Um objeto para chamar de seu

 


Estava relendo As regas do método sociológico (1895), de Durkheim.

É patente o esforço do autor para legitimar a ciência das instituições, a sociologia, por meio da crítica à diferentes áreas do conhecimento.

A história é tida por Durkheim como particularista, por se deter na descrição de sociedades específicas, não conseguindo produzir uma teoria da sociedade, mas, apenas colecionar casos.

A filosofia (da história) é generalista, por se limitar a busca de uma abstrata natureza humana, da qual faz derivar a existência da sociedade.

A psicologia é subjetivista, produzindo a sociedade a partir do indivíduo, ou, pior ainda, na perspectiva durkheimiana, da consciência individual.

Durkheim e sua escola (Mauss, Bouglé) buscaram provar serem falhas as explicações da sociedade por meio da metafísica da natureza humana ou da subjetividade individual. 

Eles estabeleceram uma regra fundamental da sociologia: um fato social deve ser explicado por outro fato social e não pela química, biologia ou psicologia.

Identifiquei três características do projeto durkheimiano de elaboração da ciência das instituições: 

a) definição de um objeto (fato social); 

b) definição de um método (comparação); 

c) definição de uma explicação (sociológica)

A possibilidade de uma ciência da sociedade dependeria da exclusividade do método, do objeto e da explicação.

Estes não se confundiriam com os de outros saberes, particularmente a história e a psicologia.

Em outras palavras, a sociologia deveria ter o que chamar de seu. E, a partir de 1895, com a publicação de As regras do método, isso passou a acontecer.


Raphael Cruz

Bakunin e a política etnográfica

Nikolai Yaroshenk. O estudante, 1881


Em 1922, Malinowsk publicou sua etnografia sobre os trobriandeses. Nos anos 1940, a Escola de Manchester em antropologia, capitaneada por Max Gluckman, etnografou a política entre povos africanos. 

Em Malinowski, a etnografia ganhou sua face contemporânea. Por meio dos africanistas de Manchester emergiu uma etnografia política.

Sugiro que num escrito de Mikhail Bakunin está implícita uma política etnográfica ao invés de uma etnografia política. O referido texto trata da aplicação de um método para-etnográfico para a compressão do campesinato russo, visando a agitação, propaganda e organização de massas com fins políticos revolucionários.

No texto Aonde ir e o que fazer? (1873), Bakunin instigou a juventude russa a ir ao povo para conhecê-lo e organizar junto à ele uma revolução social. Constituiu-se num apelo para a juventude universitária russa trair politicamente sua origem de classe aristocrática e se misturar ao campesinato. 


Nikolai Yaroshenko. A estudante, 1883


No verão de 1874, ocorreu uma massiva ida de jovens às comunidades rurais. Esta foi a primeira aproximação em massa de estudantes socialistas com o campesinato russo. 

Esse evento entrou para a historiografia com o nome de movimento "ir ao povo". Expressou uma evolução importante em relação à juventude russa da década passada. Pois, os niilistas dos anos 1860 canalizavam a rebeldia para discussões metafísicas e para o fatalismo. 


Vasily Vereshchagin, Retrato de um camponês, s/d


No referido texto, Bakunin indicava os meios para conhecer o campesinato russo in situ. O método é incrivelmente semelhante à etnografia, contudo, o objetivo é político.

"Os detalhes que se repetem cotidianamente são bem amiúde mais importantes e mais dignos de observação do que fatos proeminentes dos quais, evidentemente, nenhum escapará à vossa atenção. Estudando minuciosamente a vida material das pessoas simples que vos cercam, buscai penetrar o fundo de sua alma, seus hábitos coletivos no plano mental e moral, suas diversas relações na família e na sociedade bem como a razão secreta de sua atitude em relação aos outros corpos sociais e as autoridades. O que pensam eles de seus direitos e de suas humilhações que, evidentemente, não faltam em nenhum lugar na Rússia? O que querem, a que aspiram e esperam algo? E de quem?".

Algumas considerações extraídas do parágrafo:

1) observar o cotidiano camponês

2) sem desprezar os "fatos proeminentes"

3) iniciar pela "vida material"

4) em seguida, a vida cultural

5) e o comportamento político 

Anos depois, militantes do amplo espectro socialista russo abandonaram a condição social de classe média ou aristocrata. Eles se tornaram operários de fábrica na intenção de agitar e organizar trabalhadores urbanos. No Brasil dos anos 1960, esse método foi chamado proletarização. 

Raphael Cruz

Observação: esta postagem foi modificada em 8 de julho de 2023.

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