Nota 10: Cachaça em Itapajé

 Itapajé. Meio-dia. 

O ônibus para num posto de gasolina ao lado de um restaurante. 

Lá, há também uma loja de produtos regionais. 

Nessa loja, chega um senhor de uns 55 anos. 

Ele diz, — Esqueci de comprar uma coisa. 

O atendente pergunta, — Um pé de moleque? 

O senhor responde, — Não, uma cachaça.


Raphael Cruz

Nota 9: Amor de novela

Fortaleza. Benfica. R.U da UFC, meio-dia.

Um rapaz observa a excesso de pessoas no local.

Ele comenta, — A fila do R.U é como amor de novela, tem começo, mas não tem fim.


Raphael Cruz

Nota 8: De volta ao anos 90

 Passar o fim de semana sem internet e celular é voltar aos anos 90.


Raphael Cruz

Nota 7: Respeito

Fortaleza. Benfica, parada de ônibus na Gentilândia. 

Amigos conversam. 

Um deles diz, — Paulinho, eu nunca vou lhe respeitar! 

Como a pessoa estuda, se forma e vai trabalhar no R.U? 

Há um breve silêncio.

Eles riem.


Raphael Cruz

Nota 6: Solidão

O que descobri num fim de semana sozinho em casa?

O silêncio pode incomodar tanto quanto o barulho.

Não há ninguém lhe dando ordens.

Rádio e TV se tornam boas companhias.

Você não ouve sua voz, salvo os momentos em que canta ou ri alto.

Ficar sem internet e celular é voltar aos anos 90.

Fica-se feliz ao encontrar feijão congelado na geladeira.

Macarrão continua sendo a comida mais prática do mundo.

Você ouve chamarem pelo seu nome durante o dia e enxerga vultos durante a noite.

Você quer comprar o livro para colorir que está fazendo sucesso nas livrarias.

A louça suja acumula e não há ninguém para pôr a culpa.

É um momento para experiências do tipo banhar-se com a porta do banheiro aberta.

A interação social resume-se a dar boa noite ao vizinho que sobe as escadas. 


Raphael Cruz

Nota 5: Carnaval em família

O que descobri no último carnaval?

Que crianças pensam em encontrar dinossauros na praia. 

Que os tios comem e bebem num feriado mais do que você em toda sua vida. 

Que a areia do mar limpa as unhas dos pés. 

Que o grupo mais antigo em atividade é o Rolling Stones, o segundo é o Chiclete com Banana. 

Que foi o cão quem inventou os paredões de som. 

Que nunca é pra bater a colher na beirada da panela, pois a comida grudará no fundo. 

Que nunca é pra esquecer o protetor solar, já a sunga é opcional. 

Que os mortos voltam a vida nos encontros de família. 

Que família é um conjunto de pessoas com narizes, orelhas e olhos semelhantes. 

Que o carnaval sempre acaba. 


Raphael Cruz

Nota 4: Polícia de gênero

Fortaleza, Avenida Treze de Maio. Ônibus em movimento.

Policial entra no ônibus e puxa conversa comigo. 

Em menos de cinco minutos, ele fala-me sobre a demora do ônibus, estupro e homofobia. 

Diz que não tem “fobia de gay”, mas que eles não deveriam beijar-se em público, porque as crianças podem julgar que isso é normal. 

Pergunto-lhe, — Pensar que se beijar é normal? 

Ele diz, — Não, pensar que ser gay é normal. 

Ocorre aquele breve silêncio constrangedor. 

Dou o sinal de parada.

O motorista para o ônibus.

Desço. 


Raphael Cruz


Socialismo ou apocalipse

Já assistiu aos filmes sobre um possível futuro apocalíptico? 

Aquelas cenas de pessoas com roupas esfarrapadas vivendo em meio a sucatas, construindo barracos com restos de metal, fervendo água suja em fogueiras improvisadas e caçando ratos para o jantar?

Esse futuro existe aqui e agora em lixões e aterros sanitários alocados estrategicamente em zonas pobres da cidade.

Esse futuro está distante apenas para o sujeito bem alimentado dos bairros nobres.

É necessário apenas observar a situação de determinados segmentos da população para ter a imagem de que já vivem nesse futuro apocalíptico.

As consequências negativas da modernidade capitalista não chegaram de maneira uniforme para as distintas classes sociais, mas de forma desigual e combinada com as suas “consequências positivas”.

Uma minoria economicamente abastada e politicamente dominante experimenta as “consequências positivas” da modernidade como o acesso ao conhecimento e as facilidades de locomoção no espaço-tempo. 

No meio do caminho, a maioria vive entre a possibilidade de aquisição de tablets e a realidade da precarização dos serviços urbanos.

E, no fim do caminho, “onde judas perdeu as botas”, uma parte da população apenas possui a água suja para beber e os farrapos para vestir. 

Do ponto de vista da “qualidade de vida”, estes estão mais próximos da experiência do fim do mundo do que o sujeito rico e bem alimentado que conhece o apocalipse apenas na forma alegórica oferecida por Hollywood.

Os segmentos subalternos mais intensamente oprimidos e explorados nas grandes cidades, que travam uma encarniçada luta pela vida sem o mínimo de cobertura social, podem ser vistos como a imagem do futuro.

Contudo, ainda há tempo, desde que se processe outra forma de sociabilidade diametralmente oposta as lógicas política, econômica e cultural do sistema-mundo capitalista. 

A formulação “socialismo ou barbárie” já não sensibiliza um imaginário social fortemente educado por filmes de Hollywood.

Atualmente, a palavra de ordem deve ser outra.

Como disse um amigo, é socialismo ou apocalipse!


Raphael Cruz

Trabalho, guerra e revolução: As comunas agrárias makhnovistas

O que sabemos sobre as “comunas agrárias” implantadas pela Makhnovitchina?  Em suas memórias, Nestor Makhno (1988) descreve algo de sua orga...