520 anos de contrarrevolução e transresistência

Marc Ferrez. Menino Índio, c. 1880 Mato Grosso


Apresentação

Este texto foi originalmente pulicado no boletim Ideias Perigosas, de outubro de 2020, da editora Terra sem Amos.

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520 ANOS DE CONTRARREVOLUÇÃO E TRANSRESISTÊNCIA

E se o que chamamos de “Brasil” não fosse um “país”, mas um longo processo de contrarrevolução? Ou ainda uma contrarrevolução permanente que se cristalizou em forma de país. De modo que a sua história seria a história do aniquilamento cultural, político e militar das revoltas populares pelos agentes da dominação. Uma máquina de combate do tipo Hidra forjada na supressão das instituições e das subjetividades insurgentes.

Ao aniquilar, mas também ao cooptar o revoltado, os agentes dessa Hidra produziram um saber e um poder capazes de administrar a vida social, prevenir o motim, instalar a dominação no corpo e na alma. Mediante guerras, massacres e chacinas contra os civis, mas também a partir de uma educação para a obediência, a Hidra buscou fechar as brechas de autonomia popular e desacreditar as esperanças de uma vida melhor. Penso no assassinato de Mandu Ladino, na Balaiada, nos Malês, em Canudos e Contestado, nas Ligas Camponesas e na guerrilha do Araguaia, entre outros. É longa a lista de derrotas militares e políticas infligidas ao povo pela Hidra colonial, imperial, republicana, católica ou protestante, liberal, conservadora ou social-democrata, estatal e capitalista.

Essa contrarrevolução permanente foi elaborando o seu próprio Estado e o seu próprio capitalismo à medida que suprimia a vontade de autonomia do subalternizado, daqueles que buscaram criar bem-estar e liberdade contra o jugo do mando e da obediência. A Hidra organizou, a sua maneira, estratégias para impedir a democratização do poder, a socialização da economia, poderia nos dizer o bom Florestan Fernandes. Penso que seria importante reconstruir a história dessa contrarrevolução permanente, compreender como a Hidra infligiu derrotas a projetos populares revolucionários nos últimos 520 anos, identificar as táticas que proporcionaram consolidar uma democracia autocrática e um capitalismo dependente. Isso poderia ser sintetizado numa pergunta: como a Hidra vence os seus inimigos? Seria uma “história vista de baixo” sobre o que os seus agentes fazem “lá em cima”.

Florestan nos lembrou de que a atual cabeça burguesa da Hidra é bastante dividida e possui as suas frações arengueiras, mas soube construir alianças oportunistas quando os de baixo procuraram ir além do que permitia os cabrestos da colaboração, da cooptação e da tutela. É bem provável que uma Internacional Capitalista tenha antecedido a Internacional dos Trabalhadores.

O bom e sábio Bakunin indagava porque a minoritária burguesia vencia os trabalhadores numericamente maiores. Ele encontrou na qualidade a resposta para esse dilema que não se explicava pela quantidade. Para ele, o segredo da vitória da cabeça burguesa da Hidra estava na sua organização. É porque forjara um modelo de unidade, de prática de alianças, que a burguesia atinge uma sinergia que habilita a vencer os numerosos trabalhadores. Não foi por outro motivo que Bakunin somou esforços na construção dessa importante instituição popular que foi a Associação Internacional dos Trabalhadores, capaz de criar unidade econômica entre os oprimidos do mundo. Desde então, a subjetividade proletária não foi a mesma. Ela ecoou mundo afora e proporcionou os anseios de “one big union” dos wobblies.

O sábio Sun Tzu disse, “conheces o teu inimigo e conhece-te a ti mesmo”. Ao lado do conhecimento da contrarrevolução permanente seria necessário um conhecimento sobre as formas de resistir a Hidra ao longo do tempo. Poderíamos chegar a uma espécie de transresistência a partir da reconstrução de subjetividades e instituições ladinas, balaias, malês, camponesas e operárias, ponto de partida para pensar outra vida, outro mundo.

Raphael Cruz

Nota 29: Senhor dos Sertões

Se o filme do Senhor dos anéis se passasse num sertão mítico e fantástico, a trilha sonora seria Quinteto Armorial de cabo a rabo, particularmente o disco Do romance ao galope nordestino.

Raphael Cruz

Agrofuturismo: utopia camponesa e ficção científica na Revolução Russa

Alexander Chayanov (1888-1937)

APRESENTAÇÃO

Este texto foi publicado originalmente de forma impressa no boletim Ideias Perigosas, em julho de 2020, pela editora Terra sem Amos.

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AGROFUTURISMO: UTOPIA CAMPONESA E FICÇÃO CIENTÍFICA NA REVOLUÇÃO RUSSA

Em 1920, uma novela de título longo e autor desconhecido era publicada pela imprensa oficial do governo soviético. Tratava-se de Viagem de meu irmão Alexei ao país da utopia camponesa, de autoria de Ivan Kremnev. O misterioso escritor era, na verdade, Alexander Chayanov, um agrônomo e funcionário público.

Mais conhecido no Brasil por sua teoria da economia camponesa do que por sua criação literária, Chayanov elaborou na Viagem um futuro alternativo para a Revolução Russa de 1917. Nele, a sociedade pós-revolucionária baseou-se na valorização social e cultural do campo e não da cidade. Nesse contexto, a ação dos camponeses e seus partidos foram decisivas para os rumos da revolução. O protagonista da novela, Alexei, é um funcionário do governo que dormiu numa noite de 1921 e acordou em 1984.

Diferente do cânone ocidental da ficção científica, Viagem não é uma distopia, mas uma utopia. Não trata de um governo autoritário, de uma sociedade individualizada, de miséria econômica ou colapso ecológico. O campesinato criou um futuro de abundância através de uma economia cooperativa gerida por conselhos locais. Críticos acreditam que a obra serviu de inspiração para Orwell, mas permanece desconhecida até de leitores experientes de scifi. Viagem aproximava-se das aspirações do Partido Socialista Revolucionário e diferenciava-se da política de coletivização do campo proposta por Stalin. Isso porque Chayanov trabalhou sua matéria literária a partir daquela tradição russa de valorização do campesinato e do manejo comunal e familiar da terra como o ponto de partida para a organização não capitalista da sociedade.

Essa cosmologia política entrou para a história com o nome de narodnismo e antecedeu a chegada do marxismo à Rússia. O narodnismo não possuía as intenções industrialistas e europeizantes de mencheviques e bolcheviques. Seus teóricos almejavam um percurso histórico para a Rússia sem a necessidade de uma etapa capitalista para se atingir o socialismo. Traduzido, às vezes, no Brasil como "populismo russo", o narodnismo não tem  a ver com estadistas e liderança carismática, mas com o povo. Isso porque em russo a ideia de nação era pensada como um Povo-nação e não como um Estado-nação.

A novela teve uma tiragem de 20 mil exemplares e seu prefácio foi escrito por um alto diplomata soviético que justificou sua edição como um alerta sobre os “malefícios” do cooperativismo e a necessidade de uma “regeneração” moral do campesinato apegado à posse familiar da terra. As ideias expostas por Chayanov eram contrárias a política agrária de Stalin e em 1930, o autor foi preso, acusado de compor um antissoviético Partido Camponês dos Trabalhadores, que nunca existiu, e serviu apenas de pretexto para os expurgos stalinistas. Após anos de trabalho forçado no Cazaquistão, Chayanov foi fuzilado em 1937.

Como qualquer obra, Viagem não é impermeável a seu contexto cultural, presente na novela através da aceitação do patriarcalismo da tradição camponesa, e de certas aspirações eugenistas, hoje devidamente condenadas e que à época era aventada por intelectuais, inclusive socialistas. Contudo, Viagem é ainda um exercício de imaginação histórica, repleto de sarcasmo e cuja valorização do rural e do cooperativismo é bem-vindo num período de crise do capitalismo e colapso ambiental. Seu agrofuturismo contém não apenas uma crítica aos rumos da revolução na Rússia, mas um vislumbre de suas potencialidades não concretizadas e um chamamento a realizar outros mundos possíveis no século XXI, por “fora” do industrialismo e contra a modernidade capitalista.

Raphael Cruz

Nota 28: Eu passarinho, ela mundão

Rodoviária de São José do Piauí, 18 de outubro de 2023. Raphael Cruz


A estrada é por onde circula a força de trabalho para encontrar emprego, encontrar parente, encontrar sentido na vida. Eu passo, a estrada fica. Eu passarinho, ela mundão.

Raphael Cruz

O fascismo segundo Karl Polanyi

Karl Polanyi (1886-1964)

APRESENTAÇÃO

Este texto foi escrito como uma apresentação para o livreto intitulado Sobre o fascismo, lançado pela editora Terra sem Amos em março de 2020. A obra reuniu textos de Karl Polanyi sobre a ascensão do fascismo na Europa.

Raphael Cruz


O FASCISMO SEGUNDO KARL POLANYI

A presente coletânea reúne textos de Karl Polanyi (1886-1964) sobre o fascismo, escritos entre 1935 e 1944.

Neles, o autor húngaro traça os aspectos decisivos que levaram a substituição da democracia burguesa pelo autoritarismo fascista nos Estados europeus na primeira metade do século XX.

Para Polanyi, a ascensão do fascismo está relacionada a três fatores: a destruição do capitalismo liberal, do padrão ouro e da soberania absoluta dos Estados.

O fascismo foi, assim, beneficiado pelo desequilíbrio econômico proporcionado pelo funcionamento desastroso do “mercado autorregulável”, com suas crises, como a de 1929, e pelo desequilíbrio de poder, iniciado com a revisão do Tratado de Versalhes pela Alemanha.

Tais fatores políticos e econômicos criaram um "vácuo" que foi preenchido pelo fascismo com as ideias de economia corporativa, governo forte e sociedade disciplinada.

Os partidos conservadores e liberais funcionaram como forças auxiliares do fascismo ao combaterem durante anos as ideias de igualdade política e econômica, tais como defendidas pelo socialismo.

Em outras palavras, o combate de liberais e conservadores à radicalização da democracia, representada no pré-Segunda Guerra Mundial pela ascensão dos sindicatos de massa, dos governos social-democratas e dos regimes comunistas no centro e no leste da Europa, propiciou um ambiente favorável para que o fascismo - e não o socialismo - fosse percebido como uma solução viável para o fracasso da sociedade de mercado.

Para Polanyi, o socialismo e o fascismo representaram diferentes respostas à crise da democracia parlamentar e do capitalismo liberal.

A atualidade dos textos desta coletânea é que eles são um alerta antifascista aos povos. Num horizonte de crise da democracia burguesa, a solução passa por radicalizar o princípio democrático nas esferas política e econômica.

Na atual crise do capitalismo neoliberal, o mundo só pode ser “salvo” de um retorno à barbárie fascista através do fortalecimento das organizações da classe trabalhadora e da adoção pelos governos de medidas políticas e econômicas socialistas.

No passado, a insistência das elites europeias em salvar o mercado das próprias crises que criou e, assim, aumentar a miséria do povo, foi uma condição para a ascensão do fascismo.

No presente, o atual empenho das elites globais em salvar o mercado indica que a burguesia internacional despreza a sangrenta lição do passado, que ensinou a classe trabalhadora mundial que as crises econômicas e o fascismo não se combatem com mais capitalismo e autoritarismo, mas com socialismo e liberdade.

Raphael Cruz

Nota 27: Padre ou terapeuta

 Eu devo ter cara de padre ou terapeuta. Porque é recorrente estranhos iniciarem conversas comigo sobre o clima e falarem de seu casamento, família e trabalho. Aprendo muito com eles.

Raphael Cruz

Nota 26: Castigo

O vizinho pôs passarinhos em gaiolas. Toda manhã, ele toca por meia hora o hino do Flamengo em forma de assobio para os passarinhos aprenderem a cantar. Um castigo para as aves e para quem não é flamenguista.

Trabalho, guerra e revolução: As comunas agrárias makhnovistas

O que sabemos sobre as “comunas agrárias” implantadas pela Makhnovitchina?  Em suas memórias, Nestor Makhno (1988) descreve algo de sua orga...