Anarquismo e questão agrária em Cuba


A minha pesquisa sobre a relação entre anarquismo e questão agrária possui quatro grandes linhas geográficas: 1. Brasil; 2. América Latina; 3. Leste Europeu; 4. Europa Central.

Nesta semana, estava folheando o livro O homem e a terra no Brasil, do memorialista Edgar Rodrigues (2001). O autor busca refletir sobre a questão agrária, ainda que não utilize sistematicamente este termo, e sobre a condição do campesinato no Brasil. Embora o recorte geográfico da obra, como afirma o título, seja o Brasil, Rodrigues não se furta a identificar experiências agenciadas por anarquistas em outras localidades.

Na página 218, ele comenta, em um único parágrafo, sobre o Comitê Agrário de Morón e a Federación Agrária de Camagüey, que tentaram, nos campos de La Calabaza, Término Municipal de Sagua de Tánamo, "cultivar a terra e viver coletivamente antes de Batista e F. Castro" (Rodrigues, 2001). A procura por esse comitê e federação me levou ao livro Anarquismo em Cuba, de Frank Fernández.

Este autor nos conta que, em 1947, sob as tensões da Guerra Fria e pressões dos EUA, o presidente de corte socialdemocrata Ramón Grau San Martín, do Partido Revolucionário Cubano Autêntico, expulsou os stalinistas da hierarquia da Confederação de Trabalhadores de Cuba, evidenciando a influência do Departamento de Estado norte-americano sobre Cuba.

Nesse contexto, os anarcossindicalistas conquistaram prestígio e liderança em sindicatos de diversos setores e organizaram as Associações Camponesas para apoiar trabalhadores rurais sem terra, especialmente em Camagüey e Oriente, onde coletividades agrícolas livres já existiam. Paralelamente, ocorreu um renascimento libertário com publicações da Federación de Juventudes Libertarias de Cuba e da CNT espanhola em Havana. A expulsão dos stalinistas possibilitou eleições sindicais livres, resultando na eleição de anarcossindicalistas em sindicatos-chave.

Algumas informações interessantes se destacam para a minha pesquisa: 1) os anarquistas de Cuba possuíam presença no movimento sindical da ilha nos anos 1940; 2) essa presença não se restringia ao setor urbano do movimento, como parece ter sido o caso dos anarquistas no Brasil até esse mesmo período. Outros pontos de interesse geral para os estudos anarquistas latino-americanos são que 3) esses camaradas cubanos souberam aproveitar a janela política aberta pelo governo ao destituir a burocracia stalinista, o que demonstra algo de sagacidade e leitura atenta da conjuntura; 4) havia uma sólida comunicação entre os cubanos e os espanhóis da CNT, mesmo no período em que a organização sindicalista espanhola vivia a experiência do franquismo internamente e, externamente, a do exílio político. Talvez o idioma em comum torne compreensível esse bom relacionamento, ainda que não o explique totalmente.

Esses achados sobre a relação sindical entre os anarquistas cubanos e as associações camponesas da ilha podem consubstanciar uma pesquisa mais profunda e, quem sabe, produzir um capítulo dedicado a Cuba num futuro livro sobre anarquismo e questão agrária na América Latine e Caribe.

Raphael Cruz


Imagem: Participantes do II Congresso Libertário de Cuba, 21 a 24 de fevereiro de 1948.





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