contato precoce com a sociologia tenha sido entediante, aprendi a ver sentido nela e, anos depois, ela se tornou a minha profissão.

Essas situações envolvendo livros chatos e outros excitantes me fazem pensar em Pierre Bourdieu e o que ele falava sobre como a herança cultural é repassada entre as gerações de uma família.

O livro nunca me foi um objeto estranho porque sempre tinha algum em casa, ainda que nem todos eu pudesse ler na puberdade. Só li Sade novamente aos 20 e poucos anos, um livro escandaloso intitulado Justine. 

Me mimei

 Me mimei! Adquiri a caixa que reúne as primeiras 50 edições do maior quadrinho alternativo de todos os tempos, num total de 2.200 páginas. 

Conheci Love & Rockets no início dos anos 2000 e foi amor à primeira vista pela obra de Jaime e Gilbert Hernandez.

Considerada pelo mestre Allan Moore como a mais empolgante HQ dos anos 80, e pelo L.A Weekly como contendo os maiores personagens da literatura norte-americana contemporânea. 

Tudo é hiperbólico quando se trata de L&R, e quando se é fã.

Raphael Cruz


Dez anos das ocupações de escola

Ocupação de escola em 2016. Fonte.

 Esse ano, completam-se 10 anos do mais recente ciclo nacional de ocupações de escola que ocorreu no Brasil, iniciado em outubro de 2015 e adentrando o ano de 2016.

Transição energética e reforma agrária

 Transição energética sem reforma agrária é roubo!

Do mutualismo à ameaça a segurança nacional

Manifestação das Ligas Camponesas em Sapé, Paraíba, anos 1960. Fonte.


O maior movimento camponês do Brasil pré-ditadura militar, Ligas Camponesas, se originou de uma prática mutualista.

Camponeses que se cotizaram para garantir que seus camaradas fossem enterrados dignamente em caixão de madeira e não num pedaço qualquer de pano.

Esse fato sempre me lembra o historiador Howard Zinn afirmando que grandes transformações sociais nascem de pequenas ações.

No caso das Ligas Camponesas é interessante observar como algo que surgiu como prática de apoio mútuo, num sentido endógeno, de camponês para camponês, se desenvolveu até ganhar um sentido exógeno, como conflito com o Estado e a burguesia agrária, tornando as Lugas uma ameaça a segurança nacional, segundo a perspectiva das classes dominantes.

Contudo agrego que não foi qualquer prática de apoio mútuo, mas uma que atendeu com êxito uma demanda concreta de um grupo social específico, produzindo autoestima, senso de coletividade e expectativa de autonomia em seus agentes.


Raphael Cruz

A representação do eu

 A representação do eu na vida cotidiana é um livro clássico, no qual Erving Goffman inaugura sua "sociologia dramatúrgica", comumente confundida com o interacionismo simbólico. 

Nesta obra, publicada em 1956, ele utiliza a metáfora do teatro para analisar as interações sociais, sugerindo que as pessoas, ao se relacionarem, estão encenando papéis diante dos outros, como se estivessem num palco. 

Li pela primeira vez em 2012, para a seleção do mestrado em sociologia da UFC, na qual fui aprovado.

Da interação à estrutura

As interações cotidianas que se repetem no tempo e no espaço são a base para a formação de relações sociais, que são a transformação das interações em algo mais constante. Por sua vez, dada a estabilidade das relações sociais, estas conseguem por em movimento processos sociais, sejam de produção, reprodução ou transformação de uma determinada ordem social. Contudo, tanto as interações, as relações como os processos se constituem a partir de determinadas estruturas sociais, que lhes dão as condições de possibilidade, as influenciando em seu funcionamento e sendo influenciadas por elas, seja no sentido da reprodução, da transformação ou produção de novas estruturas sociais. Ainda que o nível 1 desse esquema da ordem social, a interação, prescinda de estruturas sociais, o nível 4, a condição de possibilidade das estruturas estão nas interações, o nível "inicial" onde a ordem social é posta em movimento de produção, reprodução ou transformação. Entretanto, a interação prescinde tanto da estrutura quanto da cultura, esta propicia a comunicação ou a não comunicação da qual se vale a interação para operar socialmente.

Trabalho, guerra e revolução: As comunas agrárias makhnovistas

O que sabemos sobre as “comunas agrárias” implantadas pela Makhnovitchina?  Em suas memórias, Nestor Makhno (1988) descreve algo de sua orga...