Ontologia e hierarquia

Tanto à esquerda quanto à direita, marxistas e liberais convergem na defesa do assim chamado desenvolvimento das forças produtivas ou da economia. 

É importante refletir sobre as raízes teóricas e os efeitos socioecológicos dessa teleologia e panaceia desenvolvimentista. 

Para eles, os povos tradicionais que ocupam territórios "não produtivos", deveriam desobstruir o “progresso”, sendo, no melhor dos casos, recompensados por algumas de suas perdas territoriais, ambientais e socioculturais.

Está em jogo diferentes perspectivas sobre o sentido da boa vida, a organização do trabalho, os "usos" da natureza e o objetivo da "economia". 

Está em jogo como liberais e marxistas hierarquizam socialmente os povos tradicionais em suas ontologias. 


Raphael Cruz 

Nota 13: Pertencimento de classe

Aquele momento em que você corre atrás do ônibus, não o pega e percebe que jamais pertencerá à classe dominante. 


Raphael Cruz

As guerras da antropologia

Ruth Benedict (1887-1948)


A antropologia serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra?

Existe um manual de contra-insurgência elaborado pelo estrategista Nathan Finney com a colaboração de antropólogos e utilizado nas ações do exército americano no Oriente Médio.

O manual se chama Human Terrain Team Handbook (2008) e vazou para o público há alguns anos via Wikileaks.

Através do documento é possível analisar a aplicação da antropologia na ocupação americana do Afeganistão e do Iraque.

Mas antes mesmo desse manual, os antropólogos culturais como Margareth Mead e Ruth Benedict já haviam participado dos "esforços de guerra" dos EUA.

Os estudos de “culture and personality”, como O crisântemo e a espada (1946), de Benedict, sobre a cultura do povo japonês, foram incorporados a máquina dos Aliados na II Guerra Mundial.

Naquela época, pelo menos, poderia argumentar-se que estavam combatendo o nazismo.

Antes mesmo disso, Malinowski, no prefácio ou apresentação de Crime e costume na sociedade selvagem (1926), falava do auxílio da antropologia no processo de dominação política e econômica dos “povos selvagens”.

Listo esses exemplos para demarcar certos aspectos da história da disciplina frente à romantização e encantamento acrítico, que, às vezes, percebo, na fala das pessoas sobre o que é a antropologia e o que é ser antropólogo.

Não se trata de condenar a antropologia como imperialista, existem importantes estudos no passado recente da disciplina com coloração anti-imperialista, como Europa e os povos sem história de Eric Wolf, além das mais recentes contribuições produzidas pela fertilização cruzada entre antropologia e pensamento decolonial. 

Contudo, refletir sobre como as classes dominantes em determinados contextos instrumentalizaram a disciplina para atender seus interesses econômicos e geopolíticos, faz parte dos esforços de preservar a criticidade frente aos interesses da máquina de guerra do Estado e do capital.

Quanto ao manual de contra-insurgência elaborado com a ajuda de antropólogos, ele foi contestado pela American Anthropological Association por ferir o Código Disciplinar de Ética, pois o material faz parte do setor de espionagem do Departamento da Defesa, ficando, assim, não sujeito a revisão externa, o que o qualificou como não sendo um “exercício legítimo de antropologia profissional”. 

Raphael Cruz

Nota 12: Decolonialismo de esquina

Limoeiro do Norte. Manhã.

Dois homens conversam na esquina do mercadinho. 

– Já vai começar a política (eleições), diz um deles.

– Todo mundo tá se movimentando, diz o outro. 

E arremata.

– É corrupção, rico roubando pobre. A solução é descolonizar o Brasil.


Raphael Cruz

Trabalho, guerra e revolução: As comunas agrárias makhnovistas

O que sabemos sobre as “comunas agrárias” implantadas pela Makhnovitchina?  Em suas memórias, Nestor Makhno (1988) descreve algo de sua orga...