Réquiem para David Graeber



A antropologia, o pensamento crítico e o ativismo anti-capitalista perderam um de seus autores mais criativos e prolíficos.

David Graeber (1961-2020) é descrito por sua esposa como um melhor amigo e por seus alunos como paciente, engraçado e acolhedor.

O antropólogo norte-americano nasceu em NY e doutorou-se pela Universidade de Chicago com tese sobre memória e violência na Madagáscar rural, cujo orientador foi Marshall Sahlins.

Lecionou em Yale, Goldsmith e atualmente se encontrava no Departamento de Antropologia da London School of Economics.

Graeber era ativo politicamente, tendo se engajado no sindicalismo revolucionário da Industrial Workers of the World, no movimento antiglobalização e foi uma das lideranças do Occupy, sendo o criador do lema "somos os 99%".

Autor de uma vasta obra, teve publicado no Brasil "Dívida: os primeiros 5000 anos", "Um projeto de democracia" e "Fragmentos de uma antropologia anarquista", além de ceder entrevista a jornais e a TV brasileira.

Graeber faleceu em Veneza, na Itália, aos 59 anos, e deixou um legado importante para a antropologia e o ativismo anti-capitalista. 


Raphael Cruz

Publicado originalmente em @caderno_de_sociologia (Instagram)

Teorias da prática



No livro, Percursos na teoria das práticas sociais: Anthony Giddens e Pierre Bourdieu, Gabriel Peters examina os esquemas teóricos desses importantes sociólogos.

O objetivo do autor é compreender como cada um dos sociólogos atacou o problema clássico da relação indivíduo e sociedade.

A teoria da prática de Bourdieu e a teoria da estruturação de Giddens buscaram saídas em relação à lógica dicotômica da sociologia praticada no século XX, em torno das tensões entre subjetivismo/objetivismo, individualismo/holismo, determinismo/voluntarismo e micro/macrossociologia.

O livro é uma boa leitura para compreender o projeto teórico de dois importantes pensadores contemporâneos.

Miséria à americana

Barbara Ehrenreich (1941-)


Uma jornalista com espírito de socióloga, Barbara Ehrenreich resolveu viver como uma "trabalhadora de baixa renda" e compartilhou sua experiência no livro Miséria à americana: vivendo de subempregos nos Estados Unidos.

Ela experimentou empregos como garçonete e faxineira, atendente em asilo e balconista na Wal Mart entre 1998 e 2000 nos EUA.

Ehrenreich queria compreender como alguém consegue viver com os salários pagos aos não especializados e como mulheres vivem com 6 ou 7 dólares por hora.

Com um texto que flui, mas sem as teorizações comuns nos escritos científicos, a autora apresenta, a partir de sua experiência, um quadro da vida da classe trabalhadora e dos pobres que vivem o avesso do sonho americano.

Ehrenreich é bastante sensível às clivagens de gênero e de etnia que atravessam sua experiência como uma mulher branca e de meia-idade de passagem por um mundo geralmente habitado por negras e latinas.

Conclui que os "pobres trabalhadores" são os "maiores filantropos de nossa sociedade. . Negligenciam os próprios filhos para que os filhos de outros sejam bem cuidados; vivem em habitações péssimas para que outros lares fiquem brilhantes e perfeitos; suportam privações para que a inflação seja baixa e o preço das ações, alto. Ser um pobre trabalhador é ser um doador anônimo."

Como disse uma de suas colegas de trabalho, Gail, "você dá e dá".

Seguindo esta afirmação, um sociólogo pode dizer que uma "reciprocidade negativa" ordena a relação salarial, em que o trabalhador dá ao patrão e a sociedade muito mais do que recebe na forma de salário e de reconhecimento social, que o capitalismo se apresenta para o proletariado antes de tudo como um sistema de sacrifício.

 

Atrasos da elite

Jessé Souza (1960-)


Animado com a leitura de A elite do atraso, de Jessé Souza.

Neste livro, ele analisa, entre outros temas, as raízes teóricas do vira-latismo no Brasil.

Primeiro, ele mostra como as noções consagradas nas ciências sociais de "patrimonialismo" e "populismo" são uma derivação do racismo científico, não mais baseado na cor da pele, mas nos "estoques culturais".

Tais conceitos criaram uma imagem de brasileiro como congenitamente corrupto, personalista e, assim, incapaz de qualquer ação política pública, no sentido de ir além dos interesses da família e dos amigos. Como se em outros países a família e os amigos também não fossem importantes.

Mas o mais interessante é como ele demonstra o "efeito de realidade" dessas categorias teóricas na vida cotidiana do brasileiro.

Utilizada pela esquerda e pela direita, do PSDB e Rede Globo ao PT, tais categorias ocultam a corrupção no mercado ao centrarem-se apenas na corrupção no Estado.

Para Souza, uma pré-condição para o sucesso da Operação Lava Jato foi a disseminação dessas categorias como lentes de leitura do Brasil.

Assim, ele explica porque a Globo e a classe média fazem tanto barulho devido à corrupção no Estado, mas fecham os olhos para a corrupção no mercado financeiro, que rouba 500 vezes mais do povo do que o que a Lava Jato descobriu entre os políticos.

Fundamental também na interpretação de Souza sobre o Brasil é que o que explica o país não é uma suposta herança portuguesa (patrimonialismo, personalismo), mas a escravidão.

A escravidão de ontem é o que explica o ódio das elites e classes médias ao pobre de hoje. 


Raphael Cruz

Pulicado originalmente em @caderno_de_sociologia (Intagram)

B. Traven: self em fluxo clandestino

 

B. Traven (~1882-1969)


É intelectualmente estimulador construir os textos para a disciplina de Estágio III ministrada pela professora Glória.

Acredito que vivi poucos ou nenhum momento durante a pós-graduação no qual pude comentar sobre um autor de minha preferência e ainda por cima não sendo um autor das ciências sociais.

Escolher uma “obra de arte” e falar sobre ela é, em certa medida, também falar sobre nós mesmos.

Os gostos podem indicar algumas orientações filosóficas, estéticas e ideológicas, no sentido forte dessa última palavra.

Quando o colega Ítalo falou que este seria o mote da primeira aula do mês de maio, pensei no que poderia contribuir para aquele momento.

Algumas alternativas surgiram: eu falaria sobre o Livro Um da Saga do Monstro do Pântano escrita pelo Alan Moore nos anos 80 para a DC Comics, ainda que as histórias em quadrinho não sejam consideradas um tipo de expressão qualificada como arte por algumas pessoas e instituições.

Eu poderia também falar sobre Warriors, um livro de ficção sobre gangues escrito por um assistente social americano que tornou-se escritor de ficção científica, ou do filme baseado em seu livro, Warriors: Os selvagens da noite, ainda que filmes de ação também tenham alguma dificuldade de serem classificados como arte.

No entanto, escolhi falar sobre B. Traven porque venho lendo seus livros nos últimos anos e tentando entender suas histórias e sua biografia.

Disseram que B. Traven era na verdade Erich Mühsam, um judeu-alemão anarquista, poeta e ator, um dos agitadores da Revolução Alemã que fundou a República Soviética da Baviera entre 1918 e 1919.

Contudo, Muhsam foi assassinado pelos nazistas em decorrência de sua origem étnica e orientação política num campo de concentração em 1934, quando tinha 56 anos de idade.

Disseram que B. Traven era Esperanza, escritora comunista e lésbica, a irmão já falecida do presidente mexicano Adolfo Lopez Mateos, ou até mesmo o próprio presidente.

Contudo Adolfo desconfirmou o boato numa conferência de imprensa em 1960, durante uma visita oficial à Buenos Aires, afirmando que quando Traven publicou sua primeira  novela sua irmã tinha cinco anos de idade e ele era um ano mais novo do que ela.

Disseram que ele seria um pseudônimo do escritor norte-americano Jack London.

B. Traven seria também Arthur Cravan um suíço, sobrinho de Oscar Wilde e conhecido como boxeador, poeta e ator, percebido como um ancestral pelos artistas dadaístas e surrealistas. Cravan foi visto pela última vez na Costa do México em novembro de 1918.

Disseram que Traven seria o crítico satírico e jornalista Ambrose Bierce, nascido em Ohio, no meio-oeste dos EUA, que desapareceu sem deixar rastros durante uma viagem ao México, sendo a teoria mais popular a que diz que foi fuzilado pelos revolucionários do exército de Pancho Villa em dezembro de 1913.

O certo é que B Traven foi um escritor. Seus 17 livros, entre novelas e contos, publicados entre 1927 e 1975, venderam bem e de tão populares tornaram-se filmes em Hollywood ou séries de TV na América e na Europa entre os anos 1940 e 1980.

Entre eles, O tesouro de Sierra Madre, estrelado por Humphrey Bogart e ambientado no México, ganhou o Oscar de 1949, nas categorias melhor diretor, melhor roteiro adaptado e melhor ator coadjuvante.

Outro fato é que ele não gostava dos holofotes, a maneira de Salinger, o autor de O Apanhador no Campo de Centeio, e tinha interesse em embaralhar qualquer uma das pistas que pudessem levar ao conhecimento de sua vida.

As suas narrativas são ambientadas no México, e os personagens principais são indígenas, trabalhadores do algodão, camponeses, mineiros, sindicalistas, revolucionários e quase todas as pessoas que podem ser classificadas como sendo os oprimidos politicamente, os explorados economicamente, as classes trabalhadoras ou, para usar um termo nem tão novo, os subalternos.

Apesar de não deixar conhecer sua vida, o seu texto é entendido pelos críticos literários como derivando de sua experiência pessoal entre os “de baixo”.

Tomei conhecimento dessa figura enigmática que é B. Traven quando tinha vinte e poucos anos, e lia jornais e boletins anarquistas.

Tive a oportunidade de adquirir alguns de seus livros em sebos, pois estão esgotados desde os anos 1980, com a exceção de Visitante Noturno, que ganhou uma edição em 2008 e foi escolhido por Jorge Luis Borges para sua compilação com a melhor literatura fantástica de todos os tempos.

Suas narrativas são permeadas por temas tratados pelo cientista social, a alteridade, as ruralidades, a migração, o mundo do trabalho, a desigualdade econômica, os choques culturais, os conflitos sociais.

Tendo derivado sua narrativa de sua experiência pessoal, Traven pode ser enquadrado naquela categoria de autores na qual estão o Joseph Conrad  de Coração das Trevas e o Guimarães Rosa de Grande Sertão: Veredas, literatos, que à sua maneira, fazem o cientista social aprender sociologia e antropologia por outros meios.

Voltando ao enigmático B. Traven. A versão mais aceita pelos biógrafos e críticos é que Traven foi na verdade Ret Marut, um ator de teatro e anarquista alemão, que deixou a Europa em direção ao México por volta de 1924, que editou um jornal cultural e político anarquista.

Foi um agitador da Revolução Alemã de 1918, da qual nasceu a República Soviética de Munique, logo após a I Guerra Mundial.

Em abril de 1919, é proclamada a República Soviética da Baviera, e Marut é eleito diretor do departamento de imprensa do Comitê Central, integrando o Comitê de Governo.

Em primeiro de maio do mesmo ano, ele é preso depois da invasão e vitória da Guarda Branca.

Os reacionários, o declaram culpado de “alta traição” em 23 de junho, e depois de fugir com sucesso, seu nome vai para a lista dos “mais procurados” da polícia política bávara.

Marut segue para Berlin.

De 1919 ao verão de 1923, ele reside clandestinamente em diferentes lugares da Alemanha e da Áustria.

Em dezembro de 1921, aparece o último dos treze números do jornal que editava.

Em agosto de 1923, Marut chega à Londres, mas em novembro é preso por não cumprir o registro obrigatório de estrangeiros.

Em março de 1924, é liberado e embarca para o México, aportando na costa entre os meses e junho e julho daquele ano.

Em seu diário de 26 de julho, escreve: “o bávaro de Munique está morto”. Em 1925, surge pela primeira vez o nome B. Traven.

É publicada em fascículos, no jornal alemão Avante, sua novela Os colhedores de algodão.

Em 1926, como fotógrafo e com o nome de Torsvan, Traven faz parte da experdição à Chiapas, no Sul do México, organizada pelo arqueólogo Enrique Juan Palacios.

Seu primeiro livro, O Barco da Morte é publicado na Alemanha. Daí em diante inicia-se uma bem sucedida carreira de escritor.

O anarquista B. Traven era o escritor preferido do estadista inglês Winston Churchill e do físico Albert Einstein, que, ao ser perguntado sobre qual livro levaria para uma ilha deserta, respondeu: “qualquer um que tenha sido escrito por B. Traven”.

Traven faleceu em 26 de julho de 1969, na Cidade do México. Rosa Elena Lujan, sua viúva, revelou que ele havia sido Ret Marut, o anarquista bávaro.

A universidade da Califórnia detém o acervo de Traven. A curadora de uma das exposições do acervo, Heidi Hutchinson, disse em entrevista ao site da Vice que o testamento de Traven declara que ele “nasceu em Chicago, Illinois, em 3 de maio de 1890, filho de Burton Torsvan e Dorothy Croves Torsvan, ambos falecidos”.

E arremata que “não ouvi falar de ninguém que acredite que essas informações sejam verdadeiras”.

Essa versão do testamento é próxima à que ele deu as autoridades da Baviera quando foi preso após a derrota da Revolução Alemã.

Nessa versão ele dizia a polícia que nada podia ser provado através de documentos porque um terremoto seguido de incêndio destruiu tudo em 1906.

“Para mim, é mais provável que Traven tenha nascido lá”, disse Lujan, afirmando a versão do testamento.

“Ele conversou comigo sobre coisas da infância em Chicago”. Ele também falou, com desaprovação, sobre sua mãe, “uma bela atriz de sangue irlandês ou inglês”, chamada Helene Ottorent.

Mas as poucas gravações de Traven, entre as quais uma descoberta recentemente em um programa de televisão patrocinado pelo governo mexicano sobre sua vida e obra, mostram que ele falava inglês com um pronunciado sotaque alemão ou escandinavo.

“Eu não descarto um nascimento americano”, disse Guthke, um dos seus biógrafos. “Ele pode ter sido filho de uma atriz alemã que se apresentou nos Estados Unidos e voltou para a Alemanha quando ele era criança”.

Um persistente jornalista escreveu a Traven e perguntou sem rodeios “Quem diabos é você?”, O escritor respondeu: "Se eu soubesse, acho que não seria capaz de continuar escrevendo, ou não teria escrito os livros que escrevi'”.

A sra. Lujan lembrou: “Ele costumava dizer para mim: ‘Eu sou mais livre do que qualquer outra pessoa. Sou livre para escolher os pais que quero, o país que quero, a idade que quero’. Mas a realidade é que ele não sabia exatamente como ou onde nasceu”, disse Lujana.

“Ele nunca teve uma certidão de nascimento”.

Parece que o plano de fuga de Ret Marut funcionou, pois, mesmo estando na lista dos mais procurados nas vésperas da II Guerra Mundial, numa Alemanha que tornava-se nazista odiando judeus, gays, artistas e anarquistas, ele jamais foi pego pelas autoridades.

A clandestinidade foi vivida não só através da migração geográfica e do anonimato jurídico, mas também através de um self clandestino de si mesmo, que após a fuga bem-sucedida da Europa em direção ao México continuou fugindo porque criando identidades através de um fluxo de “selfs”: Marut, Traven, Trosvan.

Talvez o plano de fuga tenha funcionado tão bem que chamou atenção das pessoas para o maior de seus personagens, B. Traven. Marut era autor de livros, mas também havia sido ator de teatro e soube desempenhar papéis até o final da vida “fora dos palcos” ou dentro do maior palco de todos, sua biografia.

Lemieux e as boas perguntas

 

Cyril Lemieux (1967 -)

Lemieux indaga que “e se o difícil em sociologia não fosse produzir respostas, mas formular boas questões?” (2015, p. 33).

Para o autor, a problematização é um recurso na construção do objeto de pesquisa. Essa problematização tem a possibilidade de criar condições para driblar a escolástica e a descrição.

As questões escolásticas dizem respeito a problematizações filosóficas, abstratas, com pouca possibilidade de problematização empírica, “são reflexões gerais que as suscitam, reflexões relativas à liberdade humana e ao determinismo, às funções respectivas do indivíduo e da sociedade, ou ainda, ao fato de saber se o atual andamento do mundo possui um caráter inelutável ou não” (LEMIEUX, 2015, p. 33).

As questões descritivas se anunciam “sob o aspecto anódino de uma interrogação técnica ou fatual concernindo um pedaço do mundo social” (LEMIEUX, 2015, p. 34).

Para ilustrar a descrição o autor usa como exemplo a questão de perguntar estatisticamente qual a quantidade e quais os franceses que tiram mais de três semanas de férias por ano, e se esse número de trabalhadores aumentou nos últimos quinze anos.

Para o autor, os dois tipos de formulações pouco avançam na compreensão do mundo social, pois não o problematizam. Assim, o espírito da sociologia é a arte de tornar problemático o mundo social em que vivemos:

“diante de situações onde a maioria dos atores priorizam um olhar sobre uma atividade social buscando naturalizá-la, o sociólogo, ao endereçar-lhe certos tipos de questões, pode fazer reaparecer o arbitrário e a indeterminação que esta tentativa de naturalização negou-lhe” (LEMIEUX, 2015, p. 34).

Para o sociólogo francês, o espírito da sociologia não é nem especulativo, nem puramente descritivo, mas crítico, exigindo do pesquisador a capacidade. “de levantar problemas sobre realidades sociais que para os atores implicados não existem, ou que existem, mas de forma a menosprezar sua natureza social” (LEMIEUX, 2015, p. 35).

Raphael Cruz


Referências

LEMIEUX, Cyril. “Problematizar”. In: PAUGAM, Serge. A pesquisa sociológic. Petrópolis, Vozes, 2015.

Observação: esta postagem foi revisada em 19 de outubro de 2022.

Bourdieu e a oficina sociológica

Pierre Bourdieu (1930-2002)


Em Introdução a uma sociologia reflexiva, Bourdieu reflete sobre o ofício de sociólogo e opta pela imagem da oficina ao invés da imagem do laboratório. 

A oficina está ligada a noção de ofício e com o mundo do artesanal. A oficina é o locus da ação, lugar do processo de criação. 

Concentremo-nos na relação entre a oficina e a loja como metáforas da exposição das nossas pesquisas.

Na loja, os objetos estão expostos, prontos e acabados, fechados. Na oficina, o objeto está em processo de feitura, inacabado, aberto.

Oficina é devir. Loja é ponto de chegada. Oficina é lugar de reflexão. Loja é lugar de apreciação.

É na oficina que se fazem os esboços. Na loja é onde se ocultam os esboços. 

Não é somente a imagem, mas o processo criativo da oficina que interessa a Bourdieu ao aconselhar os seus leitores exporem os seus objetos inacabados, abertos, esboçados. 

“O homo academicus gosta do acabado” (2012, p. 19), ele é a alma e o corpo da loja, já na oficina se tecem outros agenciamentos mais próximos, talvez, de um homo ludens.

Bourdieu sugere um "como fazer", que aprendeu ao longo dos anos de pesquisa e pretende comunicá-lo aos jovens sociólogos, mas guardando distância de um certo espírito professoral e teorético, a maneira de Talcott Parsons. 

Bourdieu partilha orientações práticas na forma de "dicas" e "macetes" de como apresentar e construir o objeto, de como encarar os erros, sugerindo rir deles de forma coletiva, não em tom de chacota, mas como velhos amigos rindo das presepadas do passado (BOURDIEU, 2012, p. 18-19).

É por esse caminho que ele realiza a sua “palestra-oficina”.

Bourdieu aconselha a apresentação leve e sucinta do tema de trabalho, sem ser defensivo e fechado, como um objeto exposto na loja, mas simples e modesto, como um objeto em construção na oficina, objeto que se encontra sob intervenção de diversas técnicas e instrumentos, e busca os mais adequados.

O que interessa, nesse momento, é o barulho criativa da oficina, onde são feitos esboços e se ouvem marteladas, e não o silêncio contemplativo da loja.

A oficina está impregnada do cheiro de suor dos corpos em ação e não do perfume do corpo banhado e bem-vestido que visita à loja.

É nesse processo de busca dos mais adequados instrumentos e técnicas de construção que se revelam as dificuldades e “nada mais universalizável do que as dificuldades”, lembra Bourdieu (2012, p. 18).

As dificuldades podem revelar as emoções e sentimentos envolvidos na construção do objeto. 

Mesmo a pesquisa sendo uma atividade racional, ela tem “o efeito de aumentar o temor e a angústia” (2012, p. 18). 

Assim, a partir de Bourdieu, pode-se dizer que a pesquisa é racional, mas também emocional, ela envolve cálculos de maximização de investimentos, construção e desconstrução de afetos, se é que isso é possível.

Raphael Cruz


Referências

BOURDIEU, Pierre. Introdução a uma sociologia reflexiva. In: BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Tradução de Fernando Braz. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2012.

Observação: esta postagem foi revisada em 20 de outubro de 2022.

Ontologia e hierarquia

Tanto à esquerda quanto à direita, marxistas e liberais convergem na defesa do assim chamado desenvolvimento das forças produtivas ou da economia. 

É importante refletir sobre as raízes teóricas e os efeitos socioecológicos dessa teleologia e panaceia desenvolvimentista. 

Para eles, os povos tradicionais que ocupam territórios "não produtivos", deveriam desobstruir o “progresso”, sendo, no melhor dos casos, recompensados por algumas de suas perdas territoriais, ambientais e socioculturais.

Está em jogo diferentes perspectivas sobre o sentido da boa vida, a organização do trabalho, os "usos" da natureza e o objetivo da "economia". 

Está em jogo como liberais e marxistas hierarquizam socialmente os povos tradicionais em suas ontologias. 


Raphael Cruz 

Nota 13: Pertencimento de classe

Aquele momento em que você corre atrás do ônibus, não o pega e percebe que jamais pertencerá à classe dominante. 


Raphael Cruz

As guerras da antropologia

Ruth Benedict (1887-1948)


A antropologia serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra?

Existe um manual de contra-insurgência elaborado pelo estrategista Nathan Finney com a colaboração de antropólogos e utilizado nas ações do exército americano no Oriente Médio.

O manual se chama Human Terrain Team Handbook (2008) e vazou para o público há alguns anos via Wikileaks.

Através do documento é possível analisar a aplicação da antropologia na ocupação americana do Afeganistão e do Iraque.

Mas antes mesmo desse manual, os antropólogos culturais como Margareth Mead e Ruth Benedict já haviam participado dos "esforços de guerra" dos EUA.

Os estudos de “culture and personality”, como O crisântemo e a espada (1946), de Benedict, sobre a cultura do povo japonês, foram incorporados a máquina dos Aliados na II Guerra Mundial.

Naquela época, pelo menos, poderia argumentar-se que estavam combatendo o nazismo.

Antes mesmo disso, Malinowski, no prefácio ou apresentação de Crime e costume na sociedade selvagem (1926), falava do auxílio da antropologia no processo de dominação política e econômica dos “povos selvagens”.

Listo esses exemplos para demarcar certos aspectos da história da disciplina frente à romantização e encantamento acrítico, que, às vezes, percebo, na fala das pessoas sobre o que é a antropologia e o que é ser antropólogo.

Não se trata de condenar a antropologia como imperialista, existem importantes estudos no passado recente da disciplina com coloração anti-imperialista, como Europa e os povos sem história de Eric Wolf, além das mais recentes contribuições produzidas pela fertilização cruzada entre antropologia e pensamento decolonial. 

Contudo, refletir sobre como as classes dominantes em determinados contextos instrumentalizaram a disciplina para atender seus interesses econômicos e geopolíticos, faz parte dos esforços de preservar a criticidade frente aos interesses da máquina de guerra do Estado e do capital.

Quanto ao manual de contra-insurgência elaborado com a ajuda de antropólogos, ele foi contestado pela American Anthropological Association por ferir o Código Disciplinar de Ética, pois o material faz parte do setor de espionagem do Departamento da Defesa, ficando, assim, não sujeito a revisão externa, o que o qualificou como não sendo um “exercício legítimo de antropologia profissional”. 

Raphael Cruz

Nota 12: Decolonialismo de esquina

Limoeiro do Norte. Manhã.

Dois homens conversam na esquina do mercadinho. 

– Já vai começar a política (eleições), diz um deles.

– Todo mundo tá se movimentando, diz o outro. 

E arremata.

– É corrupção, rico roubando pobre. A solução é descolonizar o Brasil.


Raphael Cruz

Nota 11: Ódio constrói

Fortaleza. Ônibus Aguanambi II.

Duas senhoras de meia-idade conversam. 

Uma delas, fala, — Minha vizinha fez o pedido para uma ressonância, mas quando chegou sua vez na fila já fazia cinco anos que ela morreu de câncer. 

Tragédias como essa são ouvidas e contadas cotidianamente em filas de supermercado, paradas de ônibus e terminais rodoviários.

O desafio é não naturalizar essas tragédias, apesar da repetição. 

O desafio é entender as causas desses acontecimentos e combatê-los na raiz. 

Apesar de todo o leriado atual sobre “mais amor” não esqueço de ser necessário a “capacidade de odiar” esses fatos para não se acostumar com eles. 

O ódio (como o amor) constrói. 


Raphael Cruz


Nota 10: Cachaça em Itapajé

 Itapajé. Meio-dia. 

O ônibus para num posto de gasolina ao lado de um restaurante. 

Lá, há também uma loja de produtos regionais. 

Nessa loja, chega um senhor de uns 55 anos. 

Ele diz, — Esqueci de comprar uma coisa. 

O atendente pergunta, — Um pé de moleque? 

O senhor responde, — Não, uma cachaça.


Raphael Cruz

Nota 9: Amor de novela

Fortaleza. Benfica. R.U da UFC, meio-dia.

Um rapaz observa a excesso de pessoas no local.

Ele comenta, — A fila do R.U é como amor de novela, tem começo, mas não tem fim.


Raphael Cruz

Nota 8: De volta ao anos 90

 Passar o fim de semana sem internet e celular é voltar aos anos 90.


Raphael Cruz

Nota 7: Respeito

Fortaleza. Benfica, parada de ônibus na Gentilândia. 

Amigos conversam. 

Um deles diz, — Paulinho, eu nunca vou lhe respeitar! 

Como a pessoa estuda, se forma e vai trabalhar no R.U? 

Há um breve silêncio.

Eles riem.


Raphael Cruz

Nota 6: Solidão

O que descobri num fim de semana sozinho em casa?

O silêncio pode incomodar tanto quanto o barulho.

Não há ninguém lhe dando ordens.

Rádio e TV se tornam boas companhias.

Você não ouve sua voz, salvo os momentos em que canta ou ri alto.

Ficar sem internet e celular é voltar aos anos 90.

Fica-se feliz ao encontrar feijão congelado na geladeira.

Macarrão continua sendo a comida mais prática do mundo.

Você ouve chamarem pelo seu nome durante o dia e enxerga vultos durante a noite.

Você quer comprar o livro para colorir que está fazendo sucesso nas livrarias.

A louça suja acumula e não há ninguém para pôr a culpa.

É um momento para experiências do tipo banhar-se com a porta do banheiro aberta.

A interação social resume-se a dar boa noite ao vizinho que sobe as escadas. 


Raphael Cruz

Nota 5: Carnaval em família

O que descobri no último carnaval?

Que crianças pensam em encontrar dinossauros na praia. 

Que os tios comem e bebem num feriado mais do que você em toda sua vida. 

Que a areia do mar limpa as unhas dos pés. 

Que o grupo mais antigo em atividade é o Rolling Stones, o segundo é o Chiclete com Banana. 

Que foi o cão quem inventou os paredões de som. 

Que nunca é pra bater a colher na beirada da panela, pois a comida grudará no fundo. 

Que nunca é pra esquecer o protetor solar, já a sunga é opcional. 

Que os mortos voltam a vida nos encontros de família. 

Que família é um conjunto de pessoas com narizes, orelhas e olhos semelhantes. 

Que o carnaval sempre acaba. 


Raphael Cruz

Nota 4: Polícia de gênero

Fortaleza, Avenida Treze de Maio. Ônibus em movimento.

Policial entra no ônibus e puxa conversa comigo. 

Em menos de cinco minutos, ele fala-me sobre a demora do ônibus, estupro e homofobia. 

Diz que não tem “fobia de gay”, mas que eles não deveriam beijar-se em público, porque as crianças podem julgar que isso é normal. 

Pergunto-lhe, — Pensar que se beijar é normal? 

Ele diz, — Não, pensar que ser gay é normal. 

Ocorre aquele breve silêncio constrangedor. 

Dou o sinal de parada.

O motorista para o ônibus.

Desço. 


Raphael Cruz


Socialismo ou apocalipse

Já assistiu aos filmes sobre um possível futuro apocalíptico? 

Aquelas cenas de pessoas com roupas esfarrapadas vivendo em meio a sucatas, construindo barracos com restos de metal, fervendo água suja em fogueiras improvisadas e caçando ratos para o jantar?

Esse futuro existe aqui e agora em lixões e aterros sanitários alocados estrategicamente em zonas pobres da cidade.

Esse futuro está distante apenas para o sujeito bem alimentado dos bairros nobres.

É necessário apenas observar a situação de determinados segmentos da população para ter a imagem de que já vivem nesse futuro apocalíptico.

As consequências negativas da modernidade capitalista não chegaram de maneira uniforme para as distintas classes sociais, mas de forma desigual e combinada com as suas “consequências positivas”.

Uma minoria economicamente abastada e politicamente dominante experimenta as “consequências positivas” da modernidade como o acesso ao conhecimento e as facilidades de locomoção no espaço-tempo. 

No meio do caminho, a maioria vive entre a possibilidade de aquisição de tablets e a realidade da precarização dos serviços urbanos.

E, no fim do caminho, “onde judas perdeu as botas”, uma parte da população apenas possui a água suja para beber e os farrapos para vestir. 

Do ponto de vista da “qualidade de vida”, estes estão mais próximos da experiência do fim do mundo do que o sujeito rico e bem alimentado que conhece o apocalipse apenas na forma alegórica oferecida por Hollywood.

Os segmentos subalternos mais intensamente oprimidos e explorados nas grandes cidades, que travam uma encarniçada luta pela vida sem o mínimo de cobertura social, podem ser vistos como a imagem do futuro.

Contudo, ainda há tempo, desde que se processe outra forma de sociabilidade diametralmente oposta as lógicas política, econômica e cultural do sistema-mundo capitalista. 

A formulação “socialismo ou barbárie” já não sensibiliza um imaginário social fortemente educado por filmes de Hollywood.

Atualmente, a palavra de ordem deve ser outra.

Como disse um amigo, é socialismo ou apocalipse!


Raphael Cruz

Nota 3: Bicho difícil

Fortaleza. Centro da cidade. Ônibus em movimento.

Uma senhora de 67 anos senta-se na cadeira ao meu lado.

Conversa vai, conversa vem, diz que seu marido tem dez anos a mais do que ela e possui uma saúde melhor do que a dela.

Ele não toma sequer um comprimido, ressalta. 

A causa disso, segundo a senhora, é que como enfermeira ela trabalha com gente, um bicho difícil de lidar. 

Já seu marido é agricultor, trabalha com plantas e animais. 


Raphael Cruz 

Nota 2: Hortas e avós

Nossos avós tinham a prática de construir uma pequena horta no quintal.

Alguns trouxeram essa prática para as periferias da capital durante o processo de migração do campo para a cidade.

Acredito que isso foi um resquício da agricultura de subsistência camponesa que se reconfigurou no contexto da migração, preservando fragilmente certa autonomia alimentar experienciada de forma ampla no meio rural. 

Raphael Cruz

Nota 1: Varinha de condão

Fortaleza. Cruzamento da rua Major Facundo com a avenida Duque de Caxias.

Uma senhora atravessa a rua, para, olha para mim.

Ela diz querer ter uma varinha de condão para acabar com a miséria no mundo e distribuir amor. 

Debaixo do sol de meio-dia, eu olho para ela, sorriu e digo, legal.

O sinal fecha.

Os carros passam. 


Raphael Cruz

Risco

Interessante perceber como um telejornal se relaciona com o seu patrocinador (o anunciante que exibe seu comercial no intervalo do jornal). 

Por exemplo, hoje, assistindo à Globo News, passou, durante o intervalo, o comercial da Bradesco Seguros. 

Nele, um sujeito andava entre os andaimes de um prédio em construção enquanto o narrador falava ser melhor se precaver e fazer um seguro do que remediar. 

O comercial relatava riscos comuns, como uma churrasqueira que pode lhe queimar, um infarto durante o sono, uma queda que pode quebrar sua perna. 

Assim que o telejornal volta, o bloco de notícias trata da morte de uma idosa e do óbito de uma criança, que supostamente caiu da janela de um prédio residencial.

Queria ter inocência o suficiente para pensar que o patrocinador do telejornal não influenciou essa sequência de notícias. 

A ideia de risco, relatada tanto no comercial como nas notícias que a seguiram, sugeria que da criança à idosa, todos estão expostos ao risco e o melhor é providenciar seu Seguro Bradesco. 

Fica então uma pergunta, até que ponto quem paga a banda não escolhe a notícia?

Raphael Cruz

Jamais fomos fordistas

A questão social (Iamamoto, 2001) no capitalismo dependente (Fernandes, 1973) não deve ser compreendida por meio do esmorecimento do Welfare State e do fordismo, que teriam provocado uma corrosão da condição salarial, isto é, desestruturado o acesso a direitos sociais no e pelo trabalho.

Essa seria uma leitura eurocêntrica. 

Isso porque o binômio fordismo-keynesianismo jamais se consolidou na economia dependente brasileira.

O mais próximo ao modelo do Welfare europeu foi o Estado-providência (Bosi, 1992) inaugurado por Vargas e ainda assim limitado a algumas frações dos trabalhadores urbanos, uma espécie de direito social de base corporativa, que não se universalizou nas condições da economia periférica. 

Nesse sentido, nossa questão social tem que considerar aspectos estruturantes das sociedades de economia periférica no que diz respeito a produção e reprodução da força de trabalho. 

Superexploração (Marini, 2008) e espoliação urbana (Kovarick, 1979) são duas categorias que podem ofertar rendimento analítico para a compreensão da questão social no Brasil urbano, pois se referem as dimensões da produção e reprodução da força de trabalho no capitalismo dependente.

Raphael Cruz


Referências

BOSI, Alfredo. Arqueologia do Estado-providência. In: BOSI, Alfredo. Dialética da colonização. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

FERNANDES, Florestan. Capitalismo dependente e classes sociais na América Latina. Rio de Janeiro: Zahar editores, 1973.

IAMAMOTO, Marilda Villela. A questão social no capitalismo. Revista Temporalis, v. 2, n. 3, p. 09-32, 2001.

KOWARICK, Lúcio. A espoliação urbana. 1. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.

MARINI, Rui Mauro. Dialética da dependência. In: TRASPADINI, R.; STEDILE, J.P. (Orgs.). Rui Mauro Marini vida e obra. São Paulo: Expressão Popular, 2008.


Esta postagem foi revisada em 13 de outubro de 2022. 

Nova referência bibliográfica: KOWARICK, Lúcio. Sobre a construção de um instrumento de análise: a espoliação urbana. Novos Estudos, n. 118, p. 567-576, 2020.


Sociologia na ficção científica

A ficção científica é uma das poucas literaturas de ideias que ainda ousa pensar possibilidades de futuro frente ao “fim da história” do neoliberalismo ou dos apocalipses anunciados por Hollywood.

Em especial um ramo da FC é rico em possibilidades teóricas sociológicas, é a social science fiction.

Nesse “subgênero” figuram nomes como Aldous Huxley, Isaac Asimov, Ray Bradbury e Georg Orwell.

Resumidamente, se configura como uma FC que se concentra mais em questões de sociabilidade e estrutura social do que de tecnologia.

Dessa forma, o determinismo tecnológico que tão marcadamente impregna a maior parte da produção de FC é substituída por um “determinismo social”.

De um ponto de vista pedagógico, essa literatura ainda pode auxiliar nas disciplinas de introdução a sociologia nas escolas e universidades como uma alternativa preliminar aos textos mais densamente teóricos, se utilizando das metáforas literárias como algo que pode despertar a imaginação sociológica e o interesse dos recém-chegados ao mundo da sociologia.

Sobre a FC como recurso pedagógico em aulas de sociologia ver LAZ, Cheryl. Science Fiction and Introductory Sociology: The “Handmaid” in the Classroom. Teaching Sociology, Vol. 24, No. 1 (Jan., 1996, pp. 54-63).

Capítulos do livro MILSTRED, John W.; GREENBERG, Martin Harry (Org.). Sociology Through Science Fiction. New York: St. Martin Press, 1974. Os capítulos desse livro discutem tópicos como indivíduo e sociedade, entre outros, a partir de obras de FC.

Segue a relação dos capítulos:

The Study of Society

(Lost Newton, Misinformation)

Social Organization and Culture

(Positive Feedback, Deeper Than The Darkness, Of Course, Slow Tuesday Night, Gadget vs. Trend, Nobody Lives on Burton Street, The Shaker Revival, Guilty As Charged)

The Study of Society

(Lost Newton, Misinformation)

Social Organization and Culture

(Positive Feedback, Deeper Than The Darkness, Of Course, Slow Tuesday Night, Gadget vs. Trend, Nobody Lives on Burton Street, The Shaker Revival, Guilty As Charged)

Self and Society

(Integration Module)

Social Differentiation

(A Day In the Suburbs, Pigeon City, Generation Gaps)

Social Institutions

(Two’s Company, Primary Education of the Camiroi, Birthright, The Pedestrian, A Canticle for Leibowitz)

Population and Urban Life

(Total Environment, Single Combat).

Sarah Wernenchak fez a seguinte lista de filmes e temas que podem ser abordados a partir deles em aulas de sociologia:

Metropolis (1927) – gender, social class

Blade Runner (1982) – definitions of humanity, gender, slavery, stratification

Brazil (1985) – gender, rationalization, social class

Aliens (1986) – capitalism, gender

Gattaca (1997) – bodies, disability, identity

Princess Mononoke (1999) – gender

The Lord of the Rings trilogy (2001-2003) – gender, race

Children of Men (2006) – gender, immigration, race, reproductive politics

District 9 (2009) – postcolonialism, race

Avatar (2009) – postcolonialism,race

Ação e estrutura na sociologia



Retomei a leitura de Teoria social hoje, livro organizado por Giddens e Turner (1999).

Conheci o livro durante o processo seletivo para o mestrado em sociologia da Universidade Federal do Ceará, nos idos de 2012. 

Naquela época estudei por uma xerox e recentemente adquiri o livro. O que para mim torna a leitura mais prazerosa. 

No geral, a obra traz um panorama das teorias sociais contemporâneas. Isso se restringirmos a noção de “contemporâneo” até os anos 1980!

Tem interacionismo, sistema-mundo, behaviorismo, estuturalismo e pós estuturalismo, teoria crítica, retornos e críticas a Parsons, práxis e estruturacionismo. 

No capítulo Teoria da estruturação e práxis social, Ira J. Cohen (1999) analisa possibilidades e limites do positivismo (que transporia a lógica das ciências exatas para as humanas), interacionismo (que estaria preso a análise in situ), etnometodologia (que operaria uma assimetria completa entre comunicação e ação) e funcionalismo (uma abordagem estática que exclui a práxis).

O autor está preocupado em problematizar ação e estrutura de um ponto de vista que as relacione e não provoque uma exclusão recíproca. 

Formulada por Giddens, o estruturacionismo ou teoria da estruturação busca resolver epistemologicamente a relação entre “ação” e “estrutura” na sociologia. 

O estruturacionismo de Giddens, como afirma Cohen (1999), busca sair do lamaçal sem fim das discussões sobre ação e estrutura, talvez, o equivalente sociológico do dilema “quem veio primeiro, o ovo ou a galinha?”. 

A saída metodológica que a teoria da estruturação oferece é não diluir a ação na estrutura, nem excluir a estrutura do condicionamento da ação social. 

Nesse sentido, na narrativa do estruturacionismo ressurgem todos aqueles binômios problematizantes que fazem parte das teorias sociais: “ação e estrutura”, “natureza e cultura”, “indivíduo e sociedade”, “permanência e mudança”, “regularidades e não regularidades”, “micro e macro”. Contudo, desde uma perspectiva não exclusivista, mas dialética, que busca integrar essas oposições.

Pensando em meus sujeitos da pesquisa, especificamente no que tange a análise de suas narrativas obtidas por entrevista semi-estruturada, acredito que o estruturacionismo, antes de me oferecer uma metodologia “pronta e acabada”, me oferece um tipo de sensibilidade epistemológica para tratar a relação entre ação e estrutura, representações sobre o trabalho e o próprio mundo do trabalho, um dos meus temas para a dissertação de mestrado. 

Ele me indica um caminho para não cair nas tentações de diluir o agente nas estruturas. E, por outro lado, também não isolar o agente das estruturas sociais e do Zeitgeist (espírito do tempo) de sua época.

Penso que essa tensão entre ação e estrutura é embaraçosa demais para ser resolvida de uma “tacada só”. E que terei de lidar com ela durante meu percurso de pesquisa. Contudo, sem absolutizar nenhuma dessas dimensões, seja um estruturalismo em demasia, que anula o agente ou o entende como mero reflexo das estruturas (a lá Althusser), ou um individualismo metodológico, que separa artificialmente o agente de seu contexto, reduzindo-o a traços psicológicos. 

Raphael Cruz


Referências

CHOEN, Ira J. Teoria da estruturação e práxis social. In: GIDDENS, Anthony; TURNER, Jonathan H. (Orgs.). Teoria social hoje. São Paulo: Editora UNESP, 1999.

GIDDENS, Anthony; TURNER, Jonathan H. (Orgs.). Teoria social hoje. São Paulo: Editora UNESP, 1999.


Nota: o presente texto foi revisado em 13 de outubro de 2022.

Weber e o declínio do Império Romano

Antigos camponeses romanos voltando para casa depois de um dia nos campos.
Ilustração para Vie De Cesar compilada por Henri De Montaut (Petit Journal, 1865).


Weber é enfático na identificação das causas que possibilitaram a derrocada do Império Romano. Para ele, não foram causas externas que explicam o fim do Império, mas causas internas (WEBER, 1989, p. 37).

A perspectiva multicausal de Weber, que articula fatores econômicos, políticos, sociais, culturais e geográficos de forma complexa, é perceptível logo no início do texto através da constatação do autor de um fato importante: 

“O Império Romano, considerado como entidade política, sobreviveu vários séculos ao apogeu de sua cultura” (WEBER, 1989, p. 37). 

Isso quer dizer, que mesmo quando “a poesia latina e grega dormiam o sono da morte” a estrutura política do Império continuou a se movimentar, a expandir-se, até que por falta de unidade interna causada, em parte, pelo declínio dos valores culturais do Império esse processo tornou-se insustentável.

A partir daí novos valores e formas de organizações sociais de base rural e camponesa (economia natural) deram lugar aos valores culturais e à estrutura política do Império.

Foi somente “século e meio mais tarde, ao extinguir-se a dignidade imperial do Ocidente, [que] advém a derrocada externa, tem-se a impressão de que já de há muito os bárbaros haviam triunfado a partir de dentro” (WEBER, 1989, p. 37). 

Nesse sentido, para Weber, a decadência do Império é um longo processo que começa a partir de dentro, com a decadência cultural, e depois se desdobra politicamente quando o Império não consegue mais sustentar sua própria estrutura política. 

Em síntese, há um fio condutor que liga a derrocada da cultura antiga à desagregação do Império.

Assim, variáveis culturais e econômico-políticas se entrelaçam na criação das condições de declínio da cultura antiga. 

O “ocaso da cultura antiga coincide com o restabelecimento da família nas camadas inferiores da população” (WEBER, 1989, p. 38), formando uma relação complexa onde “o restabelecimento do estamento camponês deu-se ao declinar a cultura antiga” (WEBER, 1989, p. 38).

Weber inicia sua análise tornando clara as peculiaridades da estrutura social da Antiguidade, frisando que essas peculiaridades determinaram o ciclo do desenvolvimento da cultura antiga. 

Um desses elementos é que a cultura antiga é basicamente uma cultura urbana porque era a cidade o centro gravitacional da vida política, da arte e da literatura do Império. 

Baseando-se economicamente na troca através do mercado da cidade, composto pelos produtos da indústria urbana com os frutos da estreita orla agrícola circundante, cria-se um circuito de troca direta e imediata entre produtores e consumidores (WEBER, 1989, p. 39).

Contudo, essa infraestrutura local se sobrepõe à um comércio internacional, propiciado pelo fato dessas cidades serem localizadas no litoral, o que leva Weber a ressaltar que a cultura antiga era uma cultura litorânea, sendo sua história a história das cidades costeiras. 

É por via marítima e pelos grandes rios que se mantêm o constante tráfico internacional, pois na Europa antiga não havia comércio interior como o que se desenvolverá posteriormente durante a Idade Média.

Assim, a narrativa weberiana vai pontuando os caracteres da cultura antiga do Império romano (urbana, litorânea, com propensão ao além mar, ao comércio internacional) ao mesmo tempo que vai demarcando os futuros contornos da Idade Média (rural, interiorana, com propensão ao comunitarismo, ao comércio local) (WEBER, 1989, p. 39-40).

Um ponto fundamental elencado por Weber na caracterização da cultura antiga é que ela era uma cultura escravista. 

Onde o trabalho livre da cidade coexiste com o trabalho servil no campo, “ao lado da livre divisão do trabalho mediante o intercâmbio no mercado urbano, a divisão obrigatória do trabalho pela organização da produção em economia fechada nas senhorias rurais” (WEBER, 1989, p. 41, destaques meus).

Em seguida, temos um Weber quase durkheimiano, quando afirma que o “progresso descansa na progressiva divisão do trabalho” (WEBER, 1989, p. 41).

Contudo essa divisão opera de maneira diferente nos sistemas de trabalho livre e servil. No primeiro é um processo identificado com a dilatação do mercado de modo extensivo pela ampliação geográfica e do uso do pessoal nas áreas de troca.

No trabalho servil, “a divisão do trabalho se efetua graças a uma progressiva acumulação de homens” (WEBER, 1989, p. 41), onde a especialização dos ofícios depende do grande número de escravos. 

Nesse contexto, a guerra antiga era uma caça de escravos (WEBER, 1989, p. 41). A função social da guerra no Império Romano estava relacionada com a demanda da acumulação de instrumentos falantes (os escravos), importante componente da dinâmica econômica dos romanos.

"A evolução do comércio internacional corre paralela à acumulação do trabalho servil na grande possessão de escravos. Desta forma, insere-se sob a super-estrutura comercial uma infra-estrutura em constante expansão, dedicada ao consumo não comercial" (WEBER, 1989, p. 42).

Assim, “na Antiguidade o comércio internacional fomenta as unidades econômicas domésticas (oikos), subtraindo assim à economia de comércio local toda a base de sustentação” (WEBER, 1989, p. 42).

Logo, a falta de consumidores para a produção local, visto que grande parte era formada por escravos, levou que o sustentáculo do mercado interno fosse sua dependência do comércio internacional.

Além da guerra significar a caça de escravos, ela também era baseada na apropriação de terras, visto que a luta nos exércitos estava ligada a motivação de possuir terras próprias e conquistar o direito à plena cidadania. 

Para Weber, aí reside o segredo da força expansiva do Império Romano (WEBER, 1989, p. 42). 

“Com a conquista de além-mar acaba esse estado de coisas; então o que impõe sua norma não é mais o interesse colonizador dos lavradores, mas o interesse de exploração das províncias pela aristocracia” (WEBER, 1989, p. 43). 

Assim, os proprietários de escravos passam a sustentar as necessidades cada vez maiores da vida, do comércio e da produção. O trabalho dos escravos passa a ser a base da organização do trabalho, ainda que o trabalho livre não tivesse deixado de existir (WEBER, 1989, p. 43).

Aos poucos, através da hipertrofia do trabalho escravo e diminuição do comércio local, vão se delineando os contornos da tese de Weber acerca do declínio de Roma, isso quer dizer, da passagem do comércio urbano à economia natural. 

Grandes faixas de terras interioranas são incorporadas ao mundo romano, o que para Weber significa o fortalecimento decisivo da cultura do trabalho servil, onde o centro de gravidade do Império passa para o interior. 

Vai-se abandonando o cenário da cultura de tipo litorânea. E o proprietário de escravos converte-se no suporte econômico da cultura antiga, com a organização do trabalho escravo constituindo a infraestrutura imprescindível da sociedade romana (WEBER, 1989, p. 44).

Essa dependência cada vez mais absoluta do trabalho escravo trouxe implicações para o funcionamento regular da economia. 

Uma economia baseada em escravos, era uma economia dependente de grandes quantidades de escravos, que eram tomados pelo Império através das guerras de conquistas. A suspensão da guerra de conquista no Reno por Tibério, reduziu o aprovisionamento regular do mercado de escravos, o que, ainda sob Tibério, levou à uma aguda crise de mão de obra (WEBER, 1989, p. 46).

Esse processo levará a uma série de rearranjos institucionais no mundo romano. 

Com a crise de mão de obra, a impossibilidade de que a produção progredisse com base nos quartéis de escravos (devido as dificuldades de reposição de homens, agora sem guerras de conquistas), se operará mudanças na situação dos escravos que viviam nas grandes empresas rurais. 

Eles continuarão submetidos ao poderia ilimitado do senhor sobre sua força de trabalho. Contudo, Weber observa que algo mudou radicalmente.

"Encontramos os escravos romanos vivendo no quartel 'comunista'; mas os servos da época carolíngia vivem nos “casarios” (mansus servilis), em terra cedida pelo senhor, como pequenos lavradores sujeitos à prestação pessoal nas glebas. O servo foi devolvido para a família, e com a família se apresenta, paralelamente, a propriedade pessoal. Esta dispersão dos escravos fora do 'oikos' aconteceu nos últimos tempos de Roma; e, com efeito, essa tinha que ser a consequência do decrescente auto-repovoamento do quartel de escravos" (WEBER, 1989, p. 47).

Weber está a observar a passagem do escravo para o vassalo, a restituição da família e da propriedade a estes homens, e que isso tinha um desdobramento sobre a questão da crise aguda de mão de obra, pois o trabalho na terra colocava um mínimo de autonomia na vida do vassalo, permitindo a reprodução da força de trabalho e a liberação do senhor das contingências de manutenção do escravo.

Para Weber essa foi uma evolução lenta, segura e profunda, um forte processo de transformação, principalmente, nas camadas mais inferiores da sociedade (WEBER, 1989, p. 48).

Ele ofereceu a base da articulação estamental que começava substituir a oposição entre livre e escravo

É a soma dessas articulações complexas como 1) a passagem da urbes para o campo, 2) do trabalho escravo para a vassalagem, 3) do comércio urbano para a economia rural, que vão desencadear o declínio do Império Romano rumo o desenvolvimento da sociedade feudal. 

É nesse sentido que Weber pode afirmar que “o desenvolvimento da sociedade feudal estava já no ar do Império Romano tardio” (WEBER, 1989, p. 50).

A própria configuração do Estado vai se alterando nesse complexo de mudanças, onde a  política financeira do Estado sofre grande impacto. 

O Império vai deixando de ser um conglomerado de cidades que exploram o campo para se converter num Estado que tentava incorporar e organizar as regiões interioranas que viviam de sua própria economia natural.

Os principais gastos do Estado (burocracia e exército) encontram limites no marcos do crescimento de uma estrutura social que dependia cada vez mais da dinâmica da economia natural. 

Assim, a possibilidade de cobrar impostos em dinheiro no contexto de uma economia natural ia se perdendo. 

Entra em processo de decadência a cidade, o comércio e os fatores que estavam relacionados intimamente com o tempo em que a cidade era o centro gravitacional da vida romana (WEBER, 1989, p. 52-53).

Para o jovem que estava no exército, era mais vantajoso se transformar em colono e fugir da decadência da cidade. Isso implicou mudanças profundas no recrutamento militar que tiveram consequências sobre a própria estrutura que viria a assumir o exército.

O recrutamento militar no distrito de sua residência foi, para Weber, “o primeiro prenúncio da desagregação do Império” (WEBER, 1981, p. 53-54). 

Contudo, agora o exército ganhava capacidade de auto-geração, sai o soldado celibatário, entra em cena o soldado profissional por herança que vivia em regime de matrimônio militar e também o recrutado entre os bárbaros lavradores.

Todo esse processo de fragmentação do antigo exército imperial de propensão universal, vai cedendo espaço para o exército do tipo comum no feudalismo, marcado por forte localismo, ligado a figura do rei. 

Este exército auto-provedor vai convertendo-se em exército de cavaleiros, na prática uma milícia de senhores de terras (WEBER, 1989, P. 55-56).

Em resumo, esse intenso processo de mudanças, possui fatores complexos que criam uma poderosa teia de nexos causais entre o desaparecimento da cidade litorânea, enquanto centro gravitacional da vida romana, à estruturação de uma sociedade rural e interiorana centrada em si mesma, que propicia a transformação da cultura antiga em cultura camponesa

Soma-se a isso, o declínio do comércio e a ascensão da economia natural, com a família e a propriedade sendo oferrtada a massa de servos, que deixavam de ser instrumentos falantes (escravos) para adquirirem condição de homem, onde o cristianismo cercou sua vida familiar de fortes garantias morais.

Em traços gerais, a narrativa weberiana da derrocada do Império e da cultura antiga se baseia numa multicausalidade de fatores que incidiram e se combinaram entre si de forma complexa e articulada.

Mesmo fazendo uso corrente das expressões marxianas de infra e superestrutura, Weber as opera de maneira diversa da de Karl Marx. 

Se em Marx a infraestrutura econômica determina de maneira unicausal toda a superestrutura (sendo esta apenas um reflexo da economia), a análise de Weber aponta para a relação entre super e infra-estrutura, onde ambas se cruzam, não havendo uma super-determinação de uma sobre a outra, mas uma complexa e multicausal relação.

Raphael Cruz


Referências

WEBER, Max. As causas sociais do declínio da cultura antiga. In: Weber, Coleção Grandes Cientistas Sociais. São Paulo, Editora Ática, 1989.

Observação: esta postagem foi revisada em 15 de outubro de 2022.

Weber e o desenvolvimento do capitalismo

Max Weber (1864-1920)


Para Weber, o capitalismo existe a partir do momento em que as satisfações das necessidades de um grupo humano se realiza a partir de um caráter lucrativo e por meio de empresas, onde uma exploração racionalmente capitalista é operada por empresa lucrativa que controla sua rentabilidade na ordem administrativa por meio da contabilidade moderna, estabelecendo um balanço (WEBER, 2010, p. 257).

Assim, o elemento constitutivo da exploração capitalista é o seu caráter racional (burocrático) com vista ao lucro, “orientada de tal maneira que, se imaginarmos eliminada esta classe de organização, fica em suspenso a satisfação das necessidades” (WEBER, 2010, p. 258).

Os fatores, ou condições prévias da exploração capitalista, são as seguintes:

“Apropriação dos meios concretos de produção por parte do empresário, liberdade de mercado, técnica racional, direito racional, trabalho livre e, finalmente, especulação, que assume importância a partir do momento em que a riqueza pose ser expressa por meio de valores transferíveis” (WEBER, 2010, p. 265).

Weber identifica: 

1) a apropriação ou monopólio (como diria Marx) dos meios de produção, separando o trabalhador dos meios de trabalho, rompendo de cima a baixo a imagem pré-Revolução Industrial do antigo artesão em sua oficina. 

2) A figura do empresário é o contraponto do trabalhador. É o empresário que agencia os valores dessa nova mentalidade racional da produção com vistas ao lucro. 

3) A técnica racional, visando diminuir os preços, impulsionando a concorrência, dando início a corrida a busca por inventos ainda no século XVII. 

4) A produção racional precisa como suporte de um direito racional. 

5) O trabalho livre formado pelos assalariados. 

6) Por fim, tem-se a especulação, isso quer dizer, a expressão da riqueza por meio de valores transferíveis, onde a figura institucional dos bancos são o suporte necessário desse tipo de ação.

Weber (2010, p. 330) nota que,

“Decisivamente, o capitalismo surgiu através da empresa permanente e racional, da contabilidade racional, da técnica racional e do direito racional. A tudo isto se deve ainda adicionar a ideologia racional, a racionalização da vida, a ética racional na economia”.

Essa ética racional e racionalização da vida se deve em parte aos efeitos da Reforma Luterana, “onde não se prega a pobreza, mas a posse da riqueza não deve induzir a um gozo puramente animal” (WEBER, 2010, p. 330), propiciando que “as personalidades rigidamente religiosas que se haviam enclausurado, tivessem que trabalhar dentro do mundo comum” (WEBER, 2010, p. 330), fazendo com que a ascese ultraterrena fosse absolvida.

Foi somente no Ocidente que esses fatores de ordem cultural, política, econômica, geográfica se imbricaram de tal forma que se condensaram na forma do capitalismo moderno com seu centro de gravitação sobre os processo de racionalização da produção e exploração com vistas ao lucro. 

Weber afirma que “o desenvolvimento da sociedade feudal estava já no ar do Império Romano tardio” (WEBER, 1989, p. 50). Assim, podemos também dizer que a sociedade capitalista já estava impregnando o ar do feudalismo a partir do desenvolvimento do mercantilismo.

Para Weber, o mercantilismo é “a transferência do interesse do lucro capitalista para a política. O Estado procede como se tivesse única e exclusivamente formado por empresários capitalistas” (WEBER, 2010, p. 315). 

Foi a partir dai  (do mercantilismo) que encontramos uma poderosa articulação entre Estado e capital, nos dizeres de Weber, uma “aliança do Estado com os interesses capitalistas” (WEBER, 2010, p. 317).

Assim, temos em Weber uma série de fatores típicos da história do Ocidente que começam a se desenvolver no interior do feudalismo que vão se condensando até atingirem a forma do mercantilismo que preparou o terreno para a superação do feudalismo pelo sistema capitalista.

Raphael Cruz


Referências

WEBER, Max. Origem do capitalismo. In: WEBER, Max. História geral da economia. Cap IV. São Paulo: Centauro, 2010.


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