Etnografar resistências

Sherry Beth Ortner (1941-)


Durante minha pesquisa de doutorado, dois artigos foram importantes, do ponto de vista metodológico, para orientar como seria possível observar e descrever formas de resistência de grupos sociais subalternizados.

O primeiro foi o aclamado "Formas cotidianas de resistência camponesas", de James C. Scott. O segundo foi o menos conhecido, mas não menos importante "Resistance and problem of ethnographic refuse", em tradução livre: Resistência e o problema da recusa etnográfica, de Sherry B. Ortner.

O primeiro texto desvelou todo um mundo de resistência camponesa para além das "formas não-cotidianas", como bloqueios de pista, passeatas, ocupação de terras, e possibilitou olhar e legitimar os "pequenos" atos cotidianos de recusa a colaborar com a dominação.

O segundo texto reafirmou o quanto era importante valorizar as formas de resistência dos subalternizados para aqueles pesquisadores interessados em compreender os processos sociais de dominação e resistência e a dialética que os organiza e atualiza.

Isso porque ao se centrar nos efeitos deletérios da economia global ou da política imperial sempre corre-se o risco de simplesmente tratar os "condenados da terra" como corpos passíveis e sem agência, como "impactados" somente, e não como formuladores de uma visão de mundo sobre o que os acomete a partir de seu próprio repertório cultural, e como agenciadores de resistências a partir de um repertório político imanente e criativo.

Esse texto de Ortner foi importante para que eu valorizasse o ponto de vista de meus interlocutores de pesquisa sobre o conflito socioambiental e territorial que experienciavam junto a empresas de energia eólica no litoral piauiense, e para que depois eu pudesse formular o enquadramento da "transição energética vista de baixo", que parte justamente da perspectiva dos povos e comunidades sobre os recentes processos capitalistas de transformação socioambiental.

Apresento, a seguir, uma tradução da conclusão do artigo de Ortner.


Resistance and the Problem of Ethnographic Refusal

Sherry B. Ortner

Comparative Studies in Society and History, Vol. 37, No. 1 (Jan., 1995), pp. 173-193

O argumento central deste ensaio pode ser expresso de maneira muito simples. Os estudos sobre resistência são superficiais porque são etnograficamente superficiais: são superficiais quanto à política interna dos grupos dominados, superficiais quanto à riqueza cultural desses grupos, superficiais quanto à subjetividade—intenções, desejos, medos, projetos—dos atores envolvidos nesses dramas. Essa superficialidade etnográfica, por sua vez, deriva de várias fontes (além, é claro, da simples má etnografia, que sempre é uma possibilidade). 

A primeira fonte é a falta de coragem para abordar questões sobre a política interna dos grupos dominados e sobre a autenticidade cultural desses grupos, um tema que levantei ao longo deste ensaio. A segunda está relacionada às questões que envolvem a crise da representação—isto é, a possibilidade de representações verídicas dos outros (ou Outros) e a capacidade do subalterno de ser ouvido—, um ponto que acabei de discutir. Essas duas problemáticas, quando combinadas, convergem para produzir uma espécie de buraco negro etnográfico. 

Preencher esse buraco negro certamente aprofundaria e enriqueceria os estudos sobre resistência, mas há mais do que isso em jogo. Esse preenchimento revelaria—ou deveria revelar—as ambivalências e ambiguidades da própria resistência. Essas ambivalências e ambiguidades, por sua vez, emergem das complexas teias de articulações e desarticulações que sempre existem entre dominantes e dominados. Isso porque a política da dominação externa e a política dentro de um grupo subordinado podem tanto se conectar quanto se repelir; as culturas dos grupos dominantes e dos subalternos podem dialogar, mesmo ao se contraporem entre si; e, como Nandy argumenta de maneira eloquente, os sujeitos subordinados podem manter sua autenticidade oposicional e sua agência ao recorrer a aspectos da cultura dominante para criticar tanto seu próprio mundo quanto a situação de dominação em que se encontram. 

Em suma, só é possível compreender como a resistência pode ser mais do que simples oposição—como pode ser verdadeiramente criativa e transformadora—se reconhecermos a multiplicidade de projetos nos quais os seres sociais estão sempre envolvidos e a multiplicidade de maneiras pelas quais esses projetos se alimentam, ao mesmo tempo que colidem, uns com os outros.

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