Nota 39: Capitalismo e América Latina

Se você lê Karl Marx, aprenderá a lógica geral de funcionamento do capitalismo. Se lê David Harvey, Nancy Fraser ou Mark Fisher aprenderá algo de sua faceta atual. Porém, estas são análises eurocentradas. Para entender a particularidade do capitalismo na América Latina, o livro de Vania Bambirra, Capitalismo dependente latino-americano, é fundamental.

Raphael Cruz

Nota 38: Chuva no sertão

No sertão, a chuva não é apenas um fenômeno da natureza, mas um evento social cheio de significado cultural. É algo que quebra a "rotina climática" costumeira e faz a pessoa parar e observar o "tempo", conversar sobre ele com um vizinho, reagendar tarefas, mandar uma mensagem com foto ou vídeo da chuva para parente que se encontra distante. Tudo isso porque a chuva é a exceção e não a regra do cotidiano socioecológico do sertanejo. É um fenômeno fantástico, nesse sentido da excepcionalidade.

Raphael Cruz

Nota 37: Capitalismo e moral

O caso da empresa Braskem, que afundou um bairro residencial na cidade de Maceió, estado de Alagoas, por meio de sua atividade mineradora,  expressa como capitalistas tendem a suspender limites morais para a acumulação de capital. Acumulação por amoralização!

Raphael Cruz

Outro pensar o Brasil é possível


Antonio Bispo dos Santos (1959-2023)

O recente falecimento de Antonio Bispo dos Santos, mais conhecido como Nego Bispo, me fez questionar sobre a ausência de pensadores quilombolas, indígenas e operários nas ementas da disciplina de "pensamento social brasileiro", lecionada na graduação e pós-graduação em Ciências Sociais no Brasil.

Esta disciplina acadêmica multiplicaria os entendimentos possíveis sobre o país se incorporasse de maneira sistemática autores como Davi Kopenawa, Ailton Krenak, o mencionado Nego Bispo, além de operários tais como Edgard Leuenroth e Florentino de Carvalho. Pensadores diversos étnico e culturalmente, mas cujas trajetórias foram marcadas pela subalternização no contexto político brasileiro.


Davi Kopenawa Ianomami (1956-)

Passei, então, a questionar: pode o subalterno interpretar o Brasil? Porém, conclui ser esta uma pergunta inapropriada, pois, de fato, ele já o interpretara.

A produção das ausências indígena, quilombola e operária nesta disciplina acadêmica, não diz respeito a falta de registro escrito dessas outras interpretações do Brasil, que se encontram publicadas e disponíveis em livrarias e bibliotecas, inclusive universitárias.


Edgard Leuenroth (1881-1968)

Esta ausência tem haver com o próprio funcionamento do campo acadêmico da sociologia da cultura. Regras implícitas de inclusão e exclusão de pensadores, estruturaram um cânone de autores, e este se tornou um parâmetro de quem pode ser elegível a categoria de intérprete do Brasil. A publicação de livros, artigos, teses e dissertações, assim como a realização de eventos acadêmicos sobre esses autores operam como mecanismos que contribuem para legitimar aquele cânone e garatir algumas das condições de sua reprodução no campo acadêmico.

A operação conjunta dessas regras de inclusão/exclusão e dos mecanismos de valorização e reprodução tornaram legitimável um modo de pensar o Brasil, aquele operado por sujeitos classificados como "intelectuais" pelos agentes que configuram o campo da sociologia da cultura.


Ailton Krenak (1953-)

Isso resultou, ao menos, numa dupla redução: a do pensamento social brasileiro a um tópico da sociologia dos intelectuais e a segunda redução é a do intérprete do Brasil ao intelectual, no sentido daquele cujo o estatuto social não deriva de um trabalho manual ou do pertencimento à um povo tradicional.

Como consequência, aquele que interpretou o Brasil, mas está aquém da classificação usualmente utilizada de intérprete como intelectual, não reune às condições para ser classificável como alguém que pensa o país.


Florentino de Carvalho (1883-1947)

Outro pensar o Brasil já está sendo e, de todo o modo, já o foi. O que não aconteceu, ainda, foi a transformação em questão sociológica da interpretação do Brasil realizada por sujeitos (auto)identificados como indígenas, quilombolas e operários 

Como essa interpretação já existe, não cabe questionar se pode o subalterno falar. O que resta, então, é fazer a pergunta apropriada: pode o pesquisador do pensamento social brasileiro ouvir a interpretação do subalterno?


Raphael Cruz

Nota 35: Década

Como terminará a década que começou com uma pandemia global?

Raphael Cruz

Leitura 10: pensar e praticar anarquia desde a negritude

 


1° leitura finalizada em 2024. Ainda que eu tenha críticas à definição e a periodização do anarquismo feitas por Bagby-Williams e Suekama, reconheço que os autores traçam uma didática história do anarquismo negro desde a origem até o desenvolvimento de suas duas ondas. Recomendo.

Raphael Cruz

Nota 34: Terral

Adoro a letra e a música de Terral, famosa na voz de Ednardo, mas convenhamos, não é uma canção sobre ser do Ceará, é sobre ser de Fortaleza.

Raphael Cruz

Leitura 9: Outra história humana é possível

 


O despertar de tudo, livro de Graeber e Wengrow, foi a minha última leitura de 2023, a mais volumosa e interessante daquele ano.

O livro é "uma nova história da humanidade", como informa o subtítulo, porque se propõe a contá-la de outra maneira e usando como base outras fontes, não mais os pressupostos filosóficos sem base empírica de Hobbes ou Rousseau, mas as descobertas arqueológicas e históricas dos últimos 30 anos, lembrando que o livro foi publicado originalmente em 2020.

Durante uma longa viagem de ônibus feita no final do ano de 2023, e com a leitura do livro ainda "fresca na cabeça", registrei no bloco de notas do celular 26 pontos sobre o que aprendi com este trabalho de Wengrow e Graeber, o resultado é algo como um fichamento e não uma resenha, que, de fato, pretendo escrever no futuro.

1. A história humana não é linear.

2. O esquema evolucionista (clã, tribo...) não corresponde a realidade histórica das sociedades humanas. É apenas um esquema e não uma realidade.

3. Os dados históricos, arqueológicos e etnográficos dos últimos 30 anos desconfirmam as narrativas tradicionais sobre as sociedades humanas, sejam essas narrativas de cariz hobbesiana ou rousseauniana.

4. Essas narrativas sobrevivem nas formas contemporâneas de contar a história da humanidade (Pinsky, Harari) e concluem pela inevitabilidade da criação de uma prisão autoritária e burocrática como o nosso destino.

5. Historiadores e cientistas sociais tendem a projetar a forma Estado, tal como experienciada no século XX, em sociedades que não eram estatais.

6. O Estado é uma forma política recente.

7. Existiram formas políticas igualitárias ao longo da história humana.

8. Essas formas igualitárias são encaradas como desvios, anomalias e por isso não são estudadas como fatos importantes.

9. Não existe inevitabilidade na história das sociedades humanas.

10. Os povos antigos eram criativos e experimentaram diferentes formas de organizar a sociedade.

11. Os pensadores iluministas da Europa foram influenciados pela crítica indígena da sociedade europeia.

12. Essa influência não costuma ser notada e comentada.

13. Os historiadores e cientistas sociais costumam achar boba a afirmação de que Rousseau e outros iluministas se inspiraram na crítica indígena.

14. A agricultura foi praticada, abandonada e retomada ao longo da história humana.

15. De modo que o argumento sobre o estabelecimento da agricultura não leva em conta a alternância entre adesão e afastamento das práticas agrícolas.

16. A combinação de agricultura, urbanidade e complexidade das relações sociais nem sempre levou a adoção de regimes autoritários de governo. Tendo havido sociedades igualitárias que eram agricultoras, urbanas, complexas e geridas por assembleias populares.

17. O Estado moderno é uma combinação de soberania, burocracia e política competitiva (e carismática).

18. Essa combinação moderna não é encontrada na história humana a não ser na modernidade.

19. O que existiu no passado das sociedades humanas foram regimes de governo que possuíam uma ou duas dessas características.

20. Os autores irão chamar regimes de primeira ordem, os que possuíam uma dessas características. Regimes de sugunda ordem, os que possuíam duas dessas características.

21. A essas três "formas elementares de dominação", os autores vão contrapor as três "formas elementares de liberdade".

22. As três formas elementares de liberdade são: a liberdade de ir e vir, a liberdade de desobedecer ordens e a liberdade de reorganizar as relações sociais.

23. A burocracia surgiu para lidar com processos de organização social de pequena escala, tinha uma função igualitária, e uma atenção às particularidades, algo contraintuitivo de se imaginar porque distante de seu atual significado cultural e função política.

24. Evidências arqueológicas indicam que existiu um intenso intercâmbio cultural, político e econômico entre as sociedades indígenas da América do Norte e da Mesoamérica, o que desfaz a imagem dessas sociedades como isoladas e avessas a complexas relações sociais.

25. Processos culturais de cismogênese foram corriqueiros em diversos períodos e lugares.

26. Existe toda uma história não devidamente contada de sociedades ao longo da história humana que foram governadas por mulheres.

Outros pontos interessantes que não tive como anotar durante a viagem, se referem a origem da desigualdade, do Estado, da guerra e da burocracia, sobre as sociedades matriarcais e seu apagamento nos modos de contar a história humana, sobre os reis, nem sempre absolutistas, e sobre o cuidado no desenvolvimento da dominação social.

Raphael Cruz

Trabalho, guerra e revolução: As comunas agrárias makhnovistas

O que sabemos sobre as “comunas agrárias” implantadas pela Makhnovitchina?  Em suas memórias, Nestor Makhno (1988) descreve algo de sua orga...