Leitura 4: um povo que revida

 


Terminei hoje a leitura de Torto Arado. Quem cresceu ou pesquisou em contextos rurais sentirá familiaridade com a trama e os personagens de Vieira Jr.

Durante a leitura, lembrei de histórias que ouvi do meu avô sobre o sertão e também de histórias que minhas interlocutoras de pesquisa me contaram sobre a Pedra do Sal durante o meu trabalho de campo em Ilha Grande.

Penso que Torto Arado está para a literatura assim como Bacurau está para o cinema. Não apenas pelo sucesso que alcançaram, mas por fazer emergir o Brasil de um povo que sabe revidar.

O juízo estético de um artista


Vênus de Willendorf esculpida entre 28.000
e 25.000 anos antes de Cristo

Tenho usado a biblioteca de um centro cultural para estudar.

Esta semana, um homem, vou chamá-lo José, organizou uma exposição de pinturas e desenhos no espaço em frente a biblioteca.

Devido a sua aparência, acho que José é da Geração X e poderia ser pai de um millenial como eu.

Ao ouvi-lo conversar com um funcionário do lugar, fico sabendo ser ele artista. Porém, dedicado a organizar a exposição, sem tempo ficou para mostrar a sua arte.

José, então, comenta sobre um dos quadros que aquele funcionário, de idade próxima à minha, olha atentamente.

Trata-se do trabalho que mais gostei na exposição. São desenhos de uma mulher negra e gorda, e de outra com uma deficiência nas suas pernas.

Os desenhos são em tons de azul e púrpura claros em fundos brancos. E estão reunidos como se formassem uma colagem.

Admiro os traços leves, precisos e a sensação de paz que trazem. Pois, as mulheres representadas estão a vontade consigo mesmas.

Enquanto o funcionário olha a obra, José tece o seguinte comentário: "não gosto de coisa feia, faz parte da evolução admirar coisas bonitas. Esse trabalho é de uma das artistas da associação. Não gosto de olhar coisa feia, mas tem quem goste".

Tenho a impressão que José desaprovou a obra pela escolha das figuras a ser representadas.

Por meio do seu julgamento, José fez-me rever a minha fantasia do pintor como alguém que percebe a beleza como relativa e encontrável em diferentes lugares.

José tem outro critério para o belo.

Vivendo em sociedade tão discriminadora como a brasileira, não evito pensar a sua reprovação como dirigida a etnia, a gordura e a deficiência. Características não estetizáveis por qualquer artista, na perspetiva de José.

O seu julgamento causou-me incômodo por sua naturalidade em expô-lo. E por tentar que o funcionário o respaldasse. Algo que não ocorreu, mas de forma bastante cordial. 

O funcionário apenas falou ser a ilustração um tipo de montagem, mudando o foco da forma das personagens para a forma da obra. 

O caso de José, fez-me pensar sobre a mudança de juízo estético entre as gerações. E como o artista, às vezes tido pela sociedade como excêntrico, pode admirar o padrão estético hegemônico, enxergando o belo apenas nele.

Raphael Cruz


Nota 18: Doutor

O jeito mais rápido de ser chamado de doutor não é fazer doutorado. É entrar no prédio da OAB e ser automaticamente chamado de doutor pelos funcionários.

Raphael Cruz

Nota 17: Os inconvenientes

O cara que mexe a cadeira, a mesa e atende celular na biblioteca equivale ao marombeiro que geme, urra e grita durante o exercício na academia de musculação. 

O camponês em Graciliano Ramos

Graciliano Ramos (1892-1953)


As primeiras impressões de leitura de Vidas Secas (Ramos, 2020), revelam-me um autor de escrita enxuta, objetiva, sem os floreios de um Guimarães Rosa (2016). 

Isso muito me agrada, apesar de também gostar do "barroquismo coloquial" do autor das Veredas. 

Essa escrita "feito faca", telegramática, que corta as mediações, o arrodeio, a própria gordura narrativa, soou-me muito seca no início. Contudo, entendi funcionar como recurso estético na obra. 

Uma escrita tão seca quanto o sertão representado por Graciliano Ramos, como a vida dos seus personagens.

Contudo, algo me incomodou do início ao fim do livro: a redução do sertanejo a um "bruto". Ele pouco se articula verbalmente, tem "ideias fixas" e simplórias, é confuso quanto ao que deseja, e apenas sofre, sofre e sofre. 

Os sertanejos de Ramos, são "fortes", no sentido de Euclides (1998), mas só isso.

A esperteza do pobre, que tanto abunda em Suassuna, e é a "arma dos fracos" na sociologia de James Scott (2002), não dar o ar da graça em Graciliano.

Chegou-me a incomodar a estreiteza psicológica dos personagens. 

Os sertanejos que conheci, estão longe dessa representação.

O agenciamento dos personagens é para garantir o básico, isto é, a sobrevivência em condições adversas. Isto já daria um bom pano para explorar a inteligência deles a partir do conhecimento camponês. 

Raphael Cruz


Referências

CUNHA, Euclides. Os sertões: campanha de Canudos. São Paulo: Ática, 1998.

RAMOS, Graciliano. Vidas secas. Rio de Janeiro: Editora Record, 2020.

ROSA, João Guimarães. Primeiras estórias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016.

SCOTT, James C. Formas cotidianas da resistência camponesa. Raízes: Revista de Ciências Sociais e Econômicas, v. 21, n. 1, p. 10-31, 2002.

SUASSUNA, Ariano. Auto da compadecida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2018.

Observação: escrevi esse texto em 15 de abril de 2021. E o revisei em 16 de outubro de 2022.


Elegia para Canudos nos 125 anos da guerra

Detalhe da fotografia de Flavio de Barros dos sobreviventes da Guerra de Canudos (1896-1897)


Determinados fatos da história do Brasil dão razão à teoria anarquista do Estado.

Mikhail Bakunin (1977, p. 240) escreveu em Os ursos de Berna e o urso de São Petersburgo, que "a lei suprema do Estado é o aumento de sua potência, em detrimento da liberdade no interior e da justiça no exterior". 

Adaptando ao contexto nacional, pode-se dizer que ocorreu o aumento da potência do Estado, em detrimento da liberdade no interior e o aumento da sua submissão no exterior.

O Estado no Brasil possui uma interessante contradição. Ao mesmo tempo em que, ao nível geopolítico, é subordinado aos países imperialistas, é, ao nível doméstico, tirano com a sua própria população (Fernandes, 2022) [1]. 

Foi fenômeno recorrente na consolidação do Estado no país, a eliminação sistemática de formas de autogoverno popular tais como Palmares, Canudos, Contestado, Caldeirão, Trombas e Formoso.

No período republicano, enquanto o Estado era dependente economicamente e submisso politicamente à imperialista Grã-Bretanha, massacrava os sertanejos devotos do Conselheiro no sertão baiano (Singer, 1998).

No período da ditadura empresarial-militar (Dreifuss, 1981), ao mesmo tempo em que o Estado era um posto avançado do imperialismo estadunidense na América Latina, caçava, prendia, torturava e assassinava os camponeses rebeldes de Trombas e Formoso (Azevedo, 2014).

Assim, o estatismo no Brasil, enquanto processo de formação, transformação e reprodução da concentração de poder via Estado, funcionou no plano interno em detrimento da liberdade e da justiça dos povos sob o seu controle, enquanto no plano externo se subordinou aos interesses e ao controle imperialista.

Sua população civil foi tratada como inimiga. E as experiências populares de autogoverno foram compreendidas e combatidas como ameaças ao monopólio do poder do Estado sobre a sociedade civil. 

O massacre de Canudos e sua recriação sistemática em favelas, florestas e campos contemporâneos, revela que no Brasil, o massacre não é a exceção, nem fato do passado, mas a regra geral do Estado, parafraseando Walter Benjamin (1995). 

Pensando com Bakunin (2003), pode-se sugerir que o massacre de populações civis é mecanismo estruturante do estatismo no Brasil, capaz de revelar um continuum entre colonialidade e modernidade, a atravessar os períodos colonial, imperial e republicano da história do país (Mendonça, 2017).

Flavio de Barros (1897), Sobreviventes da Guerra de Canudos

O massacre da população civil sempre esteve a disposição do Estado no Brasil, como meio para "governar a sociedade de cima para baixo", sendo legitimado "em nome de um pretenso direito teológico ou metafísico, divino ou científico" (Bakunin, 2003). 

A teologia cristã foi instrumentalizada pelo poder colonial para justificar a subordinação física e moral dos povos originários e afrodescendentes à coroa portuguesa e ao catolicismo. O cientificismo foi instrumentalizado pelo poder republicano para estigmatizar o povo de Belo Monte como horda fanática de religiosos pró-restauração do império, justificando, assim, o massacre do povo de Canudos.

Assim, diferentes e contraditórios sistemas cognitivos (Gurvitch, 1969) como a teologia cristã ou a ciência evolucionista foram acionadas ao longo do tempo para justificar situacionalmente a ação aniquiladora de povos pelo Estado. 

Isso revela não apenas uma variedade nas maneiras de legitimar massacres, seja a partir de um direito teológico ou científico, como diria Bakunin (2003), mas escancara também a continuidade dos massacres apesar da variedade de justificativas.

Os massacres mostram a derrota militar dos autogovernos populares. Contudo, quando apropriados pela memória coletiva, como é o caso de Canudos, revelam uma vitória ideológica em relação a tentativa do Estado de enterrar os fatos como enterrou os mortos, com discursos oficiosos ou pelo esquecimento seletivo do que não convém aos seus mitos de fundação e de expansão estatal. 

Em seu Instagram, Paullo Régis, um descendente de sobreviventes ao massacre de Canudos, escreveu que quase ninguém em 2022 é capaz de citar o nome dos algozes do povo de Belo Monte. Porém, muitos podem reconhecer, 250 anos depois do fim da guerra, o nome do Conselheiro e de seu arraial fincado no sertão da Bahia. 

Raphael Cruz


Notas

[1] Por isso que o nacionalismo militar aqui nunca foi, de fato, nacionalista, no sentido de preservar interesses econômicos e políticos da burguesia interna, como o fora em outros lugares da América Latina, mas uma espécie de corporativismo da caserna sempre preocupado com suas próprias demandas, e disposto a bater continência ao império da vez.

Referências

AZEVEDO, Leon Martins Carriconde. A revolta camponesa de Trombas e Formoso e a contribuição da teoria anarquista. Em Debate, n. 11, p. 68-89, 2014.

BAKUNIN, Mikhail. Estatismo e anarquia. São Paulo: Imaginário, 2003.

BAKUNIN, Mikhail. Os osos de Berna y el oso de San Petersburgo [1870]. In: BAKUNIN Mikhail. Obras Completas. Madrid: La Piqueta, 1977.

BENJAMIN,  Walter. Sobre  o  conceito  de história. In: BENJAMIN,  Walter. Magia  e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 2005.

DREIFUSS, René Armand. 1964: A conquista do Estado: ação política, poder e golpe de classe. Petrópolis: Editora Vozes, 1981.

FERNANDES, Florestan. A revolução burguesa: ensaio de interpretação sociológica. São Paulo: Contracorrente, 2020.

GURVITCH, Georges. Os quadros sociais do conhecimento. Rio de Janeiro: Moraes Editores, 1969.

MENDONÇA, Bartolomeu Rodrigues. Continuum colonial: colonialidade (=modernidade), empreendimentos capitalistas, deslocamentos compulsórios e escravos da República no Estado do Maranhão, Brasil. 2017. 319 f. Tese (Doutorado em Ciências Sociais) - Universidade Federal do Maranhão, São Luís, 2017.

SINGER, Paul. De dependência em dependência: consentida, tolerada e desejada. Estudos Avançados. 1998, v. 12, n. 33, pp. 119-130.

Observação: texto revisado em 3 de dezembro de 2022.

David Graeber e o (neo)anarquismo

David Graeber (1961-2020)


O meu problema com (neo)anarquistas como Graeber, a que pese a admiração por obras como Dívida e O despertar de tudo, é que suas reflexões tendem a negligenciar a contribuição do anarquismo histórico, ou de pelo menos de alguns dos seus autores, como, por exemplo, Proudhon.

O quarto capítulo de O despertar..., livro co-escrito com o arqueólogo David Wengrow, é uma brilhante reflexão sobre a origem da propriedade privada. 

São problematizados argumentos iluministas e antropológicos clássicos, a partir de evidências arqueológicas recentes sobre a relação entre igualdade e propriedade na história humana. 

Porém, o operário-intelectual francês Proudhon não é mencionado no capítulo e em nenhuma das 847 paginas do livro quando o tema é a propriedade e sua relação com a igualdade, a liberdade e o governo. 

Estes foram temas ousadamente trabalhados em O que é a propriedade, de 1840. Na época, o livro de Proudhon chocou a França sendo debatido. Tornou-se obra importante da tradição socialista, tendo influenciado Marx e Bakunin.

Se Graeber fosse um intelectual marxista, eu não veria problema em sua negligência da reflexão proudhoniana, mas, ele não é. 

O que mais me causa estranhamento é o rebelde francês não ser sequer mencionado nas notas de rodapé que abundam no livro de Graeber e Wengrow.

Contudo, essa negligência é corriqueira.

Recentemente, participei de uma conferência internacional sobre estudos anarquistas, e a maioria dos trabalhos apresentados negligenciavam o anarquismo histórico.

Talvez isso dimensione como o pós-anarquismo significa um afastamento ou abandono dos referenciais teóricos do anarquismo histórico. E que tende a cair no erro de "reinventar a roda" ao invés de aprimorá-la.

Ao que pese a crítica, continuo achando o trabalho de David Graeber um sopro de ar fresco nas ciências sociais contemporâneas. E um poderoso exercício de imaginação política numa época de crise do capitalismo, do Estado e do pensamento revolucionário. 

Raphael Cruz


Referências

GRAEBER, David. Dívida: os primeiros 5000 anos. São Paulo: Três Estrelas, 2016.

GRAEBER, David; WENGROW, David. O despertar de tudo: uma nova história da humanidade. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.

PROUDHON, Pierre-Joseph. O que é a propriedade? Lisboa: Editorial Estampa, 1975.

Loïc Wacquant e os dois usos da teoria social

Loïc Wacquant (1960 -)


Ao avaliar o legado de Pierre Bourdieu para as ciências sociais, Loïc Wacquant (2002) identificou dois usos da teoria social: o escolástico e o gerativo.

O modo escolástico é aquele em que a produção de categorias teóricas tem um fim em si mesmo, “para exposição ritual e adoração” (Wacquant, 2002, p. 103). O arquétipo desse uso da teoria seria, na opinião do autor, o sociólogo Talcott Parsons.

Já no modo gerativo, desenvolve-se teoria para usá-la em pesquisa empírica e “para provar e expandir sua capacidade heurística em um confronto sistemático com a realidade sócio-histórica” (Wacquant, 2002, p. 103). Exemplo desse uso é o próprio autor em seu livro Corpo e alma: notas etnográficas de um aprendiz de boxe (2002). 

Como destaca Wacquant (2002, p. 103), neste uso, a teoria é menos visível e a extraímos por meio da leitura atenta das “observações que ela conduz (e nas quais ela às vezes se esconde)”. Acredito que o autor se refere a como a teoria, no modo gerativo, tende a estar localizada abaixo de uma camada de descrição empírica.

Contudo, existe teoria, ao menos em ciências sociais, que esteja apenas autorreferenciada no universo teórico, sem referência alguma ao mundo social? 

Essas reflexões de Wacquant me remeteram a uma passagem de Habu: the innovation of meaning in Daribi religion, etnografia escrita pelo antropólogo estadunidense Roy Wagner.

Cito ao autor: “every ethnography has its ‘theory’, no matter how diffuse, insipid, or matter-of-fact this may be, just as every theory has its ethnography” (WAGER, 1972, p. 13). 

O antropólogo estar a dizer que a relação entre empiria e teoria é tão visceral que mesmo a etnografia mais radicalmente empirista está assentada em teoria, da mesma maneira que a teoria mais abstrata baseia-se, em alguma medida, na empiria.  

Penso que até Parsons, este arquetípico do uso escolástico, segundo Wacquant, teve uma base empírica para o seu “sistema de ação social” e suas quatro funções primárias: manutenção de padrões, integração, realização de metas e adaptação. 

Lembro que a conclusão do monumental A estrutura da ação social (2010), está dividida em duas partes, respectivamente nomeadas de Conclusões verificadas empiricamente e Implicações metodológicas experimentais. 

Assumindo-se o argumento wacquantiano sobre os dois usos da teoria social, pode-se dizer que no modo escolástico é a empiria que está localizada abaixo de uma camada de elaboração teórica. Isto é, o inverso da relação entre teoria e empiria identificada no modo gerativo. 

Se considerar a maneira que o próprio Parsons organizou os capítulos de seu livro, é literalmente assim que ocorreu no caso de A estrutura da ação social!

Raphael Cruz


Referências 

PARSONS, Talcott. A estrutura da ação social. Um estudo de teoria social com especial referência a um grupo de autores recentes, v. 2. Petrópolis: Vozes, 2010. 

WACQUANT, Loïc. Corpo e Alma ­ Notas Etnográficas de um Aprendiz de Boxe. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002.

WACQUANT, Löic. O legado sociológico de Pierre Bourdieu: duas dimensões e uma nota pessoal. Rev. Sociol. Polít., Curitiba, 19, p. 95-110, nov. 2002.

WAGNER, Roy. Habu: the innovation of meaning in Daribi religion. Chicago: The University of Chicago Press, 1972.


Observação: texto revisado em 2 de dezembro de 2023.

Nota 16: Twitter como fórum

Quando vejo nossas discussões no Twitter, sinto que, entre outras coisas, ele assumiu a função social dos antigos Fóruns de internet dos anos 2000. 

Trabalho, guerra e revolução: As comunas agrárias makhnovistas

O que sabemos sobre as “comunas agrárias” implantadas pela Makhnovitchina?  Em suas memórias, Nestor Makhno (1988) descreve algo de sua orga...