A melhor aquisição desse ano foi uma edição espanhola de A capacidade política da classe trabalhadora, o testamento político de Proudhon, datada de 1869 e com tradução de Pi Y Margall.
O exemplar foi possivelmente restaurado, pois está em ótimas condições, e possui uma dedicatória realizada em 1959.
Existe uma tradução parcial em português da obra pela editora Intermezzo.
As raízes dos projetos societários do anarquismo e do sindicalismo revolucionário estão aí esboçadas.
Particularmente na proposta de que a classe trabalhadora possui as condições para autogerir a economia e, assim, reinventar a política através do federalismo, por fora e contra qualquer tutela capitalista ou burocrática.
Proudhon nomeou isso, antes de trotskistas e maoístas utilizarem estes termos, de "democracia operária" ou "nova democracia", assentada na força coletiva dos produtores, organizada por um direito econômico e político comutativos e sinalagmáticos.
Um olhar sociológico atento também encontra aí as raízes da discussão sobre a autoprodução do social e da reciprocidade, temas estes que tanto fizeram as cabeças de Émile Durkheim e Marcel Mauss em suas críticas ao utilitarismo nas ciências sociais.
Lembrando que os durkheimianos foram leitores e comentadores de Proudhon.
Enfim, obra com desdobramentos frutíferos e longevos no socialismo e na sociologia, contudo, permanece quase desconhecida na esquerda e na academia de nosso país.
