Lemieux e as boas perguntas

 

Cyril Lemieux (1967 -)

Lemieux indaga que “e se o difícil em sociologia não fosse produzir respostas, mas formular boas questões?” (2015, p. 33).

Para o autor, a problematização é um recurso na construção do objeto de pesquisa. Essa problematização tem a possibilidade de criar condições para driblar a escolástica e a descrição.

As questões escolásticas dizem respeito a problematizações filosóficas, abstratas, com pouca possibilidade de problematização empírica, “são reflexões gerais que as suscitam, reflexões relativas à liberdade humana e ao determinismo, às funções respectivas do indivíduo e da sociedade, ou ainda, ao fato de saber se o atual andamento do mundo possui um caráter inelutável ou não” (LEMIEUX, 2015, p. 33).

As questões descritivas se anunciam “sob o aspecto anódino de uma interrogação técnica ou fatual concernindo um pedaço do mundo social” (LEMIEUX, 2015, p. 34).

Para ilustrar a descrição o autor usa como exemplo a questão de perguntar estatisticamente qual a quantidade e quais os franceses que tiram mais de três semanas de férias por ano, e se esse número de trabalhadores aumentou nos últimos quinze anos.

Para o autor, os dois tipos de formulações pouco avançam na compreensão do mundo social, pois não o problematizam. Assim, o espírito da sociologia é a arte de tornar problemático o mundo social em que vivemos:

“diante de situações onde a maioria dos atores priorizam um olhar sobre uma atividade social buscando naturalizá-la, o sociólogo, ao endereçar-lhe certos tipos de questões, pode fazer reaparecer o arbitrário e a indeterminação que esta tentativa de naturalização negou-lhe” (LEMIEUX, 2015, p. 34).

Para o sociólogo francês, o espírito da sociologia não é nem especulativo, nem puramente descritivo, mas crítico, exigindo do pesquisador a capacidade. “de levantar problemas sobre realidades sociais que para os atores implicados não existem, ou que existem, mas de forma a menosprezar sua natureza social” (LEMIEUX, 2015, p. 35).

Raphael Cruz


Referências

LEMIEUX, Cyril. “Problematizar”. In: PAUGAM, Serge. A pesquisa sociológic. Petrópolis, Vozes, 2015.

Observação: esta postagem foi revisada em 19 de outubro de 2022.

Bourdieu e a oficina sociológica

Pierre Bourdieu (1930-2002)


Em Introdução a uma sociologia reflexiva, Bourdieu reflete sobre o ofício de sociólogo e opta pela imagem da oficina ao invés da imagem do laboratório. 

A oficina está ligada a noção de ofício e com o mundo do artesanal. A oficina é o locus da ação, lugar do processo de criação. 

Concentremo-nos na relação entre a oficina e a loja como metáforas da exposição das nossas pesquisas.

Na loja, os objetos estão expostos, prontos e acabados, fechados. Na oficina, o objeto está em processo de feitura, inacabado, aberto.

Oficina é devir. Loja é ponto de chegada. Oficina é lugar de reflexão. Loja é lugar de apreciação.

É na oficina que se fazem os esboços. Na loja é onde se ocultam os esboços. 

Não é somente a imagem, mas o processo criativo da oficina que interessa a Bourdieu ao aconselhar os seus leitores exporem os seus objetos inacabados, abertos, esboçados. 

“O homo academicus gosta do acabado” (2012, p. 19), ele é a alma e o corpo da loja, já na oficina se tecem outros agenciamentos mais próximos, talvez, de um homo ludens.

Bourdieu sugere um "como fazer", que aprendeu ao longo dos anos de pesquisa e pretende comunicá-lo aos jovens sociólogos, mas guardando distância de um certo espírito professoral e teorético, a maneira de Talcott Parsons. 

Bourdieu partilha orientações práticas na forma de "dicas" e "macetes" de como apresentar e construir o objeto, de como encarar os erros, sugerindo rir deles de forma coletiva, não em tom de chacota, mas como velhos amigos rindo das presepadas do passado (BOURDIEU, 2012, p. 18-19).

É por esse caminho que ele realiza a sua “palestra-oficina”.

Bourdieu aconselha a apresentação leve e sucinta do tema de trabalho, sem ser defensivo e fechado, como um objeto exposto na loja, mas simples e modesto, como um objeto em construção na oficina, objeto que se encontra sob intervenção de diversas técnicas e instrumentos, e busca os mais adequados.

O que interessa, nesse momento, é o barulho criativa da oficina, onde são feitos esboços e se ouvem marteladas, e não o silêncio contemplativo da loja.

A oficina está impregnada do cheiro de suor dos corpos em ação e não do perfume do corpo banhado e bem-vestido que visita à loja.

É nesse processo de busca dos mais adequados instrumentos e técnicas de construção que se revelam as dificuldades e “nada mais universalizável do que as dificuldades”, lembra Bourdieu (2012, p. 18).

As dificuldades podem revelar as emoções e sentimentos envolvidos na construção do objeto. 

Mesmo a pesquisa sendo uma atividade racional, ela tem “o efeito de aumentar o temor e a angústia” (2012, p. 18). 

Assim, a partir de Bourdieu, pode-se dizer que a pesquisa é racional, mas também emocional, ela envolve cálculos de maximização de investimentos, construção e desconstrução de afetos, se é que isso é possível.

Raphael Cruz


Referências

BOURDIEU, Pierre. Introdução a uma sociologia reflexiva. In: BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Tradução de Fernando Braz. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2012.

Observação: esta postagem foi revisada em 20 de outubro de 2022.

Trabalho, guerra e revolução: As comunas agrárias makhnovistas

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