Dialética das escalas macro e microssociológicas em Gurvitch

Georges Gurvitch (1894-1965)


No volume I de La vocation actuelle de la sociologie (1957 [1973]), Georges Gurvitch reflete sobre as escalas micro e macrossociológicas.

Sua perspectiva é particularmente interessante para mim.

Isso porque em meus anos de formação acadêmica, alguns professores orientavam alunos a criar predileção por uma ou outra dessas escalas na atividade de pesquisa.

Relativizei essa antinomia após tomar contato com a metodologia do estudo de caso, tal qual formulada e praticada pela escola antropológica de Manchester (Jaap van Velsen, Max Gluckman, Clyde Mitchel) e por um de seus discípulos, Michael Burawoy. 

A metodologia do estudo de caso parecia romper a antinomia entre as escalas micro e macrossociológicas porque através da observação de situações sociais (escala micro) era produzido conhecimento sobre processos sociais relativos ao capitalismo e ao colonialismo (escala macro).

Em Gurvitch, essas escalas também não são antinômicas, mas relacionáveis, uma ofertando sentido a outra.

Contudo, diferente dos antropólogos de Manchester, Gurvitch chegou a uma perspectiva de integração das escalas através de sua sociologia teórica, e não da pesquisa etnográfica.

Ele elaborou uma tipologia sociológica ao longo de sua obra. 

Ela é formada, basicamente, por 1) formas de sociabilidade entre o eu, o outro e o nós; 2) agrupamentos particulares como a família, que são um macrocosmo de formas de sociabilidade; e 3) sociedades globais, que são um macrocosmo de agrupamentos particulares.

É no interior dessa tipologia que ele reflete sobre as escalas micro e macrossociológicas.

"Não se poderia estudar com precisão qualquer agrupamento social concreto sem, de um lado, integrá-lo numa sociedade global particular, e, de outro lado, sem descrever a singular constelação do microcosmo de ligações sociais que o caracteriza" (Gurvitch, 1973, p. 13). 

Penso que o autor seria crítico às pesquisas de corte etnometodológico ou interacionista simbólico porque se concentram apenas nas interações face a face, o primeiro nível da tipologia gurvitchiana.

Bourdieu (2004), de certa forma, ecoa essa crítica. Ele afirma que a compreensão da interação não deve ser buscada na própria interação (formas de sociabilidade, no modelo tipológico de Gurvitch), mas nas condições sociais de produção da interação. 

Por outro lado, os estudos exclusivamente estatísticos estariam resumidos à dimensão quantitativa dos níveis dois e três da tipologia gurvitchiana.

Nesse sentido, pensar a integração das escalas micro e macro traz consequências metodológicas para qualquer pesquisa: 

"Portanto, pode-se formular a seguinte observação metodológica: é tão impossível fazer a microssociologia sem levar em conta a sociologia dos agrupamentos e a tipologia das sociedades globais, quanto fazer a macrossociologia negligenciando a microssociologia" (Gurvitch, 1973, p. 13).

Isso porque:

"Estes três aspectos 'horizontais' da sociologia apóiam-se e mantêm-se reciprocamente, pois estão indissoluvelmente ligados na realidade dos fatos. (...) Estas três escalas não podem ser separadas senão relativa e metodologicamente (...) a fim de servir de pontos de referência convenientes para a pesquisa. Mas elas não podem ser desunidas (do ponto de vista do ser), pois na vida social, elas se interpenetram  e sua relação efetiva é dialética: cada uma das três escalas pressupõe as outras" (Gurvitch, 1973, p. 13). 

Gurvitch conclui que do ponto de vista metodológico é conveniente separar as escalas micro e macrossociológicas, mas que são ontologicamente inseparáveis na realidade.

Contudo, mais adiante, o autor afirma que seria útil para a tarefa de explicar fenômenos sociais, a primazia ontológica da sociedade global e a primazia metodológica dos tipos microssociológicos.

Isto é, compreender os fenômenos como parte do que nomeia de sociedade global, mas executar pesquisa sociológica a partir da escala micro.

Achei interessante o critério estabelecido pelo autor para uma análise integrativa das escalas:

"Se a análise é bem conduzida, encontra-se, pela microssociologia, a macrossociologia e reciprocamente; ou, começando-se pela sociologia dos agrupamentos, chega-se, necessariamente, de um lado, à microssociologia, e, de outro, à tipologia das sociedades globais" (Gurvitch, 1973, p. 14). 

Pode-se dizer que Gurvitch oferta uma solução em simultâneo, ontológica e metodológica para a epistemologia das escalas, a partir da integração dos níveis micro e macrossociológicos para o estudo dos fenômenos sociais.

Raphael Cruz


Referências

BOURDIEU, Pierre. Coisas ditas. São Paulo: Brasiliense, 2004.

GURVITCH, Georges. Fenômenos micro e macrossociológicos. In: FERNANDES, Florestan. Comunidade e sociedade: leituras sobre problemas conceituais, metodológicos e de aplicação. São Paulo: Companhia Editora Nacional; Editora da Universidade de São Paulo, 1973.

Observação: texto revisado em 12 de dezembro de 2022.

Hegel, anarquismo e teoria do reconhecimento

Hegel (1770-1831)


Foi na Realphilosophie de Jena (1804/05) que o jovem Hegel sistematizou  sua discussão sobre reconhecimento.

O reconhecimento referia-se a percepção de si no mundo a partir do outro. 

Isso levou o filósofo ao tema da intersubjetividade na produção da identidade.

De modo que, o desenvolvimento da identidade pessoal foi compreendida como indissociável do reconhecimento por outros sujeitos. 

Ainda no século XIX, a ideia de reconhecimento foi acionada por anarquistas históricos como Proudhon e Bakunin.

Contudo, ela não foi explicitamente trabalhada por eles ou pela maioria de seus comentadores. 

Ao reler O que é a propriedade ([1865] 1975), encontrei na definição de justiça de Proudhon, um tanto de teoria do reconhecimento. 

A certa altura desta obra, Proudhon definirá justiça como o "reconhecimento de uma personalidade igual à nossa em outrem" (1975, p. 201). 

Hall (1970) notou que naquela obra, para Proudhon justiça implica igualdade entre os sujeitos.

Em escritos posteriores, o autor afirmou a justiça como reciprocidade (Hall, 1070). 

Apesar do eco hegeliano, o único momento em que o filósofo francês cita Hegel em O que é a propriedade é ao mencionar seu método dialético tripartido na discussão sobre as formas sociais (propriedade, comunidade e liberdade) (Proudhon, 1975, p. 224).

Hegel parece não ter sido um ponto de partida explicitado para as definições proudhonianas de justiça enquanto reconhecimento. 

Apesar disso, há de destacar que Hegel, e também Kant, foram influências decisivas para Proudhon (Hall, 1970).

Mikhail Bakunin foi outro anarquista influenciado por Hegel (McLaughlin, 2002). 

Jon Stewart chamou atenção para a presença da filosofia do reconhecimento no pensamento de Bakunin.

Para aquele autor, a teoria bakuniniana da liberdade está ancorada na perspectiva hegeliana do reconhecimento. 

"I am not myself free or human until I recognize the freedom and humanity of all my fellowmen" (Bakunin apud Stewart, 2021, p. 243).

Já havia mencionado neste blog como a concepção de Bakunin da liberdade é social e não atomista.

Debatendo o liberalismo (Locke) e os contratualistas (Rousseau), ele concluiu que a condição para a liberdade do sujeito  é a liberdade de todos os sujeitos. 

Sendo a liberdade realizada por meio das igualdades política e econômica. 

Em Bakunin, o reconhecimento hegeliano e a igualdade proudhoniana são bases para elaborar sua teoria da liberdade. 

Pode-se concluir que o eco hegeliano da teoria do reconhecimento é audível nas elaborações de justiça e liberdade do anarquismo histórico de Proudhon e Bakunin. 

São bem-vindas pesquisas sobre a presença da teoria do reconhecimento nestes pensadores para melhor conhecer a herança hegeliana do anarquismo. 

Raphael Cruz


Referências

HALL, Constance Margaret. The Sociology of Pierre Joseph Proudhon (1809-1865). American University, 1970. 

MCLAUGHLIN, Paul. Mikhail Bakunin: The philosophical basis of his theory of anarchism. Algora Publishing, 2002.

PROUDHON, Pierre-Joseph. O que é a propriedade? Lisboa: Editorial Estampa, 1975. 

STEWART, Jon. Hegel’s Century: Alienation and Recognition in a Time of Revolution. Cambridge: Cambridge University Press, 2021. 

Proudhon e a ciência social



Proudhon (1809-1865)


Nesta postagem, trago a definição de Proudhon para ciência social.

Como o leitor poderá constatar, ela antecipa teses durkheimianas importantes como a racionalidade, a sistematicidade e a factualidade a ser alcançada no estudo da sociedade.

Outro ponto de similaridade é a importância dada ao trabalho como objeto de investigação para entender a sociedade, recurso utilizado por Durkheim 47 anos depois, em seu livro A divisão social do trabalho (1893).

A DESCOBERTA DA CIÊNCIA SOCIAL

O ano é 1839, e Proudhon já percebia a necessidade de uma ciência da sociedade.

Em A celebração do domingo (1839), o autor escreve:

"Mas o homem nasce para a sociedade: portanto, ainda é necessário estudar as relações dos homens entre si, a fim de determinar seus direitos e estabelecer regras para eles. Que complicação!"

Proudhon compreende, muito cedo, que o indivíduo e a sociedade são indissociáveis ("o homem nasce para a sociedade"). Seu ponto de vista faz pensar o quanto são parciais as teorias que, ainda hoje, centram-se apenas em um dos aspectos, ou o indivíduo ou a sociedade, dessa ontologia dialética que produz o social.

Outro ponto importante e recorrente em sua ciência social, é o aspecto normativo. Proudhon encarou que essa ciência teria uma contribuição política. Ao estudar "as relações dos homens entre si", ela contribuiria para determinar direitos e estabelecer regras sociais.

Partindo do estado em que se encontrava a matemática, a física e a filologia em sua época, Proudhon se questiona se deve existir uma ciência da sociedade.

"Há uma ciência das quantidades que força o assentimento, exclui o arbítrio, rejeita toda utopia; uma ciência dos fenômenos físicos, que se baseia apenas na observação dos fatos; uma gramática e uma poética baseadas na essência da linguagem, etc. Deve existir também uma ciência da sociedade, absoluta, rigorosa, baseada na natureza do homem e em suas faculdades, e em suas relações; ciência que não deve ser inventada, mas descoberta".

Nessa segunda citação, ele esmiúça um pouca mais sobre os alvos dessa ciência da sociedade: a) as faculdades humanas e b) as relações entre os homens. 

Nota-se que as "faculdades", as quais se refere o autor, podem designar aquilo que ele viria a nomear, mais adiante em Da justiça na revolução e na igreja (1858), de "consciência coletiva", isto é, aos aspectos simbólicos da vida social, que também seriam tratados por Durkheim e a Escola Sociológica Francesa utilizando a mesma nomenclatura. Por sua vez, as "relações" podem estar antecipando a sua noção de "força coletiva", que seria trabalhada em sua obra seguinte, O que é a propriedade (1840).   

Chama atenção, na citação acima, que para o autor essa ciência "não deve ser inventada, mas descoberta". Ele estaria se referindo a existência de um objeto, as "relações sociais", que já existiria anteriormente a própria instituição de uma ciência adequada ao seu estudo?

DEFINIÇÃO DE CIÊNCIA SOCIAL

Em 1846, foi publicado na França, Sistema das contradições econômicas ou Filosofia da miséria, de Pierre-Joseph Proudhon. Nesse livro, ele define a ciência social.

"Trata-se, portanto, e antes de mais nada, de reconhecer o que pode ser uma ciência da sociedade.

A ciência, em geral, é o conhecimento racional e sistemático daquilo que é.

Aplicando esta noção fundamental à sociedade, diremos: a ciência social é o conhecimento racional e sistemático não do que foi a sociedade, nem do que ela será, mas sim do que ela é em toda a sua vida, isto é, no conjunto de suas manifestações sucessivas, pois é somente ai que pode existir razão e sistema. A ciência social deve abraçar a ordem humanitária e não apenas em tal ou qual período de sua duração, nem em alguns de seus elementos, mas sim em todos os seus princípios e na integridade de sua existência, como se a evolução social, espalhada no tempo e no espaço, se encontrasse subitamente reunida e fixada em um quadro que, mostrando a série das idades e a sequência dos fenômenos, descobrisse o seu encadeamento e unidade. Tal deve ser a ciência de toda a realidade viva e progressiva, tal é incontestavelmente a ciência social" (Proudhon, 2003, p. 96). 

Proudhon inicia sua definição de ciência social pela explicação do que é a própria ciência em sentido lato

A ciência comporta características epistemológicas (racionalidade), metodológicas (sistematicidade) e ontológicas (factualidade). 

Esses três caracteres são aplicadas ao conhecimento da sociedade (objeto). 

Assim, a sociedade ou a "ordem humanitária" - Durkheim (2001), posteriormente, nomearia de "reino social" - é passível de ser compreendida de maneira científica. Isto é, racional, sistemática e factualmente como fenômeno humano. 

Isso parece simplista para os ouvidos de um estudante de sociologia do século XXI.

Entretanto, quando Proudhon escrevia aquele livro, era necessária à perspectiva científica estabelecer distinção com a metafísica. Lembremos que, naquele período, na França, Comte utilizava o termo "positivismo" em oposição a "metafísica", no intuito de estabelecer uma separação entre o real, que pode ser observado, e o quimérico, que só pode ser imaginado (Russ, 1994). Esse esforço de separação entre o real e o metafísico, é o mesmo de Proudhon.

Elevar a "ordem humanitária" a objeto de ciência foi, assim, um desses atos inauguradores de uma ciência da sociedade, tanto quanto a invenção da palavra sociologia por Auguste Comte na década de 1830, e a publicação em 1838 de Como observar morais e costumes, de Harriet Martineau, que inventou o trabalho de campo sociológico.

ECONOMIA POLÍTICA COMO A CIÊNCIA SOCIAL

Proudhon (2003) concebia a economia política como a verdadeira ciência social. 

"Quanto a mim, não é desta forma que concebo a ciência econômica, a verdadeira ciência social. Ao invés de responder pelos a priori aos temíveis problemas de organização do trabalho e de distribuição das riquezas, eu interrogarei a economia política como a depositária dos pensamentos secretos da humanidade; farei os fatos falarem segundo a ordem de sua geração, e relatarei, sem nada acrescentar de meu, o seu testemunho" (Proudhon, 2003, p. 176). 

Pode-se extrair três afirmações desse parágrafo de Sistema das contradições econômicas:

1) A economia política é a ciência social.

2) Ela trata de "problemas" como a "organização do trabalho" e a "distribuição das riquezas".

3) Em seu método de investigação, parte do factual, isto é, centrado na dimensão empírica do fenômeno, no que ele "é", e não no que "deveria ser", isto é, em uma dimensão normativa. Durkheim (1994) inventou as noções de juízo de fato e juízo de valor para dar conta dessa diferença que nota-se em Proudhon.

Refletindo a partir desses extratos de Sistema das contradições, contidos na postagem acima, pode-se concluir que para o Proudhon de 1846, a) o estudo racional, sistemático e factual da b) organização do trabalho e da distribuição de riquezas, fenômenos de ordem humanitária, c) configuram a economia política como ciência social. 

Raphael Cruz


Referências

DURKHEIM, Émile. Da divisão do trabalho social. São Paulo: Martins fontes, 1977.

DURKHEIM, Émile. As regras do método sociológico. São Paulo: Martin Claret, 2001.

DURKHEUM, Émile. Filosofia e sociologia. São Paulo: Ícone, 1994.

MARTINEAU, Harriet. Como observar: morais e costumes. Governador Valadares: Editora Fernanda H. C. Alcântara, 2021.

PROUDHON, Pierre-Joseph. O que é a propriedade. Lisboa: Editorial Estampa, 1975

PROUDHON, Pierre-Joseph. Sistema das contradições econômicas, ou, Filosofia da miséria, tomo 1. Tradução de J. C. Morel (Coleção fundamentos de filosofia). São Paulo: Ícone, 2003.

PROUDHON, Pierre-Joseph. The celebration of sunday [1839]. Tradução Shawn P. Wilbur. Disponível em: https://theanarchistlibrary.org/library/pierre-joseph-proudhon-the-celebration-of-sunday. Acesso em 9 mai. 2023.

RUSS, Jacqueline. Dicionário de filosofia. São Paulo: Scipione, 1994.

Observação: texto revisado em 9 de maio de 2023.

Freud e o estudo de caso na psicanálise e na sociologia


Sigmundo Freud (1856-1939)


Minha relação com o triunvirato Marx, Durkheim e Weber é profissional devido a minha formação como sociólogo.

Já com Freud, minha relação é baseada na curiosidade, por não ser psicanalista, mas leitor iniciante em obras de psicanálise. 

Foi nessa condição, que estava lendo O homem dos lobos: história de uma neurose infantil, um estudo de caso redigido por Freud no final de 1914, mas publicado em 1918. 

O subtítulo do livro já indica do que trata, uma neurose infantil, contudo, não são os meandros da vida psíquica do paciente de Freud o que tratarei neste texto. 

Vou eximir-se disso por falta de conhecimento e, porque me interessa como o próprio Sigmund utilizava o estudo de caso.

Pois, o estudo de caso é um método de pesquisa comum a sociologia e a psicanálise.   

No início do primeiro parágrafo do livro, Freud afirma:

"O caso de doença que relatarei aqui (...) distingui-se por um bom número de particularidades que devem ser destacadas antes da exposição" (Freud, 2016, p. 7).

Na nota de rodapé referente a esta primeira frase, Freud refere-se a este "caso de doença" como uma "história clínica". 

Será apenas ao final do livro, que o autor tratará novamente do "caso" em termos metodológicos.

"É natural que um caso como este possa dar motivo para pôr em discussão todos os problemas e resultados da psicanálise. Seria um trabalho interminável e não justificado. É preciso admitir que não se pode saber tudo a partir de um único caso, tudo decidir através dele, e contentar-se, portanto, em aproveitá-lo naquilo que mostra mais nitidamente" (Freud, 2016, p. 107). 

Há pelo menos, três pontos a destacar nesse trecho.

1) Reconhece o autor que um caso pode dar condições para discutir toda a psicanálise, contudo seria uma tarefa ingrata.

2) Para ele, um estudo de caso tem limites: não é possível saber tudo sobre um fenômeno a partir dele.

3) O correto, a se fazer, diz Freud, é aproveitar o caso naquilo que ele mostra mais nitidamente.

Continuo com o autor:

"Na psicanálise, a tarefa da explicação tem limites estreitos. Cabe explicar as formações sintomáticas notáveis, desvendando a sua gênese; os mecanismos psíquicos e processos instituais a que assim chegamos, esses não cabe explicar, mas sim descrever. Para obter novas generalizações a partir das constatações sobre os dois últimos pontos são necessários muitos casos como este, analisados bem profundamente. Não é fácil tê-los, cada qual exige anos de trabalho. De modo que o progresso nesses domínios se efetua lentamente" (FREUD, 2016, p. 107). 

Cinco pontos podem ser extraídos dessa passagem.

1) Para Freud, a explicação é dirigida as "formações sintomáticas notáveis" para "desvendar sua gênese". (função)

2) Contudo, os "mecanismos psíquicos" e "processos instituais" não são explicados, mas descritos. (metodologia)

3) Para se obter generalizações sobre os mecanismos e processos citados, serão necessários "muitos casos". (quantidade)

4) Estes casos devem ser "analisados bem profundamente". (qualidade)

5) Para se obter esses casos analisados profundamente, é necessário vários anos. (temporalidade)

Pode-se concluir que para Freud, existe um uso determinado do estudo de caso.

Um caso, deve ser estudado profundamente.

E isso demanda tempo.

O caso explica formações sintomáticas notáveis.

E descreve os mecanismos psíquicos e os processos instituais.

Entretanto, para generalizar as constatações presentes no caso sobre os processos e mecanismos, são necessários muitos estudos de caso. 

Nesse sentido, com um único estudo é possível atingir certos objetivos de explicação de sintomas (empiria), mas não de explicação de processos e mecanismos (teoria), apenas suas descrições.

De modo que a explicação da teoria dos mecanismos e processos depende do estudo profundo de casos empíricos acumulados e comparados.

Quando um sociólogo estuda conflitos numa escola, comunidade ou empresa, seu caso descreverá um universo empírico particular. 

Como disse Freud na segunda citação, a maneira de "aproveitar" um caso é naquilo que ele torna mais evidente. 

É possível que determinadas questões se destaquem mais na escola, por exemplo, questões de gênero entre meninos e meninas.

E numa empresa, tenha relevância a hierarquia entre funcionários a partir da divisão e renda do trabalho.

Contudo, para se teorizar sobre gênero e hierarquia é necessário mais de um caso estudado, uma acumulação e comparação entre eles. 

Aqui, o estudo de caso em escola ou empresa na sociologia está para as teorias de gênero ou hierarquia assim como o caso empírico de "o homem dos lobos" produzido por Freud está para a teoria da neurose.

Nesse sentido, o estudo de caso oferece uma maneira de retroalimentar a teoria e a empiria.

Penso que a lógica do uso freudiano do estudo de caso, não difere substancialmente do seu uso em sociologia, no que concerne a relação aludida acima entre aspectos empíricos e teóricos da pesquisa sociológica, apesar dos objetos, conceitos e teorias diferentes mobilizados para a produção de conhecimento na sociologia e na psicanálise.

Raphael Cruz


Referência

FREUD, Sigmund. O homem dos lobos: história de uma neurose infantil. Tradução de Paulo César de Souza. 1ª edição. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2016. 

Mary Douglas e a outra origem do estruturalismo


Mary Douglas (1921-2007)


Qualquer estudante de ciências sociais esbarrou com a palavra estruturalismo durante sua formação acadêmica.

É muito provável que esse estudante lembre-se que a palavra estava associada há pelo menos duas outras: linguística e antropologia. 

A narrativa mais recorrente nos anos de formação é a seguinte: 

A antropologia estrutural foi inaugurada por Lévi-Strauss ao "aplicar" a abordagem de Saussure ao estudo dos mitos e do parentesco.

Que abordagem seria essa?

A de que a língua é um sistema em que um elemento se define pela relação com os demais.

Nesse sentido, a letra se define em relação a outras letras e, assim, formam uma palavra. A palavra se define em relação a outras palavras, formando uma frase. A frase se define em relação a outras frases, dando forma a um texto.

A ideia principal é a de sistema. Este é formado por elementos que se relacionam entre si. Eles formam um "todo" 

O ganho epistemológico disso é que nenhum objeto pode ser devidamente entendido por si, mas em relação a outros objetos. 

A antropóloga Mary Douglas entende que a aplicação dessa abordagem à sociedade não foi inaugurado pelo etnólogo americanista Lévi-Strauss, mas pelo antropólogo africanista Evans-Pritchard.

Douglas ainda afirma que a origem do estruturalismo não estaria na linguística, mas na psicologia da gestalt. 

Lendo os agradecimentos que ela escreveu em seu livro Pureza e Perigo (1966), encontrei sua própria narrativa da origem e invenção da antropologia estrutural. 

Assim escreveu a autora:

"A abordagem estrutural tem sido amplamente disseminada desde as primeiras décadas deste século, particularmente através da influência da psicologia da Gestalt. Somente teve um impacto direto em mim através do professor Evans-Pritchard em sua análise do sistema político dos Nuers (1940)" (Douglas, [1966], 2014, p. 8).

Mais adiante, ela continua:

"(...) Evans Pritchard viu que ele poderia fazer uma análise política de um sistema que não tivesse órgãos centrais de governo, e onde o peso da autoridade e as tensões do funcionamento político estivessem dispersas por toda estrutura do corpo político (Ibid.)".

E finaliza:

"Assim, a análise estrutural estava no ar da Antropologia antes de Lévi-Strauss ser estimulado pela Linguística Estrutural a aplicá-la ao parentesco e mitologia" (Ibid).

É interessante ouvir outro ponto de vista sobre uma narrativa tão comum nas ciências sociais como a da origem da abordagem estrutural. 

No entanto, Douglas (1966) não desenvolve seu argumento sobre a origem gestaltiana do estruturalismo, algo que eu gostaria de ter lido. 

Outro ponto é que a autora não está equivocada ao associar estrutura e sistema, contudo ao reduzir a primeira ao segundo, talvez, a origem desse "sistemismo" não estivesse em Pritchard nem Lévi-Strauss, mas no velho Durkheim. 

Raphael Cruz


Referência

DOUGLAS, Mary. Pureza e perigo [1966]. São Paulo: Perspectiva, 2014.

Trabalho, guerra e revolução: As comunas agrárias makhnovistas

O que sabemos sobre as “comunas agrárias” implantadas pela Makhnovitchina?  Em suas memórias, Nestor Makhno (1988) descreve algo de sua orga...