Elegia para Canudos nos 125 anos da guerra

Detalhe da fotografia de Flavio de Barros dos sobreviventes da Guerra de Canudos (1896-1897)


Determinados fatos da história do Brasil dão razão à teoria anarquista do Estado.

Mikhail Bakunin (1977, p. 240) escreveu em Os ursos de Berna e o urso de São Petersburgo, que "a lei suprema do Estado é o aumento de sua potência, em detrimento da liberdade no interior e da justiça no exterior". 

Adaptando ao contexto nacional, pode-se dizer que ocorreu o aumento da potência do Estado, em detrimento da liberdade no interior e o aumento da sua submissão no exterior.

O Estado no Brasil possui uma interessante contradição. Ao mesmo tempo em que, ao nível geopolítico, é subordinado aos países imperialistas, é, ao nível doméstico, tirano com a sua própria população (Fernandes, 2022) [1]. 

Foi fenômeno recorrente na consolidação do Estado no país, a eliminação sistemática de formas de autogoverno popular tais como Palmares, Canudos, Contestado, Caldeirão, Trombas e Formoso.

No período republicano, enquanto o Estado era dependente economicamente e submisso politicamente à imperialista Grã-Bretanha, massacrava os sertanejos devotos do Conselheiro no sertão baiano (Singer, 1998).

No período da ditadura empresarial-militar (Dreifuss, 1981), ao mesmo tempo em que o Estado era um posto avançado do imperialismo estadunidense na América Latina, caçava, prendia, torturava e assassinava os camponeses rebeldes de Trombas e Formoso (Azevedo, 2014).

Assim, o estatismo no Brasil, enquanto processo de formação, transformação e reprodução da concentração de poder via Estado, funcionou no plano interno em detrimento da liberdade e da justiça dos povos sob o seu controle, enquanto no plano externo se subordinou aos interesses e ao controle imperialista.

Sua população civil foi tratada como inimiga. E as experiências populares de autogoverno foram compreendidas e combatidas como ameaças ao monopólio do poder do Estado sobre a sociedade civil. 

O massacre de Canudos e sua recriação sistemática em favelas, florestas e campos contemporâneos, revela que no Brasil, o massacre não é a exceção, nem fato do passado, mas a regra geral do Estado, parafraseando Walter Benjamin (1995). 

Pensando com Bakunin (2003), pode-se sugerir que o massacre de populações civis é mecanismo estruturante do estatismo no Brasil, capaz de revelar um continuum entre colonialidade e modernidade, a atravessar os períodos colonial, imperial e republicano da história do país (Mendonça, 2017).

Flavio de Barros (1897), Sobreviventes da Guerra de Canudos

O massacre da população civil sempre esteve a disposição do Estado no Brasil, como meio para "governar a sociedade de cima para baixo", sendo legitimado "em nome de um pretenso direito teológico ou metafísico, divino ou científico" (Bakunin, 2003). 

A teologia cristã foi instrumentalizada pelo poder colonial para justificar a subordinação física e moral dos povos originários e afrodescendentes à coroa portuguesa e ao catolicismo. O cientificismo foi instrumentalizado pelo poder republicano para estigmatizar o povo de Belo Monte como horda fanática de religiosos pró-restauração do império, justificando, assim, o massacre do povo de Canudos.

Assim, diferentes e contraditórios sistemas cognitivos (Gurvitch, 1969) como a teologia cristã ou a ciência evolucionista foram acionadas ao longo do tempo para justificar situacionalmente a ação aniquiladora de povos pelo Estado. 

Isso revela não apenas uma variedade nas maneiras de legitimar massacres, seja a partir de um direito teológico ou científico, como diria Bakunin (2003), mas escancara também a continuidade dos massacres apesar da variedade de justificativas.

Os massacres mostram a derrota militar dos autogovernos populares. Contudo, quando apropriados pela memória coletiva, como é o caso de Canudos, revelam uma vitória ideológica em relação a tentativa do Estado de enterrar os fatos como enterrou os mortos, com discursos oficiosos ou pelo esquecimento seletivo do que não convém aos seus mitos de fundação e de expansão estatal. 

Em seu Instagram, Paullo Régis, um descendente de sobreviventes ao massacre de Canudos, escreveu que quase ninguém em 2022 é capaz de citar o nome dos algozes do povo de Belo Monte. Porém, muitos podem reconhecer, 250 anos depois do fim da guerra, o nome do Conselheiro e de seu arraial fincado no sertão da Bahia. 

Raphael Cruz


Notas

[1] Por isso que o nacionalismo militar aqui nunca foi, de fato, nacionalista, no sentido de preservar interesses econômicos e políticos da burguesia interna, como o fora em outros lugares da América Latina, mas uma espécie de corporativismo da caserna sempre preocupado com suas próprias demandas, e disposto a bater continência ao império da vez.

Referências

AZEVEDO, Leon Martins Carriconde. A revolta camponesa de Trombas e Formoso e a contribuição da teoria anarquista. Em Debate, n. 11, p. 68-89, 2014.

BAKUNIN, Mikhail. Estatismo e anarquia. São Paulo: Imaginário, 2003.

BAKUNIN, Mikhail. Os osos de Berna y el oso de San Petersburgo [1870]. In: BAKUNIN Mikhail. Obras Completas. Madrid: La Piqueta, 1977.

BENJAMIN,  Walter. Sobre  o  conceito  de história. In: BENJAMIN,  Walter. Magia  e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 2005.

DREIFUSS, René Armand. 1964: A conquista do Estado: ação política, poder e golpe de classe. Petrópolis: Editora Vozes, 1981.

FERNANDES, Florestan. A revolução burguesa: ensaio de interpretação sociológica. São Paulo: Contracorrente, 2020.

GURVITCH, Georges. Os quadros sociais do conhecimento. Rio de Janeiro: Moraes Editores, 1969.

MENDONÇA, Bartolomeu Rodrigues. Continuum colonial: colonialidade (=modernidade), empreendimentos capitalistas, deslocamentos compulsórios e escravos da República no Estado do Maranhão, Brasil. 2017. 319 f. Tese (Doutorado em Ciências Sociais) - Universidade Federal do Maranhão, São Luís, 2017.

SINGER, Paul. De dependência em dependência: consentida, tolerada e desejada. Estudos Avançados. 1998, v. 12, n. 33, pp. 119-130.

Observação: texto revisado em 3 de dezembro de 2022.

David Graeber e o (neo)anarquismo

David Graeber (1961-2020)


O meu problema com (neo)anarquistas como Graeber, a que pese a admiração por obras como Dívida e O despertar de tudo, é que suas reflexões tendem a negligenciar a contribuição do anarquismo histórico, ou de pelo menos de alguns dos seus autores, como, por exemplo, Proudhon.

O quarto capítulo de O despertar..., livro co-escrito com o arqueólogo David Wengrow, é uma brilhante reflexão sobre a origem da propriedade privada. 

São problematizados argumentos iluministas e antropológicos clássicos, a partir de evidências arqueológicas recentes sobre a relação entre igualdade e propriedade na história humana. 

Porém, o operário-intelectual francês Proudhon não é mencionado no capítulo e em nenhuma das 847 paginas do livro quando o tema é a propriedade e sua relação com a igualdade, a liberdade e o governo. 

Estes foram temas ousadamente trabalhados em O que é a propriedade, de 1840. Na época, o livro de Proudhon chocou a França sendo debatido. Tornou-se obra importante da tradição socialista, tendo influenciado Marx e Bakunin.

Se Graeber fosse um intelectual marxista, eu não veria problema em sua negligência da reflexão proudhoniana, mas, ele não é. 

O que mais me causa estranhamento é o rebelde francês não ser sequer mencionado nas notas de rodapé que abundam no livro de Graeber e Wengrow.

Contudo, essa negligência é corriqueira.

Recentemente, participei de uma conferência internacional sobre estudos anarquistas, e a maioria dos trabalhos apresentados negligenciavam o anarquismo histórico.

Talvez isso dimensione como o pós-anarquismo significa um afastamento ou abandono dos referenciais teóricos do anarquismo histórico. E que tende a cair no erro de "reinventar a roda" ao invés de aprimorá-la.

Ao que pese a crítica, continuo achando o trabalho de David Graeber um sopro de ar fresco nas ciências sociais contemporâneas. E um poderoso exercício de imaginação política numa época de crise do capitalismo, do Estado e do pensamento revolucionário. 

Raphael Cruz


Referências

GRAEBER, David. Dívida: os primeiros 5000 anos. São Paulo: Três Estrelas, 2016.

GRAEBER, David; WENGROW, David. O despertar de tudo: uma nova história da humanidade. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.

PROUDHON, Pierre-Joseph. O que é a propriedade? Lisboa: Editorial Estampa, 1975.

Loïc Wacquant e os dois usos da teoria social

Loïc Wacquant (1960 -)


Ao avaliar o legado de Pierre Bourdieu para as ciências sociais, Loïc Wacquant (2002) identificou dois usos da teoria social: o escolástico e o gerativo.

O modo escolástico é aquele em que a produção de categorias teóricas tem um fim em si mesmo, “para exposição ritual e adoração” (Wacquant, 2002, p. 103). O arquétipo desse uso da teoria seria, na opinião do autor, o sociólogo Talcott Parsons.

Já no modo gerativo, desenvolve-se teoria para usá-la em pesquisa empírica e “para provar e expandir sua capacidade heurística em um confronto sistemático com a realidade sócio-histórica” (Wacquant, 2002, p. 103). Exemplo desse uso é o próprio autor em seu livro Corpo e alma: notas etnográficas de um aprendiz de boxe (2002). 

Como destaca Wacquant (2002, p. 103), neste uso, a teoria é menos visível e a extraímos por meio da leitura atenta das “observações que ela conduz (e nas quais ela às vezes se esconde)”. Acredito que o autor se refere a como a teoria, no modo gerativo, tende a estar localizada abaixo de uma camada de descrição empírica.

Contudo, existe teoria, ao menos em ciências sociais, que esteja apenas autorreferenciada no universo teórico, sem referência alguma ao mundo social? 

Essas reflexões de Wacquant me remeteram a uma passagem de Habu: the innovation of meaning in Daribi religion, etnografia escrita pelo antropólogo estadunidense Roy Wagner.

Cito ao autor: “every ethnography has its ‘theory’, no matter how diffuse, insipid, or matter-of-fact this may be, just as every theory has its ethnography” (WAGER, 1972, p. 13). 

O antropólogo estar a dizer que a relação entre empiria e teoria é tão visceral que mesmo a etnografia mais radicalmente empirista está assentada em teoria, da mesma maneira que a teoria mais abstrata baseia-se, em alguma medida, na empiria.  

Penso que até Parsons, este arquetípico do uso escolástico, segundo Wacquant, teve uma base empírica para o seu “sistema de ação social” e suas quatro funções primárias: manutenção de padrões, integração, realização de metas e adaptação. 

Lembro que a conclusão do monumental A estrutura da ação social (2010), está dividida em duas partes, respectivamente nomeadas de Conclusões verificadas empiricamente e Implicações metodológicas experimentais. 

Assumindo-se o argumento wacquantiano sobre os dois usos da teoria social, pode-se dizer que no modo escolástico é a empiria que está localizada abaixo de uma camada de elaboração teórica. Isto é, o inverso da relação entre teoria e empiria identificada no modo gerativo. 

Se considerar a maneira que o próprio Parsons organizou os capítulos de seu livro, é literalmente assim que ocorreu no caso de A estrutura da ação social!

Raphael Cruz


Referências 

PARSONS, Talcott. A estrutura da ação social. Um estudo de teoria social com especial referência a um grupo de autores recentes, v. 2. Petrópolis: Vozes, 2010. 

WACQUANT, Loïc. Corpo e Alma ­ Notas Etnográficas de um Aprendiz de Boxe. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002.

WACQUANT, Löic. O legado sociológico de Pierre Bourdieu: duas dimensões e uma nota pessoal. Rev. Sociol. Polít., Curitiba, 19, p. 95-110, nov. 2002.

WAGNER, Roy. Habu: the innovation of meaning in Daribi religion. Chicago: The University of Chicago Press, 1972.


Observação: texto revisado em 2 de dezembro de 2023.

Nota 16: Twitter como fórum

Quando vejo nossas discussões no Twitter, sinto que, entre outras coisas, ele assumiu a função social dos antigos Fóruns de internet dos anos 2000. 

Alfred Schutz e os constructos de primeiro e segundo grau

Alfred Schutz (1899-1959)


Na história das ciências sociais, a utilização de categorias do "mundo da vida" para a fabricação de conceito teórico foi problematizada, ao menos, de duas maneiras: 

a) na sociologia, por Alfred Schutz, através da relação entre construtos de primeiro e segundo graus; 

b) na antropologia, por exemplo, nas "teorias etnográficas" de Marcel Mauss e Malinovski, por meio de categorias como manahaupotlach kula (Da Col; Graeber, 2011). 

Ambas as maneiras colocam problemas epistemológicos e metodológicos sobre a construção do conhecimento nas ciências sociais. 

Nesta postagem, vou me deter na perspectiva de Schutz. E como ela foi importante para minha pesquisa de doutorado, no que tange ao tratamento de dados produzidos durante o trabalho de campo (Maurício, 2019). 

Construtos de primeiro e segundo graus

Para Alfred Schutz, a primeira tarefa metodológica das ciências sociais é "a exploração dos princípios gerais segundo os quais o homem organiza suas experiências na vida diária, e especialmente as do mundo social (...)." (2014, p. 53). 

O autor interessava-se em desvendar como o "pensamento do senso comum toma conhecimento do mundo social e cultural" (Ibid). 

Schutz entendia a compreensão (Versthen) como uma "técnica para lidar com as coisas humanas." (Ibid). Nesse sentido, foi um explorador do mundo da vida (Lebenswelt). 

Sua teoria social foi devedora de certa tradição alemã, aquela das problematizações fenomenológicas do filósofo Edmund Husserl sobre a intersubjetividade como condição da vida social, e as elaborações da sociologia compreensiva de Max Weber sobre o sentido subjetivamente atribuído à ação.  

Para a investigação do mundo da vida, Schutz distinguiu entre construtos de primeiro grau e de segundo grau, algo coerente com os pressupostos da fenomenologia e da sociologia compreensiva. 

Os construtos de primeiro grau são definidos como os construtos do senso comum, os elementos subjetivos da ação do ator desde seu ponto de vista. 

Os de segundo são os construtos científicos elaborados pela ciência para explicar a realidade social. 

Para o autor, "se as ciências sociais visam, de fato, explicar a realidade social, então os construtos científicos de segundo grau têm também de incluir uma referência ao significado subjetivo que uma ação tem para o ator" (2014, p. 54). 

Ele nomeará essa sensibilidade metodológica de "postulado da interpretação subjetiva" (Ibid). 

A consequência da aplicação desse postulado é "(...) que os conceitos formados pelo cientista social são construtos dos construtos formados no pensamento do senso comum pelos atores no cenário social (...)" (2014, p. 55).

Para a perspectiva fenomenológica de Schutz, o mundo da vida é a fonte da teoria sociológica. 

Levando Schutz para o Litoral do Piauí 

Durante minha pesquisa de doutorado sobre a construção social e histórica da territorialidade dos extrativistas do litoral piauiense, realizei observação direta e entrevista com eles (Maurício, 2019).

Nessa ocasião, tomei contato com as palavras terra terreno, que naquele mundo social significavam classificações do espaço. 

Terra referia-se aquilo que era de uso comum como as matas, praias, capoeiras e mangues. O terreno designava os espaços de uso familiar como a casa, o sítio, o quintal, o jardim. 

Utilizei essas categorias de classificação espacial para construir a noção de "sistema terra-terreno" como arranjo ético onde as relações de parentesco ordenavam o terreno como espaço de parentes, e as relações comunitárias ordenavam à terra como espaço de apropriação comum. 

Essa noção teórica (sistema terra-terreno) construída a partir de noções nativas dos extrativistas (terra e terreno) estruturou minha descrição da formação, funcionamento e mudança da territorialidade daquele grupo social. 

Essa abordagem é comum tanto a sociologia fenomenológica quanto a tradição etnográfica da antropologia. 

Ela possibilitou-me teorizar a partir de dados produzidos no trabalho de campo entre os pescadores e catadores de caju do litoral piauiense. E, assim, entregar, na forma de tese, uma reflexão enraizada no munda da vida de meus interlocutores de pesquisa.


Raphael Cruz


Referências

GRAEBER, David; DA COL, Giovanni. The return of ethnographic theory. H AU: Journal of Ethnographic Theory, v. 1, n. 1, 2011.

MAURÍCIO, Francisco Raphael Cruz. Os Filhos do Lugar: crônicas da territorialidade pedral. 2019. 307f. Tese (Doutorado) - Universidade Federal do Ceará, Centro de Humanidades, Programa de Pós-graduação em Sociologia, Fortaleza, 2019. 

SCHUTZ, Alfred. Sociologia interpretativa. In: CASTRO, Celso. Textos básicos de sociologia. Rio de Janeiro: Zahar, 2014. 

Obs: texto revisado em 12 de dezembro de 2022.

Leitura 3: Bakunin e o estatismo

Edição russa de 1873, de Estatismo e anarquia.


Impressiona como Estatismo e Anarquia ([1873]), de Mikhail Bakunin, é pouco lido. Há tanto argumento interessante lá. Não só uma teoria do Estado, mas do imperialismo e do sistema interestatal capitalista. A própria noção de hegemonia desenvolvida por ele é central na compreensão do Estado. 


Referências

BAKUNIN, Mikhail. Estatismo e anarquia. São Paulo: Imaginário; Ícone, 2003.

Leitura 2: O despertar do socialismo



Terminei o segundo capítulo de O despertar de tudo. E um dos argumentos mais interessantes trabalhados por Wengrow e Graeber é a influência da crítica indígena na formação do pensamento socialista europeu. Segundo os autores, as ideias de igualdade e liberdade, que caracterizam o socialismo, foram provocadas nos europeus a partir da leitura dos relatos sobre sociedades indígenas das Américas, escritos por missionários, comerciantes e traficantes. E também pela crítica indígena a sociedade europeia, realizada por intelectuais indígenas que viajaram à Europa. Assim, ordenar as sociedades europeias de outra maneira, que não aquela do capitalismo ou do patriarcado, foi uma resposta elaborada pelos europeus, inspirada nas possibilidades sociopolíticas abertas pelo contato com as formas ameríndias de organização social.

Raphael Cruz


Referência

GRAEBER, David; WENGROW, David. O despertar de tudo. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.


Nota 15: O coworking da classe trabalhadora

Biblioteca do Centro de Humanidades da Universidade Federal do Ceará

Depois de três anos, estudei novamente na biblioteca da UFC. A biblioteca pública é o coworking da classe trabalhadora. Este foi o local onde escrevi a dissertação de mestrado e parte da tese de doutorado.

Futuros anarquistas na periferia capitalista


No dia 27 de agosto de 2022, participei da 7ª Conferência da Anarchist Studies Network, através do painel Is it future or is it past, junto à Saptadeepa Benerjee e Luciano Oneto.

A minha apresentação seguiu o mote da 7ª conferência da ASN, que se interessava em trabalhos sobre como anarquistas pensam ou pensaram o futuro.

Comentei sobre três casos de futuros societários imaginados nos parâmetros da tradição anarquista, isto é, no autogoverno (federalismo político) e na autogestão (socialismo econômico). 

Nesse sentido, analisei três programas e constituições políticas anarquistas para o Brasil elaboradas entre a I e a II guerras mundiais, por militantes tais como José Oiticica e Edgar Leuenroth, importantes personagens da contestação política brasileira da I República, e por ativistas menos conhecidos como o cearense Moacir Caminha e o português de nasicmento Helio Negro, pseudônimo de Antonio Candeias Duarte.

Como referencial teórico, baseei-me na noção de "práticas constitucionais", elaborada por Kinna, Prichard e Swann (2009). 

Identifiquei que nos três casos selecionados, havia o uso da linguagem federalista do sindicalismo revolucionário (conselhos, federações) misturada com a linguagem constitucional de republicanismo (constituição, república) para organizar a sociedade do futuro.

Cheguei a conclusão, que a imaginação política, agenciada pelos autores dos documentos estudados, tinha em comum serem uma espécie de síntese das tradições republicana radical e sindicalista revolucionária.

Por meio dessa síntese programática, que unia dois imaginários políticos, foram pensados "Brasis" politicamente autogovernados e economicamente autogeridos pela sociedade, destituindo, assim, a centralização de poder (Estado) e a concentração de riqueza (capitalismo) de qualquer utilidade para a vida social brasileira.

Abaixo, segue o resumo que consta nos anais da citada conferência.

Raphael Cruz

***

ANARCHIST FUTURES IN THE CAPITALIST PERIPHERY: CONSTITUTIONAL PRACTICES AND POLITICAL IMAGINATION IN BRAZIL (1919-1945) 

In "Against Kamikaze Capitalism", David Graeber (2011) stated that since the 2008 financial crisis, "we have been left in the bizarre situation where it is clear to everyone that capitalism doesn't work, but it's nearly impossible for anyone to imagine anything else.

The war against imagination is the only one the capitalists have really managed to win". By undermining creativity, the very existence of other worlds would be compromised. Indeed, imagination is a battleground. To imagine future egalitarian societies is to do politics by other means.

Since Mikhail Bakunin, the destruction of the old world of state domination and capitalist exploitation is not a nihilistic act, but a constructive one. It was he himself, under the pseudonym Jules Elysard (1842), in his formative years as a Left Hegelian, who emphasized the necessary dialectic between destruction and creation by stating that "die Lust der Zerstörung ist zugleich eine schaffende Lust!"

In a period in which the capitalists seemed not yet to have won the war against political imagination, Brazilian anarcho-syndicalist and anarcho-communist militants elaborated between 1919 and 1945, anarchist constitutions for the country. In this communication, I will present three constitutional texts written by militants who sought to imagine anarchist republics in Brazil. I seek to identify the statements of principles, institutional arrangements, rule-making processes, and decision-making procedures proposed in these constitutions (Kinna, Prichard, Swann, 2019).

I argue that the texts 1) express ways of imagining futures of equality and freedom for the Brazilian people; 2) through an “anarchist constitutional politics” (Kinna, Prichard, Swan, 2019) ; 3) in the period of the capitalist world wars; d) from an anarchist perspective located in the economic and post-colonial periphery of the world-system.

Raphael Cruz


References

GRAEBER, David. Revolutions in reverse: essays on politics, violence, art and imagination. Londres: Minor Compositions, 2011.

KINNA, Ruth; PRICHARD, Alex; SWANN, Thomas. Occupy and the constitution of anarchy. Global Constitutionalism, v. 8, n. 2, p. 357-390, 2019.

NEGRO, Helio; LEUENROTH, Edgar. O que é o marxismo ou bolchevismo - Programa comunista. São Paulo: s/e, 1919.

OITICICA, José. Princípios e fins. Spártacus. Ano I, nº3, Rio de Janeiro, 16 de agosto de 1919, p. 01.

OITICICA, José. Previsões práticas. Spártacus. Ano I, nº3, Rio de Janeiro, 23 de agosto de 1919, p. 01.

CAMINHA, Moacir. Remodelações, 15 e 22 de dezembro de 1945. In: RODRIGUES, Edgar. A nova aurora libertária (1945-1948). Rio de Janeiro: Achiamé, 1992.

Dialética das escalas macro e microssociológicas em Gurvitch

Georges Gurvitch (1894-1965)


No volume I de La vocation actuelle de la sociologie (1957 [1973]), Georges Gurvitch reflete sobre as escalas micro e macrossociológicas.

Sua perspectiva é particularmente interessante para mim.

Isso porque em meus anos de formação acadêmica, alguns professores orientavam alunos a criar predileção por uma ou outra dessas escalas na atividade de pesquisa.

Relativizei essa antinomia após tomar contato com a metodologia do estudo de caso, tal qual formulada e praticada pela escola antropológica de Manchester (Jaap van Velsen, Max Gluckman, Clyde Mitchel) e por um de seus discípulos, Michael Burawoy. 

A metodologia do estudo de caso parecia romper a antinomia entre as escalas micro e macrossociológicas porque através da observação de situações sociais (escala micro) era produzido conhecimento sobre processos sociais relativos ao capitalismo e ao colonialismo (escala macro).

Em Gurvitch, essas escalas também não são antinômicas, mas relacionáveis, uma ofertando sentido a outra.

Contudo, diferente dos antropólogos de Manchester, Gurvitch chegou a uma perspectiva de integração das escalas através de sua sociologia teórica, e não da pesquisa etnográfica.

Ele elaborou uma tipologia sociológica ao longo de sua obra. 

Ela é formada, basicamente, por 1) formas de sociabilidade entre o eu, o outro e o nós; 2) agrupamentos particulares como a família, que são um macrocosmo de formas de sociabilidade; e 3) sociedades globais, que são um macrocosmo de agrupamentos particulares.

É no interior dessa tipologia que ele reflete sobre as escalas micro e macrossociológicas.

"Não se poderia estudar com precisão qualquer agrupamento social concreto sem, de um lado, integrá-lo numa sociedade global particular, e, de outro lado, sem descrever a singular constelação do microcosmo de ligações sociais que o caracteriza" (Gurvitch, 1973, p. 13). 

Penso que o autor seria crítico às pesquisas de corte etnometodológico ou interacionista simbólico porque se concentram apenas nas interações face a face, o primeiro nível da tipologia gurvitchiana.

Bourdieu (2004), de certa forma, ecoa essa crítica. Ele afirma que a compreensão da interação não deve ser buscada na própria interação (formas de sociabilidade, no modelo tipológico de Gurvitch), mas nas condições sociais de produção da interação. 

Por outro lado, os estudos exclusivamente estatísticos estariam resumidos à dimensão quantitativa dos níveis dois e três da tipologia gurvitchiana.

Nesse sentido, pensar a integração das escalas micro e macro traz consequências metodológicas para qualquer pesquisa: 

"Portanto, pode-se formular a seguinte observação metodológica: é tão impossível fazer a microssociologia sem levar em conta a sociologia dos agrupamentos e a tipologia das sociedades globais, quanto fazer a macrossociologia negligenciando a microssociologia" (Gurvitch, 1973, p. 13).

Isso porque:

"Estes três aspectos 'horizontais' da sociologia apóiam-se e mantêm-se reciprocamente, pois estão indissoluvelmente ligados na realidade dos fatos. (...) Estas três escalas não podem ser separadas senão relativa e metodologicamente (...) a fim de servir de pontos de referência convenientes para a pesquisa. Mas elas não podem ser desunidas (do ponto de vista do ser), pois na vida social, elas se interpenetram  e sua relação efetiva é dialética: cada uma das três escalas pressupõe as outras" (Gurvitch, 1973, p. 13). 

Gurvitch conclui que do ponto de vista metodológico é conveniente separar as escalas micro e macrossociológicas, mas que são ontologicamente inseparáveis na realidade.

Contudo, mais adiante, o autor afirma que seria útil para a tarefa de explicar fenômenos sociais, a primazia ontológica da sociedade global e a primazia metodológica dos tipos microssociológicos.

Isto é, compreender os fenômenos como parte do que nomeia de sociedade global, mas executar pesquisa sociológica a partir da escala micro.

Achei interessante o critério estabelecido pelo autor para uma análise integrativa das escalas:

"Se a análise é bem conduzida, encontra-se, pela microssociologia, a macrossociologia e reciprocamente; ou, começando-se pela sociologia dos agrupamentos, chega-se, necessariamente, de um lado, à microssociologia, e, de outro, à tipologia das sociedades globais" (Gurvitch, 1973, p. 14). 

Pode-se dizer que Gurvitch oferta uma solução em simultâneo, ontológica e metodológica para a epistemologia das escalas, a partir da integração dos níveis micro e macrossociológicos para o estudo dos fenômenos sociais.

Raphael Cruz


Referências

BOURDIEU, Pierre. Coisas ditas. São Paulo: Brasiliense, 2004.

GURVITCH, Georges. Fenômenos micro e macrossociológicos. In: FERNANDES, Florestan. Comunidade e sociedade: leituras sobre problemas conceituais, metodológicos e de aplicação. São Paulo: Companhia Editora Nacional; Editora da Universidade de São Paulo, 1973.

Observação: texto revisado em 12 de dezembro de 2022.

Hegel, anarquismo e teoria do reconhecimento

Hegel (1770-1831)


Foi na Realphilosophie de Jena (1804/05) que o jovem Hegel sistematizou  sua discussão sobre reconhecimento.

O reconhecimento referia-se a percepção de si no mundo a partir do outro. 

Isso levou o filósofo ao tema da intersubjetividade na produção da identidade.

De modo que, o desenvolvimento da identidade pessoal foi compreendida como indissociável do reconhecimento por outros sujeitos. 

Ainda no século XIX, a ideia de reconhecimento foi acionada por anarquistas históricos como Proudhon e Bakunin.

Contudo, ela não foi explicitamente trabalhada por eles ou pela maioria de seus comentadores. 

Ao reler O que é a propriedade ([1865] 1975), encontrei na definição de justiça de Proudhon, um tanto de teoria do reconhecimento. 

A certa altura desta obra, Proudhon definirá justiça como o "reconhecimento de uma personalidade igual à nossa em outrem" (1975, p. 201). 

Hall (1970) notou que naquela obra, para Proudhon justiça implica igualdade entre os sujeitos.

Em escritos posteriores, o autor afirmou a justiça como reciprocidade (Hall, 1070). 

Apesar do eco hegeliano, o único momento em que o filósofo francês cita Hegel em O que é a propriedade é ao mencionar seu método dialético tripartido na discussão sobre as formas sociais (propriedade, comunidade e liberdade) (Proudhon, 1975, p. 224).

Hegel parece não ter sido um ponto de partida explicitado para as definições proudhonianas de justiça enquanto reconhecimento. 

Apesar disso, há de destacar que Hegel, e também Kant, foram influências decisivas para Proudhon (Hall, 1970).

Mikhail Bakunin foi outro anarquista influenciado por Hegel (McLaughlin, 2002). 

Jon Stewart chamou atenção para a presença da filosofia do reconhecimento no pensamento de Bakunin.

Para aquele autor, a teoria bakuniniana da liberdade está ancorada na perspectiva hegeliana do reconhecimento. 

"I am not myself free or human until I recognize the freedom and humanity of all my fellowmen" (Bakunin apud Stewart, 2021, p. 243).

Já havia mencionado neste blog como a concepção de Bakunin da liberdade é social e não atomista.

Debatendo o liberalismo (Locke) e os contratualistas (Rousseau), ele concluiu que a condição para a liberdade do sujeito  é a liberdade de todos os sujeitos. 

Sendo a liberdade realizada por meio das igualdades política e econômica. 

Em Bakunin, o reconhecimento hegeliano e a igualdade proudhoniana são bases para elaborar sua teoria da liberdade. 

Pode-se concluir que o eco hegeliano da teoria do reconhecimento é audível nas elaborações de justiça e liberdade do anarquismo histórico de Proudhon e Bakunin. 

São bem-vindas pesquisas sobre a presença da teoria do reconhecimento nestes pensadores para melhor conhecer a herança hegeliana do anarquismo. 

Raphael Cruz


Referências

HALL, Constance Margaret. The Sociology of Pierre Joseph Proudhon (1809-1865). American University, 1970. 

MCLAUGHLIN, Paul. Mikhail Bakunin: The philosophical basis of his theory of anarchism. Algora Publishing, 2002.

PROUDHON, Pierre-Joseph. O que é a propriedade? Lisboa: Editorial Estampa, 1975. 

STEWART, Jon. Hegel’s Century: Alienation and Recognition in a Time of Revolution. Cambridge: Cambridge University Press, 2021. 

Proudhon e a ciência social



Proudhon (1809-1865)


Nesta postagem, trago a definição de Proudhon para ciência social.

Como o leitor poderá constatar, ela antecipa teses durkheimianas importantes como a racionalidade, a sistematicidade e a factualidade a ser alcançada no estudo da sociedade.

Outro ponto de similaridade é a importância dada ao trabalho como objeto de investigação para entender a sociedade, recurso utilizado por Durkheim 47 anos depois, em seu livro A divisão social do trabalho (1893).

A DESCOBERTA DA CIÊNCIA SOCIAL

O ano é 1839, e Proudhon já percebia a necessidade de uma ciência da sociedade.

Em A celebração do domingo (1839), o autor escreve:

"Mas o homem nasce para a sociedade: portanto, ainda é necessário estudar as relações dos homens entre si, a fim de determinar seus direitos e estabelecer regras para eles. Que complicação!"

Proudhon compreende, muito cedo, que o indivíduo e a sociedade são indissociáveis ("o homem nasce para a sociedade"). Seu ponto de vista faz pensar o quanto são parciais as teorias que, ainda hoje, centram-se apenas em um dos aspectos, ou o indivíduo ou a sociedade, dessa ontologia dialética que produz o social.

Outro ponto importante e recorrente em sua ciência social, é o aspecto normativo. Proudhon encarou que essa ciência teria uma contribuição política. Ao estudar "as relações dos homens entre si", ela contribuiria para determinar direitos e estabelecer regras sociais.

Partindo do estado em que se encontrava a matemática, a física e a filologia em sua época, Proudhon se questiona se deve existir uma ciência da sociedade.

"Há uma ciência das quantidades que força o assentimento, exclui o arbítrio, rejeita toda utopia; uma ciência dos fenômenos físicos, que se baseia apenas na observação dos fatos; uma gramática e uma poética baseadas na essência da linguagem, etc. Deve existir também uma ciência da sociedade, absoluta, rigorosa, baseada na natureza do homem e em suas faculdades, e em suas relações; ciência que não deve ser inventada, mas descoberta".

Nessa segunda citação, ele esmiúça um pouca mais sobre os alvos dessa ciência da sociedade: a) as faculdades humanas e b) as relações entre os homens. 

Nota-se que as "faculdades", as quais se refere o autor, podem designar aquilo que ele viria a nomear, mais adiante em Da justiça na revolução e na igreja (1858), de "consciência coletiva", isto é, aos aspectos simbólicos da vida social, que também seriam tratados por Durkheim e a Escola Sociológica Francesa utilizando a mesma nomenclatura. Por sua vez, as "relações" podem estar antecipando a sua noção de "força coletiva", que seria trabalhada em sua obra seguinte, O que é a propriedade (1840).   

Chama atenção, na citação acima, que para o autor essa ciência "não deve ser inventada, mas descoberta". Ele estaria se referindo a existência de um objeto, as "relações sociais", que já existiria anteriormente a própria instituição de uma ciência adequada ao seu estudo?

DEFINIÇÃO DE CIÊNCIA SOCIAL

Em 1846, foi publicado na França, Sistema das contradições econômicas ou Filosofia da miséria, de Pierre-Joseph Proudhon. Nesse livro, ele define a ciência social.

"Trata-se, portanto, e antes de mais nada, de reconhecer o que pode ser uma ciência da sociedade.

A ciência, em geral, é o conhecimento racional e sistemático daquilo que é.

Aplicando esta noção fundamental à sociedade, diremos: a ciência social é o conhecimento racional e sistemático não do que foi a sociedade, nem do que ela será, mas sim do que ela é em toda a sua vida, isto é, no conjunto de suas manifestações sucessivas, pois é somente ai que pode existir razão e sistema. A ciência social deve abraçar a ordem humanitária e não apenas em tal ou qual período de sua duração, nem em alguns de seus elementos, mas sim em todos os seus princípios e na integridade de sua existência, como se a evolução social, espalhada no tempo e no espaço, se encontrasse subitamente reunida e fixada em um quadro que, mostrando a série das idades e a sequência dos fenômenos, descobrisse o seu encadeamento e unidade. Tal deve ser a ciência de toda a realidade viva e progressiva, tal é incontestavelmente a ciência social" (Proudhon, 2003, p. 96). 

Proudhon inicia sua definição de ciência social pela explicação do que é a própria ciência em sentido lato

A ciência comporta características epistemológicas (racionalidade), metodológicas (sistematicidade) e ontológicas (factualidade). 

Esses três caracteres são aplicadas ao conhecimento da sociedade (objeto). 

Assim, a sociedade ou a "ordem humanitária" - Durkheim (2001), posteriormente, nomearia de "reino social" - é passível de ser compreendida de maneira científica. Isto é, racional, sistemática e factualmente como fenômeno humano. 

Isso parece simplista para os ouvidos de um estudante de sociologia do século XXI.

Entretanto, quando Proudhon escrevia aquele livro, era necessária à perspectiva científica estabelecer distinção com a metafísica. Lembremos que, naquele período, na França, Comte utilizava o termo "positivismo" em oposição a "metafísica", no intuito de estabelecer uma separação entre o real, que pode ser observado, e o quimérico, que só pode ser imaginado (Russ, 1994). Esse esforço de separação entre o real e o metafísico, é o mesmo de Proudhon.

Elevar a "ordem humanitária" a objeto de ciência foi, assim, um desses atos inauguradores de uma ciência da sociedade, tanto quanto a invenção da palavra sociologia por Auguste Comte na década de 1830, e a publicação em 1838 de Como observar morais e costumes, de Harriet Martineau, que inventou o trabalho de campo sociológico.

ECONOMIA POLÍTICA COMO A CIÊNCIA SOCIAL

Proudhon (2003) concebia a economia política como a verdadeira ciência social. 

"Quanto a mim, não é desta forma que concebo a ciência econômica, a verdadeira ciência social. Ao invés de responder pelos a priori aos temíveis problemas de organização do trabalho e de distribuição das riquezas, eu interrogarei a economia política como a depositária dos pensamentos secretos da humanidade; farei os fatos falarem segundo a ordem de sua geração, e relatarei, sem nada acrescentar de meu, o seu testemunho" (Proudhon, 2003, p. 176). 

Pode-se extrair três afirmações desse parágrafo de Sistema das contradições econômicas:

1) A economia política é a ciência social.

2) Ela trata de "problemas" como a "organização do trabalho" e a "distribuição das riquezas".

3) Em seu método de investigação, parte do factual, isto é, centrado na dimensão empírica do fenômeno, no que ele "é", e não no que "deveria ser", isto é, em uma dimensão normativa. Durkheim (1994) inventou as noções de juízo de fato e juízo de valor para dar conta dessa diferença que nota-se em Proudhon.

Refletindo a partir desses extratos de Sistema das contradições, contidos na postagem acima, pode-se concluir que para o Proudhon de 1846, a) o estudo racional, sistemático e factual da b) organização do trabalho e da distribuição de riquezas, fenômenos de ordem humanitária, c) configuram a economia política como ciência social. 

Raphael Cruz


Referências

DURKHEIM, Émile. Da divisão do trabalho social. São Paulo: Martins fontes, 1977.

DURKHEIM, Émile. As regras do método sociológico. São Paulo: Martin Claret, 2001.

DURKHEUM, Émile. Filosofia e sociologia. São Paulo: Ícone, 1994.

MARTINEAU, Harriet. Como observar: morais e costumes. Governador Valadares: Editora Fernanda H. C. Alcântara, 2021.

PROUDHON, Pierre-Joseph. O que é a propriedade. Lisboa: Editorial Estampa, 1975

PROUDHON, Pierre-Joseph. Sistema das contradições econômicas, ou, Filosofia da miséria, tomo 1. Tradução de J. C. Morel (Coleção fundamentos de filosofia). São Paulo: Ícone, 2003.

PROUDHON, Pierre-Joseph. The celebration of sunday [1839]. Tradução Shawn P. Wilbur. Disponível em: https://theanarchistlibrary.org/library/pierre-joseph-proudhon-the-celebration-of-sunday. Acesso em 9 mai. 2023.

RUSS, Jacqueline. Dicionário de filosofia. São Paulo: Scipione, 1994.

Observação: texto revisado em 9 de maio de 2023.

Freud e o estudo de caso na psicanálise e na sociologia


Sigmundo Freud (1856-1939)


Minha relação com o triunvirato Marx, Durkheim e Weber é profissional devido a minha formação como sociólogo.

Já com Freud, minha relação é baseada na curiosidade, por não ser psicanalista, mas leitor iniciante em obras de psicanálise. 

Foi nessa condição, que estava lendo O homem dos lobos: história de uma neurose infantil, um estudo de caso redigido por Freud no final de 1914, mas publicado em 1918. 

O subtítulo do livro já indica do que trata, uma neurose infantil, contudo, não são os meandros da vida psíquica do paciente de Freud o que tratarei neste texto. 

Vou eximir-se disso por falta de conhecimento e, porque me interessa como o próprio Sigmund utilizava o estudo de caso.

Pois, o estudo de caso é um método de pesquisa comum a sociologia e a psicanálise.   

No início do primeiro parágrafo do livro, Freud afirma:

"O caso de doença que relatarei aqui (...) distingui-se por um bom número de particularidades que devem ser destacadas antes da exposição" (Freud, 2016, p. 7).

Na nota de rodapé referente a esta primeira frase, Freud refere-se a este "caso de doença" como uma "história clínica". 

Será apenas ao final do livro, que o autor tratará novamente do "caso" em termos metodológicos.

"É natural que um caso como este possa dar motivo para pôr em discussão todos os problemas e resultados da psicanálise. Seria um trabalho interminável e não justificado. É preciso admitir que não se pode saber tudo a partir de um único caso, tudo decidir através dele, e contentar-se, portanto, em aproveitá-lo naquilo que mostra mais nitidamente" (Freud, 2016, p. 107). 

Há pelo menos, três pontos a destacar nesse trecho.

1) Reconhece o autor que um caso pode dar condições para discutir toda a psicanálise, contudo seria uma tarefa ingrata.

2) Para ele, um estudo de caso tem limites: não é possível saber tudo sobre um fenômeno a partir dele.

3) O correto, a se fazer, diz Freud, é aproveitar o caso naquilo que ele mostra mais nitidamente.

Continuo com o autor:

"Na psicanálise, a tarefa da explicação tem limites estreitos. Cabe explicar as formações sintomáticas notáveis, desvendando a sua gênese; os mecanismos psíquicos e processos instituais a que assim chegamos, esses não cabe explicar, mas sim descrever. Para obter novas generalizações a partir das constatações sobre os dois últimos pontos são necessários muitos casos como este, analisados bem profundamente. Não é fácil tê-los, cada qual exige anos de trabalho. De modo que o progresso nesses domínios se efetua lentamente" (FREUD, 2016, p. 107). 

Cinco pontos podem ser extraídos dessa passagem.

1) Para Freud, a explicação é dirigida as "formações sintomáticas notáveis" para "desvendar sua gênese". (função)

2) Contudo, os "mecanismos psíquicos" e "processos instituais" não são explicados, mas descritos. (metodologia)

3) Para se obter generalizações sobre os mecanismos e processos citados, serão necessários "muitos casos". (quantidade)

4) Estes casos devem ser "analisados bem profundamente". (qualidade)

5) Para se obter esses casos analisados profundamente, é necessário vários anos. (temporalidade)

Pode-se concluir que para Freud, existe um uso determinado do estudo de caso.

Um caso, deve ser estudado profundamente.

E isso demanda tempo.

O caso explica formações sintomáticas notáveis.

E descreve os mecanismos psíquicos e os processos instituais.

Entretanto, para generalizar as constatações presentes no caso sobre os processos e mecanismos, são necessários muitos estudos de caso. 

Nesse sentido, com um único estudo é possível atingir certos objetivos de explicação de sintomas (empiria), mas não de explicação de processos e mecanismos (teoria), apenas suas descrições.

De modo que a explicação da teoria dos mecanismos e processos depende do estudo profundo de casos empíricos acumulados e comparados.

Quando um sociólogo estuda conflitos numa escola, comunidade ou empresa, seu caso descreverá um universo empírico particular. 

Como disse Freud na segunda citação, a maneira de "aproveitar" um caso é naquilo que ele torna mais evidente. 

É possível que determinadas questões se destaquem mais na escola, por exemplo, questões de gênero entre meninos e meninas.

E numa empresa, tenha relevância a hierarquia entre funcionários a partir da divisão e renda do trabalho.

Contudo, para se teorizar sobre gênero e hierarquia é necessário mais de um caso estudado, uma acumulação e comparação entre eles. 

Aqui, o estudo de caso em escola ou empresa na sociologia está para as teorias de gênero ou hierarquia assim como o caso empírico de "o homem dos lobos" produzido por Freud está para a teoria da neurose.

Nesse sentido, o estudo de caso oferece uma maneira de retroalimentar a teoria e a empiria.

Penso que a lógica do uso freudiano do estudo de caso, não difere substancialmente do seu uso em sociologia, no que concerne a relação aludida acima entre aspectos empíricos e teóricos da pesquisa sociológica, apesar dos objetos, conceitos e teorias diferentes mobilizados para a produção de conhecimento na sociologia e na psicanálise.

Raphael Cruz


Referência

FREUD, Sigmund. O homem dos lobos: história de uma neurose infantil. Tradução de Paulo César de Souza. 1ª edição. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2016. 

Mary Douglas e a outra origem do estruturalismo


Mary Douglas (1921-2007)


Qualquer estudante de ciências sociais esbarrou com a palavra estruturalismo durante sua formação acadêmica.

É muito provável que esse estudante lembre-se que a palavra estava associada há pelo menos duas outras: linguística e antropologia. 

A narrativa mais recorrente nos anos de formação é a seguinte: 

A antropologia estrutural foi inaugurada por Lévi-Strauss ao "aplicar" a abordagem de Saussure ao estudo dos mitos e do parentesco.

Que abordagem seria essa?

A de que a língua é um sistema em que um elemento se define pela relação com os demais.

Nesse sentido, a letra se define em relação a outras letras e, assim, formam uma palavra. A palavra se define em relação a outras palavras, formando uma frase. A frase se define em relação a outras frases, dando forma a um texto.

A ideia principal é a de sistema. Este é formado por elementos que se relacionam entre si. Eles formam um "todo" 

O ganho epistemológico disso é que nenhum objeto pode ser devidamente entendido por si, mas em relação a outros objetos. 

A antropóloga Mary Douglas entende que a aplicação dessa abordagem à sociedade não foi inaugurado pelo etnólogo americanista Lévi-Strauss, mas pelo antropólogo africanista Evans-Pritchard.

Douglas ainda afirma que a origem do estruturalismo não estaria na linguística, mas na psicologia da gestalt. 

Lendo os agradecimentos que ela escreveu em seu livro Pureza e Perigo (1966), encontrei sua própria narrativa da origem e invenção da antropologia estrutural. 

Assim escreveu a autora:

"A abordagem estrutural tem sido amplamente disseminada desde as primeiras décadas deste século, particularmente através da influência da psicologia da Gestalt. Somente teve um impacto direto em mim através do professor Evans-Pritchard em sua análise do sistema político dos Nuers (1940)" (Douglas, [1966], 2014, p. 8).

Mais adiante, ela continua:

"(...) Evans Pritchard viu que ele poderia fazer uma análise política de um sistema que não tivesse órgãos centrais de governo, e onde o peso da autoridade e as tensões do funcionamento político estivessem dispersas por toda estrutura do corpo político (Ibid.)".

E finaliza:

"Assim, a análise estrutural estava no ar da Antropologia antes de Lévi-Strauss ser estimulado pela Linguística Estrutural a aplicá-la ao parentesco e mitologia" (Ibid).

É interessante ouvir outro ponto de vista sobre uma narrativa tão comum nas ciências sociais como a da origem da abordagem estrutural. 

No entanto, Douglas (1966) não desenvolve seu argumento sobre a origem gestaltiana do estruturalismo, algo que eu gostaria de ter lido. 

Outro ponto é que a autora não está equivocada ao associar estrutura e sistema, contudo ao reduzir a primeira ao segundo, talvez, a origem desse "sistemismo" não estivesse em Pritchard nem Lévi-Strauss, mas no velho Durkheim. 

Raphael Cruz


Referência

DOUGLAS, Mary. Pureza e perigo [1966]. São Paulo: Perspectiva, 2014.

Constance Hall e a sociologia de Proudhon

Constance Hall


Estou lendo a tese de doutorado de Constance Hall (1970), The sociology of Proudhon, e estou compreendendo melhor os aspectos do pensamento do autor, principalmente seu conceito de justiça, complexo e com mais de um significado. 

Um dos objetivos da autora foi traduzir o pensamento de Proudhon para a teoria sociológica contemporânea, que à época, os anos 1960, eram o estrutural-funcionalismo parsoniano e as teorias do conflito de origem marxista ou weberiana. 

Nessa tese, ela demonstra que Proudhon não é apenas um dos fundadores da sociologia, mais importante do que Comte, como seu pensamento antecedeu as teorias contemporâneas e oferece insights para problematizar temas como a sociedade, a relação dela com o indivíduo, a mudança social, poder e o conflito, a estratificação social e a sociologia da religião. 

Apesar desse interessante diálogo entre Proudhon e a sociologia do pós-guerra, Hall permanece menos conhecida que outros comentadores de Proudhon, como Georges Gurvitch e Pierre Ansart.

Raphael Cruz


Referência

HALL, Constance Margaret. The Sociology of Pierre Joseph Proudhon (1809-1865). American University, 1970.

O bom diabo na literatura de cordel

 

Cordel clássico de Leandro de Barros

Em O bom diabo na literarura de cordel (2019), Renata Siuda-Ambroziak chama atenção para a representação do diabo pelos poetas populares do Nordeste brasileiro.

Em suas 18 páginas, a autora se apoia em fragmentos de 9 cordéis para identificar o que nomeou de o "bom diabo". 

É curioso notar como nesta região marcada pelo catolicismo oficial e popular, o diabo aparece nos cordéis como amigo dos homens e companheiro em tempos de desgraça.

Como exemplo, a autora cita o folheto A peleja de Manoel Riachão com o diabo, de Leandro Gomes de Barros. O diabo é descrito num primeiro momento como grotesco para logo depois ser caracterizado como bom.

No folheto, O homem que falou com o diabo em Juazeiro, de João de Cristo Rei, o diabo se autorrepresenta como poderoso e maldoso, mas o poeta o descreve como misericordioso e humanitário.

Entretanto, o artigo de Siuda-Ambroziak carece de uma periodização histórica dessa imagem do "bom diabo". 

O leitor é levado a acreditar que essa é uma característica estrutural do simbolismo cordelista. 

Contudo, fiquei na dúvida se ela não teria variado no tempo e entre os estados de origem dos escritores.

A autora conclui que a figura do diabo na literatura de cordel não obedece à caracterização unilateral de personificação do mal como na tradição judaico-cristã.

Ela argumenta, que isso se deve a outras influências culturais que formaram o catolicismo popular nordestino.

Contudo, a mais importante conclusão é o valor educativo das narrativas populares sobre o diabo.

Segundo a autora, existe uma "pedagogia do temor" nesses cordéis.

O objetivo das histórias sobre o diabo não é tanto o benefício de um pacto satânico, mas convencer o descrente a aceitar a fé cristã e o motivar a voltar à Igreja. 

Assim, mesmo com essa imagem do "bom diabo", a literatura de cordel contribui para a socialização de valores e crenças cristãs. 

O companheirismo satânico não é apologia de Lúcifer, mas convite ao rebanho do Senhor. 

Raphael Cruz


Referência

SIUDA-AMBROZIAK, Renata. O bom diabo na literarura de cordel. Fênix-Revista de História e Estudos Culturais, v. 16, n. 1, p. 1-18, 2019.

Lovecraft: sociólogo acidental numa cidade surreal

H.P Lovecraft (1890-1937)


É comum que escritores de ficção abordem temas sociológicos tais como poder, riqueza, classe, raça, gênero e geração. 

Também não é raro que arrisquem interpretações "sociológicas", ainda que não possuam treinamento profissional. 

Chamo isso de sociologia espontânea ou sociologia na literatura. 

A acadêmica sociologia da literatura refere-se ao estudo sociológico de uma obra. Busca explicar as condições sociais da produção literária ou compreender seu significado cultural. O sociólogo é o seu operador. É um exercício de análise científica.

Já a sociologia na literatura é uma análise "sociológica" por meio de uma peça literária. São obras ficcionais que inventam teorias espontâneas para explicar as relações sociais em seus mundos inventados. O escritor é o seu operador. É um exercício de imaginação literária.


Ilustração de Frank Utpatel para a 1° edição de Sombra sobre Innsmouth


Sombra sobre Innsmouth é um conto de H.P Lovecraft publicado em 1936.

Trata-se do relato de um jovem que, durante viagem pela Nova Inglaterra, pernoita em Innsmouth, povoado portuário, decadente e misterioso, que nem sequer consta no mapa. 

A narrativa em primeira pessoa sobre o lugar e seus habitantes assemelha-se a retórica da etnografia urbana.

A descrição da geografia, arquitetura, história e demografia de Innsmouth aparenta os antigos estudos de comunidade da primeira metade do século XX, tão comuns na sociologia. 

Abaixo, alguns trechos que exemplificam a sociologia na literatura de Lovecraft:

"Não valeria à pena, disse-me o meu informante, perguntar aos nativos alguma coisa sobre o lugar. O único que falaria era um homem muito idoso, mas de aparência normal, que vivia no asilo na periferia norte da cidade e matava o tempo andando de um lado para outro e fazendo hora no Corpo de Bombeiros" (Lovecraft, [1936] 2020, p. 29). 

"A cidade, como eu podia perceber, era um exemplo significativo e exagerado de decadência comunal, mas, não sendo nenhum sociólogo, eu limitaria minhas observações sérias ao campo da arquitetura" (Idem, p. 32). 

"No último momento, decidi que o melhor a fazer era desacelerar o passo e fazer o cruzamento como antes, com o modo de andar cambaleante de um nativo médio de Innsmouth" (Idem, p. 79-80).

Na primeira citação, o personagem lida com um problema corriqueiro de antropólogos e sociólogos, encontrar seus interlocutores de pesquisa, pessoas que possam lhe informar sobre a vida no lugar.

Na citação seguinte, o personagem de Lovecraft inventa o conceito "sociológico" de decadência comunal. O próprio autor deve ter percebido como sua prosa estava sociológica ao ponto de tentar restringir a observação à arquitetura. 

Na último citação selecionada, o personagem tenta passar desapercebido pelas pessoas ao imitar o que acredita ser o andar do nativo médio de Innsmouth. Não ser notado é uma tática de "camuflagem" que alguns cientistas sociais almejam, ainda que de difícil alcance e nem sempre o melhor a se fazer.

A narrativa revela um jovem impressionado com um lugar fantástico e seus habitantes fantasmagóricos, que se tornou por acidente um sociólogo espontâneo, pois estendeu para além da arquitetura as suas observações sobre aquela sociedade.

Além da perspectiva preconceituosa de Lovecraft sobre migração e raça, conhecida por seus leitores críticos, o conto é um exercício de etnografia surrealista e sociologia espontânea.

Se o literato torna-se sociólogo por acidente, alguns sociólogos almejam a arte. 

No livro Cruz das Almas (1966), um estudo de comunidade, Donald Pierson convencera-se  de que os sociólogos poderiam combinar os papéis do artista e do cientista. Caberia ao leitor, continua Pierson,  julgar se o cientista alcançou ou não o objetivo. 

Em A sociologia como forma de arte (1976), Robert Nisbet comparou os trabalhos de Simmel, Durkheim e Weber aos de Balzac e Dickens. Disse que as primeiras, devido à sensibilidade artística e intuição daqueles sociólogos, pertencem à história da arte tanto quanto a literatura dos escritores pertence à história das ciências sociais. 

Bourdiei em As regras da arte (2002), afirmou que a literatura pode por vezes dizer mais, mesmo sobre o mundo social, que muitos escritos com pretensão científica. 

Em Bourdieu e a litetatura (2017), John Speller observa que a sociologia e a literatura, apesar de diferentes e até opostas, têm muito a aprender uma com a outra. 

A ideia de uma sociologia na literatura não é tão absurda. Se levada à sério, pode encorajar a descoberta de um interessante material sobre a burocracia em O processo (1925), de Fraz Kafka ou um exercício de sociologia política do Estado em 1984 (1949), de George Orwell. 

Para Nisbet (1976), a sociologia é uma ciência, mas também uma arte nutrida pelo mesmo tipo de imaginação encontrada na literatura ou pintura. 

Ao estudar as expressões da sociologia na literatura pode-se enriquecer o ponto de vista sociológico a partir de novos ângulos sobre temas tradicionais das ciências sociais.


Raphael Cruz

As camponesas de Van Gogh, Dupré e Arkhipov

O camponês é representado na pintura europeia como taciturno e laborioso. 

Penso em duas pinturas de Van Gogh.

Nelas, a camponesa aparece curvada. O trabalho dobra-lhe a cervical. 

Van Gogh, Peasant woman digging, 1895

O rosto é indiferente. O olhar desvia do observador. 

Van Gogh, Head of a peasant woman, 1884

Contudo, existem outras representações, como a do francês Julien Dupré e a do russo Abram Arkhipov

Em suas pinturas, a cervical está esticada durante o trabalho. 

Julien Dupré

O labor feminino é forte. A camponesa doma o animal.

Julien Dupré, Au Pâturage, 1882

E o rosto sorri.

Abram Arkhipov, Smilling girl, 1920's

E sorri novamente.

Abram Arkhipov, A peasant women with yellow scarf and red shawl, 1922

A diferença entre Van Gogh e os outros dois pintores está para além das paletas do pós-impressionismo e do realismo. São percepções opostas da camponesa.

Mesmo com a árdua lida no campo, a vida delas não precisa estar reduzida a representação taciturna e sofrida.

Van Gogh, Dupré e Arkhipov contribuíram para complexificar a representação e a nossa percepção dessas mulheres.



Um objeto para chamar de seu

 


Estava relendo As regas do método sociológico (1895), de Durkheim.

É patente o esforço do autor para legitimar a ciência das instituições, a sociologia, por meio da crítica à diferentes áreas do conhecimento.

A história é tida por Durkheim como particularista, por se deter na descrição de sociedades específicas, não conseguindo produzir uma teoria da sociedade, mas, apenas colecionar casos.

A filosofia (da história) é generalista, por se limitar a busca de uma abstrata natureza humana, da qual faz derivar a existência da sociedade.

A psicologia é subjetivista, produzindo a sociedade a partir do indivíduo, ou, pior ainda, na perspectiva durkheimiana, da consciência individual.

Durkheim e sua escola (Mauss, Bouglé) buscaram provar serem falhas as explicações da sociedade por meio da metafísica da natureza humana ou da subjetividade individual. 

Eles estabeleceram uma regra fundamental da sociologia: um fato social deve ser explicado por outro fato social e não pela química, biologia ou psicologia.

Identifiquei três características do projeto durkheimiano de elaboração da ciência das instituições: 

a) definição de um objeto (fato social); 

b) definição de um método (comparação); 

c) definição de uma explicação (sociológica)

A possibilidade de uma ciência da sociedade dependeria da exclusividade do método, do objeto e da explicação.

Estes não se confundiriam com os de outros saberes, particularmente a história e a psicologia.

Em outras palavras, a sociologia deveria ter o que chamar de seu. E, a partir de 1895, com a publicação de As regras do método, isso passou a acontecer.


Raphael Cruz

Bakunin e a política etnográfica

Nikolai Yaroshenk. O estudante, 1881


Em 1922, Malinowsk publicou sua etnografia sobre os trobriandeses. Nos anos 1940, a Escola de Manchester em antropologia, capitaneada por Max Gluckman, etnografou a política entre povos africanos. 

Em Malinowski, a etnografia ganhou sua face contemporânea. Por meio dos africanistas de Manchester emergiu uma etnografia política.

Sugiro que num escrito de Mikhail Bakunin está implícita uma política etnográfica ao invés de uma etnografia política. O referido texto trata da aplicação de um método para-etnográfico para a compressão do campesinato russo, visando a agitação, propaganda e organização de massas com fins políticos revolucionários.

No texto Aonde ir e o que fazer? (1873), Bakunin instigou a juventude russa a ir ao povo para conhecê-lo e organizar junto à ele uma revolução social. Constituiu-se num apelo para a juventude universitária russa trair politicamente sua origem de classe aristocrática e se misturar ao campesinato. 


Nikolai Yaroshenko. A estudante, 1883


No verão de 1874, ocorreu uma massiva ida de jovens às comunidades rurais. Esta foi a primeira aproximação em massa de estudantes socialistas com o campesinato russo. 

Esse evento entrou para a historiografia com o nome de movimento "ir ao povo". Expressou uma evolução importante em relação à juventude russa da década passada. Pois, os niilistas dos anos 1860 canalizavam a rebeldia para discussões metafísicas e para o fatalismo. 


Vasily Vereshchagin, Retrato de um camponês, s/d


No referido texto, Bakunin indicava os meios para conhecer o campesinato russo in situ. O método é incrivelmente semelhante à etnografia, contudo, o objetivo é político.

"Os detalhes que se repetem cotidianamente são bem amiúde mais importantes e mais dignos de observação do que fatos proeminentes dos quais, evidentemente, nenhum escapará à vossa atenção. Estudando minuciosamente a vida material das pessoas simples que vos cercam, buscai penetrar o fundo de sua alma, seus hábitos coletivos no plano mental e moral, suas diversas relações na família e na sociedade bem como a razão secreta de sua atitude em relação aos outros corpos sociais e as autoridades. O que pensam eles de seus direitos e de suas humilhações que, evidentemente, não faltam em nenhum lugar na Rússia? O que querem, a que aspiram e esperam algo? E de quem?".

Algumas considerações extraídas do parágrafo:

1) observar o cotidiano camponês

2) sem desprezar os "fatos proeminentes"

3) iniciar pela "vida material"

4) em seguida, a vida cultural

5) e o comportamento político 

Anos depois, militantes do amplo espectro socialista russo abandonaram a condição social de classe média ou aristocrata. Eles se tornaram operários de fábrica na intenção de agitar e organizar trabalhadores urbanos. No Brasil dos anos 1960, esse método foi chamado proletarização. 

Raphael Cruz

Observação: esta postagem foi modificada em 8 de julho de 2023.

Teoria da estruturação de Anthony Giddens

Anthony Giddens


Hoje ministrei aula remota sobre a teoria da estruturação de Anthony Giddens para a turma do Cursinho Todes Sociologia.

Foi duas horas prazerosas de explicação e diálogo com as alunas do curso.

Compartilhamos a percepção de Giddens como autor de escrita e pensamento densos.

As alunas comentaram que essa densidade deriva da interdisciplinaridade acionada pelo autor para a elaboração de sua reflexão.

Contudo, também concordamos que o próprio autor costuma "fichar" seus escritos, quando indica as questões fundamentais e as categorias centrais de sua teoria, além das tabelas e quadros que acompanham seu texto.

Concentrei a aula na introdução e no primeiro capítulo do livro de 1984, A constituição da sociedade.

Iniciei comentando brevemente a biografia do autor antes de adentrar aos aspectos centrais de sua obra e de sua teoria.

Utilizei de organogramas e exemplos do cotidiano para ilustrar os argumentos de Giddens sobre a dualidade da estrutura e a relação entre os atores e os sistemas, mediada pelas práticas sociais.

As alunas levantaram questões interessantes sobre como a discussão em torno da relação entre ação social e estrutura social remetiam ao debate filosófico ocidental em torno das querelas entre racionalismo e empirismo.

O esforço de síntese de Giddens em superar os dualismos (ação social e estrutura social; macro e micro; objetividade e subjetividade) fez Eliana, organizadora do cursinho, lembrar de quando Kant buscou ir além da oposição racionalismo e empirismo.

Durante o debate sobre esse ponto específico, comentei haver lido nesta manhã o texto do professor Haguette, Racionalismo e empirismo na sociologia (Revista de Ciências Sociais, Fortaleza, v. 44, n. 1, jan/jun, 2013, p. 194 - 218) especificamente lembrei dessa (falsa) oposição e como os sociólogos ditos clássicos a contornaram em seus esquemas teóricos.

As alunas elogiaram minha didática. 

É importante para mim o reconhecimento delas de meu esforço em ensinar sociologia ao nível de pós-graduação.

O Cursinho Tode Sociologia atende estudantes negras e negros, trans e não-binárias que almejam vagas no mestrado ou doutorado de Programas de Pós-Graduação em Sociologia. 

Por sua missão de incluir corpos racializados e genderizados na pós-graduação, senti-me honrado por contribuir com o Todes. 


Raphael Cruz

Etnografando caminhadas




Escrevi um capítulo para este livro sobre antropologia das  mobilidades, organizado por Candice Vidal e André Guedes.

A obra foi lançada por meio do selo editorial da Associação Brasileira de Antropologia.

O texto é baseado nos dados de minha pesquisa junto aos extrativistas artesanais do litoral piauiense entre os anos de 2015 e 2019.

O capítulo por mim escrito foi intitulado de Andar e viver tranquilo: movimento e estabilidade no litoral piauiense

Argumento que a mobilidade dos extrativistas por Ilha Grande é parte constitutiva de sua territorialidade. 

Descrevo como meus interlocutores de pesquisa valorizam o ato de andar pela ilha em busca de peixe, marisco, caranguejo, camarão, caju, murici e puça.

Mostro como andar é uma forma de estabilizar suas vidas, pensadas enquanto indissociáveis dos movimentos implicados no extrativismo. 

Argumento sobre a existência de uma "tranquilidade movimentante" enquanto estado de espírito. 

Neste capítulo, busquei amadurecer uma ideia que surgiu durante a escrita da tese de doutorado.

Basicamente, tentei dar visibilidade ao cercamento de terras como uma espécie de cercamento de pessoas.

Um esforço de antropologizar as discussões da economia política agrária em torno do land grabbing.

Nos últimos parágrafos deste capítulo, comentei sobre minha experiência de trabalho de campo entre os extrativistas como um trabalho de corpo.

No momento, encontro-me escrevendo outro capítulo sobre a referida experiência para um livro a ser publicado em 2022. 

Os textos estão associados, apesar de estarem em livros diferentes.

Possuem reflexões etnográficas sobre o movimento dos extrativistas na mata e sobre os meus próprios entre eles durante minha pesquisa de doutorado. 

Essas reflexões fizeram-me aproximar-se involuntariamente das discussões sobre mobilidade desde uma perspectiva antropológica.

E tem sido instigante escrever sobre isso. 


Raphael Cruz


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