Teoria da estruturação de Anthony Giddens

Anthony Giddens


Hoje ministrei aula remota sobre a teoria da estruturação de Anthony Giddens para a turma do Cursinho Todes Sociologia.

Foi duas horas prazerosas de explicação e diálogo com as alunas do curso.

Compartilhamos a percepção de Giddens como autor de escrita e pensamento densos.

As alunas comentaram que essa densidade deriva da interdisciplinaridade acionada pelo autor para a elaboração de sua reflexão.

Contudo, também concordamos que o próprio autor costuma "fichar" seus escritos, quando indica as questões fundamentais e as categorias centrais de sua teoria, além das tabelas e quadros que acompanham seu texto.

Concentrei a aula na introdução e no primeiro capítulo do livro de 1984, A constituição da sociedade.

Iniciei comentando brevemente a biografia do autor antes de adentrar aos aspectos centrais de sua obra e de sua teoria.

Utilizei de organogramas e exemplos do cotidiano para ilustrar os argumentos de Giddens sobre a dualidade da estrutura e a relação entre os atores e os sistemas, mediada pelas práticas sociais.

As alunas levantaram questões interessantes sobre como a discussão em torno da relação entre ação social e estrutura social remetiam ao debate filosófico ocidental em torno das querelas entre racionalismo e empirismo.

O esforço de síntese de Giddens em superar os dualismos (ação social e estrutura social; macro e micro; objetividade e subjetividade) fez Eliana, organizadora do cursinho, lembrar de quando Kant buscou ir além da oposição racionalismo e empirismo.

Durante o debate sobre esse ponto específico, comentei haver lido nesta manhã o texto do professor Haguette, Racionalismo e empirismo na sociologia (Revista de Ciências Sociais, Fortaleza, v. 44, n. 1, jan/jun, 2013, p. 194 - 218) especificamente lembrei dessa (falsa) oposição e como os sociólogos ditos clássicos a contornaram em seus esquemas teóricos.

As alunas elogiaram minha didática. 

É importante para mim o reconhecimento delas de meu esforço em ensinar sociologia ao nível de pós-graduação.

O Cursinho Tode Sociologia atende estudantes negras e negros, trans e não-binárias que almejam vagas no mestrado ou doutorado de Programas de Pós-Graduação em Sociologia. 

Por sua missão de incluir corpos racializados e genderizados na pós-graduação, senti-me honrado por contribuir com o Todes. 


Raphael Cruz

Etnografando caminhadas




Escrevi um capítulo para este livro sobre antropologia das  mobilidades, organizado por Candice Vidal e André Guedes.

A obra foi lançada por meio do selo editorial da Associação Brasileira de Antropologia.

O texto é baseado nos dados de minha pesquisa junto aos extrativistas artesanais do litoral piauiense entre os anos de 2015 e 2019.

O capítulo por mim escrito foi intitulado de Andar e viver tranquilo: movimento e estabilidade no litoral piauiense

Argumento que a mobilidade dos extrativistas por Ilha Grande é parte constitutiva de sua territorialidade. 

Descrevo como meus interlocutores de pesquisa valorizam o ato de andar pela ilha em busca de peixe, marisco, caranguejo, camarão, caju, murici e puça.

Mostro como andar é uma forma de estabilizar suas vidas, pensadas enquanto indissociáveis dos movimentos implicados no extrativismo. 

Argumento sobre a existência de uma "tranquilidade movimentante" enquanto estado de espírito. 

Neste capítulo, busquei amadurecer uma ideia que surgiu durante a escrita da tese de doutorado.

Basicamente, tentei dar visibilidade ao cercamento de terras como uma espécie de cercamento de pessoas.

Um esforço de antropologizar as discussões da economia política agrária em torno do land grabbing.

Nos últimos parágrafos deste capítulo, comentei sobre minha experiência de trabalho de campo entre os extrativistas como um trabalho de corpo.

No momento, encontro-me escrevendo outro capítulo sobre a referida experiência para um livro a ser publicado em 2022. 

Os textos estão associados, apesar de estarem em livros diferentes.

Possuem reflexões etnográficas sobre o movimento dos extrativistas na mata e sobre os meus próprios entre eles durante minha pesquisa de doutorado. 

Essas reflexões fizeram-me aproximar-se involuntariamente das discussões sobre mobilidade desde uma perspectiva antropológica.

E tem sido instigante escrever sobre isso. 


Raphael Cruz


Florestan e o camponês polonês


Fazer buscas na internet é algo que tem proporcionado conhecer objetos que eu nem sequer desconfiava da existência.

Como essa resenha de Polish peasant in Europe and America, de Thomas e Znaniecki, escrita por Florestan Fernandes e publicada na Revista de Antropologia da USP (vol. 8, no. 2, 1960, pp. 166–168).

Trata-se de resenha da reedição de 1958, composta por dois volumes, diferenciando-se da edição original de 1918 – 1920, publicada em cinco volumes.

No início de sua resenha, Florestan nomeia a obra Polish peasant de “revolução metodológica” que inaugura a “era moderna da sociologia” como “ciência especial e empírico-indutiva”.

Lembro-me que ele havia citado a “contribuição metodológica” dessa dupla de autores em seu ensaio A sociologia: objeto e principais problemas (In: Ensaios de sociologia geral e aplicada. São Paulo: Pioneira, 1960, pp. 11–45).

Ao final da resenha, Florestan recomenda à obra tanto àqueles que se iniciam nos “segredos da pesquisa” quanto aos já veteranos na sociologia.

Pode-se constatar que à época, Florestan recepcionou de maneira positiva a obra, que àquela altura, quarenta anos após a primeira edição, tornara-se canônica.


Raphael Cruz





Radcliffe-Brown no Brasil

 


Correio Paulista, 27 de março de 1942


Fazendo uma busca por Emilio Willems na internet, me deparei com essa notícia da chegada de Radcliffe-Brown ao Brasil.

Foi interessante notar como tinha algum impacto o deslocamento de cientistas sociais entre os países, ao ponto disso ser noticiado.

Não era qualquer cientista. Era o "conhecido antropologista inglês", como é referido neste jornal. Brown é lembrado pelos estudantes de ciências sociais no Brasil como o "pai do estrutural-funcionalismo", uma interessante alcunha que associa um termo de parentesco a uma escola teórica.

Após essa notícia, busquei por outras, e achei algumas referentes as suas conferências e, inclusive, uma que registra o jantar de despedida ofertado pelos cientistas brasileiros ao "conhecido antropologista inglês".


Raphael Cruz

Bakunin: teoria e prática do anti-Leviatã



No dia 29 de maio de 2021, compus a mesa de encerramento do curso online promovido pela Universidade Popular Mikhail Bakunin sobre os 150 anos da Comuna de Paris. 

Tive o prazer de dividir esse momento com René Berthier, pesquisador do pensamento de Bakunin e militante anarco-sindicalista da Confedération Générale du Travail, e o estudioso da obra bakuniniana Jean Angaut da École Normale Supériere de Lyon

A mesa foi mediada por Tadeu, editor-chefe da Revista Bakunin Vive, e pela colega Luciana Brito que compõe o Projeto Obras Completas de Mikhail Bakunin.

Tratei da diferenciação realizada por Bakunin entre o Estado e a Comuna como formas de organização política, contrapondo o ponto de vista bakuniniano com a posterior tradição marxista e marxista-leninista que interpretou a Comuna de Paris como uma espécie de Estado proletário (sic).

A mesa contou com participação do público com perguntas interessantes que iam desde questões relacionadas a orientação política dos participantes da Comuna até dúvidas sobre a possibilidade de diálogo entre a perspectiva de Bakunin e os estudos decoloniais.

A mesa de encerramento está disponível na íntegra no Canal do Arquivo Bakunin no YouTube. Você pode assistir clicando neste link


Raphael Cruz









A liberdade no anarquismo e no liberalismo



Mikhail Bakunin (1814-1876)


Estava lendo o texto A Comuna de Paris e a noção de Estado, de Bakunin, para me preparar para uma live no curso sobre a Comuna promovido pela Universidade Popular Mikhail Bakunin. 

Esta leitura me fez pensar a diferença entre anarquismo e liberalismo sobre o tema da liberdade. Tema tão vasto quanto incompreendido.

A diferença pode ser entendida por meio do contraste entre “limite” e “extensão”.

Eles correspondem a natureza individual ou coletiva da liberdade. 

Na famosa frase de Bakunin, que circula pela internet, “a liberdade do outro estende a minha ao infinito”, provavelmente uma adaptação de “a minha liberdade pessoal, assim confirmada pela liberdade de todos, estende-se até o infinito” (Bakunin, O conceito de liberdade, 1975, pp. 22-23), contrasta com o filosofema liberal, “a minha liberdade acaba quando começa a do outro”, atribuído a Herbert Spencer.

De um lado, a concepção extensionista ou coletivista de liberdade na filosofia de Bakunin.

Do outro lado, a concepção limitante e individualista de liberdade na filosofia liberal. 

Para o filósofo liberal, a unidade da liberdade é o indivíduo.

Para o anarquista, é a coletividade. 

O anarquismo não concebe a liberdade do indivíduo como individual, mas como um produto social da liberdade coletiva. 

No anarquismo, a liberdade é concebida a partir da coletividade ou sociedade e orientada pela ideia de extensão, já no liberalismo, é orientada pela ideia de limite.

Minha hipótese é que esse contraste se relaciona com as concepções de propriedade individual no liberalismo e propriedade coletiva no anarquismo.


Raphael Cruz

Proudhon na Pedra do Sal

 



Hoje, li uma interessante passagem de O que é a propriedade (1840), livro de Pierre-Joseph Proudhon.

Nela, o autor disserta sobre o princípio de que a propriedade dos produtos (colheita, caça, pescado) não deveria implicar em propriedade da matéria (terra e mar).

Diz o pensador que "o direito ao produto é exclusivo, jus in re; o direito ao instrumento [matéria] é comum, jus ad rem". (PROUDHON, 1975, p. 95).

O raciocínio é simples e brilhante. O fato do pescador retirar peixes do mar não o torna proprietário do mar. 

Então, porque a colheita de uma safra numa determinada semana torna alguém dono da terra para "sempre"?

Ainda mais absurdo para Proudhon é alguém ser proprietário de terra que não cultiva.

A transformação da posse em propriedade não se dá pelo trabalho, alerta Proudhon, pois se assim fosse, ao deixar de cultivar à terra, já não seria o seu dono. Contudo, existem aqueles que não cultivam, mas são proprietários. 

Essa metamorfose ocorre, segundo Proudhon, pela prescrição, pela lei civil em concordância com o princípio de ocupação.

Afinal de contas, o que tem a ver a Pedra do Sal com tudo isso? 

Em minha tese Os filhos do lugar: crônicas da territorialidade pedral, escrevi que naquele povoado à beira-mar os seus habitantes exercem a posse familiar do terreno (casa, sitio) e o uso comum da terra (mata, mangue, praia).

Naquele texto, não dissertei o suficiente sobre o uso do mar entre os pescadores locais. 

Contudo, lendo Proudhon e pensando na territorialidade pedral, identifico uma completa correspondência entre os princípios proudhonianos e a lógica da apropriação dos produtos do trabalho no mar e na terra por aquela gente.

Para os moradores do lugar que entrevistei, à terra não tem dono, é da natureza. 

Da mesma forma que pescar não torna o pescador proprietário do mar, colher cajuí não torna o extrativista dono da mata (jus ad rem). 

Entretanto, o peixe pescado e o cajuí colhido são exclusivos de quem os extraiu (jus in re). 

A lógica que rege o uso comum da terra, do mar e a apropriação exclusiva dos produtos do trabalho nesses ambientes pelos moradores da Pedra do Sal é a mesma do princípio proudhoniano de que a propriedade dos produtos (peixe e cajuí) não implica a propriedade das matérias (mar e terra). 

Interessante foi perceber nessa leitura de Proudhon durante um domingo nublado em Teresina que os princípios de justiça social que o anarquista francês elaborou muito em comum tem com as relações de propriedade e manejo dos recursos naturais pelo povo do litoral piauiense. 

Raphael Cruz

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Publicado originalmente em Terra Terreno.

W.I Thomas e a definição da situação

W. I. Thomas (1863-1947)


"Se as pessoas tomam certas situações como reais, tais situações são reais em suas consequências".

Esse é o famoso "teorema de Thomas" proveniente de seu estudo The child in America: behavior problems and programs (1928).

O próprio Thomas explica seu teorema a partir de um exemplo.

Imagine um país imerso em uma guerra civil em que dois grupos lutam pelo poder.

Um dia a guerra termina, mas não é possível comunicá-la aos habitantes de uma determinada área.

Ali, os membros dos dois grupos continuariam a lutar, de acordo com sua "definição de realidade".

O teorema indica como a definição da realidade pode ser subjetivamente construída e a partir de aí influenciar objetivamente a própria realidade.

O teorema de Thomas preserva uma capacidade explicativa atualíssima.

As "fake news", por exemplo, que partem de uma falsa definição da realidade, afetam a sociedade quando orientam a conduta de quem acredita em suas afirmações.

Assim, uma notícia sobre como a cloroquina combate os efeitos da COVID-19 no organismo humano acarreta aumento da venda desse medicamento em farmácias.

Por mais que a cloroquina não tenha eficácia comprovada sobre o vírus, uma falsa definição da realidade acarretou um efeito real, o aumento nas vendas desse medicamento.


Raphael Cruz

Publicado originalmente em @caderno_de_sociologia (Instagram).


Philip K. Dick e o realismo crítico

Philip K. Dick (1928-1982)


"A realidade é aquilo que, quando você para de acreditar, não desaparece."

Essa famosa frase de K. Dick rende boas problematizações em torno da relação entre epistemologia e ontologia.

Para o autor, a realidade, de alguma maneira, independe do que eu penso dela, a realidade "está lá fora".

Dick, assim como os teóricos do realismo crítico, critica a "falácia epistêmica", que atribui uma correspondência exata entre a subjetividade do ponto de vista do agente e a objetividade do mundo natural e social. 


Raphael Cruz

Réquiem para David Graeber



A antropologia, o pensamento crítico e o ativismo anti-capitalista perderam um de seus autores mais criativos e prolíficos.

David Graeber (1961-2020) é descrito por sua esposa como um melhor amigo e por seus alunos como paciente, engraçado e acolhedor.

O antropólogo norte-americano nasceu em NY e doutorou-se pela Universidade de Chicago com tese sobre memória e violência na Madagáscar rural, cujo orientador foi Marshall Sahlins.

Lecionou em Yale, Goldsmith e atualmente se encontrava no Departamento de Antropologia da London School of Economics.

Graeber era ativo politicamente, tendo se engajado no sindicalismo revolucionário da Industrial Workers of the World, no movimento antiglobalização e foi uma das lideranças do Occupy, sendo o criador do lema "somos os 99%".

Autor de uma vasta obra, teve publicado no Brasil "Dívida: os primeiros 5000 anos", "Um projeto de democracia" e "Fragmentos de uma antropologia anarquista", além de ceder entrevista a jornais e a TV brasileira.

Graeber faleceu em Veneza, na Itália, aos 59 anos, e deixou um legado importante para a antropologia e o ativismo anti-capitalista. 


Raphael Cruz

Publicado originalmente em @caderno_de_sociologia (Instagram)

Teorias da prática



No livro, Percursos na teoria das práticas sociais: Anthony Giddens e Pierre Bourdieu, Gabriel Peters examina os esquemas teóricos desses importantes sociólogos.

O objetivo do autor é compreender como cada um dos sociólogos atacou o problema clássico da relação indivíduo e sociedade.

A teoria da prática de Bourdieu e a teoria da estruturação de Giddens buscaram saídas em relação à lógica dicotômica da sociologia praticada no século XX, em torno das tensões entre subjetivismo/objetivismo, individualismo/holismo, determinismo/voluntarismo e micro/macrossociologia.

O livro é uma boa leitura para compreender o projeto teórico de dois importantes pensadores contemporâneos.

Miséria à americana

Barbara Ehrenreich (1941-)


Uma jornalista com espírito de socióloga, Barbara Ehrenreich resolveu viver como uma "trabalhadora de baixa renda" e compartilhou sua experiência no livro Miséria à americana: vivendo de subempregos nos Estados Unidos.

Ela experimentou empregos como garçonete e faxineira, atendente em asilo e balconista na Wal Mart entre 1998 e 2000 nos EUA.

Ehrenreich queria compreender como alguém consegue viver com os salários pagos aos não especializados e como mulheres vivem com 6 ou 7 dólares por hora.

Com um texto que flui, mas sem as teorizações comuns nos escritos científicos, a autora apresenta, a partir de sua experiência, um quadro da vida da classe trabalhadora e dos pobres que vivem o avesso do sonho americano.

Ehrenreich é bastante sensível às clivagens de gênero e de etnia que atravessam sua experiência como uma mulher branca e de meia-idade de passagem por um mundo geralmente habitado por negras e latinas.

Conclui que os "pobres trabalhadores" são os "maiores filantropos de nossa sociedade. . Negligenciam os próprios filhos para que os filhos de outros sejam bem cuidados; vivem em habitações péssimas para que outros lares fiquem brilhantes e perfeitos; suportam privações para que a inflação seja baixa e o preço das ações, alto. Ser um pobre trabalhador é ser um doador anônimo."

Como disse uma de suas colegas de trabalho, Gail, "você dá e dá".

Seguindo esta afirmação, um sociólogo pode dizer que uma "reciprocidade negativa" ordena a relação salarial, em que o trabalhador dá ao patrão e a sociedade muito mais do que recebe na forma de salário e de reconhecimento social, que o capitalismo se apresenta para o proletariado antes de tudo como um sistema de sacrifício.

 

Atrasos da elite

Jessé Souza (1960-)


Animado com a leitura de A elite do atraso, de Jessé Souza.

Neste livro, ele analisa, entre outros temas, as raízes teóricas do vira-latismo no Brasil.

Primeiro, ele mostra como as noções consagradas nas ciências sociais de "patrimonialismo" e "populismo" são uma derivação do racismo científico, não mais baseado na cor da pele, mas nos "estoques culturais".

Tais conceitos criaram uma imagem de brasileiro como congenitamente corrupto, personalista e, assim, incapaz de qualquer ação política pública, no sentido de ir além dos interesses da família e dos amigos. Como se em outros países a família e os amigos também não fossem importantes.

Mas o mais interessante é como ele demonstra o "efeito de realidade" dessas categorias teóricas na vida cotidiana do brasileiro.

Utilizada pela esquerda e pela direita, do PSDB e Rede Globo ao PT, tais categorias ocultam a corrupção no mercado ao centrarem-se apenas na corrupção no Estado.

Para Souza, uma pré-condição para o sucesso da Operação Lava Jato foi a disseminação dessas categorias como lentes de leitura do Brasil.

Assim, ele explica porque a Globo e a classe média fazem tanto barulho devido à corrupção no Estado, mas fecham os olhos para a corrupção no mercado financeiro, que rouba 500 vezes mais do povo do que o que a Lava Jato descobriu entre os políticos.

Fundamental também na interpretação de Souza sobre o Brasil é que o que explica o país não é uma suposta herança portuguesa (patrimonialismo, personalismo), mas a escravidão.

A escravidão de ontem é o que explica o ódio das elites e classes médias ao pobre de hoje. 


Raphael Cruz

Pulicado originalmente em @caderno_de_sociologia (Intagram)

B. Traven: self em fluxo clandestino

 

B. Traven (~1882-1969)


É intelectualmente estimulador construir os textos para a disciplina de Estágio III ministrada pela professora Glória.

Acredito que vivi poucos ou nenhum momento durante a pós-graduação no qual pude comentar sobre um autor de minha preferência e ainda por cima não sendo um autor das ciências sociais.

Escolher uma “obra de arte” e falar sobre ela é, em certa medida, também falar sobre nós mesmos.

Os gostos podem indicar algumas orientações filosóficas, estéticas e ideológicas, no sentido forte dessa última palavra.

Quando o colega Ítalo falou que este seria o mote da primeira aula do mês de maio, pensei no que poderia contribuir para aquele momento.

Algumas alternativas surgiram: eu falaria sobre o Livro Um da Saga do Monstro do Pântano escrita pelo Alan Moore nos anos 80 para a DC Comics, ainda que as histórias em quadrinho não sejam consideradas um tipo de expressão qualificada como arte por algumas pessoas e instituições.

Eu poderia também falar sobre Warriors, um livro de ficção sobre gangues escrito por um assistente social americano que tornou-se escritor de ficção científica, ou do filme baseado em seu livro, Warriors: Os selvagens da noite, ainda que filmes de ação também tenham alguma dificuldade de serem classificados como arte.

No entanto, escolhi falar sobre B. Traven porque venho lendo seus livros nos últimos anos e tentando entender suas histórias e sua biografia.

Disseram que B. Traven era na verdade Erich Mühsam, um judeu-alemão anarquista, poeta e ator, um dos agitadores da Revolução Alemã que fundou a República Soviética da Baviera entre 1918 e 1919.

Contudo, Muhsam foi assassinado pelos nazistas em decorrência de sua origem étnica e orientação política num campo de concentração em 1934, quando tinha 56 anos de idade.

Disseram que B. Traven era Esperanza, escritora comunista e lésbica, a irmão já falecida do presidente mexicano Adolfo Lopez Mateos, ou até mesmo o próprio presidente.

Contudo Adolfo desconfirmou o boato numa conferência de imprensa em 1960, durante uma visita oficial à Buenos Aires, afirmando que quando Traven publicou sua primeira  novela sua irmã tinha cinco anos de idade e ele era um ano mais novo do que ela.

Disseram que ele seria um pseudônimo do escritor norte-americano Jack London.

B. Traven seria também Arthur Cravan um suíço, sobrinho de Oscar Wilde e conhecido como boxeador, poeta e ator, percebido como um ancestral pelos artistas dadaístas e surrealistas. Cravan foi visto pela última vez na Costa do México em novembro de 1918.

Disseram que Traven seria o crítico satírico e jornalista Ambrose Bierce, nascido em Ohio, no meio-oeste dos EUA, que desapareceu sem deixar rastros durante uma viagem ao México, sendo a teoria mais popular a que diz que foi fuzilado pelos revolucionários do exército de Pancho Villa em dezembro de 1913.

O certo é que B Traven foi um escritor. Seus 17 livros, entre novelas e contos, publicados entre 1927 e 1975, venderam bem e de tão populares tornaram-se filmes em Hollywood ou séries de TV na América e na Europa entre os anos 1940 e 1980.

Entre eles, O tesouro de Sierra Madre, estrelado por Humphrey Bogart e ambientado no México, ganhou o Oscar de 1949, nas categorias melhor diretor, melhor roteiro adaptado e melhor ator coadjuvante.

Outro fato é que ele não gostava dos holofotes, a maneira de Salinger, o autor de O Apanhador no Campo de Centeio, e tinha interesse em embaralhar qualquer uma das pistas que pudessem levar ao conhecimento de sua vida.

As suas narrativas são ambientadas no México, e os personagens principais são indígenas, trabalhadores do algodão, camponeses, mineiros, sindicalistas, revolucionários e quase todas as pessoas que podem ser classificadas como sendo os oprimidos politicamente, os explorados economicamente, as classes trabalhadoras ou, para usar um termo nem tão novo, os subalternos.

Apesar de não deixar conhecer sua vida, o seu texto é entendido pelos críticos literários como derivando de sua experiência pessoal entre os “de baixo”.

Tomei conhecimento dessa figura enigmática que é B. Traven quando tinha vinte e poucos anos, e lia jornais e boletins anarquistas.

Tive a oportunidade de adquirir alguns de seus livros em sebos, pois estão esgotados desde os anos 1980, com a exceção de Visitante Noturno, que ganhou uma edição em 2008 e foi escolhido por Jorge Luis Borges para sua compilação com a melhor literatura fantástica de todos os tempos.

Suas narrativas são permeadas por temas tratados pelo cientista social, a alteridade, as ruralidades, a migração, o mundo do trabalho, a desigualdade econômica, os choques culturais, os conflitos sociais.

Tendo derivado sua narrativa de sua experiência pessoal, Traven pode ser enquadrado naquela categoria de autores na qual estão o Joseph Conrad  de Coração das Trevas e o Guimarães Rosa de Grande Sertão: Veredas, literatos, que à sua maneira, fazem o cientista social aprender sociologia e antropologia por outros meios.

Voltando ao enigmático B. Traven. A versão mais aceita pelos biógrafos e críticos é que Traven foi na verdade Ret Marut, um ator de teatro e anarquista alemão, que deixou a Europa em direção ao México por volta de 1924, que editou um jornal cultural e político anarquista.

Foi um agitador da Revolução Alemã de 1918, da qual nasceu a República Soviética de Munique, logo após a I Guerra Mundial.

Em abril de 1919, é proclamada a República Soviética da Baviera, e Marut é eleito diretor do departamento de imprensa do Comitê Central, integrando o Comitê de Governo.

Em primeiro de maio do mesmo ano, ele é preso depois da invasão e vitória da Guarda Branca.

Os reacionários, o declaram culpado de “alta traição” em 23 de junho, e depois de fugir com sucesso, seu nome vai para a lista dos “mais procurados” da polícia política bávara.

Marut segue para Berlin.

De 1919 ao verão de 1923, ele reside clandestinamente em diferentes lugares da Alemanha e da Áustria.

Em dezembro de 1921, aparece o último dos treze números do jornal que editava.

Em agosto de 1923, Marut chega à Londres, mas em novembro é preso por não cumprir o registro obrigatório de estrangeiros.

Em março de 1924, é liberado e embarca para o México, aportando na costa entre os meses e junho e julho daquele ano.

Em seu diário de 26 de julho, escreve: “o bávaro de Munique está morto”. Em 1925, surge pela primeira vez o nome B. Traven.

É publicada em fascículos, no jornal alemão Avante, sua novela Os colhedores de algodão.

Em 1926, como fotógrafo e com o nome de Torsvan, Traven faz parte da experdição à Chiapas, no Sul do México, organizada pelo arqueólogo Enrique Juan Palacios.

Seu primeiro livro, O Barco da Morte é publicado na Alemanha. Daí em diante inicia-se uma bem sucedida carreira de escritor.

O anarquista B. Traven era o escritor preferido do estadista inglês Winston Churchill e do físico Albert Einstein, que, ao ser perguntado sobre qual livro levaria para uma ilha deserta, respondeu: “qualquer um que tenha sido escrito por B. Traven”.

Traven faleceu em 26 de julho de 1969, na Cidade do México. Rosa Elena Lujan, sua viúva, revelou que ele havia sido Ret Marut, o anarquista bávaro.

A universidade da Califórnia detém o acervo de Traven. A curadora de uma das exposições do acervo, Heidi Hutchinson, disse em entrevista ao site da Vice que o testamento de Traven declara que ele “nasceu em Chicago, Illinois, em 3 de maio de 1890, filho de Burton Torsvan e Dorothy Croves Torsvan, ambos falecidos”.

E arremata que “não ouvi falar de ninguém que acredite que essas informações sejam verdadeiras”.

Essa versão do testamento é próxima à que ele deu as autoridades da Baviera quando foi preso após a derrota da Revolução Alemã.

Nessa versão ele dizia a polícia que nada podia ser provado através de documentos porque um terremoto seguido de incêndio destruiu tudo em 1906.

“Para mim, é mais provável que Traven tenha nascido lá”, disse Lujan, afirmando a versão do testamento.

“Ele conversou comigo sobre coisas da infância em Chicago”. Ele também falou, com desaprovação, sobre sua mãe, “uma bela atriz de sangue irlandês ou inglês”, chamada Helene Ottorent.

Mas as poucas gravações de Traven, entre as quais uma descoberta recentemente em um programa de televisão patrocinado pelo governo mexicano sobre sua vida e obra, mostram que ele falava inglês com um pronunciado sotaque alemão ou escandinavo.

“Eu não descarto um nascimento americano”, disse Guthke, um dos seus biógrafos. “Ele pode ter sido filho de uma atriz alemã que se apresentou nos Estados Unidos e voltou para a Alemanha quando ele era criança”.

Um persistente jornalista escreveu a Traven e perguntou sem rodeios “Quem diabos é você?”, O escritor respondeu: "Se eu soubesse, acho que não seria capaz de continuar escrevendo, ou não teria escrito os livros que escrevi'”.

A sra. Lujan lembrou: “Ele costumava dizer para mim: ‘Eu sou mais livre do que qualquer outra pessoa. Sou livre para escolher os pais que quero, o país que quero, a idade que quero’. Mas a realidade é que ele não sabia exatamente como ou onde nasceu”, disse Lujana.

“Ele nunca teve uma certidão de nascimento”.

Parece que o plano de fuga de Ret Marut funcionou, pois, mesmo estando na lista dos mais procurados nas vésperas da II Guerra Mundial, numa Alemanha que tornava-se nazista odiando judeus, gays, artistas e anarquistas, ele jamais foi pego pelas autoridades.

A clandestinidade foi vivida não só através da migração geográfica e do anonimato jurídico, mas também através de um self clandestino de si mesmo, que após a fuga bem-sucedida da Europa em direção ao México continuou fugindo porque criando identidades através de um fluxo de “selfs”: Marut, Traven, Trosvan.

Talvez o plano de fuga tenha funcionado tão bem que chamou atenção das pessoas para o maior de seus personagens, B. Traven. Marut era autor de livros, mas também havia sido ator de teatro e soube desempenhar papéis até o final da vida “fora dos palcos” ou dentro do maior palco de todos, sua biografia.

Lemieux e as boas perguntas

 

Cyril Lemieux (1967 -)

Lemieux indaga que “e se o difícil em sociologia não fosse produzir respostas, mas formular boas questões?” (2015, p. 33).

Para o autor, a problematização é um recurso na construção do objeto de pesquisa. Essa problematização tem a possibilidade de criar condições para driblar a escolástica e a descrição.

As questões escolásticas dizem respeito a problematizações filosóficas, abstratas, com pouca possibilidade de problematização empírica, “são reflexões gerais que as suscitam, reflexões relativas à liberdade humana e ao determinismo, às funções respectivas do indivíduo e da sociedade, ou ainda, ao fato de saber se o atual andamento do mundo possui um caráter inelutável ou não” (LEMIEUX, 2015, p. 33).

As questões descritivas se anunciam “sob o aspecto anódino de uma interrogação técnica ou fatual concernindo um pedaço do mundo social” (LEMIEUX, 2015, p. 34).

Para ilustrar a descrição o autor usa como exemplo a questão de perguntar estatisticamente qual a quantidade e quais os franceses que tiram mais de três semanas de férias por ano, e se esse número de trabalhadores aumentou nos últimos quinze anos.

Para o autor, os dois tipos de formulações pouco avançam na compreensão do mundo social, pois não o problematizam. Assim, o espírito da sociologia é a arte de tornar problemático o mundo social em que vivemos:

“diante de situações onde a maioria dos atores priorizam um olhar sobre uma atividade social buscando naturalizá-la, o sociólogo, ao endereçar-lhe certos tipos de questões, pode fazer reaparecer o arbitrário e a indeterminação que esta tentativa de naturalização negou-lhe” (LEMIEUX, 2015, p. 34).

Para o sociólogo francês, o espírito da sociologia não é nem especulativo, nem puramente descritivo, mas crítico, exigindo do pesquisador a capacidade. “de levantar problemas sobre realidades sociais que para os atores implicados não existem, ou que existem, mas de forma a menosprezar sua natureza social” (LEMIEUX, 2015, p. 35).

Raphael Cruz


Referências

LEMIEUX, Cyril. “Problematizar”. In: PAUGAM, Serge. A pesquisa sociológic. Petrópolis, Vozes, 2015.

Observação: esta postagem foi revisada em 19 de outubro de 2022.

Bourdieu e a oficina sociológica

Pierre Bourdieu (1930-2002)


Em Introdução a uma sociologia reflexiva, Bourdieu reflete sobre o ofício de sociólogo e opta pela imagem da oficina ao invés da imagem do laboratório. 

A oficina está ligada a noção de ofício e com o mundo do artesanal. A oficina é o locus da ação, lugar do processo de criação. 

Concentremo-nos na relação entre a oficina e a loja como metáforas da exposição das nossas pesquisas.

Na loja, os objetos estão expostos, prontos e acabados, fechados. Na oficina, o objeto está em processo de feitura, inacabado, aberto.

Oficina é devir. Loja é ponto de chegada. Oficina é lugar de reflexão. Loja é lugar de apreciação.

É na oficina que se fazem os esboços. Na loja é onde se ocultam os esboços. 

Não é somente a imagem, mas o processo criativo da oficina que interessa a Bourdieu ao aconselhar os seus leitores exporem os seus objetos inacabados, abertos, esboçados. 

“O homo academicus gosta do acabado” (2012, p. 19), ele é a alma e o corpo da loja, já na oficina se tecem outros agenciamentos mais próximos, talvez, de um homo ludens.

Bourdieu sugere um "como fazer", que aprendeu ao longo dos anos de pesquisa e pretende comunicá-lo aos jovens sociólogos, mas guardando distância de um certo espírito professoral e teorético, a maneira de Talcott Parsons. 

Bourdieu partilha orientações práticas na forma de "dicas" e "macetes" de como apresentar e construir o objeto, de como encarar os erros, sugerindo rir deles de forma coletiva, não em tom de chacota, mas como velhos amigos rindo das presepadas do passado (BOURDIEU, 2012, p. 18-19).

É por esse caminho que ele realiza a sua “palestra-oficina”.

Bourdieu aconselha a apresentação leve e sucinta do tema de trabalho, sem ser defensivo e fechado, como um objeto exposto na loja, mas simples e modesto, como um objeto em construção na oficina, objeto que se encontra sob intervenção de diversas técnicas e instrumentos, e busca os mais adequados.

O que interessa, nesse momento, é o barulho criativa da oficina, onde são feitos esboços e se ouvem marteladas, e não o silêncio contemplativo da loja.

A oficina está impregnada do cheiro de suor dos corpos em ação e não do perfume do corpo banhado e bem-vestido que visita à loja.

É nesse processo de busca dos mais adequados instrumentos e técnicas de construção que se revelam as dificuldades e “nada mais universalizável do que as dificuldades”, lembra Bourdieu (2012, p. 18).

As dificuldades podem revelar as emoções e sentimentos envolvidos na construção do objeto. 

Mesmo a pesquisa sendo uma atividade racional, ela tem “o efeito de aumentar o temor e a angústia” (2012, p. 18). 

Assim, a partir de Bourdieu, pode-se dizer que a pesquisa é racional, mas também emocional, ela envolve cálculos de maximização de investimentos, construção e desconstrução de afetos, se é que isso é possível.

Raphael Cruz


Referências

BOURDIEU, Pierre. Introdução a uma sociologia reflexiva. In: BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Tradução de Fernando Braz. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2012.

Observação: esta postagem foi revisada em 20 de outubro de 2022.

Ontologia e hierarquia

Tanto à esquerda quanto à direita, marxistas e liberais convergem na defesa do assim chamado desenvolvimento das forças produtivas ou da economia. 

É importante refletir sobre as raízes teóricas e os efeitos socioecológicos dessa teleologia e panaceia desenvolvimentista. 

Para eles, os povos tradicionais que ocupam territórios "não produtivos", deveriam desobstruir o “progresso”, sendo, no melhor dos casos, recompensados por algumas de suas perdas territoriais, ambientais e socioculturais.

Está em jogo diferentes perspectivas sobre o sentido da boa vida, a organização do trabalho, os "usos" da natureza e o objetivo da "economia". 

Está em jogo como liberais e marxistas hierarquizam socialmente os povos tradicionais em suas ontologias. 


Raphael Cruz 

Nota 13: Pertencimento de classe

Aquele momento em que você corre atrás do ônibus, não o pega e percebe que jamais pertencerá à classe dominante. 


Raphael Cruz

As guerras da antropologia

Ruth Benedict (1887-1948)


A antropologia serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra?

Existe um manual de contra-insurgência elaborado pelo estrategista Nathan Finney com a colaboração de antropólogos e utilizado nas ações do exército americano no Oriente Médio.

O manual se chama Human Terrain Team Handbook (2008) e vazou para o público há alguns anos via Wikileaks.

Através do documento é possível analisar a aplicação da antropologia na ocupação americana do Afeganistão e do Iraque.

Mas antes mesmo desse manual, os antropólogos culturais como Margareth Mead e Ruth Benedict já haviam participado dos "esforços de guerra" dos EUA.

Os estudos de “culture and personality”, como O crisântemo e a espada (1946), de Benedict, sobre a cultura do povo japonês, foram incorporados a máquina dos Aliados na II Guerra Mundial.

Naquela época, pelo menos, poderia argumentar-se que estavam combatendo o nazismo.

Antes mesmo disso, Malinowski, no prefácio ou apresentação de Crime e costume na sociedade selvagem (1926), falava do auxílio da antropologia no processo de dominação política e econômica dos “povos selvagens”.

Listo esses exemplos para demarcar certos aspectos da história da disciplina frente à romantização e encantamento acrítico, que, às vezes, percebo, na fala das pessoas sobre o que é a antropologia e o que é ser antropólogo.

Não se trata de condenar a antropologia como imperialista, existem importantes estudos no passado recente da disciplina com coloração anti-imperialista, como Europa e os povos sem história de Eric Wolf, além das mais recentes contribuições produzidas pela fertilização cruzada entre antropologia e pensamento decolonial. 

Contudo, refletir sobre como as classes dominantes em determinados contextos instrumentalizaram a disciplina para atender seus interesses econômicos e geopolíticos, faz parte dos esforços de preservar a criticidade frente aos interesses da máquina de guerra do Estado e do capital.

Quanto ao manual de contra-insurgência elaborado com a ajuda de antropólogos, ele foi contestado pela American Anthropological Association por ferir o Código Disciplinar de Ética, pois o material faz parte do setor de espionagem do Departamento da Defesa, ficando, assim, não sujeito a revisão externa, o que o qualificou como não sendo um “exercício legítimo de antropologia profissional”. 

Raphael Cruz

Nota 12: Decolonialismo de esquina

Limoeiro do Norte. Manhã.

Dois homens conversam na esquina do mercadinho. 

– Já vai começar a política (eleições), diz um deles.

– Todo mundo tá se movimentando, diz o outro. 

E arremata.

– É corrupção, rico roubando pobre. A solução é descolonizar o Brasil.


Raphael Cruz

Nota 11: Ódio constrói

Fortaleza. Ônibus Aguanambi II.

Duas senhoras de meia-idade conversam. 

Uma delas, fala, — Minha vizinha fez o pedido para uma ressonância, mas quando chegou sua vez na fila já fazia cinco anos que ela morreu de câncer. 

Tragédias como essa são ouvidas e contadas cotidianamente em filas de supermercado, paradas de ônibus e terminais rodoviários.

O desafio é não naturalizar essas tragédias, apesar da repetição. 

O desafio é entender as causas desses acontecimentos e combatê-los na raiz. 

Apesar de todo o leriado atual sobre “mais amor” não esqueço de ser necessário a “capacidade de odiar” esses fatos para não se acostumar com eles. 

O ódio (como o amor) constrói. 


Raphael Cruz


Nota 10: Cachaça em Itapajé

 Itapajé. Meio-dia. 

O ônibus para num posto de gasolina ao lado de um restaurante. 

Lá, há também uma loja de produtos regionais. 

Nessa loja, chega um senhor de uns 55 anos. 

Ele diz, — Esqueci de comprar uma coisa. 

O atendente pergunta, — Um pé de moleque? 

O senhor responde, — Não, uma cachaça.


Raphael Cruz

Nota 9: Amor de novela

Fortaleza. Benfica. R.U da UFC, meio-dia.

Um rapaz observa a excesso de pessoas no local.

Ele comenta, — A fila do R.U é como amor de novela, tem começo, mas não tem fim.


Raphael Cruz

Treinando numa Smartfit pela primeira vez

  Brasília, 02 de julho de 2026 1. Primeira vez numa Smartfit. 2.  Achei escura. A última vez que estive num lugar assim foi num show de ...