W.I Thomas e a definição da situação
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| W. I. Thomas (1863-1947) |
"Se as pessoas tomam certas situações como reais, tais situações são reais em suas consequências".
Esse é o famoso "teorema de Thomas" proveniente de seu estudo The child in America: behavior problems and programs (1928).
O próprio Thomas explica seu teorema a partir de um exemplo.
Imagine um país imerso em uma guerra civil em que dois grupos lutam pelo poder.
Um dia a guerra termina, mas não é possível comunicá-la aos habitantes de uma determinada área.
Ali, os membros dos dois grupos continuariam a lutar, de acordo com sua "definição de realidade".
O teorema indica como a definição da realidade pode ser subjetivamente construída e a partir de aí influenciar objetivamente a própria realidade.
O teorema de Thomas preserva uma capacidade explicativa atualíssima.
As "fake news", por exemplo, que partem de uma falsa definição da realidade, afetam a sociedade quando orientam a conduta de quem acredita em suas afirmações.
Assim, uma notícia sobre como a cloroquina combate os efeitos da COVID-19 no organismo humano acarreta aumento da venda desse medicamento em farmácias.
Por mais que a cloroquina não tenha eficácia comprovada sobre o vírus, uma falsa definição da realidade acarretou um efeito real, o aumento nas vendas desse medicamento.
Raphael Cruz
Publicado originalmente em @caderno_de_sociologia (Instagram).
Philip K. Dick e o realismo crítico
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| Philip K. Dick (1928-1982) |
"A realidade é aquilo que, quando você para de acreditar, não desaparece."
Essa famosa frase de K. Dick rende boas problematizações em torno da relação entre epistemologia e ontologia.
Para o autor, a realidade, de alguma maneira, independe do que eu penso dela, a realidade "está lá fora".
Dick, assim como os teóricos do realismo crítico, critica a "falácia epistêmica", que atribui uma correspondência exata entre a subjetividade do ponto de vista do agente e a objetividade do mundo natural e social.
Raphael Cruz
Réquiem para David Graeber
A antropologia, o pensamento crítico e o ativismo anti-capitalista perderam um de seus autores mais criativos e prolíficos.
David Graeber (1961-2020) é descrito por sua esposa como um melhor amigo e por seus alunos como paciente, engraçado e acolhedor.
O antropólogo norte-americano nasceu em NY e doutorou-se pela Universidade de Chicago com tese sobre memória e violência na Madagáscar rural, cujo orientador foi Marshall Sahlins.
Lecionou em Yale, Goldsmith e atualmente se encontrava no Departamento de Antropologia da London School of Economics.
Graeber era ativo politicamente, tendo se engajado no sindicalismo revolucionário da Industrial Workers of the World, no movimento antiglobalização e foi uma das lideranças do Occupy, sendo o criador do lema "somos os 99%".
Autor de uma vasta obra, teve publicado no Brasil "Dívida: os primeiros 5000 anos", "Um projeto de democracia" e "Fragmentos de uma antropologia anarquista", além de ceder entrevista a jornais e a TV brasileira.
Graeber faleceu em Veneza, na Itália, aos 59 anos, e deixou um legado importante para a antropologia e o ativismo anti-capitalista.
Raphael Cruz
Publicado originalmente em @caderno_de_sociologia (Instagram)
Teorias da prática
No livro, Percursos na teoria das práticas sociais: Anthony Giddens e Pierre Bourdieu, Gabriel Peters examina os esquemas teóricos desses importantes sociólogos.
O objetivo do autor é compreender como cada um dos sociólogos atacou o problema clássico da relação indivíduo e sociedade.
A teoria da prática de Bourdieu e a teoria da estruturação de Giddens buscaram saídas em relação à lógica dicotômica da sociologia praticada no século XX, em torno das tensões entre subjetivismo/objetivismo, individualismo/holismo, determinismo/voluntarismo e micro/macrossociologia.
O livro é uma boa leitura para compreender o projeto teórico de dois importantes pensadores contemporâneos.
Miséria à americana
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| Barbara Ehrenreich (1941-) |
Uma jornalista com espírito de socióloga, Barbara Ehrenreich resolveu viver como uma "trabalhadora de baixa renda" e compartilhou sua experiência no livro Miséria à americana: vivendo de subempregos nos Estados Unidos.
Ela experimentou empregos como garçonete e faxineira, atendente em asilo e balconista na Wal Mart entre 1998 e 2000 nos EUA.
Ehrenreich queria compreender como alguém consegue viver com os salários pagos aos não especializados e como mulheres vivem com 6 ou 7 dólares por hora.
Com um texto que flui, mas sem as teorizações comuns nos escritos científicos, a autora apresenta, a partir de sua experiência, um quadro da vida da classe trabalhadora e dos pobres que vivem o avesso do sonho americano.
Ehrenreich é bastante sensível às clivagens de gênero e de etnia que atravessam sua experiência como uma mulher branca e de meia-idade de passagem por um mundo geralmente habitado por negras e latinas.
Conclui que os "pobres trabalhadores" são os "maiores filantropos de nossa sociedade. . Negligenciam os próprios filhos para que os filhos de outros sejam bem cuidados; vivem em habitações péssimas para que outros lares fiquem brilhantes e perfeitos; suportam privações para que a inflação seja baixa e o preço das ações, alto. Ser um pobre trabalhador é ser um doador anônimo."
Como disse uma de suas colegas de trabalho, Gail, "você dá e dá".
Seguindo esta afirmação, um sociólogo pode dizer que uma "reciprocidade negativa" ordena a relação salarial, em que o trabalhador dá ao patrão e a sociedade muito mais do que recebe na forma de salário e de reconhecimento social, que o capitalismo se apresenta para o proletariado antes de tudo como um sistema de sacrifício.
Atrasos da elite
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| Jessé Souza (1960-) |
Animado com a leitura de A elite do atraso, de Jessé Souza.
Neste livro, ele analisa, entre outros temas, as raízes teóricas do vira-latismo no Brasil.
Primeiro, ele mostra como as noções consagradas nas ciências sociais de "patrimonialismo" e "populismo" são uma derivação do racismo científico, não mais baseado na cor da pele, mas nos "estoques culturais".
Tais conceitos criaram uma imagem de brasileiro como congenitamente corrupto, personalista e, assim, incapaz de qualquer ação política pública, no sentido de ir além dos interesses da família e dos amigos. Como se em outros países a família e os amigos também não fossem importantes.
Mas o mais interessante é como ele demonstra o "efeito de realidade" dessas categorias teóricas na vida cotidiana do brasileiro.
Utilizada pela esquerda e pela direita, do PSDB e Rede Globo ao PT, tais categorias ocultam a corrupção no mercado ao centrarem-se apenas na corrupção no Estado.
Para Souza, uma pré-condição para o sucesso da Operação Lava Jato foi a disseminação dessas categorias como lentes de leitura do Brasil.
Assim, ele explica porque a Globo e a classe média fazem tanto barulho devido à corrupção no Estado, mas fecham os olhos para a corrupção no mercado financeiro, que rouba 500 vezes mais do povo do que o que a Lava Jato descobriu entre os políticos.
Fundamental também na interpretação de Souza sobre o Brasil é que o que explica o país não é uma suposta herança portuguesa (patrimonialismo, personalismo), mas a escravidão.
A escravidão de ontem é o que explica o ódio das elites e classes médias ao pobre de hoje.
Raphael Cruz
Pulicado originalmente em @caderno_de_sociologia (Intagram)
B. Traven: self em fluxo clandestino
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| B. Traven (~1882-1969) |
É intelectualmente estimulador construir os textos para a disciplina de Estágio III ministrada pela professora Glória.
Acredito que vivi poucos ou nenhum momento durante a pós-graduação no qual pude comentar sobre um autor de minha preferência e ainda por cima não sendo um autor das ciências sociais.
Escolher uma “obra de arte” e falar sobre ela é, em certa medida, também falar sobre nós mesmos.
Os gostos podem indicar algumas orientações filosóficas, estéticas e ideológicas, no sentido forte dessa última palavra.
Quando o colega Ítalo falou que este seria o mote da primeira aula do mês de maio, pensei no que poderia contribuir para aquele momento.
Algumas alternativas surgiram: eu falaria sobre o Livro Um da Saga do Monstro do Pântano escrita pelo Alan Moore nos anos 80 para a DC Comics, ainda que as histórias em quadrinho não sejam consideradas um tipo de expressão qualificada como arte por algumas pessoas e instituições.
Eu poderia também falar sobre Warriors, um livro de ficção sobre gangues escrito por um assistente social americano que tornou-se escritor de ficção científica, ou do filme baseado em seu livro, Warriors: Os selvagens da noite, ainda que filmes de ação também tenham alguma dificuldade de serem classificados como arte.
No entanto, escolhi falar sobre B. Traven porque venho lendo seus livros nos últimos anos e tentando entender suas histórias e sua biografia.
Disseram que B. Traven era na verdade Erich Mühsam, um judeu-alemão anarquista, poeta e ator, um dos agitadores da Revolução Alemã que fundou a República Soviética da Baviera entre 1918 e 1919.
Contudo, Muhsam foi assassinado pelos nazistas em decorrência de sua origem étnica e orientação política num campo de concentração em 1934, quando tinha 56 anos de idade.
Disseram que B. Traven era Esperanza, escritora comunista e lésbica, a irmão já falecida do presidente mexicano Adolfo Lopez Mateos, ou até mesmo o próprio presidente.
Contudo Adolfo desconfirmou o boato numa conferência de imprensa em 1960, durante uma visita oficial à Buenos Aires, afirmando que quando Traven publicou sua primeira novela sua irmã tinha cinco anos de idade e ele era um ano mais novo do que ela.
Disseram que ele seria um pseudônimo do escritor norte-americano Jack London.
B. Traven seria também Arthur Cravan um suíço, sobrinho de Oscar Wilde e conhecido como boxeador, poeta e ator, percebido como um ancestral pelos artistas dadaístas e surrealistas. Cravan foi visto pela última vez na Costa do México em novembro de 1918.
Disseram que Traven seria o crítico satírico e jornalista Ambrose Bierce, nascido em Ohio, no meio-oeste dos EUA, que desapareceu sem deixar rastros durante uma viagem ao México, sendo a teoria mais popular a que diz que foi fuzilado pelos revolucionários do exército de Pancho Villa em dezembro de 1913.
O certo é que B Traven foi um escritor. Seus 17 livros, entre novelas e contos, publicados entre 1927 e 1975, venderam bem e de tão populares tornaram-se filmes em Hollywood ou séries de TV na América e na Europa entre os anos 1940 e 1980.
Entre eles, O tesouro de Sierra Madre, estrelado por Humphrey Bogart e ambientado no México, ganhou o Oscar de 1949, nas categorias melhor diretor, melhor roteiro adaptado e melhor ator coadjuvante.
Outro fato é que ele não gostava dos holofotes, a maneira de Salinger, o autor de O Apanhador no Campo de Centeio, e tinha interesse em embaralhar qualquer uma das pistas que pudessem levar ao conhecimento de sua vida.
As suas narrativas são ambientadas no México, e os personagens principais são indígenas, trabalhadores do algodão, camponeses, mineiros, sindicalistas, revolucionários e quase todas as pessoas que podem ser classificadas como sendo os oprimidos politicamente, os explorados economicamente, as classes trabalhadoras ou, para usar um termo nem tão novo, os subalternos.
Apesar de não deixar conhecer sua vida, o seu texto é entendido pelos críticos literários como derivando de sua experiência pessoal entre os “de baixo”.
Tomei conhecimento dessa figura enigmática que é B. Traven quando tinha vinte e poucos anos, e lia jornais e boletins anarquistas.
Tive a oportunidade de adquirir alguns de seus livros em sebos, pois estão esgotados desde os anos 1980, com a exceção de Visitante Noturno, que ganhou uma edição em 2008 e foi escolhido por Jorge Luis Borges para sua compilação com a melhor literatura fantástica de todos os tempos.
Suas narrativas são permeadas por temas tratados pelo cientista social, a alteridade, as ruralidades, a migração, o mundo do trabalho, a desigualdade econômica, os choques culturais, os conflitos sociais.
Tendo derivado sua narrativa de sua experiência pessoal, Traven pode ser enquadrado naquela categoria de autores na qual estão o Joseph Conrad de Coração das Trevas e o Guimarães Rosa de Grande Sertão: Veredas, literatos, que à sua maneira, fazem o cientista social aprender sociologia e antropologia por outros meios.
Voltando ao enigmático B. Traven. A versão mais aceita pelos biógrafos e críticos é que Traven foi na verdade Ret Marut, um ator de teatro e anarquista alemão, que deixou a Europa em direção ao México por volta de 1924, que editou um jornal cultural e político anarquista.
Foi um agitador da Revolução Alemã de 1918, da qual nasceu a República Soviética de Munique, logo após a I Guerra Mundial.
Em abril de 1919, é proclamada a República Soviética da Baviera, e Marut é eleito diretor do departamento de imprensa do Comitê Central, integrando o Comitê de Governo.
Em primeiro de maio do mesmo ano, ele é preso depois da invasão e vitória da Guarda Branca.
Os reacionários, o declaram culpado de “alta traição” em 23 de junho, e depois de fugir com sucesso, seu nome vai para a lista dos “mais procurados” da polícia política bávara.
Marut segue para Berlin.
De 1919 ao verão de 1923, ele reside clandestinamente em diferentes lugares da Alemanha e da Áustria.
Em dezembro de 1921, aparece o último dos treze números do jornal que editava.
Em agosto de 1923, Marut chega à Londres, mas em novembro é preso por não cumprir o registro obrigatório de estrangeiros.
Em março de 1924, é liberado e embarca para o México, aportando na costa entre os meses e junho e julho daquele ano.
Em seu diário de 26 de julho, escreve: “o bávaro de Munique está morto”. Em 1925, surge pela primeira vez o nome B. Traven.
É publicada em fascículos, no jornal alemão Avante, sua novela Os colhedores de algodão.
Em 1926, como fotógrafo e com o nome de Torsvan, Traven faz parte da experdição à Chiapas, no Sul do México, organizada pelo arqueólogo Enrique Juan Palacios.
Seu primeiro livro, O Barco da Morte é publicado na Alemanha. Daí em diante inicia-se uma bem sucedida carreira de escritor.
O anarquista B. Traven era o escritor preferido do estadista inglês Winston Churchill e do físico Albert Einstein, que, ao ser perguntado sobre qual livro levaria para uma ilha deserta, respondeu: “qualquer um que tenha sido escrito por B. Traven”.
Traven faleceu em 26 de julho de 1969, na Cidade do México. Rosa Elena Lujan, sua viúva, revelou que ele havia sido Ret Marut, o anarquista bávaro.
A universidade da Califórnia detém o acervo de Traven. A curadora de uma das exposições do acervo, Heidi Hutchinson, disse em entrevista ao site da Vice que o testamento de Traven declara que ele “nasceu em Chicago, Illinois, em 3 de maio de 1890, filho de Burton Torsvan e Dorothy Croves Torsvan, ambos falecidos”.
E arremata que “não ouvi falar de ninguém que acredite que essas informações sejam verdadeiras”.
Essa versão do testamento é próxima à que ele deu as autoridades da Baviera quando foi preso após a derrota da Revolução Alemã.
Nessa versão ele dizia a polícia que nada podia ser provado através de documentos porque um terremoto seguido de incêndio destruiu tudo em 1906.
“Para mim, é mais provável que Traven tenha nascido lá”, disse Lujan, afirmando a versão do testamento.
“Ele conversou comigo sobre coisas da infância em Chicago”. Ele também falou, com desaprovação, sobre sua mãe, “uma bela atriz de sangue irlandês ou inglês”, chamada Helene Ottorent.
Mas as poucas gravações de Traven, entre as quais uma descoberta recentemente em um programa de televisão patrocinado pelo governo mexicano sobre sua vida e obra, mostram que ele falava inglês com um pronunciado sotaque alemão ou escandinavo.
“Eu não descarto um nascimento americano”, disse Guthke, um dos seus biógrafos. “Ele pode ter sido filho de uma atriz alemã que se apresentou nos Estados Unidos e voltou para a Alemanha quando ele era criança”.
Um persistente jornalista escreveu a Traven e perguntou sem rodeios “Quem diabos é você?”, O escritor respondeu: "Se eu soubesse, acho que não seria capaz de continuar escrevendo, ou não teria escrito os livros que escrevi'”.
A sra. Lujan lembrou: “Ele costumava dizer para mim: ‘Eu sou mais livre do que qualquer outra pessoa. Sou livre para escolher os pais que quero, o país que quero, a idade que quero’. Mas a realidade é que ele não sabia exatamente como ou onde nasceu”, disse Lujana.
“Ele nunca teve uma certidão de nascimento”.
Parece que o plano de fuga de Ret Marut funcionou, pois, mesmo estando na lista dos mais procurados nas vésperas da II Guerra Mundial, numa Alemanha que tornava-se nazista odiando judeus, gays, artistas e anarquistas, ele jamais foi pego pelas autoridades.
A clandestinidade foi vivida não só através da migração geográfica e do anonimato jurídico, mas também através de um self clandestino de si mesmo, que após a fuga bem-sucedida da Europa em direção ao México continuou fugindo porque criando identidades através de um fluxo de “selfs”: Marut, Traven, Trosvan.
Talvez o plano de fuga tenha funcionado tão bem que chamou atenção das pessoas para o maior de seus personagens, B. Traven. Marut era autor de livros, mas também havia sido ator de teatro e soube desempenhar papéis até o final da vida “fora dos palcos” ou dentro do maior palco de todos, sua biografia.
Lemieux e as boas perguntas
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| Cyril Lemieux (1967 -) |
Lemieux indaga que “e se o difícil em sociologia não fosse produzir respostas, mas formular boas questões?” (2015, p. 33).
Para o autor, a problematização é um recurso na construção do objeto de pesquisa. Essa problematização tem a possibilidade de criar condições para driblar a escolástica e a descrição.
As questões escolásticas dizem respeito a problematizações filosóficas, abstratas, com pouca possibilidade de problematização empírica, “são reflexões gerais que as suscitam, reflexões relativas à liberdade humana e ao determinismo, às funções respectivas do indivíduo e da sociedade, ou ainda, ao fato de saber se o atual andamento do mundo possui um caráter inelutável ou não” (LEMIEUX, 2015, p. 33).
As questões descritivas se anunciam “sob o aspecto anódino de uma interrogação técnica ou fatual concernindo um pedaço do mundo social” (LEMIEUX, 2015, p. 34).
Para ilustrar a descrição o autor usa como exemplo a questão de perguntar estatisticamente qual a quantidade e quais os franceses que tiram mais de três semanas de férias por ano, e se esse número de trabalhadores aumentou nos últimos quinze anos.
Para o autor, os dois tipos de formulações pouco avançam na compreensão do mundo social, pois não o problematizam. Assim, o espírito da sociologia é a arte de tornar problemático o mundo social em que vivemos:
“diante de situações onde a maioria dos atores priorizam um olhar sobre uma atividade social buscando naturalizá-la, o sociólogo, ao endereçar-lhe certos tipos de questões, pode fazer reaparecer o arbitrário e a indeterminação que esta tentativa de naturalização negou-lhe” (LEMIEUX, 2015, p. 34).
Para o sociólogo francês, o espírito da sociologia não é nem especulativo, nem puramente descritivo, mas crítico, exigindo do pesquisador a capacidade. “de levantar problemas sobre realidades sociais que para os atores implicados não existem, ou que existem, mas de forma a menosprezar sua natureza social” (LEMIEUX, 2015, p. 35).
Raphael Cruz
Referências
LEMIEUX, Cyril. “Problematizar”. In: PAUGAM, Serge. A pesquisa sociológic. Petrópolis, Vozes, 2015.
Observação: esta postagem foi revisada em 19 de outubro de 2022.
Bourdieu e a oficina sociológica
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| Pierre Bourdieu (1930-2002) |
Em Introdução a uma sociologia reflexiva, Bourdieu reflete sobre o ofício de sociólogo e opta pela imagem da oficina ao invés da imagem do laboratório.
A oficina está ligada a noção de ofício e com o mundo do artesanal. A oficina é o locus da ação, lugar do processo de criação.
Concentremo-nos na relação entre a oficina e a loja como metáforas da exposição das nossas pesquisas.
Na loja, os objetos estão expostos, prontos e acabados, fechados. Na oficina, o objeto está em processo de feitura, inacabado, aberto.
Oficina é devir. Loja é ponto de chegada. Oficina é lugar de reflexão. Loja é lugar de apreciação.
É na oficina que se fazem os esboços. Na loja é onde se ocultam os esboços.
Não é somente a imagem, mas o processo criativo da oficina que interessa a Bourdieu ao aconselhar os seus leitores exporem os seus objetos inacabados, abertos, esboçados.
“O homo academicus gosta do acabado” (2012, p. 19), ele é a alma e o corpo da loja, já na oficina se tecem outros agenciamentos mais próximos, talvez, de um homo ludens.
Bourdieu sugere um "como fazer", que aprendeu ao longo dos anos de pesquisa e pretende comunicá-lo aos jovens sociólogos, mas guardando distância de um certo espírito professoral e teorético, a maneira de Talcott Parsons.
Bourdieu partilha orientações práticas na forma de "dicas" e "macetes" de como apresentar e construir o objeto, de como encarar os erros, sugerindo rir deles de forma coletiva, não em tom de chacota, mas como velhos amigos rindo das presepadas do passado (BOURDIEU, 2012, p. 18-19).
É por esse caminho que ele realiza a sua “palestra-oficina”.
Bourdieu aconselha a apresentação leve e sucinta do tema de trabalho, sem ser defensivo e fechado, como um objeto exposto na loja, mas simples e modesto, como um objeto em construção na oficina, objeto que se encontra sob intervenção de diversas técnicas e instrumentos, e busca os mais adequados.
O que interessa, nesse momento, é o barulho criativa da oficina, onde são feitos esboços e se ouvem marteladas, e não o silêncio contemplativo da loja.
A oficina está impregnada do cheiro de suor dos corpos em ação e não do perfume do corpo banhado e bem-vestido que visita à loja.
É nesse processo de busca dos mais adequados instrumentos e técnicas de construção que se revelam as dificuldades e “nada mais universalizável do que as dificuldades”, lembra Bourdieu (2012, p. 18).
As dificuldades podem revelar as emoções e sentimentos envolvidos na construção do objeto.
Mesmo a pesquisa sendo uma atividade racional, ela tem “o efeito de aumentar o temor e a angústia” (2012, p. 18).
Assim, a partir de Bourdieu, pode-se dizer que a pesquisa é racional, mas também emocional, ela envolve cálculos de maximização de investimentos, construção e desconstrução de afetos, se é que isso é possível.
Raphael Cruz
Referências
BOURDIEU, Pierre. Introdução a uma sociologia reflexiva. In: BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Tradução de Fernando Braz. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2012.
Observação: esta postagem foi revisada em 20 de outubro de 2022.
Ontologia e hierarquia
Tanto à esquerda quanto à direita, marxistas e liberais convergem na defesa do assim chamado desenvolvimento das forças produtivas ou da economia.
É importante refletir sobre as raízes teóricas e os efeitos socioecológicos dessa teleologia e panaceia desenvolvimentista.
Para eles, os povos tradicionais que ocupam territórios "não produtivos", deveriam desobstruir o “progresso”, sendo, no melhor dos casos, recompensados por algumas de suas perdas territoriais, ambientais e socioculturais.
Está em jogo diferentes perspectivas sobre o sentido da boa vida, a organização do trabalho, os "usos" da natureza e o objetivo da "economia".
Está em jogo como liberais e marxistas hierarquizam socialmente os povos tradicionais em suas ontologias.
Raphael Cruz
Nota 13: Pertencimento de classe
Aquele momento em que você corre atrás do ônibus, não o pega e percebe que jamais pertencerá à classe dominante.
Raphael Cruz
As guerras da antropologia
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| Ruth Benedict (1887-1948) |
A antropologia serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra?
Existe um manual de contra-insurgência elaborado pelo estrategista Nathan Finney com a colaboração de antropólogos e utilizado nas ações do exército americano no Oriente Médio.
O manual se chama Human Terrain Team Handbook (2008) e vazou para o público há alguns anos via Wikileaks.
Através do documento é possível analisar a aplicação da antropologia na ocupação americana do Afeganistão e do Iraque.
Mas antes mesmo desse manual, os antropólogos culturais como Margareth Mead e Ruth Benedict já haviam participado dos "esforços de guerra" dos EUA.
Os estudos de “culture and personality”, como O crisântemo e a espada (1946), de Benedict, sobre a cultura do povo japonês, foram incorporados a máquina dos Aliados na II Guerra Mundial.
Naquela época, pelo menos, poderia argumentar-se que estavam combatendo o nazismo.
Antes mesmo disso, Malinowski, no prefácio ou apresentação de Crime e costume na sociedade selvagem (1926), falava do auxílio da antropologia no processo de dominação política e econômica dos “povos selvagens”.
Listo esses exemplos para demarcar certos aspectos da história da disciplina frente à romantização e encantamento acrítico, que, às vezes, percebo, na fala das pessoas sobre o que é a antropologia e o que é ser antropólogo.
Não se trata de condenar a antropologia como imperialista, existem importantes estudos no passado recente da disciplina com coloração anti-imperialista, como Europa e os povos sem história de Eric Wolf, além das mais recentes contribuições produzidas pela fertilização cruzada entre antropologia e pensamento decolonial.
Contudo, refletir sobre como as classes dominantes em determinados contextos instrumentalizaram a disciplina para atender seus interesses econômicos e geopolíticos, faz parte dos esforços de preservar a criticidade frente aos interesses da máquina de guerra do Estado e do capital.
Quanto ao manual de contra-insurgência elaborado com a ajuda de antropólogos, ele foi contestado pela American Anthropological Association por ferir o Código Disciplinar de Ética, pois o material faz parte do setor de espionagem do Departamento da Defesa, ficando, assim, não sujeito a revisão externa, o que o qualificou como não sendo um “exercício legítimo de antropologia profissional”.
Raphael Cruz
Nota 12: Decolonialismo de esquina
Limoeiro do Norte. Manhã.
Dois homens conversam na esquina do mercadinho.
– Já vai começar a política (eleições), diz um deles.
– Todo mundo tá se movimentando, diz o outro.
E arremata.
– É corrupção, rico roubando pobre. A solução é descolonizar o Brasil.
Nota 11: Ódio constrói
Fortaleza. Ônibus Aguanambi II.
Duas senhoras de meia-idade conversam.
Uma delas, fala, — Minha vizinha fez o pedido para uma ressonância, mas quando chegou sua vez na fila já fazia cinco anos que ela morreu de câncer.
Tragédias como essa são ouvidas e contadas cotidianamente em filas de supermercado, paradas de ônibus e terminais rodoviários.
O desafio é não naturalizar essas tragédias, apesar da repetição.
O desafio é entender as causas desses acontecimentos e combatê-los na raiz.
Apesar de todo o leriado atual sobre “mais amor” não esqueço de ser necessário a “capacidade de odiar” esses fatos para não se acostumar com eles.
O ódio (como o amor) constrói.
Raphael Cruz
Nota 10: Cachaça em Itapajé
Itapajé. Meio-dia.
O ônibus para num posto de gasolina ao lado de um restaurante.
Lá, há também uma loja de produtos regionais.
Nessa loja, chega um senhor de uns 55 anos.
Ele diz, — Esqueci de comprar uma coisa.
O atendente pergunta, — Um pé de moleque?
O senhor responde, — Não, uma cachaça.
Raphael Cruz
Nota 9: Amor de novela
Fortaleza. Benfica. R.U da UFC, meio-dia.
Um rapaz observa a excesso de pessoas no local.
Ele comenta, — A fila do R.U é como amor de novela, tem começo, mas não tem fim.
Raphael Cruz
Nota 8: De volta ao anos 90
Passar o fim de semana sem internet e celular é voltar aos anos 90.
Raphael Cruz
Nota 7: Respeito
Fortaleza. Benfica, parada de ônibus na Gentilândia.
Amigos conversam.
Um deles diz, — Paulinho, eu nunca vou lhe respeitar!
Como a pessoa estuda, se forma e vai trabalhar no R.U?
Há um breve silêncio.
Eles riem.
Raphael Cruz
Nota 6: Solidão
O que descobri num fim de semana sozinho em casa?
O silêncio pode incomodar tanto quanto o barulho.
Não há ninguém lhe dando ordens.
Rádio e TV se tornam boas companhias.
Você não ouve sua voz, salvo os momentos em que canta ou ri alto.
Ficar sem internet e celular é voltar aos anos 90.
Fica-se feliz ao encontrar feijão congelado na geladeira.
Macarrão continua sendo a comida mais prática do mundo.
Você ouve chamarem pelo seu nome durante o dia e enxerga vultos durante a noite.
Você quer comprar o livro para colorir que está fazendo sucesso nas livrarias.
A louça suja acumula e não há ninguém para pôr a culpa.
É um momento para experiências do tipo banhar-se com a porta do banheiro aberta.
A interação social resume-se a dar boa noite ao vizinho que sobe as escadas.
Raphael Cruz
Nota 5: Carnaval em família
O que descobri no último carnaval?
Que crianças pensam em encontrar dinossauros na praia.
Que os tios comem e bebem num feriado mais do que você em toda sua vida.
Que a areia do mar limpa as unhas dos pés.
Que o grupo mais antigo em atividade é o Rolling Stones, o segundo é o Chiclete com Banana.
Que foi o cão quem inventou os paredões de som.
Que nunca é pra bater a colher na beirada da panela, pois a comida grudará no fundo.
Que nunca é pra esquecer o protetor solar, já a sunga é opcional.
Que os mortos voltam a vida nos encontros de família.
Que família é um conjunto de pessoas com narizes, orelhas e olhos semelhantes.
Que o carnaval sempre acaba.
Raphael Cruz
Nota 4: Polícia de gênero
Fortaleza, Avenida Treze de Maio. Ônibus em movimento.
Policial entra no ônibus e puxa conversa comigo.
Em menos de cinco minutos, ele fala-me sobre a demora do ônibus, estupro e homofobia.
Diz que não tem “fobia de gay”, mas que eles não deveriam beijar-se em público, porque as crianças podem julgar que isso é normal.
Pergunto-lhe, — Pensar que se beijar é normal?
Ele diz, — Não, pensar que ser gay é normal.
Ocorre aquele breve silêncio constrangedor.
Dou o sinal de parada.
O motorista para o ônibus.
Desço.
Raphael Cruz
Socialismo ou apocalipse
Já assistiu aos filmes sobre um possível futuro apocalíptico?
Aquelas cenas de pessoas com roupas esfarrapadas vivendo em meio a sucatas, construindo barracos com restos de metal, fervendo água suja em fogueiras improvisadas e caçando ratos para o jantar?
Esse futuro existe aqui e agora em lixões e aterros sanitários alocados estrategicamente em zonas pobres da cidade.
Esse futuro está distante apenas para o sujeito bem alimentado dos bairros nobres.
É necessário apenas observar a situação de determinados segmentos da população para ter a imagem de que já vivem nesse futuro apocalíptico.
As consequências negativas da modernidade capitalista não chegaram de maneira uniforme para as distintas classes sociais, mas de forma desigual e combinada com as suas “consequências positivas”.
Uma minoria economicamente abastada e politicamente dominante experimenta as “consequências positivas” da modernidade como o acesso ao conhecimento e as facilidades de locomoção no espaço-tempo.
No meio do caminho, a maioria vive entre a possibilidade de aquisição de tablets e a realidade da precarização dos serviços urbanos.
E, no fim do caminho, “onde judas perdeu as botas”, uma parte da população apenas possui a água suja para beber e os farrapos para vestir.
Do ponto de vista da “qualidade de vida”, estes estão mais próximos da experiência do fim do mundo do que o sujeito rico e bem alimentado que conhece o apocalipse apenas na forma alegórica oferecida por Hollywood.
Os segmentos subalternos mais intensamente oprimidos e explorados nas grandes cidades, que travam uma encarniçada luta pela vida sem o mínimo de cobertura social, podem ser vistos como a imagem do futuro.
Contudo, ainda há tempo, desde que se processe outra forma de sociabilidade diametralmente oposta as lógicas política, econômica e cultural do sistema-mundo capitalista.
A formulação “socialismo ou barbárie” já não sensibiliza um imaginário social fortemente educado por filmes de Hollywood.
Atualmente, a palavra de ordem deve ser outra.
Como disse um amigo, é socialismo ou apocalipse!
Raphael Cruz
Nota 3: Bicho difícil
Fortaleza. Centro da cidade. Ônibus em movimento.
Uma senhora de 67 anos senta-se na cadeira ao meu lado.
Conversa vai, conversa vem, diz que seu marido tem dez anos a mais do que ela e possui uma saúde melhor do que a dela.
Ele não toma sequer um comprimido, ressalta.
A causa disso, segundo a senhora, é que como enfermeira ela trabalha com gente, um bicho difícil de lidar.
Já seu marido é agricultor, trabalha com plantas e animais.
Raphael Cruz
Nota 2: Hortas e avós
Nossos avós tinham a prática de construir uma pequena horta no quintal.
Alguns trouxeram essa prática para as periferias da capital durante o processo de migração do campo para a cidade.
Acredito que isso foi um resquício da agricultura de subsistência camponesa que se reconfigurou no contexto da migração, preservando fragilmente certa autonomia alimentar experienciada de forma ampla no meio rural.
Raphael Cruz
Nota 1: Varinha de condão
Fortaleza. Cruzamento da rua Major Facundo com a avenida Duque de Caxias.
Uma senhora atravessa a rua, para, olha para mim.
Ela diz querer ter uma varinha de condão para acabar com a miséria no mundo e distribuir amor.
Debaixo do sol de meio-dia, eu olho para ela, sorriu e digo, legal.
O sinal fecha.
Os carros passam.
Raphael Cruz
Risco
Interessante perceber como um telejornal se relaciona com o seu patrocinador (o anunciante que exibe seu comercial no intervalo do jornal).
Por exemplo, hoje, assistindo à Globo News, passou, durante o intervalo, o comercial da Bradesco Seguros.
Nele, um sujeito andava entre os andaimes de um prédio em construção enquanto o narrador falava ser melhor se precaver e fazer um seguro do que remediar.
O comercial relatava riscos comuns, como uma churrasqueira que pode lhe queimar, um infarto durante o sono, uma queda que pode quebrar sua perna.
Assim que o telejornal volta, o bloco de notícias trata da morte de uma idosa e do óbito de uma criança, que supostamente caiu da janela de um prédio residencial.
Queria ter inocência o suficiente para pensar que o patrocinador do telejornal não influenciou essa sequência de notícias.
A ideia de risco, relatada tanto no comercial como nas notícias que a seguiram, sugeria que da criança à idosa, todos estão expostos ao risco e o melhor é providenciar seu Seguro Bradesco.
Fica então uma pergunta, até que ponto quem paga a banda não escolhe a notícia?
Raphael Cruz
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