Constance Hall e a sociologia de Proudhon

Constance Hall


Estou lendo a tese de doutorado de Constance Hall (1970), The sociology of Proudhon, e estou compreendendo melhor os aspectos do pensamento do autor, principalmente seu conceito de justiça, complexo e com mais de um significado. 

Um dos objetivos da autora foi traduzir o pensamento de Proudhon para a teoria sociológica contemporânea, que à época, os anos 1960, eram o estrutural-funcionalismo parsoniano e as teorias do conflito de origem marxista ou weberiana. 

Nessa tese, ela demonstra que Proudhon não é apenas um dos fundadores da sociologia, mais importante do que Comte, como seu pensamento antecedeu as teorias contemporâneas e oferece insights para problematizar temas como a sociedade, a relação dela com o indivíduo, a mudança social, poder e o conflito, a estratificação social e a sociologia da religião. 

Apesar desse interessante diálogo entre Proudhon e a sociologia do pós-guerra, Hall permanece menos conhecida que outros comentadores de Proudhon, como Georges Gurvitch e Pierre Ansart.

Raphael Cruz


Referência

HALL, Constance Margaret. The Sociology of Pierre Joseph Proudhon (1809-1865). American University, 1970.

O bom diabo na literatura de cordel

 

Cordel clássico de Leandro de Barros

Em O bom diabo na literarura de cordel (2019), Renata Siuda-Ambroziak chama atenção para a representação do diabo pelos poetas populares do Nordeste brasileiro.

Em suas 18 páginas, a autora se apoia em fragmentos de 9 cordéis para identificar o que nomeou de o "bom diabo". 

É curioso notar como nesta região marcada pelo catolicismo oficial e popular, o diabo aparece nos cordéis como amigo dos homens e companheiro em tempos de desgraça.

Como exemplo, a autora cita o folheto A peleja de Manoel Riachão com o diabo, de Leandro Gomes de Barros. O diabo é descrito num primeiro momento como grotesco para logo depois ser caracterizado como bom.

No folheto, O homem que falou com o diabo em Juazeiro, de João de Cristo Rei, o diabo se autorrepresenta como poderoso e maldoso, mas o poeta o descreve como misericordioso e humanitário.

Entretanto, o artigo de Siuda-Ambroziak carece de uma periodização histórica dessa imagem do "bom diabo". 

O leitor é levado a acreditar que essa é uma característica estrutural do simbolismo cordelista. 

Contudo, fiquei na dúvida se ela não teria variado no tempo e entre os estados de origem dos escritores.

A autora conclui que a figura do diabo na literatura de cordel não obedece à caracterização unilateral de personificação do mal como na tradição judaico-cristã.

Ela argumenta, que isso se deve a outras influências culturais que formaram o catolicismo popular nordestino.

Contudo, a mais importante conclusão é o valor educativo das narrativas populares sobre o diabo.

Segundo a autora, existe uma "pedagogia do temor" nesses cordéis.

O objetivo das histórias sobre o diabo não é tanto o benefício de um pacto satânico, mas convencer o descrente a aceitar a fé cristã e o motivar a voltar à Igreja. 

Assim, mesmo com essa imagem do "bom diabo", a literatura de cordel contribui para a socialização de valores e crenças cristãs. 

O companheirismo satânico não é apologia de Lúcifer, mas convite ao rebanho do Senhor. 

Raphael Cruz


Referência

SIUDA-AMBROZIAK, Renata. O bom diabo na literarura de cordel. Fênix-Revista de História e Estudos Culturais, v. 16, n. 1, p. 1-18, 2019.

Lovecraft: sociólogo acidental numa cidade surreal

H.P Lovecraft (1890-1937)


É comum que escritores de ficção abordem temas sociológicos tais como poder, riqueza, classe, raça, gênero e geração. 

Também não é raro que arrisquem interpretações "sociológicas", ainda que não possuam treinamento profissional. 

Chamo isso de sociologia espontânea ou sociologia na literatura. 

A acadêmica sociologia da literatura refere-se ao estudo sociológico de uma obra. Busca explicar as condições sociais da produção literária ou compreender seu significado cultural. O sociólogo é o seu operador. É um exercício de análise científica.

Já a sociologia na literatura é uma análise "sociológica" por meio de uma peça literária. São obras ficcionais que inventam teorias espontâneas para explicar as relações sociais em seus mundos inventados. O escritor é o seu operador. É um exercício de imaginação literária.


Ilustração de Frank Utpatel para a 1° edição de Sombra sobre Innsmouth


Sombra sobre Innsmouth é um conto de H.P Lovecraft publicado em 1936.

Trata-se do relato de um jovem que, durante viagem pela Nova Inglaterra, pernoita em Innsmouth, povoado portuário, decadente e misterioso, que nem sequer consta no mapa. 

A narrativa em primeira pessoa sobre o lugar e seus habitantes assemelha-se a retórica da etnografia urbana.

A descrição da geografia, arquitetura, história e demografia de Innsmouth aparenta os antigos estudos de comunidade da primeira metade do século XX, tão comuns na sociologia. 

Abaixo, alguns trechos que exemplificam a sociologia na literatura de Lovecraft:

"Não valeria à pena, disse-me o meu informante, perguntar aos nativos alguma coisa sobre o lugar. O único que falaria era um homem muito idoso, mas de aparência normal, que vivia no asilo na periferia norte da cidade e matava o tempo andando de um lado para outro e fazendo hora no Corpo de Bombeiros" (Lovecraft, [1936] 2020, p. 29). 

"A cidade, como eu podia perceber, era um exemplo significativo e exagerado de decadência comunal, mas, não sendo nenhum sociólogo, eu limitaria minhas observações sérias ao campo da arquitetura" (Idem, p. 32). 

"No último momento, decidi que o melhor a fazer era desacelerar o passo e fazer o cruzamento como antes, com o modo de andar cambaleante de um nativo médio de Innsmouth" (Idem, p. 79-80).

Na primeira citação, o personagem lida com um problema corriqueiro de antropólogos e sociólogos, encontrar seus interlocutores de pesquisa, pessoas que possam lhe informar sobre a vida no lugar.

Na citação seguinte, o personagem de Lovecraft inventa o conceito "sociológico" de decadência comunal. O próprio autor deve ter percebido como sua prosa estava sociológica ao ponto de tentar restringir a observação à arquitetura. 

Na último citação selecionada, o personagem tenta passar desapercebido pelas pessoas ao imitar o que acredita ser o andar do nativo médio de Innsmouth. Não ser notado é uma tática de "camuflagem" que alguns cientistas sociais almejam, ainda que de difícil alcance e nem sempre o melhor a se fazer.

A narrativa revela um jovem impressionado com um lugar fantástico e seus habitantes fantasmagóricos, que se tornou por acidente um sociólogo espontâneo, pois estendeu para além da arquitetura as suas observações sobre aquela sociedade.

Além da perspectiva preconceituosa de Lovecraft sobre migração e raça, conhecida por seus leitores críticos, o conto é um exercício de etnografia surrealista e sociologia espontânea.

Se o literato torna-se sociólogo por acidente, alguns sociólogos almejam a arte. 

No livro Cruz das Almas (1966), um estudo de comunidade, Donald Pierson convencera-se  de que os sociólogos poderiam combinar os papéis do artista e do cientista. Caberia ao leitor, continua Pierson,  julgar se o cientista alcançou ou não o objetivo. 

Em A sociologia como forma de arte (1976), Robert Nisbet comparou os trabalhos de Simmel, Durkheim e Weber aos de Balzac e Dickens. Disse que as primeiras, devido à sensibilidade artística e intuição daqueles sociólogos, pertencem à história da arte tanto quanto a literatura dos escritores pertence à história das ciências sociais. 

Bourdiei em As regras da arte (2002), afirmou que a literatura pode por vezes dizer mais, mesmo sobre o mundo social, que muitos escritos com pretensão científica. 

Em Bourdieu e a litetatura (2017), John Speller observa que a sociologia e a literatura, apesar de diferentes e até opostas, têm muito a aprender uma com a outra. 

A ideia de uma sociologia na literatura não é tão absurda. Se levada à sério, pode encorajar a descoberta de um interessante material sobre a burocracia em O processo (1925), de Fraz Kafka ou um exercício de sociologia política do Estado em 1984 (1949), de George Orwell. 

Para Nisbet (1976), a sociologia é uma ciência, mas também uma arte nutrida pelo mesmo tipo de imaginação encontrada na literatura ou pintura. 

Ao estudar as expressões da sociologia na literatura pode-se enriquecer o ponto de vista sociológico a partir de novos ângulos sobre temas tradicionais das ciências sociais.


Raphael Cruz

As camponesas de Van Gogh, Dupré e Arkhipov

O camponês é representado na pintura europeia como taciturno e laborioso. 

Penso em duas pinturas de Van Gogh.

Nelas, a camponesa aparece curvada. O trabalho dobra-lhe a cervical. 

Van Gogh, Peasant woman digging, 1895

O rosto é indiferente. O olhar desvia do observador. 

Van Gogh, Head of a peasant woman, 1884

Contudo, existem outras representações, como a do francês Julien Dupré e a do russo Abram Arkhipov

Em suas pinturas, a cervical está esticada durante o trabalho. 

Julien Dupré

O labor feminino é forte. A camponesa doma o animal.

Julien Dupré, Au Pâturage, 1882

E o rosto sorri.

Abram Arkhipov, Smilling girl, 1920's

E sorri novamente.

Abram Arkhipov, A peasant women with yellow scarf and red shawl, 1922

A diferença entre Van Gogh e os outros dois pintores está para além das paletas do pós-impressionismo e do realismo. São percepções opostas da camponesa.

Mesmo com a árdua lida no campo, a vida delas não precisa estar reduzida a representação taciturna e sofrida.

Van Gogh, Dupré e Arkhipov contribuíram para complexificar a representação e a nossa percepção dessas mulheres.



Trabalho, guerra e revolução: As comunas agrárias makhnovistas

O que sabemos sobre as “comunas agrárias” implantadas pela Makhnovitchina?  Em suas memórias, Nestor Makhno (1988) descreve algo de sua orga...