A questão agrária no anarquismo russo-ucraniano


Lendo as memórias de Makhno, é possível perceber que na Makhnovitchina foi preservada a posse familiar da terra.

Essa preservação desempenha um papel crucial para a reprodução camponesa enquanto camponês propriamente dito, e não como um operário agrícola.

Maximoff, que se identificava como sindicalista revolucionário/anarcossindicalista, defendeu, em 1927, a "comunização imediata" da terra, propondo o fim imediato da posse familiar camponesa.

Em sua crítica à Plataforma da União Geral dos Anarquistas, elaborada por Makhno, Arshinov e Mett, destacou sua oposição à manutenção da posse familiar.

Contudo, em 1932, após observar os efeitos da coletivização forçada na URSS (1929-1931), Maximoff revisou sua posição sobre a "comunização imediata", aproximando-se da visão plataformista que havia anteriormente criticado.

Para Proudhon, Bakunin, os plataformistas originais e na experiência concreta da Makhnovitchina, a posse familiar camponesa não tinha o mesmo significado que no marxismo e, aparentemente, também no sindicalismo revolucionário/anarcossindicalismo russo do período, como exemplifica o caso de Maximoff.

Esse é um debate instigante, que tenho estudado e pretendo explorar em um artigo futuro.


Raphael Cruz

Há 10 anos, uma memória de estudante


No sumário da minha edição de O Capital, de Karl Marx, encontrei este registro: 16/02/2014 - 14h Abraão. Era o dia em que Abraão Sampaio apresentou o capítulo 1, seção I do Livro I, para o nosso grupo de estudos.

Reuníamos estudantes e trabalhadores, como David Montenegro, aos domingos, na sede do Sindicato dos Servidores do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará, no bairro Benfica, em Fortaleza. Um momento de troca, aprendizado e reflexão coletiva que deixou marcas.

Estudar Marx em um espaço de luta como esse proporcionava uma atmosfera intelectual singular.

Marx, Proudhon e a força coletiva no 11º capítulo de O Capital

Pierre-Joseph Proudhon e Karl Marx

No 11º capítulo do Livro I de O Capital, Karl Marx analisa a cooperação, um aspecto central para entender as dinâmicas do trabalho coletivo. 

Nesse trecho, é perceptível a influência da noção de força coletiva desenvolvida por Pierre-Joseph Proudhon. Contudo, Marx reelabora a nomenclatura, denominando a noção proudhoniana de "força de massas" e integrando-a em sua crítica às relações sociais do capitalismo.

No original alemão, conforme a edição da MEGA (1987), o termo utilizado é "Massenkraft". Na edição brasileira da Boitempo (2013), foi traduzido como "força de massas". Na versão inglesa da Progress Publishers (1999), optou-se por "the collective power of masses". Já nas traduções francesas, há variações significativas: a Quadrige/PUF (1993) adota "force d'une masse", enquanto a Éditions Sociales (1950) prefere "force collective".

Essas diferenças de tradução destacam nuances importantes, mas todas remetem à ideia de um poder que surge da cooperação humana no processo de trabalho.

Mais do que indicar uma proximidade conceitual, nesse capítulo, fica evidente que Marx leu, compreendeu e incorporou a noção de força coletiva apresentada por Proudhon para moldar sua crítica ao capitalismo industrial e ao seu processo de trabalho.


Raphael Cruz

Envelhecer

 Chega um momento na vida em que deixamos de envelhecer socialmente, não porque a morte física nos alcança, mas por estarmos a tanto tempo sendo velhos que deixamos de nos tornar mais velhos.

Trabalho, guerra e revolução: As comunas agrárias makhnovistas

O que sabemos sobre as “comunas agrárias” implantadas pela Makhnovitchina?  Em suas memórias, Nestor Makhno (1988) descreve algo de sua orga...