Anarquismo e campesinato no Brasil, parte 2 - A miséria da condição camponesa em São Paulo

A Plebe, nova fase, Ano III, n. 81, p. 1
Disponível em 
Marxists Internet Archive


 Na busca por indícios da relação dos anarquistas no Brasil com o campesinato e a questão agrária, encontrei denúncias sobre a miséria da condição camponesa no interior paulista.

O texto foi publicado na edição de 2 de fevereiro de 1935, no periódico A Plebe. Relata situações vividas em Presidente Venceslau e Santa Ernestina, cidades do interior paulista. O fato dessas denúncias estarem direcionadas a um "periódico libertário", como A Plebe se autodefinia, sugere que a imprensa anarquista dos anos 1930 era percebida como um lugar apropriado de denúncia da condição miserável do campesinato pelos próprios denunciantes. Isso é importante destacar porque indica que o urbanocentrismo dos agrupamentos anarquistas no Brasil era relativamente contornável. 

Tais denúncias eram realizadas por meio de cartas ao periódico. Na primeira delas, há a identificação das relações de classe no campo em Presidente Venceslau. Menciona-se as posições sociais de fazendeiro, capataz, colono e agregado, assim como o reconhecimento do estatuto social do camponês como inferior ao de um animal. Destaca-se que mesmo sendo uma relação de trabalho organizada por um contrato, a existência deste, não assegurava que o patrão cumprisse a sua parte, a de retribuir financeiramente pelo trabalho executado pelo camponês.

Evidencia que naquele contexto, o ano de 1935, era possível um trabalhador denunciar a falta de reciprocidade contratual do patrão a um terceiro ente, no caso, o Patrona Agrícola. Existia, assim, um método para tratar dessas situações, com técnicos que se dirigiam até ao local da denúncia. Contudo, mesmo com a visita técnica, que concluiu dando razão ao trabalhador, havia morosidade no ressarcimento dos direitos do camponês.

A segunda denúncia refere-se a miséria da condição camponesa em Santa Ernestina, possuindo apenas dois pequenos parágrafos.

Ainda que no artigo tenham sido realizadas as queixas, não se fez nenhuma exigência, nem foi traçada uma estratégia de combate a tal situação miserável do campesinato do interior paulista. O que sugere, do meu ponto de vista, que ainda que houvesse a receptividade de tais protestos por parte do periódico, não havia uma estratégia política explícita dos libertários para tratar do que era denunciado. 

Raphael Cruz  


Anexo

Observação: foi mantida a ortografia da época na transcrição do texto

A odisséa dos camponeses no interior do Estado

É revoltante, é infame a situação de miséria em que se aniquilam as famílias dos colonos, nas fazendas de café

Se dispusessemos de um jornal diario, com espaço bastante para registrarmos todos os gritos de revolta, de dor e de miseria, de opilação e de fome que nos chegam às mãos através de cartas rusticas escritas com sacrificio e com esforço por trabalhadores do campo, causaria pavor aos leitores de "A Plebe", por muito em contacto que estejam sempre com a miseria por sua existencia de proletarios, a descrição da vida de privações que transparece nas queixas sinceras, rusticas mas verdadeira dos colonos que nas fazendas do interior arrastam as suas carcassas escravizadas e famintas.

O facto que vamos reproduzir constitúe, por assim dizer, o nivel de vide nesses fêudos onde capatases deshumanos e fazendeiros escravagistas ten em menos conta a vida dos seus colonos e agregados do que a de um cachorro de caça ou de um "lúlú" das suas amantes.

Em Presidente Wenceslau, conta uma carta que de lá nos chega, um colono fez com um fazendeiro um contrato para a plantação de 11.000 pés de café, contrato esse passado em cartorio e devidamente registado.

Estando já o café formado, e pretendendo receber a importancia consignada no contrato, o colono esbarrou com a má vontade do fazendeiro em pagar essa importancia.

Sentindo-se com o direito de receber o produto de 4 anos de trabalho, tendo compromissos assumidos duran-te esse tempo para o sustento de sua família, recorreu ao Patronato Agrícola, que mandou técnicos para ver o serviço, achando-o em perfeita ordem. mas... até agora, e isto já ha 4 mêses, nada do pobre colono receber o seu dinheiro...

***

Uma outra carta, vinda de Santa Ernestina, nos conta em termos reais o que é a vida do camponės naquela zona:

"A situação vai indo de mal a pior. Ainda se encontram muitas pesssoas esfarrapadas, descalças e com fome. Além disto, ainda ha muitos doentes que não teem possibilidades para se tratar, pois o salario de um trabalhador não esta dando nem para a comida. Estes são os beneficios da burguesia.

***

Como se vé, é um clamor de miseria que se levanta por toda a parte, queixumes proletarios que morrem no vacuo das encruzilhadas de um regime que se caracteriza pela estupidez, pelo odio, pela desrespeito à vida dos que todo produzem e nada teem.



Anarquismo e campesinato no Brasil: o Grupo Libertário Sacco e Vanzetti

Título do anúncio da formação do Grupo Libertário Sacco e Vanzetti, em A Plebe, nova fase, Ano III, n. 81, p. 2 Disponível em Marxists Internet Archive
 

No dia 20 de agosto de 2023, meu amigo Alexandre enviou-me um recorte do jornal paulista A Plebe, do ano de 1935. Nele constava o anúncio de fundação de um grupo anarquista na cidade de Teresina, Piauí. O mesmo foi nomeado de Grupo Libertário Sacco e Vanzetti, referência aos anarquistas ítalo-americanos executados pelo Estado, na cadeira elétrica, em 23 de agosto de 1927, nos Estados Unidos da América.

O que mais me tomou a atenção, em tal anúncio, assinado por alguém chamado de J. Neves, foi o projeto do grupo em realizar o que eles chamaram de "excursões" ao interior do Estado, "especialmente às regiões camponesas", aonde levariam a "doutrina anarquista". Isso porque um enfoque doutrinário direcionado ao campesinato era a exceção nos agrupamentos anarquistas existentes no Brasil durante todo o século XX. 

É raro encontrar na imprensa ácrata do século passado, alguma informação substancial sobre a ida de anarquistas brasileiros ao campesinato para realizar agitação, propaganda ou até mesmo impulsionar a organização sindical rural. Escassas, mas não inexistentes, são as menções sobre a questão agrária e a condição camponesa no Brasil.  

Nesse sentido, esse recorte enviado a mim provocou uma dupla surpresa. A primeira, que existiu um agrupamento anarquista em Teresina durante a Era Vargas. A segunda surpresa foi que a sua intervenção estava orientada para o segmento social do campesinato piauiense, o que me fez pensar que esses camaradas buscavam uma ação condizente com o contexto socioeconômico em que se encontravam. Não passou despercebido para mim que isso, de alguma maneira, contornava o urbanocentrismo de grupos anarquistas das regiões sul e sudeste do Brasil. Posso ainda evocar uma terceira surpresa, a da vocação internacionalista desse agrupamento piauiense, intitulando-se com os nomes de dois mártires da classe trabalhadora mundial. 


Cabeçalho da edição de A Plebe onde se encontra o anúncio de formação do Grupo Libertário Sacco e Vanzetti

Voltando ao anúncio, é mencionada uma sede provisória, contudo, sem número, localizada na rua Campos Sales, que, atualmente, é uma das avenidas da cidade de Teresina.

Uma imensa curiosidade instalou-se em mim após o contato com esse recorte de jornal, de 88 anos. Quem foram esses camaradas? A essa altura, todos mortos. Quais os seus nomes, profissões, onde residiam? Que ações almejavam realizar entre o campesinato piauiense? Quanto tempo durou o grupo? Que cidades chegaram a visitar? Se é que iniciaram as suas "excursões". Que concepção política possuíam a respeito do campesinato? Perguntas essas as quais a atual disponibilidade de documentos não permite responder objetivamente, apenas imaginar.  


Raphael Cruz


Anexo

Anúncio da formação do Grupo Libertário Sacco e Vanzetti, em A Plebe, nova fase, Ano III, n. 81, p. 2 Disponível em Marxists Internet Archive

Introdução ao anarquismo


Fui convidado pelo Grupo de Estudos do Anarquismo, de Fortaleza, Ceará, para realizar uma apresentação do anarquismo. A atividade será no Centro de Humanidades 3, da Universidade Federal do Ceará. Abordarei o anarquismo desde uma perspectiva histórica em oposição ao modo anistórico que, geralmente, fala-se sobre ele. Apresentarei as origens, desenvolvimento e principais debates ocorridos durante a história desta corrente política socialista e antiestatista. Pedi a organização do evento que solicitasse aos membros recorrentes do grupo, dúvidas que possuem sobre o anarquismo. Até o momento, chegaram até mim, duas questões: o anarquismo no nordeste do Brasil, e a relação do anarquismo com a arte. Abordarei elas ao final de minha apresentação.

Raphael Cruz

Trabalho, guerra e revolução: As comunas agrárias makhnovistas

O que sabemos sobre as “comunas agrárias” implantadas pela Makhnovitchina?  Em suas memórias, Nestor Makhno (1988) descreve algo de sua orga...