Nota 33: O íntimo e o estranho

Longas viagens de ônibus são um contexto social propício para estranhos interagirem e contarem suas vidas uns aos outros. Experiencia-se uma situação na qual há tempo ocioso, mas pouca coisa a fazer, que não seja conversar. O que é interessante para um sociólogo é a facilidade com que certas pessoas falam sobre suas biografias e as de seus parentes com pessoas que elas acabaram de conhecer. Ao nível da personalidade, isso implica uma disposição para a interação face a face, uma habilidade, biograficamente adquirida, para o diálogo, a conversa com quem não é íntimo ao nível da amizade ou do parentesco. Ao nível sociológico, isso denota que existe, em alguma medida, a produção social de uma espécie de "intimidade com estranhos" ou uma "estranhidade íntima",  a partir dessas interações efémeras entre pessoas que não se conheciam, tais como as que acontecem em viagens de ônibus. Penso que não conhecer o outro é convidativo para essas interações, pois compartilhar a própria intimidade ou a de parentes e amigos ou conhecidos com um estranho, alheio aos círculos de amizade e relações de parentesco, não põe em risco a privacidade, a integridade ou a reputação das pessoas cujas vidas são temas das conversas. O estranho possui, momentaneamente, uma espécie de combinação entre distanciamento social e próximidade física, que tende a ser como a de um psicanalista numa sessão de terapia, nessas situações de "confinanento" provisório como as longas viagens de ônibus. Uma dúvida é se esse é um fenômeno apenas nordestino, brasileiro ou universal.

Raphael Cruz

Nota 32: Rede para ler

Ler deitado numa rede é perigoso. Torna desconfortável a leitura em outros lugares.

Raphael Cruz

Nota 31: Historinhas antes de durmir

Adultos pensam que apenas as crianças gostam de ouvir "historinhas" antes de dormir. Contudo, nós, adultos, estamos o tempo todo a procura de ouvir histórias "antes de dormir" por meio de séries, filmes, podcasts e livros.

Raphael Cruz

Leitura 8: Parsonianismo soviético

Lendo um dicionário soviético de filosofia (1967), chama-me atenção o quanto o texto é condescendente com Parsons e crítico com Wright Mills. O sociólogo italiano Franco Ferrarotti já havia dito o quanto a burocracia soviética tinha se encantado com o estrutural-funcionalismo.

Nota 30: O céu e a terra

Nessa época de teologismo, é mais fácil imaginar o paraíso no céu do que o socialismo na terra.

Raphael Cruz

A problemática teoria da classe em Bookchin

Murray Bookchin (1921-2006)


O que acho interessante em Bookchin é a sua tese de que o problema ecológico é condicionado socialmente. Contudo sua teoria das classes sociais é fraca. 

Iain McKay notou que a concepção de classe trabalhadora de Bookchin é limitada ao operário industrial. Ao avaliar corretamente que esta fração estava integrada ao capitalismo fordista do pós-guerra, ele concluiu erroneamente que todo o proletariado havia perdido o potencial revolucionário.

Essa concepção teórica teve desdobramentos políticos. Como notou Wayne Price, Bookchin substituiu o proletariado pelo "cidadão". Isso o levou a estratégia política do municipalismo libertário como abandono do sindicalismo e do mundo do trabalho em geral, concentrando-se em assembleias populares e disputa eleitoral no nível municipal. Ao final de sua vida, rompeu com o anarquismo, concebendo o que chamou de comunalismo. 

Apesar disso, Bookchin continua sendo uma boa referência para pensar como as formas de organização social criam seus próprios problemas ecológicos. E que uma ecologia equilibrada é alcançada por meio de uma sociedade não hierárquica.

Raphael Cruz

Elogio aos estudos de comunidade



Tenho fascínio pelos estudos de comunidade, os quais representaram um esforço notável para transcender o ensaísmo nas ciências sociais. Até a década de 1970, foram publicados 24 desses estudos no Brasil, a maioria deles nos anos 1950.

Eles surgiram em uma época em que a sociologia e a antropologia convergiam na pesquisa empírica e na qual havia uma fertilização cruzada entre as teorias antropológicas e sociológicas.

Apesar de seus aspectos datados e pouco críticos, nos estudos de comunidade se realizavam modalidades de sociologia rural e ambiental avante la lettre. Eles são, hoje, fontes de dados históricos sobre práticas agroecológicas e organização territorial do campesinato e das comunidades tradicionais no período anterior à "revolução verde", à mecanização da agricultura e ao desenvolvimentismo dos governos militares sobre o campo.

Outra parte notável é a descrição etnográfica das relações de raça, classe e gênero que permeavam o mundo rural brasileiro. Notável porque levava a sério as formulações nativas sobre essas relações e as utilizava como esteio para a compreensão da subjetuvidade dos agentes e para a explicação da estrutura social das comunidades estudadas.

O meu derradeiro destaque sobre os estudos de comunidade é como neles se pode encontrar um valioso repertório de dicas e estratégias de pesquisa empírica para produzir dados sobre temas tão diversos quanto estratificação social e crenças sobrenaturais em comunidades rurais.

Raphael Cruz

Trabalho, guerra e revolução: As comunas agrárias makhnovistas

O que sabemos sobre as “comunas agrárias” implantadas pela Makhnovitchina?  Em suas memórias, Nestor Makhno (1988) descreve algo de sua orga...