Augustin Souchy e a coletivização agrária na Espanha insurgente

Augustin Souchy (1892-1984)

Augustin Souchy foi testemunha dos processos revolucionários do século XX em suas diversas geografias, da Rússia de 1917 a Cuba de 1959.

Anarquista e sindicalista, esteve profundamente envolvido e atento aos avanços, retrocessos e dramas da luta de classes global, tendo ocupado funções na reconstrução da Associação Internacional dos Trabalhadores em 1922, e como responsável pelas relações internacionais da Confederação Nacional do Trabalho, no período da Guerra Civil Espanhola. 

Augustin foi, inclusive, convidado por Fidel Castro (1926-2026) e a então recém-criada direção revolucionária para observar e relatar sobre as transformações no país, particularmente no campo da reforma agrária, uma área em que ele tinha grande interesse.

No texto abaixo, Souchy baseado em suas observações in loco da vida agrária insurgente, relata o funcionamento das coletividades rurais dirigidas pela CNT.

Segundo o autor, os camponeses chegaram por si mesmos à conclusões libertárias sobre a solução da questão agrária, embora pareça um tanto improvável que isso tenha acontecido sem alguma influência política da CNT.

Para Augustin Souchy, as coletividades industriais e agrárias praticadas na Espanha insurgente dos anos 1930, e abortadas pela vitória da reação fascista na guerra civil, ofertaram a possibilidade de um sistema econômico alternativo, uma terceira via entre o capitalismo privado e o capitalismo de estado que, infelizmente, não prosperou naquele contexto.

Raphael Cruz

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A coletivização foi também introduzida nas propriedades dos latifundiários. Tornou-se prática comum que os trabalhadores agrícolas assumissem o controle das vastas propriedades dos "Grandes" (equivalentes aos senhores feudais prussianos) que haviam se aliado a Franco. De maior importância social e revolucionária foi o fato de que os pequenos proprietários (camponeses), conscientes da nova ordem, se unissem voluntariamente em coletividades e cultivassem a terra junto com outros pequenos proprietários. Eles renunciaram aos seus títulos de propriedade e declararam que toda a terra era de propriedade comum.

Os produtos eram adquiridos pelo município, e os lucros distribuídos equitativamente de acordo com as necessidades de cada um. Tratava-se de algo sem precedentes, um experimento nunca antes tentado, nem durante a Revolução Mexicana de 1910, nem durante a Revolução Russa de 1917. Foi uma reforma agrária de tipo singular, realizada sem força, leis, ordens superiores ou qualquer base ideológica, inteiramente por iniciativa da população rural.

Era a "Revolução Social", o sonho da minha juventude tornado realidade. Decidi examinar no local a nova economia coletiva. Das mais de 1.000 coletividades fundadas até o final de 1936/37, visitei cerca de cem na Catalunha, Aragão, Levante, Múrcia, Castela Velha e nas áreas da Andaluzia ainda controladas pela República. Não havia um plano unificado de coletivização para todo o país. Os fundadores desconheciam as teorias de Marx e Bakunin.

O slogan "Comunismo Libertário" era ouvido por toda parte; cada vila organizava sua comuna libertária à sua maneira. Na vila aragonesa de Muniesa, por exemplo, a terra de todos os habitantes era cultivada em comum. Os produtos, incluindo o vinho e a carne dos animais abatidos, eram entregues à administração da comunidade para armazenamento.

Todos podiam levar o que precisassem sem pagar por isso. Para bens de consumo que não eram produzidos localmente, era necessário pagar. Cada adulto recebia uma peseta por dia, e cada criança, meia peseta. Perguntei: "Isso não leva ao abuso, já que todos podem pegar o vinho que quiserem?" *"Aqui ninguém se embriaga; todos se conhecem; somos como uma grande família".* Este era o anarquismo comunista descrito por Kropotkin.

Na vila catalã de Valls, o coletivismo foi introduzido como um teste, de colheita em colheita. Quem ingressava na coletividade colocava suas terras, gado, ferramentas e máquinas à disposição da comuna. Em troca, recebia uma compensação estipulada em reuniões dos coletivistas. A renda monetária era distribuída em partes iguais. Com o dinheiro recebido, os coletivistas podiam fazer todas as suas compras em lojas de propriedade coletiva. Se um membro decidisse sair após uma colheita, suas terras e meios de produção eram devolvidos.

Como ninguém era obrigado a se unir a um coletivo, em muitas vilas havia os chamados "individualistas". O médico da vila coletiva aragonesa de Albalate de la Cinca recebia comida, roupas e qualquer outra coisa que precisasse gratuitamente. Se quisesse ir à cidade, a administração fornecia a passagem e também concedia um subsídio para a compra de livros e instrumentos profissionais. Durante a coletivização da vila de Membrilla, a soma de 30.000 pesetas que estava no caixa do município foi distribuída em quantias iguais entre os habitantes antes de ser implementada a impecável economia comunal. Embora a iniciativa tivesse partido dos anarco-sindicalistas, houve muitos casos em que membros do sindicato socialista UGT (União Geral dos Trabalhadores) participaram do trabalho comunal.

Minhas impressões sobre a comunidade de coletivos foram positivas, mas, como em todos os experimentos humanos, havia algumas deficiências. No entanto, os esforços comuns voluntários aumentaram a produtividade e elevaram o padrão de vida. As injustiças sociais foram eliminadas. Assim, simples camponeses tornaram realidade os principais postulados do socialismo: justiça social e liberdade. E fizeram isso sem legislações de uma autoridade superior, sem objetivos estabelecidos por uma comissão de planejamento e sem um "período de transição"; apenas por um senso de consciência comunitária.

Referência

SOUCHY, Augustin. 1936-1939: La Revolución Española, cuidado anarquista, una vida para la libertad. 1982. Disponível em: <https://libertamen.wordpress.com/2023/06/26/1936-1939-la-revolucion-espanola-cuidado-anarquista-una-vida-para-la-libertad-1982-augustin-souchy/>. Acesso em: 19 jan. 2025.  

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