Educação e revolução social


Participarei de uma conversa com a professora e pesquisadora do anarquismo, Luciana Brito, sobre a perspectiva de Mikhail Bakunin acerca da relação entre educação e revolução social. O encontro acontecerá no canal Anarquismo e Geografia, do @max_stirner_king, no dia 29 de março, às 19h.


Duas HQs

Dois títulos de HQs estão em toda parte no Brasil: de lanchonetes duvidosas na beira da BR a bancas de cidades minúsculas do sertão. Se tem gibi, tem Turma da Mônica e Tex. O Brasil não é para amadores.

Raphael Cruz

Congresso Internacional de Estudos Bakuninianos

 


Ao completar um século do falecimento de Mikhail Bakunin, foi realizado um congresso internacional de estudos na Itália sobre sua vida e obra.

Percebe-se que foi um grande evento pela quantidade de palestrantes renomados e demais participantes. Pena que não tenha se tornado uma tradição nem iniciado um campo relativamente estável de estudos sobre a obra bakuniniana ainda nos anos 1970.

Se passarariam três décadas para que parte considerável da produção intelectual de Bakunin fosse organizada pelo Instituto de História Social de Amesterdã e, com isso, uma série de investigações reavivassem esse impulso inicial e coletivo de pesquisa.

Se passarariam ainda quarenta anos até que ocorresse um evento internacional de tamanha projeção sobre o legado de Bakunin, como foi a Conferência do Bicentenário (1814-2014) de seu nascimento, em sua terra natal Pryamuchino, na Rússia.

Abaixo segue texto retirado e traduzido de Estel Negre, que recorda o evento internacional de 1976.

Raphael Cruz

***

Entre os dias 24 e 26 de setembro de 1976, no centenário da morte de Mikhail Bakunin, foi realizado no Palazzo Seriman de Veneza (Vêneto, Itália) o Convegno Internazionale di Studi Bakuniniani (Congresso Internacional de Estudos Bakuninianos), organizado pelos Grupos Anarquistas Federados (GAF) e sob o patrocínio da Associação Cultural Libertária "A. e B. Carocari". O congresso, coordenado por Nico Berti, contou com a presença de dezenas de especialistas em Bakunin e centenas de pessoas interessadas em sua vida e obra. Nas sessões mais populares, reuniram-se mais de quinhentas pessoas na sala e no pátio adjacente, onde a organização havia instalado alto-falantes. Neste congresso, a figura de Bakunin foi estudada a partir de um ponto de vista acadêmico interdisciplinar, com diversas abordagens (sociológica, pedagógica, filosófica, ideológica, poética, etc.). Participaram com palestras destacados intelectuais, como Alexander Alexiev, Maurizio Antonioli, Henri Arvon, Giovanni Biagioni, Giampietro N. Berti, Amedeo Bertolo, Lamberto Borghi, Romano Broggini, Eduardo Colombo, Sam Dolgoff, Marianne Enckell, Paola Feri, Violette Gaffiot, Daniel Guerin, Gianni Landi, Arthur Lehning, Jean Maitron, Pier Carlo Masini, Luciano Pellicani, Giorgio Penzo, Silvia Rota Ghibaudi, Domenico Settembrini, Misato Toda, Tina Tomasi, Claudio Venza, Marc Vuilleumier, entre outros – Franco Della Peruta e Juan Gómez Casas estavam no programa, mas acabaram não participando. Em 1977, as Edizioni Antiestato de Milão (Lombardia, Itália) publicaram as atas sob o título Bakunin cent'anni dopo: Atti del Convegno Internazionale di Studi Bakuniniani.





Fonte


Fonte

Estudos sobre o periódico anarquista A Plebe: uma bibliografia comentada em ordem cronológica (1998-2024)

A Plebe, 9 de setembro de 1933, n 39. 

Apresentação

A pesquisa acadêmica sobre o jornal anarquista A Plebe passou por uma diversificação temática desde os anos 1990, ampliando o seu escopo e aprofundando sua análises conforme novos interesses foram incorporadas. Essa trajetória pode ser dividida em quatro momentos principais, correspondentes às décadas em que os estudos foram publicados. 

Nos anos 1990, a pesquisa sobre A Plebe era incipiente e concentrava-se exclusivamente na análise da imagem. O estudo realizado nesse período sugere interesse inicial pelos aspectos visuais do jornal.

Nos anos 2000, o escopo temático se expandiu, incorporando novos objetos de estudo. A educação tornou-se tema relevante, com três trabalhos tratando do tema, o que sugere um interesse pela relação entre o anarquismo e a pedagogia. Além disso, emergiram análises sobre arte, representação da revolução social, discurso e sexualidade. A década também marcou o início das investigações sobre o embate entre anarquistas e comunistas. 

Nos anos 2010, houve uma diversificação dos estudos, consolidando A Plebe como um objeto de pesquisa mais abrangente. A análise da imagem e da arte ganhou fôlego, com temas como ilustrações, caricaturas políticas e experiência visual, o que indica tanto um retorno de uma temática de estudo inaugurada nos anos 1990, como um aprofundamento na investigação da dimensão estética do periódico.

Paralelamente, cresceu o interesse pela representação e pelo imaginário, especialmente no que diz respeito à iconografia, à representação do feminino e ao imaginário dos militantes anarquistas. Além disso, a pesquisa sobre discurso e propaganda continuou avançando, sendo acompanhada por estudos sobre literatura e poesia no jornal.

A década também testemunhou um crescimento dos trabalhos sobre gênero e sexualidade, evidenciado por pesquisas sobre a emancipação feminina e a representação da mulher no periódico.

O tema dos conflitos políticos e ideológicos também foi reforçado, com novas análises sobre o fascismo, o antifascismo, o catolicismo e a interpretação anarquista da Revolução Russa. Por fim, houve um aumento nos estudos sobre o movimento operário e sindicalismo, incluindo pesquisas sobre o Primeiro de Maio, greves, ação direta, sindicalismo revolucionário e internacionalismo operário. 

Nos anos 2020, os estudos passaram a conectar A Plebe com a questão social, organização política anarquista e condições de vida da classe trabalhadora. Pela primeira vez, surgiu investigação sobre moradia e transporte. Além disso, a análise do sindicalismo revolucionário e da consciência de classe indicou um esforço para relacionar o discurso do jornal com as dinâmicas de organização e mobilização política dos trabalhadores. 

A trajetória dos estudos sobre A Plebe revela, portanto, uma evolução que vai da análise de aspectos mais formais e discursivos para um olhar mais amplo sobre a atuação do jornal no movimento operário e suas implicações para a compreensão da questão social. Se nos anos 1990 o interesse acadêmico se limitava à imagem, nas décadas seguintes a pesquisa expandiu-se para temas como educação, discurso, gênero, conflito político e sindicalismo, chegando, nos anos 2020, com a questão social.

Bibliografia em ordem cronológica

Anos 1990

CAMARGO, Dayse de. O teatro do medo: a encenação de um pesadelo nas imagens do periódico anarquista A Plebe (1917-1951). 1998. Dissertação (Mestrado em História) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 1998. 

Anos 2000

GONÇALVES, Ody Furtado. Trajetória e ação educativa do jornal A Plebe (1917-1927). Quaestio – Revista de Estudos em Educação, v. 6, n. 2, 2004. 

FIGUEIRA, Cristina Aparecida Reis. O jornal, o cinema, o teatro e a música como dispositivos da propaganda social anarquista: um estudo sobre as colunas “Espetacullos” e “Palcos, Telas e Arenas” nos jornais A Lanterna e A Plebe (1901-1921). In: Congresso Luso-Brasileiro de História da Educação, 2006. p. 32-48. 

GONÇALVES, A. M. ; NASCIMENTO, M. I. M. . Anarquismo, trabalho e educação nas folhas do jornal " A Plebe". In: VII Seminário Nacional de Estudos e Pesquisas, 2006, Campinas. VII Seminário Nacional de Estudos e Pesquisas. Campinas: faculdade de Educação da Unicamp. v. 01. p. 50-51.

MARTINS, Angela Maria Roberti. Palavras e imagens que fazem sonhar: imprensa libertária e representações da revolução social (A Plebe – 1919). Maracanan, v. 3, n. 3, p. 57-72, 2007. 

GONÇALVES, Aracely Mehl (2007). Francisco Ferrer y Guardia: Educação e a imprensa anarcosindicalista – “A Plebe” (1917- 1919). Dissertação (Mestrado em Educação) -Universidade Estadual de Ponta Grossa, Ponta Grossa.

RIBAS, Ana Claudia. As sexualidades d'A Plebe: um breve olhar sobre os discursos e os debates sobre sexualidade no jornal anarquista A Plebe. Revista Ártemis, v. 8, 2008. 

GONÇALVES, Aracely Mehl; NASCIMENTO, Maria Isabel Moura. A educação nas folhas do jornal “a plebe”: 1917-1919. Publicatio UEPG: Ciências Sociais Aplicadas, v. 16, n. 2, 2008.

VENANCIO, Rafael Duarte Oliveira. Ethos e Revolução: legitimação retórica dos jornais alternativos. Revista Alterjor, v. 1, p. 1-18, 2009.

PEIXOTO, Maitê. O quarto poder vermelho: embates teóricos e político-ideológicos entre anarquistas e comunistas nos jornais A Plebe e Voz Cosmopolita (1917-1927). In: Simpósio Nacional de História, 25., 2009, Fortaleza. Anais... Fortaleza: ANPUH, 2009. 

Anos 2010

MACIEL, Camila Queiroz. Mulher libertária é a mulher libertada: um projeto de emancipação feminina anarquista no jornal A Plebe (1917-1927). 2010. 159f. TCC (Graduação em Comunicação Social) - Universidade Federal do Ceará, Curso de Comunicação Social, Habilitação em Jornalismo, Fortaleza (CE), 2010.

PEIXOTO, Maitê. O quarto poder vermelho: embates teóricos e político-ideológicos entre anarquistas e comunistas (1917-1927). Oficina do Historiador, v. 1, n. 1, p. 41-50, 2010.

GARZIA, R. F. . Pela Desordem: Imagens e Imaginário da Revolução Social entre o Círculo Militante do Jornal A Plebe (1917-1922). In: V Congresso Internacional de História, 2011, Maringá-PR. Anais do V Congresso Internacional de História, 2011. p. 53-63.

GARZIA, R. F. . Imagens e imaginário anarquista a partir do jornal A Plebe (1917-1920). In: Colóquio de História e Arte: "História e Arte: encontros", 2011, Recife-PE. Anais do Colóquio de História e Arte, 2011. p. 302-307.

GARZIA, R. F. Imaginário Gravado: o imaginário anarquista a partir das gravuras do A Plebe (1917-1920). In: SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA, 26., 2011, São Paulo. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História, 2011.

RIBAS, Ana Claudia. CORPO, LIBERDADE E ANARQUISMO: Perspectivas libertárias nas páginas do jornal A Plebe durante a primeira metade do século XX. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História–ANPUH, São Paulo, 2011.

CAMARGO, Daisy. Bestiário da autoridade: representação iconográfica do periódico anarquista A Plebe. Domínios da Imagem, v. 7, n. 12, p. 71-81, 2013. 

CASADEI, Eliza Bachega. A função revolucionária da mulher: representações do feminino nos jornais operários e anarquistas do início do século XX. Revista Alterjor, v. 7, n. 1, p. 1-13, 2013.

DA FONSECA, João Gabriel. A insurgência da ação direta na imprensa operária da Primeira República em A Plebe. Revista Três Pontos, 2013. 

GARZIA, Ricardo Ferrini. Traçando a anarquia: o imaginário dos militantes do Jornal A Plebe e as suas ilustrações (1917-1924). 2013. 200 f. Dissertação (Mestrado em História Social) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2013.

PEIXOTO, Maitê. A partilha da experiência visual vivenciada nas páginas do jornal A Plebe. Revista Latino-Americana de História, v. 2, n. 7, p. 309-326, 2013. 

SANTOS, Kauan Willian dos. O jornal A Plebe: militância e estratégias de propaganda anarquista no movimento operário em São Paulo (1917 a 1920). Trabalho de conclusão de curso (Bacharelado e Licenciatura em História) – Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), Guarulhos, 2013.

SILVA, Zélia Lopes. A caricatura política na concepção libertária do periódico A Plebe (1947-1949). Antíteses, p. 261-287, 2013. 

DA FONSECA MATEUS, João Gabriel. Arte e anarquismo no periódico A Plebe (1917). REVHIST – Revista de História da UEG, v. 3, n. 1, p. 163-182, 2014. 

DE CAMARGO, Daisy. O teatro do medo: a encenação de um pesadelo nas imagens do periódico anarquista A Plebe (1917-1951). Paco Editorial, 2014. 

RIBAS, Ana Claudia. A questão feminina nas páginas libertárias: propaganda e emancipação feminina nas páginas do jornal anarquista A Plebe (1917-1935). Anais do XV Encontro Estadual de História, v. 11, 2014. 

FERREIRA, Denise Cristina. O jornal A Plebe: uma análise do pensamento educacional dos anarquistas no Brasil (1917-1935). In: CONGRESSO NACIONAL DE EDUCAÇÃO (CONEDU), 2., 2015, Campina Grande. Anais [...]. Campina Grande: Realize Editora, 2015.

RIBAS, Ana Claudia et al. As sexualidades d'A Plebe: sexualidade, amor e moral nos discursos anarquistas do jornal A Plebe (1917-1951). 2015. 

RIBAS, Ana Claudia. As sexualidades d’A Plebe: um breve olhar sobre os discursos e os debates sobre sexualidade no jornal anarquista A Plebe (1917-1951). 2015. 290 f. Tese (Doutorado em Interdisciplinar em Ciências Humanas) – Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2015.

RODRIGUES, André. O Primeiro de Maio nos jornais anarquistas A Plebe e A Lanterna (1932-1935). Vozes, Pretérito & Devir: Revista de História da UESPI, v. 4, n. 1, p. 95-109, 2015.

RODRIGUES, André. A identidade entre movimentos fascistas e Igreja Católica nos jornais anarquistas A Plebe e A Lanterna (1932 - 1935). Boletim Historiar, v. 11, p. 37-50, 2015.

RODRIGUES, André. As relações entre os movimentos fascistas e a Igreja Católica nas páginas dos jornais anarquistas A Plebe e A Lanterna (1932-1935). In: CONGRESSO DE HISTÓRIA, 5., 2015, Ivaiporã. Anais [...]. Ivaiporã: UEM, 2015.

RODRIGUES, André. O jornal A Plebe e a luta anarquista contra o Ministério do Trabalho (1932-1935). In: CONGRESSO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA, 7., 2015, Maringá. Anais [...]. Maringá: [s.n.], 2015. p. 98.

SANTOS, Kauan Willian dos. Derrubando fronteiras: a construção do jornal A Plebe e o internacionalismo operário em São Paulo (1917-1920). História e Cultura, Franca, v. 4, n. 1, p. 122-139, 2015.

SANTOS, Kauan Willian dos. Paz entre nós, guerra aos senhores: o internacionalismo anarquista e as articularições políticas e sindicais nos grupos e periódicos anarquistas guerra social e a plebe na segunda década do século XX em São Paulo. 2016. 179 f. Dissertação (Mestrado) - Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), Guarulhos, 2016.

DE SOUZA DIANNA, Eduardo Matheus. O movimento operário na Primeira República, debates, considerações e contribuições. Revista Eletrônica História em Reflexão, v. 10, n. 20, p. 16-37, 2016.

DE SÁ BENEVIDES, Bruno Corrêa. O antifascismo na imprensa anarquista durante a Primeira República – A Plebe e Alba Rossa (c. 1919-c. 1922). Revista Aedos, v. 8, n. 19, p. 277-296, 2016.  

DE SÁ BENEVIDES, Bruno Corrêa. O antifascismo na imprensa anarquista durante a Primeira República – A Plebe e Alba Rossa (c. 1919-c. 1922). Revista Aedos, v. 8, n. 19, p. 277-296, 2016. 

MACHADO, Liliane Maria Macedo; STRONGREN, Fernando Figueiredo. O agendamento da greve nas páginas de A Plebe. Revista Comunicação Midiática, v. 11, n. 1, p. 77-92, 2016. 

DE BRITO, Rose Dayanne Santos. “O pobre não é vadio”: uma crítica ao discurso elitista acerca do trabalho na Primeira República. História e Cultura, v. 6, n. 2, p. 144-160, 2017.

RODRIGUES, André. Sob o estandarte rubro-negro : anarquismo e antifascismo nos jornais A Plebe e A Lanterna (1932-1935). 2017. 116 f. Dissertação (mestrado em História) - Universidade Estadual de Maringá, Maringá, 2017.

RODRIGUES, André. Bandeiras negras contra camisas verdes: anarquismo e antifascismo nos jornais A Plebe e A Lanterna (1932-1935). Tempos Históricos, v. 21, n. 2, p. 74-106, 2017. 

JÚNIOR, Demetrio Quiros Bello. “Dentro da nossa esplêndida chimera, encerramos o mundo d’amanhã”: literatos e poesia libertária nas páginas de A Plebe. Revista Hydra: Revista Discente de História da UNIFESP, v. 2, n. 3, p. 33-57, 2017. 

STRONGREN, Fernando Figueiredo. Imprimindo a anarquia: o jornalismo anarquista no Brasil nas primeiras décadas do século XX. 2017. 192 f., il. Dissertação (Mestrado em Comunicação)—Universidade de Brasília, Brasília, 2017.

GONÇALVES FELIPE, Cláudia Tolentino. A áurea revolucionária no discurso anarquista brasileiro (1917-1922). Cadernos de Pesquisa do CDHIS, v. 31, n. 2, 2018. 

KIST, André Urban. Discurso revolucionário na greve geral de São Paulo em 1917. 2018. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) – Universidade do Vale do Rio dos Sinos, Escola de Humanidades, 2018.

SANTOS, Kauan Willian dos ; FERNANDES, André Santoro. A bandeira vermelha e negra: posições políticas e estratégias anarquistas frente à Revolução Russa no Brasil. Revista Latino-Americana de História-UNISINOS, v. 7, n. 19, p. 63-85, 2018.

STRONGREN, Fernando Figueiredo; MACHADO, Liliane Maria Macedo. Informar para mobilizar: o caso do jornal anarquista A Plebe. Revista Extraprensa, v. 12, n. 1, p. 27-49, 2018. 

PIOVEZANI, Carlos. A oratória popular na imprensa anarquista brasileira: um estudo de caso do jornal A Plebe. Cadernos de Estudos Linguísticos, v. 61, p. 1-19, 2019.

GRIGOLIN, Fernanda. Expressão, registro e propaganda: o anarquismo impresso em A Plebe. Anais do 30º Simpósio Nacional de História, 2019. 

Anos 2020

Barbosa, Joyce Martins. Os escritos femininos no jornal A Plebe em 1917. 2020. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em História) - Faculdade de Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2020.

FERREIRA, Denise Cristina; LIVÉRIO, Andressa Oliveira. Educação anarquista: o Brasil em inícios do século XX pelo jornal A Plebe. In: CONGRESSO NACIONAL DE EDUCAÇÃO (CONEDU), 7., 2021, Campina Grande. Anais [...]. Campina Grande: Realize Editora, 2021.

RIBEIRO, Vitória. “O que urge fazer?": Sobre moradia e transporte nas páginas d'O Combate e d'A Plebe durante a greve de 1917. Trabalho de conclusão de curso (Bacharelado em História). – Guarulhos: Universidade Federal de São Paulo, 2021.

FERREIRA, Matheus Barrientos. O jornal A Plebe e a luta pela construção de uma consciência anarquista de classe (1917-1924). 2023. Dissertação (Mestrado) – Universidade Estadual de Londrina, Londrina, 2023. 

SANTOS, Kauan Willian dos. "Reunindo numerosos camaradas”: organizações políticas anarquistas e libertárias no período da Primeira República no Brasil. Revista Estudos Libertários, v. 5, n. 13, 2023. 

ALVARENGA, Maria Eduarda de; GOMES, Marco Antonio de Oliveira; MAIO, Eliane Rose. Gênero e imprensa: a emancipação das mulheres no início do século XX e o jornal A Plebe (1919-1934). Cadernos de História da Educação, v. 23, p. 1-17, 2024. 

FERRARI, João Paulo Rocha. A influência do sindicalismo revolucionário na institucionalização da questão social: rebatimentos na gênese do serviço social no Brasil. 2024. 143 f. Dissertação (Mestrado em Serviço Social e Políticas Sociais) – Instituto de Saúde e Sociedade, Universidade Federal de São Paulo, Santos, 2024.

Raphael Cruz

Fontes:

https://bdtd.ibict.br

https://www.escavador.com

https://scholar.google.com.br

https://repositorio.unb.br

https://oasisbr.ibict.br

https://www.periodicos.capes.gov.br

https://repositorio.unifesp.br

https://repositorio.ufc.br

https://tede2.pucsp.br

Capitalismo como sistema de contradições socioecológicas: as perspectivas da ecologia social e do marxismo ecológico

Murray Bookchin(1921-2006) e James O' Connor (1930-2017)


Pierre-Joseph Proudhon foi possivelmente o primeiro socialista a compreender o capitalismo como um "sistema de contradições", como expressou em seu livro Filosofia da miséria, ou sistema das contradições econômicas (1846). 

Esta foi uma contribuição duradoura do autor francês para a ampla tradição socialista de crítica da economia política, incluindo aí o marxismo, ao sugerir que identificar as contradições seria uma condição de possibilidade de conhecimento científico do capitalismo, e que essas contradições poderiam originar um "quadro conceitual operatório" (Gurvitch, 1971) de explicação do sistema. Contudo, águas rolaram desde os tempos do capitalismo oitocentista que Proudhon experimentou e analisou.

A expansão das relações de produção capitalista sobre suas condições sociais e ambientais de reprodução, expressa na degradação ambiental e das condições de vida dos povos, promoveu lutas ecológicas que indicaram novas contradições do capitalismo que, ao que parece, nem Proudhon nem Marx dimensionaram devidamente, mas que, contudo, não escapou da atenção de uma nova geração de "clínicos do social", para usar a expressão de Pierre Ansart (2022). Esses, cada vez mais, assumindo-se como clínicos das relações socioecológicas.

Murray Bookchin (1980,2006), por exemplo, identificou ao menos duas contradições fundamentais do capitalismo contemporâneo: uma que pode-se classificar até de "contradição ontológica" entre a sociedade capitalista e a evolução biológica. E outra que nomearei propriamente de "contradição socioecológica", referente ao crescimento econômico e os limites ecológicos do planeta.

A primeira contradição diz respeito a expansão do capitalismo e a consequente desestruturação de processos naturais que sustentam a vida. Para Bookchin (2006), o capitalismo estaria reduzindo a diversidade biológica e simplificando os ecossistemas em prol da exploração de recursos, colocando em risco tanto a equilíbrio ambiental quanto o a própria condição de possibilidade de existência biológica da humanidade. Essa contradição ontológica evidencia que a crise ambiental não é apenas um problema técnico ou econômico, mas um choque fundamental entre o capitalismo e os processos ecológicos que permitiram a própria existência humana.

A segunda contradição, a propriamente sócioecologica, opera entre o crescimento infinito da economia capitalista e os limites ecológicos do planeta. Bookchin (1980) argumenta que essa contradição é mais relevante do que a tendência ao declínio da taxa de lucro destacada pelos marxistas clássicos. Para ele, a crise ecológica não pode ser ignorada ou reduzida a um problema secundário dentro da atual lógica e funcionamento do capitalismo. 

James O’Connor (1988), por sua vez, apresentou uma teoria marxista ecológica que ampliou a análise tradicional da contradição entre "forças produtivas" e "relações de produção". Ele argumentou que, além da superprodução de capital e crise econômica, existe uma contradição entre as forças produtivas e as relações de produção com as condições de produção – isto é, os fatores ecológicos e sociais que sustentam a economia capitalista. O esgotamento ambiental, portanto, não apenas limita o crescimento econômico, mas também gera crises que podem levar a reestruturações. 

O' Connor (1988) sugere que há dois caminhos para a superação do capitalismo: um baseado na "crise econômica" tradicional e outro na "crise ecológica".

O caminho tradicional da crise econômica é aquele baseado na teoria marxista clássica, parte da contradição entre as forças produtivas e as relações de produção. No capitalismo, a necessidade constante de acumulação de capital leva à superprodução, à queda da taxa de lucro e a crises econômicas. Essas crises podem criar condições para transformações revolucionárias, na medida em que o sistema se torna incapaz de garantir sua própria reprodução e os trabalhadores se organizam para superá-lo.

O caminho da crise ecológica e das condições de produção é uma inovação da teoria de O’Connor. Ele argumenta que, além da crise econômica tradicional, o capitalismo também gera crises ao destruir as próprias condições de produção – isto é, os recursos naturais, a força de trabalho e as infraestruturas sociais que sustentam o sistema. A degradação ambiental, o esgotamento de solos, a escassez de água e as mudanças climáticas são exemplos de como essa contradição se manifesta empiricamente. Essas crises podem impulsionar mudanças sociais, a partir do que ele nomeou de "rebeliões da natureza", pois tornam evidente a necessidade de novas formas de organização econômica que sejam ecologicamente viáveis e socialmente justas.

Enquanto o primeiro caminho está ligado à lógica interna da acumulação de capital e à luta de classes, o segundo destaca que o capitalismo também mina suas próprias bases materiais e ecológicas. Assim, a transição para um sistema pós-capitalista pode ocorrer não apenas pela falência econômica, mas também pela necessidade de reconstrução das condições de vida, o que pode levar a formas mais coletivas e ecológicas de organização social.

Tanto a ecologia social de Boikchin quanto o marxismo ecológico de O' Connor onvergiram ao reconhecer que a crise ecológica é central para a crítica ao capitalismo contemporâneo. A diferença é que Bookchin vê essa contradição como a mais importante e não como uma questão a ser integrada ao marxismo tradicional, enquanto O’Connor busca articular o problema ecológico dentro da estrutura conceitual marxista e inová-la para dar conta de desafios societários atuais.

Contudo, enquanto O'Connor manteve-se esperançoso com o possível desenvolvimento de lutas sociais a partir da identificação daquela segunda contradição do capitalismo, Bookchin se empenhou em tirar conclusões estratégicas de sua ecologia social e desenhou um projeto societário condizente com ela, que nomeou de sociedade ecológica em contraposição a sociedade hierárquica, da qual o capitalismo é a expressão atual.

Raphael Cruz


Referências

ANSART, Pierre. Proudhon, clínico do social. História: Questões & Debates, Curitiba, v. 70, n. 2, p. 292–306, 2022.

BOOKCHIN, Murray. The communalist project. In: BOOKCHIN, Murray. The social ecology and communalism. Oslo: New Compass, 2006.

BOOKCHIN, Murray. Toward an ecological society. Montreal: Black Rose Books, 1980. p. 36.

GURVITCH, Georges. Dialética e Sociologia. São Paulo: Vértice; Editora Revista dos Tribunais, 1987.

O'CONNOR, James. Capitalism, nature, socialism: a theoretical introduction. Capitalism Nature Socialism, New York, v. 1, n. 1, p. 11-38, 1988.

PROUDHON, Pierre-Joseph. Sistema das contradições econômicas, ou, filosofia da miséria. Tomo I. São Paulo: Ícone, 2003.



Sindicalismo revolucionário e ecologia: uma bibliografia em construção (1989-2025)


Judi Bari (1949-1997),
pioneira da articulação prática entre ecologismo
e sindicalismo revolucionário


Esta bibliografia está em ordem cronológica.

Anos 1980

Jon Bekken, Anarcho-syndicalism and the environmental movement, Libertarian labor Review, Issue 6, Winter 1989, pp.15–16.

Anos 1990

KAUFMANN, Mark; DITZ, Jeff. Green syndicalism. Libertarian Labor Review, Chicago, n. 13, p. 41-42, verão 1992.

PURCHASE, Graham. Anarchism & Environmental Survival. Tucson, AZ: See Sharp Press, 1994.

BARI, Judi. Revolutionary ecology. 1995. Disponível em: https://theanarchistlibrary.org/library/judi-bari-revolutionary-ecology. Acesso em: 8 mar. 2025.

SHANTZ, Jeffrey A. Green Syndicalism: Towards a Radical Articulation of Ecology and Labour. PhD diss., University of Windsor, 1995.

PURCHASE, Graham. Social ecology, anarchism and trades unionism. In: ___. Deep ecology and anarchism: a polemic. London: Freedom Press, 1997. p. 23-35.

PURCHASE, Graham. Anarchism and Ecology. Montreal: Black Rose Books, 1997.

PURCHASE, Graham. Ecology, Capitalism and the State. Sydney: Jura Media, 1998.

SHANTZ, Jeffrey A.; ADAM, Barry D. Ecology and class: The green syndicalism of IWW/Earth First Local 1. International Journal of Sociology and Social Policy, v. 19, n. 7/8, p. 43-72, 1999.

SHANTZ, Jeffrey. Searching for peace in the "timber wars": a report on nonviolence and coalition building during the redwood summer. Peace Research, v. 31, n. 3, p. 1-12, 1999.

Anos 2000

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Etnografia da autonomia


Em 2025, completam-se 10 anos do movimento de ocupação de escolas que tomou o Brasil entre 2015 e 2016, em protesto contra a precarização da educação. 

Tive a oportunidade de acompanhar de perto esse processo de luta e refletir etnograficamente sobre ele com @yoellenrocha e @saraivaiara, neste artigo publicado na Revista Terra sem Amos, da @tsa.editora.

Aquele movimento foi auto-organizado e desafiou as burocracias estudantis e sindicais que tentavam contê-lo. Foi uma oportunidade para os estudantes autogerirem as escolas e, por meio de suas lutas, indicarem formas alternativas de organização do ensino e da aprendizagem.

Algo que aprendi com o saudoso David Graeber, em seu seminal Fragmentos de Antropologia Anarquista, é que os movimentos sociais, ao contestarem a ordem social, não estão apenas resistindo, mas também propondo formas alternativas de reorganizar diversos setores da vida. 

É por isso que os movimentos emancipatórios costumam ser laboratórios onde se experimentam outros mundos possíveis.

Piotr Arshinov e a questão agrária

Piotr Arshinov (1887-1937)


 Identifiquei dois textos em que Piotr Arshinov aborda a questão agrária, ambos no contexto revolucionário. Embora o tema não seja central em seus escritos, ele aparece de forma lateral, como um desdobramento de sua reflexão sobre a revolução. Sua abordagem tem uma particularidade: é profundamente marcada pela experiência direta na Revolução Russa e na Makhnovtchina. Assim, suas reflexões não são meros exercícios teóricos, mas expressões de uma prática revolucionária vivida.

O primeiro texto é datado de 1923 e intitulado de "Problemas construtivos da revolução social". No texto, Arshinov enfatiza que a revolução não pode ter sucesso sem resolver a questão agrária e estabelecer uma relação equilibrada entre indústria e agricultura. Ele alerta para os erros da política bolchevique, que opôs trabalhadores urbanos e rurais, e propõe que a revolução precisa de um acordo direto e horizontal entre essas classes. Além disso, o autor destaca a necessidade de criar organismos comuns de coordenação, garantindo o abastecimento e a estabilidade da economia revolucionária.

O segundo texto é intitulado "A revolução social e o sindicalismo", de 1925.  Peter Arshinov, em sua reflexão sobre a questão agrária no referido texto, destaca que a revolução social precisará enfrentar imediatamente o problema da posse e uso da terra. Segundo ele, os camponeses tomarão os bens territoriais e os instrumentos de trabalho agrícola dos exploradores, e caberá às organizações operárias e camponesas assegurar que essas propriedades sejam redistribuídas aos camponeses, a quem pertencem de direito. No entanto, a forma de cultivo (comunal ou familiar) deverá ser decidida pelos próprios camponeses, com as organizações operárias exercendo apenas uma influência ideológica, preferencialmente em favor do cultivo comunal, considerado mais racional e eficiente com o uso de tecnologias modernas.

Arshinov critica duramente a política de requisição forçada de alimentos implementada pelos bolcheviques durante a Revolução Russa, que levou a confrontos violentos entre o Estado e os camponeses, resultando em mortes, destruição e desconfiança. Para evitar esse cenário, ele propõe que a relação entre os trabalhadores urbanos e rurais seja baseada na solidariedade revolucionária, com esforços mútuos para atender às necessidades de ambas as partes.

A união entre cidade e campo seria facilitada pela participação ativa dos camponeses na revolução, com a garantia de que seus interesses seriam respeitados e de que poderiam colaborar voluntariamente no abastecimento alimentar das cidades. Arshinov defende a criação de conferências conjuntas entre camponeses e operários, bem como de órgãos locais e regionais que promoveriam a integração econômica e política. Essa aliança entre trabalhadores urbanos e rurais formaria a base de uma nova economia revolucionária, resistente às pressões externas de partidos ou elites financeiras.

Algumas considerações sobre as reflexões do autor:

1. Ele retoma o tema da aliança operário-camponesa como estratégico para a revolução social, tema este já presente na proposta proudhoniana da federação agrícola-industrial e nas reflexões históricas e propostas programáticas de Bakunin.

2. Arshinov retoma esse fio intelectual da tradição anarquista anterior, mas o problematiza a partir de sua experiência concreta na Revolução Russa e da Makhnovitchna. Nesse sentido, trabalha com elementos que não foram acessíveis aos seus predecessores de ideologia e programa anarquista, fazendo esses dois elementos avançarem em seu desenvolvimento teórico e estratégico.

3. Os escritos do período 1923-1925 são anteriores a publicação da Plataforma da União Geral dos Anarquistas, texto coletivo escrito pelos exilados russos e publicado em 1926. Percebe-se como naqueles escritos antecipam-se a caracterização da condição camponesa como proletária e que o debate a ser realizado sobre a propriedade com o campesinato no período revolucionário deveria ter em conta a autonomia camponesa sobre a decisão de optar pela propriedade familiar ou comunal. Ainda que os esforços de propaganda anarquista devesse incentivar o modelo comunal.


Raphael Cruz


Alguns trechos dos textos

Problemas construtivos da revolução social (1923)

Encontrar una solución a los problemas rurales facilitará en gran medida la solución de los problemas de abastecimiento de alimentos, y los problemas de la producción industrial no se resolverán sin resolver también estos problemas rurales. La producción industrial, en los primeros días de la revolución, estará indudablemente tan desordenada e inadaptada a las necesidades de los trabajadores rurales y urbanos que los trabajadores necesitarán pedir ayuda al campesinado. Esta ayuda, de importancia decisiva para la revolución, sólo será posible si existe una colaboración revolucionaria entre obreros y campesinos.

Tres aspectos no pueden disociarse.

La cuestión más fácil y evidente es la de la tierra. Indudablemente, tras las primeras victorias en el torbellino revolucionario, los campesinos se apoderarán tanto de la tierra como de los medios para cultivarla. Es deseable que los campesinos trabajen de forma colectiva y comunal, de lo contrario, al ser la economía agrícola una parte de la economía general del país, ésta no podría evitar las contradicciones burguesas en una sociedad comunista. Sin embargo, éste es un problema que sólo los campesinos pueden resolver por sí mismos, lo que nos obliga, tanto ahora como en el futuro, a realizar entre ellos una amplia propaganda a favor de la organización libertaria de la economía agrícola.El progreso dependerá también de la forma en que los trabajadores urbanos creen la producción comunista en la fábrica; también, de si su trabajo en relación con los campesinos se lleva a cabo no aisladamente unos de otros, sino a través de colectivos, lo que influiría enormemente en la dirección que puedan tomar los campesinos.

Encontrar una solución a los problemas rurales facilitará en gran medida la solución de los problemas de abastecimiento de alimentos, y los problemas de la producción industrial no se resolverán sin resolver también estos problemas rurales. La producción industrial, en los primeros días de la revolución, estará indudablemente tan desordenada e inadaptada a las necesidades de los trabajadores rurales y urbanos que los trabajadores necesitarán pedir ayuda al campesinado. Esta ayuda, de importancia decisiva para la revolución, sólo será posible si existe una colaboración revolucionaria entre obreros y campesinos.

La desatinada y fatal política alimentaria bolchevique, durante la cual las ciudades entraron en guerra contra el campo por el pan, muestra de forma obvia y demostrable que -al menos en Rusia y en países similares- la revolución no puede triunfar sin un acuerdo revolucionario entre obreros y campesinos. En la cuestión de la producción, los obreros deben tener en cuenta las necesidades de los campesinos y, del mismo modo, los campesinos no deben retrasar el suministro de alimentos y materias primas a la ciudad; es necesario un acuerdo directo de ida y vuelta entre la industria y la agricultura. La ayuda mutua entre las dos clases trabajadoras hará indispensables organismos comunes de enlace y abastecimiento. Sólo esto podría garantizar tanto el desarrollo de un nuevo modo de producción como el éxito ulterior de toda la revolución.

A revolução social e o sindicalismo (1925)

A questão agraria

A revolução terá logo que achar solução para a questão agraria. Aos primeiros exitos obtidos pela revolução, 08 camponeses apossar-se-hão de todos os bens territoriais e de todos os Instrumen- tos de trabalho agricola que se encontrem na posве dos exploradores do trabalho alheio. A orientação da revolução deverá ser no sentido de as organi- zações dos operarios e dos camponeses assegura- rem, de comum acordo, a posse do solo e de todos os instrumentos de trabalho agricola á população camponesa, á qual pertencem de direito. A questão das formas em que a terra deverá ser disfrutada e a maneira como a população deverá cultivá-las (comunal ou familiarmente) deverá er resolvida pelos proprios camponeses. As organizaçõев орега- rias não poderão exercer nesse particular senão uma influencia ideologica.

Seria desejavel, evidentemente, que essa influen- cia se fizesse sentir desde logo no sentido de uma exploração e de um cultivo comunal das terras, porque essa é a forma a que chegarão os trabalha- dores, tarde ou cedo, pelas leis do desenvolvimento sociall e tecnico do trabalho. Quanto mais ampla e energicamente se fizer hoje essa propaganda, mais se farão sentir os efeitos no momento da re- volução social. O aspecto material e tecnico da questão os instrumentos de trabalho agricola não terá uma importancia pouco menor para o método comunal do cultivo e da exploração da terra. Quanto mais poderosos e aperfeiçoados se- jam esses instrumentos, mais racional será em- pregá-los na exploração comunal, para o disfruto comunal do solo.

O abastecimento e os camponeses

A organização da produção operaria apresenta- se particularmente importante e complicada no de- curso da revolução, mas não poderia er resolvida à margem da solução ação que terá a questão funda- mental o aprovisionamento dos víveres. Por muito feliz que haja sido posta em marcha a organização da produção operaria livre, se o proplema dos víveres não é resolvido de uma maneira razoavel e ditosa, ezsa organização deverá, infali- velmente, enfraquecer-se, deslocar-se e ser destruídos.

No decurso da revolução russa, o partido comu- mista encontrou para a questão do aprovisiona mento uma solução extremamente simples, prati cada já por outros na Russia desde os tempos de Gengis Can e de Tamerlan. Em 1918, Lenine lançou o grito: Todos á guerra sagrada para a conquista do pão. Numerosos destacamentos armados de espingardas, de metralhadoras e até de canhões foram organizados e enviados a todos os recantos da Rus- sia para requisitar e tomar pela força o trigo aos camponeses. Estes destacamentos, que executavam as ordens das autoridades centrais, personifica- vam em certo modo a «cidade». E aqui temos que a cidade (ainda que no fundo não fosse senão im só partido a desfigurar o aspecto verdadeiro da cidade) foi ao campo revolucionario para nele conseguir o pão, com o auxilio da polvora e do chumbo. Uma nova era de guerras civis se abriu entre as massas laboriosas de camponeses e as au- das cidades. Esta luta intestina dura há mais de cinco anos, durante os quais inumeros camponeses foram mortos, seguramente mais de m milhão, aldeias inteiramente foram, ás centenas, destruidas e queimadas, e a revolução russa desfalece nos quadros da fome.

Para a massa dos camponeses, a pólvora e chumbo estão ligados tão intimamente ao poder dos comunistas, que que olham com desconfiança até a troca de mercadorias, posta em moda pelo governo nestes ultimos tempos, e preferem negociar com os especuladores privados do que com os representantes da autoridade. A unica solução possivel da questão dos viveres

(...)

Os camponeses jamais quererão ceder de bom grado os produtos do seu trabalho aos funcionarios do Estado, consideram não só inuteis, mas tambem nocivos á sociedade dos trabalhadores. Mas, por outro lado, os campo- dos instrumentos de trabalho moderna. A criação de laços semelhantes será consideravelmente facilitada pela participação da população camponesa laboriosa na causa da revolução

(...)

Quando a população camponesa sentir que a revolução não é para ela uma madrasta como na Russia com a ditadura do partido comunista, po- dendo na mesma tomar a sua quota parte de actividade com confiança, ela concorrerá com todas as suas forças de criação social e revolucionaria para o seu triunfo. Não deixará de avançar ao lado da classe operaria na revolução social que lhe faça entrever o horizonte de liberdade de trabalho e de igualdade. Sustentará o proletariado das cidades fornecendo-lhe os víveres necessarios, porque sabe que os poderosos instrumentos da classe operaria - a mecanica da industria moderna não tar- darão em ser postos ao serviço das necessidades de todos os trabalhadores, das cidades e dos campos, indiferentemente.

Conferencias conjuntas de camponeses e opera- rilos, conferencias de concelhos, de distritos, de provincias, de regiões, marcarão os primeiros pas- sos, os primeiros esforços рата a solução das difi- culdades do abastecimento e serão tambem os pri- meiros orgãos que sirvam para aplanar dificulda- des e formarão a base de união da cidade e qu campo laboriosos.

O abastecimento organizado sobre uma aliança deste genero dará á classe operaria a possibili- dade de estabelecer sobre fundamentos solidos a obra de uma produção nova. Mas a fim de que aquele, tal qual como com a mecanica da produção, se afirme e se desenvolva sem interrupções, será preciso que o proletariado das cidades se ocupe logo nos primeiros dias de satisfazer as necessidades mais instantes do campo. Os esforços mutuos dos camponeses e operarios chegarão as- sim a formar uma base economica poderosa para a revolução e nem os reis da finança nem os dos partidos conseguirão desalojá-los de lá.

Etnografar resistências

Sherry Beth Ortner (1941-)


Durante minha pesquisa de doutorado, dois artigos foram importantes, do ponto de vista metodológico, para orientar como seria possível observar e descrever formas de resistência de grupos sociais subalternizados.

O primeiro foi o aclamado "Formas cotidianas de resistência camponesas", de James C. Scott. O segundo foi o menos conhecido, mas não menos importante "Resistance and problem of ethnographic refuse", em tradução livre: Resistência e o problema da recusa etnográfica, de Sherry B. Ortner.

O primeiro texto desvelou todo um mundo de resistência camponesa para além das "formas não-cotidianas", como bloqueios de pista, passeatas, ocupação de terras, e possibilitou olhar e legitimar os "pequenos" atos cotidianos de recusa a colaborar com a dominação.

O segundo texto reafirmou o quanto era importante valorizar as formas de resistência dos subalternizados para aqueles pesquisadores interessados em compreender os processos sociais de dominação e resistência e a dialética que os organiza e atualiza.

Isso porque ao se centrar nos efeitos deletérios da economia global ou da política imperial sempre corre-se o risco de simplesmente tratar os "condenados da terra" como corpos passíveis e sem agência, como "impactados" somente, e não como formuladores de uma visão de mundo sobre o que os acomete a partir de seu próprio repertório cultural, e como agenciadores de resistências a partir de um repertório político imanente e criativo.

Esse texto de Ortner foi importante para que eu valorizasse o ponto de vista de meus interlocutores de pesquisa sobre o conflito socioambiental e territorial que experienciavam junto a empresas de energia eólica no litoral piauiense, e para que depois eu pudesse formular o enquadramento da "transição energética vista de baixo", que parte justamente da perspectiva dos povos e comunidades sobre os recentes processos capitalistas de transformação socioambiental.

Apresento, a seguir, uma tradução da conclusão do artigo de Ortner.


Resistance and the Problem of Ethnographic Refusal

Sherry B. Ortner

Comparative Studies in Society and History, Vol. 37, No. 1 (Jan., 1995), pp. 173-193

O argumento central deste ensaio pode ser expresso de maneira muito simples. Os estudos sobre resistência são superficiais porque são etnograficamente superficiais: são superficiais quanto à política interna dos grupos dominados, superficiais quanto à riqueza cultural desses grupos, superficiais quanto à subjetividade—intenções, desejos, medos, projetos—dos atores envolvidos nesses dramas. Essa superficialidade etnográfica, por sua vez, deriva de várias fontes (além, é claro, da simples má etnografia, que sempre é uma possibilidade). 

A primeira fonte é a falta de coragem para abordar questões sobre a política interna dos grupos dominados e sobre a autenticidade cultural desses grupos, um tema que levantei ao longo deste ensaio. A segunda está relacionada às questões que envolvem a crise da representação—isto é, a possibilidade de representações verídicas dos outros (ou Outros) e a capacidade do subalterno de ser ouvido—, um ponto que acabei de discutir. Essas duas problemáticas, quando combinadas, convergem para produzir uma espécie de buraco negro etnográfico. 

Preencher esse buraco negro certamente aprofundaria e enriqueceria os estudos sobre resistência, mas há mais do que isso em jogo. Esse preenchimento revelaria—ou deveria revelar—as ambivalências e ambiguidades da própria resistência. Essas ambivalências e ambiguidades, por sua vez, emergem das complexas teias de articulações e desarticulações que sempre existem entre dominantes e dominados. Isso porque a política da dominação externa e a política dentro de um grupo subordinado podem tanto se conectar quanto se repelir; as culturas dos grupos dominantes e dos subalternos podem dialogar, mesmo ao se contraporem entre si; e, como Nandy argumenta de maneira eloquente, os sujeitos subordinados podem manter sua autenticidade oposicional e sua agência ao recorrer a aspectos da cultura dominante para criticar tanto seu próprio mundo quanto a situação de dominação em que se encontram. 

Em suma, só é possível compreender como a resistência pode ser mais do que simples oposição—como pode ser verdadeiramente criativa e transformadora—se reconhecermos a multiplicidade de projetos nos quais os seres sociais estão sempre envolvidos e a multiplicidade de maneiras pelas quais esses projetos se alimentam, ao mesmo tempo que colidem, uns com os outros.

Trabalho, guerra e revolução: As comunas agrárias makhnovistas

O que sabemos sobre as “comunas agrárias” implantadas pela Makhnovitchina?  Em suas memórias, Nestor Makhno (1988) descreve algo de sua orga...